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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Um dia na Moody's Investors Service



"Escute - disse o director, olhando-o com ar grave e apreensivo. - Esse país de que falo é um país na ponta da Europa, sem tino nem gente com bom senso, todos se digladiam e, pior, já delapidaram todos os recursos. É pena, tem um sol e uma luz maravilhosos, já lá passei férias uma vez, a melhor cozinha da Europa! – Raymond McDaniel, CEO da Moody’s, avivava o cachimbo, reapreciando o relatório que tinha na frente, com a classificação de urgente, a manhã em Washington raiara tímida dos lados do Potomac, e a emissão da Bloomberg não se calava com a história do novo corte do rating português.
-Qual é a urgência, sir?- sondou Michael Turner, regressara duma missão de monitorização na Grécia, o chefe, sempre stressado, parecia desencantar nova missão.
-A questão é: um terço dos bancos espanhóis têm lá activos, a exposição ao risco é grande, o Steve disse-me que tudo podia acontecer, apesar da mudança de governo. E depois, os políticos lá não percebem nada de economia, o novo ministro fala tão baixo que ninguém ouve o que diz, see what i mean….
Michael sacou do portátil, e fez um download dos relatórios de visitas anteriores, o budget do país era trash, qualquer vendedor de pizzas de Times Square faria um plano de negócios melhor. E depois, tudo com base em previsões e estimativas não suportadas, nos últimos dez anos nunca cumpriram nada do que disseram.
-“Aumento das exportações em 7%”….estes tipos são uns cómicos. A vender para onde?- sorriu McDaniel, devorando um cheeseburger com cogumelos, o Tony , funcionário de ascendência açoreana, ajudava a traduzir o documento em português - Mistura de Chicago boy e Keynes! O Paul Krugman bem lhes tem malhado no New York Times!- confidenciava com  Tony. No dia seguinte voltou a reunir com Turner:
-Li os documentos disponíveis, e creio bem que só uma severa cura de emagrecimento na Administração deles pode ajudar a reduzir o défice. Mas um stimulus plan é necessário, actuar sobre o emprego e dinamizar o investimento público. Reduzir taxas do imposto sobre as empresas e a despesa corrente- Turner ia debitando, a Grécia reagira de forma difusa, mas trabalhar com os gregos era complicado, trapaceiros, as estatísticas não eram fiáveis. Ah e teria de haver acordo consensualizado para um plano a 3 anos, recomendava a bold, no memorando que agora entregava. McDaniel franzia o sobrolho:
-Isso é que é pior! Sabe como é, Michael, latinos, lá a política é feita na base do soundbite, é preciso muita pachorra. Temos de lhes dizer o que fazer deixando sempre a ideia que foram eles que decidiram. Any way, eles é que sabem. Vai ser necessário um segundo bailout, como com os gregos…
O telefone interrompia a conversa, o governo em Lisboa barafustava, e ameaçava não cumprir com as recomendações formuladas uma semana antes, depois dum meeting com o novo local Treasure Secretary em Lisboa.
-Michael, estes tipos estão a deixar-me exasperados. E ainda por cima pensam que são smart guys. O défice real é 7,7%, diziam ser apenas 5,9%, mas disfarçaram alguns itens. Como os gregos, estão a ver. É o que dá deixá-los entrar no clube sem terem condições. -Raymond aproveitava para dar umas tacadas de minigolfe na alcatifa do gabinete, era bom para o stress.
-Os alemães têm muita culpa nisto, criaram o euro mas esqueceram-se dos mecanismos de regulação. Foi até à primeira crise! - perorou Turner, professoral, da  escola de Yale- e nós também não podemos falar muito….o  Madoff…
-Well, well, that’s diferent, we always knew….- desvalorizou McDaniel
-Sabíamos?- Michael pasmou, melhor seria tornar ao dossiê Portugal. Raymond, sentando-se na secretária, de mangas arregaçadas, gizou um plano:
-Vai fazer-se o seguinte, já combinámos com o ministro alemão, o Schauble: ele chama os políticos de Lisboa a uma reunião, assinam um documento em como se vinculam a tudo o que propusermos, e nós respondemos, dizendo que vamos respeitar a soberania deles, como sempre fazemos aliás, pelo Natal talvez subamos um nível, em sinal de boa vontade…
-Of course…- sorria Turner, quatro anos na função já lhe dera traquejo destas coisas, na Irlanda até fora giro, comemoraram tudo com Guiness no Temple Bar. McDaniel continuou:
-Eles lá, entretêm a opinião pública, falando do interesse nacional, and stuff like that.Mas, first stage: despedir funcionários públicos, congelar os vencimentos e privatizar as empresas do governo enquanto estivermos neste nível, há aí uns fundos de pensões de Dallas que querem comprar, cheap. Depois segue a segunda tranche. Ah, e os nossos rapazes têm de acompanhar o plano com minúcia, Michael você vai para lá, olhe marque reuniões com um tal Catroga, é um velho bem disposto e é amigo do prime minister. Leve-o a jantar, e vá-lhe dando instruções, como se fossem ideias dele. Com um bocado de sorte ele ainda lhe tira uma foto com o telemóvel, é um brincalhão! Tocou o telefone, entretanto:
-Sim?....Yes…Yes…Oh No!- Raymond franziu o sobrolho, o jantar com o George Soros teria de ser adiado, maldito lugar, caíam  ali todos os aflitos, se soubesse teria aceite a presidência da Wall Mart, bastante mais tranquila.
-Algo de grave, sir?-  Turner tentou perceber, algo grave se passava.
-A Espanha! O BBVA entrou em bankrupcy,por causa de exposição aos activos portugueses. Não tínhamos previsto!. Malditos europeus!
Finda a reunião, regressaram agitados aos gabinetes, o telemóvel não parava de tocar. Ameaçava chover em Washington, e a adrenalina diária invadia os gabinetes da Moody’s Investors Service.

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