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sábado, 9 de novembro de 2019

Já não há nadadoras em Berlim



Recordo uma visita a Berlim em 1980, ainda jovem estudante, e a impressão que me fez, mais que o muro, a diferença abissal entre uma cidade viva, colorida e cosmopolita, e o seu lado oriental, cinzento, sem lojas ou néons, imperial, mas parada no tempo. Só o Checkpoint Charlie, twilight zone de dois mundos, permitia a experiência duma visita ao socialismo, para mim à época tudo menos aquilo que se me apresentava. Nesse tempo, a RDA, para mim, eram as nadadoras musculadas dos Jogos Olímpicos e os pares da patinagem artística, conquanto uma certa esquerda vendesse aquele mundo como o produto do sucesso da economia planificada, no quadro do COMECON e do Pacto de Varsóvia.

Essa parte da Alemanha, talvez por muitos anos ter vivido isolada e ter sentido a dificuldade da integração face a um ocidente mais próspero, é a que hoje mais rejeita os estrangeiros, que sente como melhores recebidos que eles próprios após a unificação, e onde prosperam partidos xenófobos como o AfD.

Trinta anos depois, permanece por saber qual o futuro da Alemanha europeia, gorados que foram duas vezes no século passado os sonhos duma Europa alemã. Quando outros querem erguer muros, é no entanto bom celebrar a queda de outros, se não totalmente nas mentalidades, pelo menos na geografia.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O regresso de Calisto Elói

O deputado do Chega, André Ventura, quer ser o novo justiceiro da politica portuguesa. Depois de alguns anos a perorar sobre o Benfica e sobre casos de polícia (sendo o Benfica também ele um caso de polícia…) na pantalha da CMTV, que o acobertou, bem como a outras personalidades inenarráveis, mais próprias duma tasca de vinho carrascão (quanto mais reles, mais audiências), usando do tempo de antena gratuito que a Cofina lhe deu, chegou a um assento em S. Bento, qual novo Calisto Elói dos indignados com a criminalidade, na defesa estoica dos valores nacionais, na aversão à ciganada, e no incitamento às galés perpétuas para a escória ignóbil, assim captando a aceitação salivante da populaça que exige sangue e fogueiras, dando voz (vox?) aos taxistas irados, aos velhos saudosistas da leitaria de bairro ou aos utentes  suados dos comboios suburbanos ao fim da tarde.
Sob a capa da Justiça, o novo indignado de colarinho branco cavalga a vox pop da espuma dos dias, salivando contra “eles”, mas com uma nuance em relação à direita musculada e exuberante: Ventura tem aquele ar de filho de família que à tarde vai lanchar com a avó, vai à missa, e grita pelo Benfica, português médio e bom pai de família. Ouvindo-o, ninguém o leva preso, ali não se vêm matracas, tatuagens guerreiras, ou cabeças rapadas, tudo é elegantemente bourgeois, a firme voz da razão e o clamor pela justiça, verdadeiros, tardiamente descoberto como o mais recente Nun’Álvares da Pátria. E tem tudo para dar certo: urbano e educado, doutor em Direito, benfiquista indefetível, em cruzada contra os corruptos, a morosidade dos tribunais ou a invasão dos migrantes berberes, sequiosos do RSI. Num tom sereno e cativador, quem verá ali um Fuhrer da Segunda Circular ou um sanguinolento Torquemada de gravata?
Tudo espremido, Ventura é um arrivista que decidiu cavalgar a notoriedade que uma televisão tablóide lhe proporcionou, com exposição diária na pele de provedor dos indignados. Lançado o isco, alguns morderam. Veremos se ao fim de 4 anos, qual Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, a lapidar personagem de Camilo em "A Queda de um Anjo", não veremos o deputado Ventura rendido às prebendas do regime, conquistado que foi o assento (mesmo sem ter sido necessário cortar o corrimão) no conforto de S. Bento.

No Dia Mundial do Urbanismo



Hoje é o Dia Mundial do Urbanismo, data instituída em 1949 pelas Nações Unidas, com o objetivo de promover a integração entre a Comunidade e o Urbanismo, e criada em 1934 pelo engenheiro argentino Carlos Maria Della Paolera, então diretor do Instituto de Urbanismo da Universidade de Buenos Aires, e redigiu um manifesto intitulado “O Símbolo do Urbanismo”.
O Movimento moderno na arquitetura e no urbanismo pregava que a atividade de planear as cidades era matéria de ordem eminentemente técnica, e que, portanto, possuía a neutralidade política inerente ao trabalho científico. Tal pensamento formalizou-se especialmente com o trabalho dos Congressos Internacionais da Arquitetura Moderna, e com a Carta de Atenas.
Entre 1900 e 1930, muitas cidades nos Estados Unidos introduziram comissões de planeamento urbano e regras de zonamento. Um dos mais famosos planos de revitalização urbana desse período foi o Plano Burnham, que revitalizou uma grande parte de Chicago.
Nos tempos modernos, veio a assumir especial acuidade a necessidade de Planeamento, e como categoria maior do mesmo, e entre nós desde a década de 80, os Planos Diretores Municipais. 
Um plano diretor mostra um território como ele é atualmente e como deverá ser no futuro, tendo como objetivo principal, fazer com que a propriedade urbana cumpra a sua função social, com o atendimento do interesse coletivo em primeiro lugar, em detrimento do interesse individual ou de grupos específicos da sociedade.
Em Sintra, território que cresceu desordenado, e onde o planeamento chegou depois do desastre consumado, urbanismo significou durante os últimos anos uma multiplicidade de realidades: o casuísmo sem planeamento, a cacofonia decorrente de conflitos entre uma pluralidade de entidades que se arrogam tutelar o território e a pressão imobiliária, conduzindo a que nos anos 70 a 90 se tivesse produzido a tempestade perfeita, facilitada pela procura habitacional facilitada por crédito fácil e uma economia dinamizada pelas obras públicas e a integração europeia, e a proximidade a Lisboa, fazendo do fator localização o cerne dum urbanismo de renda fundiária e não de planeamento urbano coerente.
Em minha opinião, para um Urbanismo virtuoso, deveria em cada cidade o  PDM ser objeto de revisão em permanência e não apenas nas datas burocraticamente previstas,(aliás, raramente respeitadas) adequando-os à dinâmica da economia local e num quadro inter-regional, corrigindo os erros dos PDM de 1ª geração Nessa perspetiva, importante será um quadro geral em que o paradigma seja a captação de investimentos sustentáveis e geradores de qualidade e receita qualitativa, através dum quadro urbanístico, ambiental e fiscal claro, supervisionado por uma Agência Municipal de Investimentos dinâmica e com poder real de facilitação entre serviços; fazer coincidir as ambições de gestão do território das várias entidades num mesmo espaço categorial, seja no PDM, PP’s ou outros instrumentos vinculantes para a gestão do território ;promover cartas de redes que permitam integrar e orientar as intervenções dos fornecedores de serviços públicos e assim planear as suas atividades, bem como reforçar o papel de autoridades locais de transportes e acessibilidades; e agilizar o processo da elaboração de planos de pormenor que estariam em atualização permanente, abertos á sociedade e ao escrutínio dos destinatários duma verdadeira Democracia do Território, adotando critérios de governação que deixem ao PDM um papel de estratégia e a planos mais concretizados a ação e intervenção necessários. O PDM deve partir do conceito de Direito ao Território e não de Direito à Construção, onde se pondere a possibilidade de elementos urbanos em espaços rurais, pois o conceito de espaços delimitado é demasiado estanque e redutor, deixando de fora os direitos dos proprietários rurais, suas famílias e atividades económicas (extinguindo-as, na prática), se defina quais e o que são áreas urbanas programadas, reduzindo as áreas urbanizáveis e criando um capítulo para análise do mercado imobiliário e das mais valias expectáveis com as intervenções previstas e permitidas.
Um Plano Diretor de 2ª geração deve definir um quadro prático de promoção da reabilitação urbana e da habitação, tendo em conta as suas carências efetivas, os agricultores, as segundas residências, mapear as zonas de risco e as dos recursos naturais (zonas de incêndio, cheias, sismos, energia), definir a rede ferroviária, tão esquecida nos planos anteriores, e agilizar ao nível autárquico a gestão, enquanto competência própria, das áreas de servidão, de RAN e REN e de especial proteção.
Deve, enfim, apostar num paradigma de participação, de todos e para todos, salvaguardando as garantias dos particulares, a articulação com as entidades e clarificando as competências das autarquias, enquanto entidades de maior proximidade na gestão do território.
Com tal quadro mental se pode e deve apostar num novo Urbanismo, que atento às realidades de Espaço e às circunstâncias do Tempo, crie cidades inclusivas para habitantes felizes.


sábado, 2 de novembro de 2019

Joacine


Discordando na maior parte das vezes de João Miguel Tavares, não posso deixar de acompanhar a reflexão que hoje faz no PÚBLICO sobre a eficácia da forma como a deputada do Livre poderá levar avante o seu mandato.
Um parlamentar é eleito para (supostamente) fazer passar mensagens, marcar posições, e divulgar agendas, objectivos que com Joacine Katar Moreira, na medida em que é deputada única do seu partido, se perdem na sua complexa e arrastada oralidade, que leva a que quando acaba uma frase ninguém se lembra de como começou. Invocar que quem contesta esta realidade é racista e despreza os direitos de quem sofre de deficiências (neste caso chamar.lhe-ia disfuncionalidades) é menorizar o problema, que, quanto a mim, só prejudica o próprio Livre.
Não sendo eleitor desse partido, respeito a riqueza para o debate de ideias que o mesmo trouxe, pela voz e mão sobretudo de Rui Tavares, mas, receio muito que de futuro o debate em torno dos pró ou contra Joacine virão a relegar para segundo plano as ideias do próprio Livre. Pode ser que com a continuação a vertente nervosa provocada pelos microfones e pelos holofotes diminua.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

A justiça tablóide

Tirando o futebol e o Brexit, as televisões estão dominadas pelos reality shows judiciais, com heróis, vilões, advogados, juízes e jornalistas a intervir, não da casa mais vigiada de Portugal, mas dos tribunais mais devassados de Portugal. Quem matou Luís Grilo?Donde vem e a quem pertence o dinheiro de Sócrates? Quem acedeu aos mails do Benfica? Só Deus e a Tânia Laranjo é que sabem. A tabloidização dos noticiários de processos mediáticos só têm comparação com as inócuas e inúteis "conferências de imprensa" de antevisão dos jogos ou os programas de tagarelice desportiva de domingo e segunda feira.Pena que para ver algum programa interessante se tenha de navegar para outras plataformas e hoje sempre com a prévia necessidade de fazer o fact check do que se vê e ouve, não há informação sem confirmação, o pântano noticioso permite todos os populismos, a verdade e o boato, o rumor e a mentira dissimulada. Quase apetece relembrar os ingleses nos dias perturbadores da II Guerra Mundial."No news? That's good news!".

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Desenterrar a Memória

Decorre hoje no Vale dos Caídos a exumação de Francisco Franco, o ditador que governou Espanha durante 36 anos, após uma guerra civil fratricida e sanguinária. O lugar dos tiranos é longe dos altares da glória, e nunca num local construído com o sangue dos que aprisionou e mandou matar. Peca só por tardia, pois, esta exumação, que ao mesmo tempo aviva demónios do passado, hoje de novo de rosto descoberto, como a emergência da extrema direita em Espanha o demonstra. O povo, porém, é sempre o supremo, o verdadeiro, e o único Herói



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

E um Museu da Caricatura em Sintra?

Foi no século XVII que o humor apareceu na imprensa, fazendo veicular a crítica satírica através de folhetos de cordel, papéis volantes, etc, sendo os desenhos que surgiram nesta época adaptações de trabalhos estrangeiros que procuravam criticar o sistema político nacional, uma vez que a arte da gravura erudita não tinha raízes na tradição artística portuguesa. O único exemplar de sátira erudita portuguesa da época foi criado por Viena Lusitano, e os focos de arte popular concentraram-se nos desenhos satíricos como expressão do sentimento de revolta contra o poder.

A partir do séc.XIX a produção jornalística e a sátira flutuaram ao sabor da liberdade de expressão e da intolerância do poder. Em meados de 1850 surgiram os primeiros jornais com ilustrações satíricas: «O Patriota», «O Torniquete», «Demócrito», «Duende», etc. As caricaturas de teor político surgiram como resposta à repressão, à ditadura, ao despotismo e na maior parte das vezes eram anónimas ou assinadas por pseudónimos.

Foi assim, no anonimato, que nasceu a caricatura nacional e os trabalhos daquele que é considerado por muitos o primeiro caricaturista português: Cecília.Com o desenrolar do século, os ânimos violentos do desenho acabaram por dar lugar a uma nova concepção filosófica de arte, mais preocupada com a evolução estética. Manuel Macedo e Nogueira da Silva foram os principais responsáveis por este virar de página na vida da caricatura em Portugal, e o seu grande expoente Rafael Bordalo Pinheiro.

Em Sintra ou de Sintra foram (e são) alguns deles, de relevo no panorama nacional, como Leal da Câmara, Stuart Carvalhais e Vasco de Castro, ou mais locais, como José Alfredo Costa Azevedo, Maria Almira Medina, Mestre Alonso, e contemporaneamente Luís Cardoso (Cardosálio) ou Rui Zilhão, reunindo uma obra que merece uma leitura de conjunto e homenagem pelo contributo com que através dela conta a história de um certo tempo, e como o mesmo foi ou é visto de forma acutilante e incisivo, fazendo mais com uma imagem que muitas vezes com mil palavras.

A existência de um espaço dedicado a esta valência artística, bem como à banda desenhada e ao cartoon poderia ser duplamente a forma de homenagear estes e outros artistas, bem como de a partir daí se criar um centro artístico dedicado às artes do Traço, com realização de workshops, exposições, conferências, etc, numa vertente integrada com a rede de museus e galerias municipais existente, para tanto importando factores como acessibilidade, localização, empenho da comunidade local e artística e ligação com os promotores turísticos e as escolas. Aqui fica uma ideia para lançar à comunidade sintrense e aos decisores, numa lógica de valorizar o que é nosso e homenagear aqueles que de uma forma ou outra são nossos também.

Abaixo, alguns trabalhos de autores sintrenses (cá nascidos ou que por cá andam ou andaram):
 Leal da Câmara
José Alfredo Costa Azevedo
(retrato de José Bento Costa)
Stuart Carvalhais (auto caricatura)
Maria Almira Medina
(retrato de Florbela Espanca)
 Mestre Alonso (auto caricatura)
Vasco
(caricatura de Mário Soares)
 Luís Cardoso (Cardosálio)
 Rui Zilhão
(caricatura de Salvador Dali)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Os 20 anos da Casa de Teatro de Sintra

Passam hoje 20 anos que foi inaugurada a Casa de Teatro de Sintra, pequena mas emblemática sede dum projeto cultural que recua aos anos oitenta e à incontornável figura de João Melo Alvim.
Passando pelo teatro CIDRA, nascido na Escola Secundária de Santa Maria, em 1981, com “Amor de curtição”, a direcção da Sociedade União Sintrense, onde igualmente apresentou espectáculos (“Um Pedido de Casamento “ de Tchekov, ou “O Último Acto” de Camilo Castelo Branco, em 1985) e a criação do Chão de Oliva, em Julho de 1987, que incluiu o Teatro da Meia-Lua (representante de Portugal num festival de teatro amador no Mónaco, em Julho de 1988) e a Escola de Iniciação ao Teatro, João Melo Alvim foi pioneiro e farol dum projeto cultural felizmente vivo e na estrada.
Quem viveu em Sintra nesses anos iniciais, recordará o pouco teatro que então se fazia, e a pedrada no charco que foram peças como “Comunidade” de Luís Pacheco no Casino, ou as levadas à cena no antigo Carlos Manuel depois de Fevereiro de 1991 ( “Maçãs do Mar” “Grande trabalho é viver” “O Falatório de Ruzante” “A Fé nos Amores” “A Birra do Morto”,"O Mistério da Estrada de Sintra", "O Auto da Índia", "Não se paga! Não se paga!" e muitas outras, onde em várias pontificou a malograda Maria João Fontaínhas, ou actores como Alfredo Brissos. 

Dotada de uma casa em permanência, inaugurada em 15 de Outubro de 1999, (foto acima) a Casa de Teatro de Sintra sedimentou a marca Chão de Oliva , que se estendeu a outras vertentes, como o teatro de marionetas ou os alojamentos de companhias visitantes, sempre em ligação com outros actores e grupos de teatro que entretanto foram surgindo, como o Utopia Teatro, os Tapafuros, a Casa das Cenas ou o teatromosca, continuando João Alvim a ser presença de referência, fosse na cena teatral, fosse colaborando com a imprensa local, nomeadamente no Jornal de Sintra. 

O antigo cinema Tivoli, inaugurado em 18 de Fevereiro de 1928, hoje sede do Chão de Oliva, na R. Veiga da Cunha, em Sintra, abriu como cinema num sábado de Carnaval, e foi, anos mais tarde e durante muito tempo, utilizado como armazém e carpintaria. Da utilização inicial restaram alguns pormenores, como  o “lettering” na fachada, mas o estado de degradação tornou premente uma intervenção com vista à recuperação e reutilização para fins culturais. Como Casa de Teatro de Sintra, desde 1999, este espaço veio preencher uma lacuna no que diz respeito à inexistência de locais vocacionados para actividades culturais em Sintra.Carece porém de obras, facto não quero deixar de salientar, para hoje com continuação assegurada no Nuno Pinto e companhia, possa a marca Chão de Oliva continuar a ser sinónimo de bom teatro e a elevar e manter viva a  actividade cultural de Sintra.

sábado, 12 de outubro de 2019

"Posto", logo Existo



Vivemos na era do Me, Myself and I, do hedonismo egoísta e do Eu como centro de todas as coisas. De tal modo que todos temos uma página na rede social onde sobretudo explanamos estados de alma, fotos de nós próprios, partilha de vulgaridades, em que a envolvente apenas serve para destacar mais o quanto nos valorizamos nos mais diversos contextos, desde o apregoar a solidariedade com pessoas e causas, que devia ser simples e desinteressada, até destilar ódios, rancores, frustrações e silêncios que se gritam, como simplesmente desejar feliz aniversário, chingar o clube de futebol adversário, exibir o cão, o filho pequeno, ou o prato do marisco que se foi degustar à beira mar. Até o sexo já é virtual, dispensando o parceiro, seus odores e humores no after hours. Tudo sempre acompanhado de desabafos no confessionário digital, à espera de caridosos likes, veniais lols ou dum qualquer emoji repetido pela enésima vez.
O Homem narcista é pressionado pelo individualismo competitivo, ansioso, entediado, cínico e volátil, produzido para consumo imediato. O “eu primeiro” e a falta de percepção do outro em todas as relações, afetivas, profissionais, sociais e até sexuais, chega a extremos em alguns casos.
Errantes, somos zombies carregando telemóveis e tablets como armas no período das guerras, desejamos ser compreendidos, mas dispômo-nos a compreender cada vez menos, queremos ser ouvidos, mas ouvimos cada vez menos. Temos o motorista que quer passar à frente de todos, mas não deixa ninguém passar à sua frente e quando, inadvertidamente alguém entra à sua frente, é capaz de descer do carro para tirar satisfações, ou coisa pior. A mãe que pára em segunda fila, atrapalhando o trânsito, porque o filho não pode dar dois passos até ao carro, quando vai buscá-lo à escola. E quando alguém reclama por conta da tal infração, o errado é o outro, nunca ele. O filho vê essa cena, e acredita que isso é que é correcto.
Alguns professores são veementemente desrespeitados no exercício de sua atividade porque alguns alunos acham-se no direito de fazer o que bem entendem, o que lhe dá prazer naquele momento, independente de um mínimo de respeito às regras de convivência, e isso pode ir desde fumar na sala de aula, atender o telemóvel ou falar em voz alta como se só estivesse ele na sala, desrespeitar os professores e usar palavrões, o que reforça a sua liderança da tribo.
Todos os dias vemos nas manchetes de jornais o quanto o respeito ao próximo é aviltado e o quanto é mais importante TER do que SER. Vivencia-se uma distorção dos vínculos afetivos, a falta de limites e de parâmetros. Ouve-se e vive-se a falta de perspectiva ou de sentido no trabalho, na educação, na saúde, na vida.
Parece-me que essa falta de perspectiva decorre da convicção de esse caminho ser visto como a única alternativa, há que aproveitar hoje, pois não se sabe nada sobre o amanhã, e então que se tenha prazer hoje e agora! Para quê estudar, se não vai haver trabalho no futuro? Para quê dar o melhor de si num trabalho, se se pode ser mandado embora a qualquer momento?
Falta comprometimento, e isso é fruto da falta de perspectiva. Como buscar objectivos de longo prazo numa sociedade com valores e expectativas de curto prazo? Como manter relações duráveis se o que se busca é o imediatismo?
Este Admirável mundo global da Comunicação é afinal um esquizofrénico mundo de solidões gritadas para amigos virtuais que mais não são que electrodomésticos, onde a emoção, a demonstração da amizade ou a opinião são estereotipados e a massificação das emoções fá-las venais e rituais.
Homem, inútil compreender esse animal aflito!

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A Guiné Equatorial e a Pena de Morte

Assinala-se hoje o Dia Internacional contra a Pena de Morte, e uma vez mais se trás à colação a questão da Guiné Equatorial, país onde a mesma ainda é uma realidade, apesar de suspensões sem garantias entretanto ocorridas, face ás denuncias da comunidade internacional. 
Em 2010, este país descoberto pelos portugueses (antigas ilhas de Fernando Pó e Ano Bom)  instituiu o português como 3ªlíngua oficial do país, apesar de a nossa língua aí não ser falada. Em grande medida devido à intervenção de Portugal e, não obstante o apoio do Brasil e de Angola, abriram-se portas a um país que arbitrariamente aplica essa pena, assim envergonhando a comunidade de países civilizados a que pertencemos e para cuja abolição contribuímos de forma dianteira em meados do século XIX.
Na Guiné Equatorial até hoje o que houve foram alterações legislativas semânticas, fingindo suspender a pena de morte, que estão longe de ter alterado o paradigma existente, continuando o país na lista negra da Human Rights Watch., não tendo esse país demonstrado avanços claros na democratização das instituições, na defesa dos direitos humanos e na partilha equitativa das riquezas naturais.
Recorde-se que Portugal se tem oposto a tais práticas típicas de épocas medievais, e que em Sintra o Grupo Local 19 da Amnistia Internacional se tem destacado em campanhas pela libertação de diversos presos políticos, antigos membros do Partido Progressista da Guiné Equatorial (proibido) que também estiveram no corredor da morte. 
É este o país que, acenando às Mota-Engil, Teixeira Duarte e outras empresas mancha a CPLP, tendo sido admitido em nome da “diplomacia económica”. Depois da inépcia em lidar com a questão da Guiné Bissau, e do relativo desinteresse do Brasil e Angola pela organização, esta poderá mais não servir que para alimentar alguns burocratas africanos e portugueses, vestidos em lojas de marca no centro de Lisboa, e fazendo da lusofonia uma realidade política irrelevante e completamente dispensável, não só no quadro bilateral como no contexto da comunidade internacional. Defender a pena de morte nunca pode ser um modo de vida.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Os 108 anos do Sport União Sintrense


São contraditórias e muito discutidas as datas da fundação do Sport União Sintrense mas certo é que dia 7 de Outubro de 1911 conforme dizem os estatutos, é a data adotada para as comemorações do seu nascimento.
Quanto à ideia de se criar um clube de Futebol em Sintra também não é consensual entre todos a iniciativa. Vejamos. Nas primeiras décadas do Séc. XX como sabem Portugal era uns pais empobrecido à beira da revolução, e é precisamente nessa época que o desporto começa pouco a pouco a dar os seus primeiros passos. As primeiras bolas de futebol ao que parece terão chegado a Portugal através de Guilherme Basto vindas de Inglaterra e também por sua iniciativa, tiveram lugar em Cascais e Lisboa entre 1888 e 1889, os primeiros contactos com a modalidade. Depressa se espalhou por entre todos esta nova modalidade que rapidamente ia conquistando praticantes de todas as idades e classes sociais.
O primeiro Clube que se conhece é o Lisbonense mas rapidamente foram constituídos outros clubes, como o Real Ginásio Club e a Casa Pia de Lisboa, que deram um impulso gigante ao futebol. Em Sintra, mais propriamente na Estefânia, o primeiro Clube a dar esses passos foi o Grupo Sport União Sintrense, criado por seis jovens entusiastas da modalidade que frequentavam a Escola Primária José Domingos Morais, no Bairro da Estefânia. Foram eles Jorge Gomes, Alfredo Duarte, Salvador de Almeida, Augusto Reis, João Veludo e Fernando Mata. Entre todos concordaram por unanimidade que fosse Augusto Reis o primeiro presidente do Sintrense.
O Sport União Sintrense na sua história oficial conta-nos que “Os primeiros contactos com o futebol em Sintra provavelmente dão-se através de um grupo de operários Lisboetas que vieram para Sintra para se ocuparem das obras de restauro do Palácio Real desta Vila em 1908. Nas suas horas de lazer, alguns destes operários entretinham-se a jogar à bola no terreiro fronteiro ao Palácio, o que concitou desde logo a admiração e o entusiasmo de alguns jovens Sintrenses que se trataram de os imitar, o que os levou a persistirem e começarem por sua vez a aprender os primeiros passos sobre este aliciante jogo. Os primeiros jogos começaram no Bairro da Estefânia, nos terrenos onde existia uma velha Praça de Touros, e que hoje são ocupados pelo Mercado Municipal. Os tais rapazes que frequentavam a Escola Primária volveram todas as suas atenções para os mais velhos que se exibiam diariamente com uma bola muito artesanal, mas que era para eles um autêntico fascínio. Mais firmes nas suas convicções e dispondo de mais tempo e maior espírito organizador, fundam o clube a que deram o nome de Sport União Sintrense, conseguindo apesar de a sua juventude ganhar com os anos, um grande espírito de grupo, que constituiu o primeiro triunfo para a consolidação da sua iniciativa”.
Durante esse tempo, a prática desportiva era suportada pelos próprios atletas, as chuteiras eram um luxo que nem todos podiam suportar, e muitas vezes jogava-se com botas de uso quotidiano. Para contornar esta situação, recorria-se a subscrições, sendo essa a única alternativa para a compra de material necessário.
À medida que que a estrutura do Clube se consolidava em Sintra iam aparecendo outros clubes na Estefânia na primeira década do Séc. XX nomeadamente os extintos- Morais Foot-Ball Club, Académico Foot-Ball Club e o New Cruzaders, Infantis Sintrenses que acabariam por se fundir ao Sport União Sintrense. Nos Anos 20, o Sintrense obtém o seu primeiro título ao disputar o Torneio de Futebol de Sintra ,ficando conhecido como o campeão de Sintra, logo se estabelecendo uma forte rivalidade bairrista entre a Estefânia, São Pedro e a Vila. Foram renhidos e entusiásticos os embates que se travaram no largo fronteiro do Palácio dos Seteais, que o Conde de Sucena, proprietário do dito Palácio, disponibilizou para que os clubes da vila de Sintra ali jogassem. É o chamado período do futebol "de balizas às costas", dado que os jogadores percorriam as ruas de Sintra, equipados e levavam consigo as balizas, arrastando consigo os adeptos que se divertiam e provocavam, por vezes com apupos e não poucas vezes em cenas de pancadaria na defesa das cores das suas equipas.
Em 1930 o Sport União Sintrense não tinha estatutos nem filiação associativa e não tinha consentimento legal para a prática desportiva. Pelas mãos de Veloso Lima, Humberto Costa, Manuel Macedo e Elísio Duarte sofreu uma remodelação total a nível organizativo, criando-se os primeiros estatutos e os corpos gerentes e obtendo autorização do Governo Civil de Lisboa. Nesse ano, o clube filia-se na Associação de Futebol de Lisboa com o nº 269. Foi nesta data que se modificaram as cores do equipamento, que era camisola vermelha e calção branco, para camisola vermelha com calção azul. Modificou-se também o emblema do Clube, adquiriu-se a primeira bandeira e elevou-se o grupo à categoria de Clube. Foi nesta altura, na tarde gloriosa de 5 de Outubro de 1930 que jogou com a 1ª categoria do Sport Lisboa e Benfica ,encontro que marcou a a inauguração do campo da Portela de Sintra.
Entretanto, o Sport União Sintrense ganhou maior estrutura e solidez como clube, modificando o seu parque de jogos e criando várias secções de diferentes modalidades. O ténis de mesa, o basquetebol, o voleibol, a ginástica, o judo, o xadrez e a pesca desportiva, são marcas de um ecletismo que se mantém. A pesca desportiva como secção no clube, conheceu momentos de grande relevo. Com efeito, o Sintrense foi o primeiro clube do país a ter uma representação de pesca desportiva. Deu brado a sua representação que desfilou, em 1944, única, na inauguração do Estádio Nacional, pela novidade e pelo impacto que causou, bem com os primeiros concursos de pesca desportiva levados a efeito no rio de Colares, a nível nacional.
Em 19 de Abril de 1944 foram aprovados novos estatutos para adaptar o clube as realidades jurídico-desportivas da época. A direcção era composta por sete membros efectivos: presidente, vice-presidente, secretário-geral, secretária adjunto, tesoureiro e dois vogais eleitos anualmente pela assembleia geral, e em 1946 foi criada a Comissão de Propaganda do Sport União Sintrense com vista a divulgação pública da entidade bem como angariação de fundos. Uma das primeiras iniciativas foi o primeiro Torneio Popular de Futebol no concelho de Sintra, que na final, teve a audiência de três mil pessoas de todos os pontos do concelho.
O futebol ganhou no clube grande notoriedade com a subida à almejada II Divisão Nacional, em 1964, conquistando no ano da sua estreia um honroso quinto lugar. (foto)

Com o aumento do profissionalismo no futebol e as suas consequentes exigências, o Sintrense não pôde acompanhar todo este movimento, quedando-se num patamar mais modesto, entre a II Divisão B e a III Divisão.
A 30 de Março de 1985 foi-lhe conferido o estatuto de utilidade pública.
De salientar uma faceta importante no seu historial que tem a ver com a instalação durante muitos anos de uma Escola Primária que funcionou na velha sede do clube durante muitos anos. 
Destaque entre os dirigentes históricos para Domingos Veloso Lima (a ele ficou a dever-se a legal constituição do clube, a aquisição da sede na rua Gomes Amorim e o campo da Portela em 1930) Manuel Soares Barreto, Barros Queirós (vitima do estado novo em 1942, o seu nome foi censurado para os órgãos sociais do clube). Mário Travassos Valdez, António Forjaz (em cujo mandato o clube sobe à segunda divisão nacional), António Manata, José Nunes, Fernando Ventura ou Adriano Filipe

terça-feira, 1 de outubro de 2019

China, dentro da Muralha



Escreveu um dia Alain Peyrefitte que quando a China despertar, o mundo tremerá. Setenta anos depois da proclamação por Mao Tsé-Tung da Republica Popular da China, que hoje se assinalam, o gigante adormecido está cada vez mais acordado e presente no mundo globalizado, com expressão mais recente no novo projeto da Rota da Seda com que deseja afirmar uma dominação imperial, embora só fora de portas.

Até aqui chegarmos, a uma China de capitalismo de Estado e afirmação tecnológica, houve a anexação do Tibete, a luta contra o Kuomintang, 45 milhões de mortes entre 1958 e 1961, principalmente por causa da fome, e entre 1 e 2 milhões de proprietários de terra executados sob a acusação de serem "contrarrevolucionários". Nos anos sessenta, a Revolução Cultural, uma das maiores tragédias do século XX, afirmou um modelo comunista diverso do soviético, que só se esbateria com a morte de Mao, em 1976, e a prisão do Bando dos Quatro, feitos bodes expiatórios dos excessos desses anos de fanatismo. Deng Xiaoping rapidamente arrebatou o poder ao sucessor de Mao, Hua Guofeng, e embora nunca tenha sido chefe do partido ou do Estado, foi o "líder supremo" de fato da China na época e a sua influência dentro do Partido levou o país a importantes reformas económicas e à criação de pontes com o Ocidente, materializadas com a politica de "um país , dois sistemas", adotado a quando do regresso de Hong Kong e Macau à China. Posteriormente, o Partido Comunista afrouxou o controle governamental sobre a vida dos cidadãos e as comunas populares foram dissolvidas, sendo que muitos camponeses receberam arrendamentos de terras, aumentando os incentivos para a produção agrícola. Estes eventos marcaram a transição da China de uma economia planificada para uma economia mista com um ambiente de mercado cada vez mais aberto, um sistema chamado por alguns de socialismo de mercado e que o Partido Comunista da China oficialmente descreveu como "socialismo com características chinesas", e que tem vindo a permitir que o Império do Meio seja hoje já dominante a nível mundial. Mas se a economia passou de socialista a capitalista de Estado quase sem se dar por isso, a democracia não acompanhou o fenómeno, com os eventos da Praça Tiananmen em 1989, a perseguição aos dissidentes e a falta dum sistema democrático e plural  o demonstraram.
Quando passam setenta anos da gloriosa jornada rumo a um socialismo que nunca existiu, falta à China a abertura à democracia, o respeito pelos direitos humanos e sociais, baseados em trabalho escravo, o respeito pelo ambiente, marcado pela delapidação dos recursos naturais e a afirmação da força da repressão contra a força da razão, ante um mundo salivante e temeroso de afrontar esse mercado e fonte de financiamento muitas vezes obscuro e sem regras. Abertura económica e política, é algo que tarda em despertar para lá das pedras da Grande Muralha.





domingo, 29 de setembro de 2019

A Quinta do Cosme

Juan Francisco Affaitatti, de Cremona, fixou-se em Lisboa no final do século XV, ligado ao tráfico negreiro, ao comércio do açúcar da Madeira e às especiarias. Foi armador da segunda frota que foi à Índia em 1502, e nos primeiros anos actuou como espião de Veneza informando-a dos descobrimentos portugueses. Entre 1508 e 1514, a troca de um contrato de pimenta, ficou obrigado a pagar as despesas das praças militares de África, das Casas da Suplicação e do Civil.
As suas origens são obscuras. Segundo alguma bibliografia, seria filho natural ou irmão do conde Ludovico de Cremona. Por sua vez, o conde de la Vauguyon afirma que o biografado era filho de um modesto negociante lombardo. Existiam mesmo rumores de existir sangue judaico nos Affaitati.A partir de Juan Francisco, encontravam-se entre as proles de mercadores que controlavam as rotas comercias entre o sul e o norte da Europa, sendo pioneiros no comércio de pedras preciosas. Antuérpia era a sede desses negócios que se disseminavam por outros focos mercantis europeus. Foi ainda no decorrer do século XV que João Francisco Affaitati se estabeleceu em Lisboa. Tinha a missão de informar Veneza sobre os resultados das expedições ultramarinas portuguesas, mantendo, assim, uma estreita relação com os representantes da Sereníssima na capital portuguesa, nomeadamente com Pietro Pasqualigo. Quando a frota de João da Nova regressou da Índia, Affaitati escreveu, com data de 10 de Setembro de 1502, uma carta a Pasqualigo, então em Madrid.
Nesse mesmo ano, Affaitati armara uma das naus que partiram rumo à Índia, acompanhando a segunda armada de Vasco da Gama. O seu feitor Matteo di Bergamo seguia nessa nau. Esta viagem foi-lhe particularmente lucrativa segundo revela numa carta escrita a 14 de Setembro de 1503 e dirigida a Domino Lucha e aos seus irmãos em Cremona: “de nostra parte sempre haveremo tante spiziarie vellerano zercha ducati 5000, et lo capital fo ducati 2000, pocho piú […]”.
Dedicado ao comércio de especiarias, estabeleceu negócios com os cristãos-novos Francisco e Diogo Mendes. Entre 1508 e 1514, os Affaitati e os Gualterrotti, por concessão de D. Manuel, tinham o monopólio da venda de especiarias nos Países Baixos, período durante o qual fizeram contratos no valor de 117 004 880 réis. Juntaram-se a esse contrato outros mercadores italianos, os Fugger e os Welser. O sobrinho Gian Carlo Affaitati e o genro João Carlos Doria eram os seus representantes em Antuérpia.
A 10 de Junho de 1513, D. Manuel renovou por mais um ano o contrato em que Affaitati se comprometia a comprar dois mil quintais de pimenta, por ano, à coroa. Segundo um outro alvará desse mesmo ano, o mercador encontrava-se obrigado a carregar a pimenta para o Levante sem poder vendê-la em Lisboa. Em 1525, João Francisco assinou um contrato com o rei sobre a compra de 13 mil quintais de pimenta a 34,25 cruzados o quintal, 400 quintais de cravo a 50 cruzados, 700 quintais de canela a 65 cruzados e 2 mil quintais de gengibre a 30 cruzados.
Affaitati negociava também no açúcar da Madeira. Em 1502, em conjunto com Jerónimo Sernigi e João Jaconde arrematava trinta mil arrobas de açúcar destinadas a Águas Mortas, Livorno, Roma e Veneza. Dois anos depois, celebrava um contrato para a compra de 3500 arrobas e, em 1512, um novo contrato para a compra de seis mil arrobas de açúcar. Passados quatro anos, arrematava os quintos e os dízimos sobre o açúcar branco, contratos que repetiu em 1518, 1520 e 1521, estes dois últimos anos em parceria com Janim Bicudo. Entre 1502 e 1529, comercializou 177907,5 arrobas de açúcar da Madeira, notabilizando-se como o maior negociante desta mercadoria durante aqueles anos.
A sua fortuna e os seus negócios tornaram-no credor da coroa. Em 1509, o rei ordenava que lhe fossem entregues 8283 arrobas e 5,5 arráteis de açúcar em pagamento de diversas dívidas. Num mandado de 28 de Abril de 1528, a rainha ordenava que se pagasse a Affaitati 512400 réis que tinha em dívida.
Dada a prosperidade dos seus negócios, desfrutava de uma posição social privilegiada, similar à dos florentinos Sernigi e Marchionni. Foram-lhe mesmo confiados privilégios semelhantes aos que tinham os mercadores alemães.
O prestígio da família continuou com os seus descendentes. Após a sua morte, quem ficou a representar os interesses dos Affaitati em Portugal foi o genro e sobrinho, João Carlos Dória, o qual se casara com a sua filha Lucrécia. Em Carvalhal do Bombarral, construiu um solar conhecido por Solar da Quinta dos Loridos .
Nunca se chegou a casar, embora lhe sejam conhecidos seis filhos: Cosme, Agostinho, Inês e Madalena Affaitati, filhos de Maria Gonçalves, cristã-nova e fanqueira; Lucrécia e Antónia Affaitati, filhas de Branca de Castro, cristã-nova de Setúbal.
Através dos enlaces matrimoniais dos seus filhos, Affaitati consolidou a sua rede de influências e a sua posição social. Cosme e Agostinho Affaitati, casados com D. Maria de Vilhena e D. Maria de Távora, e de Inês Affaitati, esposa de D. Leonardo de Sousa. Agostinho foi trinchante-mor de D. João III.
Cosme, aportuguesado Lafetá, será o comandante das forças portuguesas na tomada do morro de Chaul, na Índia, em 1540. Francisco de Andrade, nos Comentários, apresenta-o como«general da nossa gente de guerra em tôda a costa do Norte com muitos poderes, que o Viso-Rei lhe dera, um fidalgo de grande ânimo e conselho chamado Cosmo de Lafetar”
Cosimo Affaitati, por volta de 1540 também, construiu no sopé da Serra de Sintra, junto a Colares, um palácio renascentista, numa altura em que  havia já adaptado o apelido de Lafetá. Quem de Galamares siga para Colares, na estrada nacional, quinhentos metros depois encontra um sítio a que os locais chamam Quinta do Cosme( foto abaixo).Cosme era Cosimo, e o palazzo jaz em ruínas, apenas restando uma fachada consumida pelo tempo,  classificada como de interesse concelhio mas ao abandono. Quando forem até à praia, detenham-se um pouco e recuem quatrocentos anos, e aí poderão imaginar Juan Francisco e Cosimo Affaitati, ou Lafetá.
Foto de Pedro Macieira

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Globalistas e Patriotas

Na sessão de ontem da Assembleia Geral das Nações Unidas confrontaram-se duas perspetivas do nosso mundo  claramente antagónicas. Por um lado, os defensores, como Trump, dum mundo isolado, olhando o vizinho de soslaio, para quem o Outro é um estranho, um rival ou um inimigo, chamando de patriotas aos que negam a integração num mundo cada vez mais interligado, seja pelos problemas, como os do clima, do comércio ou da internet. Ou  os seus sequazes tropicais, como Bolsonaro, negando ser a Amazónia um pulmão património da Humanidade e tão só um problema brasileiro. Para ambos, a presença no principal areópago da comunidade internacional é como participar numa reunião de condomínio onde se vai exigir o pagamento da quota pelos condóminos,  mas se adia a realização das obras necessárias, com gradual degradação do imóvel.
Ao contrário, e muito oportunamente, Marcelo Rebelo de Sousa habilmente desmontou no seu discurso este falacioso argumento. O patriotismo implica ser orgulhosamente igual entre iguais, ecuménico e atento, caminhando COM e não APESAR DE. 
As desigualdades criadas pela globalização desregulada levam os países a fechar-se sobre si, e os profetas de grandezas passadas a ganhar ascendente prometendo o regresso ao soberanismo bacoco e a um mundo great again. Só o medo do Outro, num mundo desregulado e onde a abundância prometida pelos baby boomers se revelou ser finita e sujeita a choques e confrontos alimenta estes cantos de sereia. O mundo de hoje não se compadece com as aldeias de Astérix, até porque a poção mágica está a acabar, e já não são só os gauleses quem teme que o céu lhes caia em cima da cabeça.
Ser patriota hoje é assumir que o mundo é só um, os problemas são globais e sermos individuais e diferentes tem de ser a forma como contribuímos para a soma positiva, e não para a subtracção em capacidade de mobilização, visão de futuro e possibilidade de triunfo. Já não há "orgulhosamente sós".


terça-feira, 24 de setembro de 2019

A serra enquanto redenção


Visitar Sintra não é só realizar um mero roteiro cultural, impõe-se, sobretudo, como uma experiência sensorial. Importa ao visitá-la, ver as pedras para lá das formas, ouvir e deixar-se inebriar pelo silêncio, esse direito não consagrado nos códigos, encetar um regresso à terra e ao solo húmido e orvalhado. Ali pairam os fantasmas de improváveis faunos, líricas condessas e nórdicos príncipes numa ópera dos sentidos, ali se capta o imenso e melodioso cântico que só o silêncio propicia.
Em Sintra são inesgotáveis as palavras por escrever, as esculturas por esculpir e os sonhos por idealizar, por entre a parafernália do clorofila e odor. Apressados visitantes não verão os etéreos faunos, mas eles lá estão, tocando flautas de Pã, não verão gamos e bambis, mas traquinas pulam no bosque, bebendo nos lagos, não verão fadas, igualmente, mas felizes esvoaçam sobre a Pena, até uma holográfica Elise espreita do alto das pedras atlantes, e sorri. Em Sintra é preciso sentir, para então ver, e só então se passará para Shangri-La, paraíso de melódicas sinfonias de verde onde os deuses plantaram o seu Jardim.
Em Sintra, a felicidade é possível, primeiro como aguarela, depois como emoção, em catártica e eterna redenção.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sintra e as alterações climáticas

   Foto: Pedro Macieira, Rio das Maçãs


O tema do clima está na ordem do dia com cada vez maior premência, levando a que na próxima semana de novo os líderes mundiais se voltem a sentar, para discutir documentos jurídicos que de pouco servirão se os grandes poluidores não se esforçarem no terreno para contrariar a carbonização e o aquecimento global.
Entre nós, o tema entrou na agenda política, alternando entre o catastrofismo e o disparate, alimentando modas e novos clichés mais para alimentar as redes sociais que para inverter a tendência no terreno.
Até Sintra, o tradicional Delicious Eden das sombras frescas e da brisa amena se verá confrontada no futuro com uma realidade que por ora se estranha, mas má será se vier a entranhar-se.
Em Sintra, segundo o "Plano Estratégico do Concelho de Sintra Face às Alterações Climáticas" em tempos coordenado pelo prof. Filipe Duarte Santos, antevê-se que em meados do século XXI as temperaturas médias anuais subam1.7 a 3.3 °C, com maior ênfase no Verão (3.6ºC a 5.4°C em julho) do que no Inverno (0.7 a 1.6 °C em dezembro). No final do século a elevação da temperatura média anual pode chegar a 2 a 3°C acima do que são atualmente no Inverno e 5º a 10º C no Verão, com ondas de calor mais frequentes e noites tropicais em que poucas vezes a temperatura descerá abaixo de 25º C. A precipitação média no final do século baixará de 800 mm para 540 a 700 mm e a radiação solar aumentará até um máximo de 8%.
Haverá reduções anuais no escoamento dos principais cursos de água na ordem dos -30% em meados do século e -50% para o final do século, e para os aquíferos é de esperar uma diminuição da capacidade de exploração sustentável. O impacto no rebaixamento do nível nos aquíferos será ainda modesto, menor que -0,5 m, mas para o final do século já alcançará máximos de -0,7 m no final do semestre húmido, e -0,8 m no final do semestre seco.
O consumo de água dos sintrenses, agora da ordem de 80 m³ entre 2020 e 2030 será 3% a 15% acima dos valores atuais. O nível médio do ar continuará a subir, com cenários de 0,2 m a 1,4 m para o horizonte de 2100.
Fenómenos de precipitação intensa irão promover a erosão das arribas, e a modificação do regime das ondas associada às alterações climáticas deverá aumentar a deriva litoral e, portanto, o potencial de transporte de sedimentos, predominante para sul, em até mais 20% em relação à situação atual. A configuração das praias aponta para reduções da superfície dos areais, embora muito variáveis de praia para praia. Nas mais encaixadas e instaladas em desembocaduras fluviais, a redução será pequena. Pelo contrário, as praias mais abertas, estreitas e limitadas pelo lado de terra por uma arriba, como a do Magoito, que são extremamente sensíveis à rotação do rumo das ondas, devem perder grande parte do areal.
Os cenários colocados pelos autores do estudo sugerem um aumento do stress ambiental na vegetação florestal. O stress hídrico poderá tornar as árvores mais suscetíveis e aumentar os danos causados pelas pragas e doenças.
No futuro aumentará também o risco de incêndio florestal e a deterioração dos ecossistemas florestais pela dificuldade de regeneração das árvores e pela proliferação de espécies invasoras mais competitivas e melhor adaptadas às novas condições climáticas.
Prevê-se o aumento da incidência de pragas e doenças, assim como o risco de invasão por novas espécies de regiões de clima tropical ou subtropical. É também muito possível que as taxas de crescimento de pragas e doenças sejam estimuladas pelo aumento da temperatura, sobretudo quando têm a possibilidade de ter várias gerações por ano.
O aumento das temperaturas no Inverno, quando acompanhado por humidade elevada, poderá favorecer a expansão de alguns agentes patogénicos, modificando a estrutura e composição da vegetação, com consequência para a restante biodiversidade: a fauna seguirá os destinos do seu habitat e a comunidade de insetos sofrerá com as alterações climáticas, uma vez que são animais de sangue frio.
Algumas populações, especialmente aquelas que têm distribuição geográfica limitada, pequenas áreas de habitat ou reduzido número de indivíduos (como o cravo-romano, o feto-de-folha-de-hera, o miosótis-das-praias ou a boga portuguesa), poderão não ter capacidades para se adaptarem às rápidas alterações climáticas, e a sua extinção pode ocorrer em populações com baixa taxa de reprodução e capacidade de dispersão.
Dentro dos mamíferos o grupo dos morcegos é o mais vulnerável, dada a dependência do seu metabolismo com a temperatura e a sua dieta depender da comunidade de insetos.
Os cenários indicam que em finais do século as ondas de calor serão um fenómeno frequente, afetando grupos mais sensíveis como as crianças e os idosos. O problema do ozono poderá persistir e agravar-se pelo menos até meados do século, e o número de dias propícios a salmoneloses na região de Sintra aumentará dramaticamente no Verão.
O risco de transmissão de doenças por insetos subirá em todo o concelho. Mesmo no Inverno o clima passará de totalmente desfavorável a ocasionalmente favorável. O Verão continuará de forma geral a ser a estação do ano mais favorável à transmissão, embora em meados do século o clima se torne tão seco que o risco começará a diminuir.
As alterações climáticas em Sintra vão no sentido de aumentar a produção de pólenes ao longo de todo o século, agravado pela diminuição da precipitação que promoverá menos a limpeza da atmosfera. A radiação solar aumentará significativamente, e como o número de dias confortáveis para atividades no exterior aumentará, tudo se conjugará para um maior risco de melanomas.
Apesar da vasta área florestal do Parque Natural Sintra-Cascais (3675 ha), o valor anual de sequestro é de cerca 53 500 toneladas de CO2, ou seja, da ordem de 2% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos sintrenses (âmbito total). Segundo os autores do estudo, no caso específico de Sintra, duas estratégias surgem como as mais adequadas para sequestro biológico de carbono: o aumento permanente da área florestada e do número de árvores de arruamento, e o aumento da duração média das árvores com vista à meta de longo prazo de sequestro de 8% das emissões de GEE.
Estima-se que o índice de emissões totais (estritas e implícitas) per capita seja da mesma ordem do valor médio nacional, ou seja, 8 toneladas de CO2 eq./habitante. No entanto, este valor pode ser reduzido se houver uma generalização das energias renováveis, edifícios mais eficientes, melhores transportes públicos e mais ciclovias.
Sintra faz parte desde 2015 do consórcio que irá desenvolver a metodologia do projeto ClimAdaPT.Local para aplicação a nível nacional das estratégias municipais para as alterações climáticas, sendo uma da uma das autarquias que já têm estratégias próprias para os seus territórios. O tempo urge, porém, e o que até há pouco eram profecias catastrofistas boas para filmes de ficção, pode efetivamente descambar num panorama sem retorno. Há que tomar medidas no terreno, desde já, alertando os peritos que 2030 pode ser o ano em que se nada for feito, se poderá dar a batalha como perdida.
Como alertava um famoso programa televisivo de Luís Filipe Costa nos anos 70, inspirado nos então premonitórios avisos de Gonçalo Ribeiro Telles, “Há Só Uma Terra”.