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terça-feira, 21 de maio de 2019

Efemérides

Hoje é o Dia Internacional do Desenvolvimento Cultural, instituído pela UNESCO, data marcada igualmente pelo desaparecimento de duas figuras relevantes da vida cultural de Sintra: Em 1929, a condessa d'Edla, mecenas de artistas e ela própria uma cantora lírica; e há 10 anos, em 2009, João Benard da Costa, escritor e cinéfilo, com ligações fortes ao nosso concelho. Desenvolvimento Cultural é, além de incutir à participação, valorizar os patrimónios, escutar os artistas e dotá-los de condições para um trabalho criativo e independente, mas também cultivar a Memória, e as figuras que neste dia nos deixaram são bem a Memória dum passado de exemplo, entrega, luta e valorização dos nossos Eus, gravados na pedra ou na palavra, na ação e no exemplo.




quinta-feira, 16 de maio de 2019

Redes sociais ou cavernas sociais?


Um conjunto de países e empresas decidiram lançar o designado “Apelo de Christchurch", que visa combater a difusão da violência na Internet, na sequência do ataque de há dois meses contra mesquitas na Nova Zelândia.
Nesse apelo, lançado pelo Presidente francês Emmanuel Macron e pela primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern e já secundado por diversos países, as plataformas da Internet – incluindo o Facebook, o WhatsApp, o Instagram, e a Google -- comprometem-se a combater os conteúdos terroristas ou extremistas violentos difundidos on line.
O Facebook foi o veículo utilizado pelo atirador de Christchurch para difundir em direto o ataque de 15 de março que matou 51 muçulmanos, e apesar de ter sido retirado inúmeras vezes, foi sendo sempre recolocado no YouTube.
O Apelo de Christchurch pretende que os países e as grandes empresas de conteúdos digitais atuem contra o extremismo e a violência na rede.
O Facebook anunciou entretanto restrições ao uso do Facebook Live, e os utilizadores que já tenham desrespeitado as regras da sua utilização deixam de ter acesso durante algum tempo. Já o YouTube recordou que, no primeiro trimestre de 2019, retirou 89.968 vídeos e encerrou 24.661 contas que faziam a promoção da violência ou do extremismo violento. Segundo o Google/YouTube,76% destes vídeos foram retirados antes que um utilizador pudesse visioná-los.
São cada vez piores as consequências do mau uso das redes sociais, dominadas pela ignorância, intolerância, e agressividade, além do insulto fácil, da propagação do boato ou da simples boçalidade. Não vivemos na era da informação, vivemos na era do ruído, em que utilizadores mal-intencionados ou premeditadamente apenas repetem o que outros dizem, sem o menor sentimento ou raciocínio sobre os factos, ou sequer apurar da sua veracidade.
Agir sem pensar, especialmente com o fim da vingança, intolerância e na maior boçalidade, é o que nos iguala aos períodos pré-históricos. O ataque a Alcochete foi preparado pelo Whatsapp, o de Christchurch difundido no Facebook, recrutamento para o Daesh e radicalização de terroristas ocorrem pelas redes sociais.
Estas, infelizmente, são hoje cavernas sociais e cadinho da intolerância, do ódio ou tão só do boato maldoso. O Leviathan está de volta ao alcance duma password ou dum like.


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pairam grifos sobre Bruxelas


Hoje, 9 de maio, assinala-se o Dia da Europa. Uma Europa moribunda e em fase de estertor, como os motores falseados da Volkswagen, acossada pelo Brexit, o populismo eurocéptico e as pressões duma América errática e duma China expansionista.
Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Vinte e cinco depois da unificação, sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo, ninguém se preocupou, com os alemães ocupados nessa altura consigo próprios e com a integração económica dos novos Estados federados do Leste, tanto que no final dos anos noventa a Alemanha era tida como um caso problemático na Europa, a quem se haveria de cuidar da questão do endividamento estatal, com níveis de desenvolvimento abissais entre o Leste e o Oeste, e canalizando muitos dos fundos (grande parte deles comunitários) para nivelar as economias. Era impensável então que a Alemanha um dia pudesse apresentar-se como modelo nas questões de política fiscal e do saneamento orçamental. E com a introdução do euro, pareceu que a Alemanha tinha aberto mão do seu mais importante instrumento de poder frente às outras economias europeias, o marco alemão.
O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projecto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.
A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão da Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa, tem a possibilidade de manter a coesão na União Europeia, e no mundo, tem de cuidar para que a economia europeia não seja marginalizada através da ascensão da Ásia. Mas não seria isto, na verdade, uma tarefa das instituições europeias? Não foram tais instituições, principalmente o Parlamento, fortalecidas nos últimos anos, para assumir essas tarefas, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exactamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises actuais, de que ressaltam a saída da Grã-Bretanha, os populismos com ou sem colete, ou a crise dos refugiados, as instituições europeias mostram-se incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso. 


A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe a posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal pode ser copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está pois a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa. O Parlamento Europeu a eleger no dia 26 será por certo um bordel espanhol e uma quinta com muitas raposas dentro do galinheiro, enquanto a ascensão de Manfred Weber a provável futuro presidente da Comissão nada promete de bom. Salva-se o Hino à Alegria de Beethoven, aqui e ali riscado e a querer puxar para o Anel dos Nibelungos com atarantadas valquírias apertando o cerco em Bruxelas.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Santa Evita


Há precisamente 100 anos nascia Eva Perón, mulher da vida com uma vida excecional, Santa para os descamisados num período de turbulência política na Argentina. A sua meteórica ascensão ao casar com Juan Domingo Perón, general e presidente, o seu papel de ícone popular hoje ampliado por obras literárias e artísticas, fizeram dela uma pop star e figura emblemática dum certo caudilhismo sul americano. A par de figuras como Luther King, Fidel Castro ou Che Guevara, Eva- ou Evita, como ficou popularizada- encarnou o culto providencial dos salvadores, como mais recentemente foi seguido por Hugo Chavez. Todos eles, embora de matriz ideológica diversa, misturaram uma proveniência popular com um providencialismo a roçar a santidade, daí a sua veneração por alguns segmentos da população anos depois da sua morte, ela própria parte do mito, seja por ter sido precoce, seja por ter sido de perto acompanhada pelos seus seguidores.
Evita encarnou um populismo precoce nos anos quarenta e cinquenta, talvez por, tal como nas novelas, ter nascido pobre e chegado aos corredores do poder, o que sempre inculcou nas massas o fascínio de a origem não ser travão para certos contos de fadas, apimentado com drama, conspiração, paixões e traições.
Ao morrer, Evita nasceu para a eternidade Santa Evita, uma Passionária sem armas e provavelmente sem causas, mas uma palpitante história de veneração popular que ainda hoje a Argentina chora.


segunda-feira, 6 de maio de 2019

Um perturbante odor a petróleo


A situação confusa que se vive na Venezuela não deve ser vista a preto e branco, com bons dum lado e maus do outro, antes tem de contemplar uma realidade complexa, e agora refém dos jogos de sombras internacionais.

De forma audaz, mas se calhar precipitada e aventureira, Juan Guaidó proclamou-se presidente interino, logo apoiado por Trump e Bolsonaro. Não terão sido os aliados mais adequados, porém, permitiu que a maior parte dos países da União Europeia, entre os quais Portugal, logo embarcassem num apoio excessivo- reconhecem-se Estados, não governos ou presidentes- com isso deixando desapoiada a comunidade luso descendente, por falta de interlocutores locais. Guaidó arrasta-se um pouco quixotescamente pelas ruas de Caracas prometendo uma mudança iminente, contudo, sem armas, e com Maduro seguro por chineses e russos, e a hierarquia militar, pouco ou nada pode. Mas questionemo-nos: chegados a este ponto, alguém acredita que ganhe um lado ou outro o fantasma da ingerência, fazendo da Venezuela um protetorado, não fragilizará qualquer novo poder que venha a suceder ao atual?
Maduro exorbitou, é certo, mas se a Venezuela passa calamitosas necessidades, não será também pelo boicote dos Estados Unidos que por um lado congelam as contas e o abastecimento ao país, e por outro se aprestam farisaicamente a apoiar com comboios humanitários aqueles a quem fecharam a torneira? E Guaidó, se chegar ao poder pela mão dos americanos, saudosos da velha doutrina Monroe, que sempre viu a América Latina como o quintal dos fundos, não ficará maculado e manietado para o futuro com uma tal marca de água?
Nada é linear, e não há bons e maus. O ideal seria o diálogo entre as partes, mediado pela ONU ou pela Santa Sé, que fixasse um calendário eleitoral e um governo de transição, podendo e devendo ir a votos todas as forças em presença, bolivarianos incluídos, podendo até, se o povo assim o entender, votar em Maduro, e este voltar legitimado. Só assim se dissiparão as dúvidas, e pacificará aquele país em sofrimento. Contudo, alguém tem de tomar a iniciativa, e não pode ficar no ar a ideia de uma vitória de Trump ou Putin. Tudo faz lembrar Tintin e as guerras do general Tapioca com o general Alcazar. Neste drama caribenho, tudo ficará mais claro quando se diluir um perturbador cheiro a petróleo.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Freguesias, Dinheiros e Identidades


Foi recentemente publicada a Lei 57/2019 que prevê a atribuição de novas competências às freguesias, numa lógica de descentralização e subsidiaridade, e com natureza de permanência, abrangendo áreas como as da gestão e manutenção de espaços verdes, limpeza das vias e espaços públicos, sarjetas e sumidouros, manutenção, reparação e substituição do mobiliário urbano instalado no espaço público, (com exceção daquele que seja objeto de concessão), gestão e manutenção corrente de feiras e mercados,  realização de pequenas reparações nos estabelecimentos de educação pré-escolar e do primeiro ciclo do ensino básico, manutenção dos espaços envolventes dos estabelecimentos de educação pré-escolar e do primeiro ciclo do ensino básico ou utilização e ocupação da via pública.
Também o licenciamento da afixação de publicidade de natureza comercial, (quando a mensagem esteja relacionada com bens ou serviços comercializados no próprio estabelecimento ou ocupa o domínio público contíguo à fachada do mesmo), a autorização da atividade de exploração de máquinas de diversão ou colocação de recintos improvisados, realização de espetáculos desportivos e divertimentos na via pública, jardins e outros lugares públicos ao ar livre, acampamentos ocasionais, realização de fogueiras e lançamento e queima de artigos pirotécnicos poderão passar a ser competências das freguesias, tudo resultando do interesse e negociação entre quem delega e é delegado, pois questões de fundo se colocam: a capacidade administrativa e técnica das freguesias para assumir as novas responsabilidades, a tensão que pode existir decorrente de funcionários municipais poderem não querer mudar para as juntas, e de o envelope financeiro a pagar ou a receber ser desinteressante para uma ou ambas as partes, sem por de lado os conflitos eventualmente decorrentes de no período da negociação existirem forças políticas de diferentes cores de ambos os lados, prontas a esticar a corda e a um braço de ferro.
Será no prazo de 90 dias corridos após a entrada em vigor do novo decreto-lei que câmara e juntas de freguesia devem acordar numa proposta para a transferência de recursos para as freguesias, a qual deve conter a indicação dos recursos humanos,    patrimoniais e financeiros que, anualmente venham a ser transferidos para cada uma das freguesias.
As deliberações autorizadoras da transferência de recursos serão obrigatoriamente comunicadas pelo município à Direção-Geral das Autarquias Locais (DGAL) até 30 de junho do ano anterior ao do início do exercício da competência pela freguesia, para efeitos de inscrição no Orçamento do Estado do ano seguinte, o que significa que ultrapassado esse prazo este ano, já o Orçamento de 2020 os não poderá contemplar, caso em que a DGAL procederá à inscrição no Orçamento do Estado do ano seguinte, dos últimos montantes que tiverem sido comunicados pelo município.
Os recursos financeiros afetos às transferências de novas competências para as freguesias provirão do orçamento municipal, após deliberação das assembleias municipal e de freguesia, e serão calculados tendo por base a estrutura de despesas e de receitas que os municípios respetivos têm com o exercício dessas mesmas competências, não podendo ser inferiores aos constantes de acordos ou contratos respeitantes às mesmas matérias e serão financiados por receita proveniente do Fundo de Equilíbrio Financeiro e da participação variável no IRS dos respetivos municípios, sendo transferidos pela DGAL até ao dia 15 de cada mês, por dedução àquelas transferências para cada município.
Para o início do exercício das novas competências em 2019, o prazo de comunicação à DGAL ocorre no prazo de 15 dias corridos após as deliberações legalmente previstas, sendo que o processamento do primeiro duodécimo relativo às transferências de novas competências para as freguesias ocorre no mês seguinte ao da entrada na DGAL dessa comunicação.
Relativamente ao ano de 2019, as freguesias que não pretendam a transferência de competências previstas no presente decreto-lei comunicam esse facto à DGAL, após prévia deliberação dos seus órgãos deliberativos, até 60 dias corridos após a entrada em vigor do novo decreto-lei.
Há, no entanto, que voltar a algo que devia ser prévio a esta alteração: a redefinição do quadro legal das freguesias, hoje resultado duma imposição economicista do tempo da troika que arbitrariamente esquartejou o poder local em geografias variáveis.
Sob a semântica intenção do” reforço da coesão nacional”, da “melhoria da prestação dos serviços públicos locais” ou da "otimização da atividade dos diversos entes autárquicos”, a reforma imposta pelo memorando da troika nasceu torta e sobretudo inquinada pela ausência duma real e efetiva vontade originária provinda dos interessados na sua própria reforma, essa sim, o verdadeiro paradigma da administração local democrática.
Chamando racionalização à sanha dos cortes cegos, e organização do território a um critério que trata por igual o que é de si saudavelmente desigual, a reorganização das freguesias já então acenou com a libertação de recursos financeiros, alardeando uma suposta otimização da alocação dos recursos existentes e o reforço das atribuições e competências próprias, acompanhado dum envelope financeiro, prometendo na altura uma majoração de 15% da participação no Fundo de Financiamento de Freguesias (FFF), até ao final do mandato seguinte à fusão aos que sem discussão acatassem o critério preconizado na proposta.
Foi uma outorga a jeito de canga e não uma auscultação ou participação verdadeiramente democrática o que então aconteceu. Expressões como “obrigatoriedade” de reorganização administrativa, ou “proximidade” (quando a provável nova sede da freguesia pode vir a ficar a mais de 20 km), mais não são que expressões semânticas, alem de que a solução apresentada para a designação das freguesias anexadas criou uma nomenclatura extensa e despida de identidade.
E as novas freguesias, alem de nascerem tortas, nasceram obtusas, isto é, passaram a designar-se «União das Freguesias», seguida das denominações de todas as freguesias anteriores que nela se agregaram.
Esta reforma atabalhoada mexeu com o Portugal profundo, a sua idiossincrasia e a vontade popular muitas vezes no passado escrita em sangue contra os poderosos, e só um contrato com as populações de génese democrática pode tornar pacífica uma lei que a todos contente, por a todos respeitar.
Penalizadas, as autarquias, e as freguesias em particular, foram o parente pobre da crise. S. Martinho, onde os 30 cavaleiros donatários de Sintra se instalaram depois do foral de 1154, onde os templários de Gualdim Pais zelaram pela fé, que viu o Chão de Oliva e a Xentra moura, a judiaria e a alpendrada, o nascimento e a morte de reis, o Lawrence e o Hotel Nunes, acolheu Ferreira de Castro e escutou Zé Alfredo, foi engolida por uma mera decisão administrativa que a ignorou e aviltou, criando a amorfa União das Freguesias de Sintra, com um nome extenso, e antes de se ver o montante do cheque deveria ver-se quem é o legítimo portador, a “nova” entidade, ou a “antiga”, por quem muitos clamaram mas parece terem esquecido. O tempo tudo apaga. Contudo, antes das novas competências, não seria bom voltar a refletir sobre a matriz geográfica das mesmas? Perguntar não ofende.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Leonardo e Maquiavel

Passam hoje 500 anos da morte de Leonardo da Vinci e amanhã 550 do falecimento de Nicolau Maquiavel.
Duas personalidades que marcaram a nossa civilização e aquilo que ainda hoje designamos como o Renascimento. Se num vemos o exemplo do artista completo- pintor, cientista, anatomista- no outro reconhecemos o espírito florentino da reflexão da política enquanto arte. 
Foi graças a personalidades excepcionais como estas que o mundo se tornou mais humano, no sentido de que adicionaram Humanidade à vida, fosse na filosofia, na racionalidade, na curiosidade científica.
Foi contra um mundo escuro e pessimista que a claridade do Quatroccento mudou para sempre o mundo ocidental, e nesse processo a luminosidade de Leonardo e Maquiavel abriram portas, pintaram abóbadas, viram o Homem no centro das coisas, sulcando as utopias que ainda hoje nos mantêm o tónus e devolvem a esperança numa Humanidade sofrida mas ainda esperançosa.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Perturbante Mundo Novo

É hoje generalizado o uso das redes sociais, seja por figuras públicas, marcas, políticos ou o mais anónimo dos utilizadores. Estar ligado na rede é fazer prova de vida, voyeurismo, combate à solidão, descarga de ódios e emoções ou tão só repetição de informações. Paradoxo dos paradoxos, estar na rede, se é um estado avançado da comunicação, é ao mesmo tempo traduzido por cada vez menos se falar com o vizinho do lado, o amigo ou o colega e se estar de olhos pregados no ecrã, seja do computador, tablet ou smartphone a “cuscar” a vida dos outros, denegrir, ou somente a dizer um aflito “estou aqui” para atenuar a solidão. Estranho mundo novo onde se grita no silêncio do dedilhar, como se premindo esse gatilho virtual os outros soubessem da nossa existência. Assim é hoje em muitos domínios: dantes, punham-se anúncios no jornal quando falecia um parente, agora coloca-se na rede e recolhem-se os emojis e smileys correspondentes, as ementas dos restaurantes estão online, a vida de cada um é pública e publicada, desde o prato do almoço ao gato brincalhão, a bravata contra o clube rival ou a busca de encontros amorosos.
O mundo como o conhecemos hoje é feito dessa nova realidade que é a democratização do acesso à informação, mas também a possibilidade de perversão totalitária que a sua manipulação pode originar, reproduzindo mentiras como se de verdades se trate, inventando factos e acicatando rivalidades. Veja-se como realidades completamente díspares como a propaganda do Daesh ou a eleição de Trump beneficiaram dessa ferramenta letal, que doutrina os novos fanatismos na época da dita pós-verdade.
Numa conferência recente, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook lançou algumas previsões relativas ao futuro das redes sociais nos próximos dez anos. As principais tendências, na sua perspectiva são que para lá do crescimento exponencial dos utilizadores, será mais provável que o envio de mensagens se faça via fotos e SMS e que os antigos web interfaces percam a viabilidade, uma comunicação avançada e sem distrações. Os meios alternativos de envio de mensagens, também estão em evidente expansão. Por exemplo, a Whatsapp já ultrapassou as SMS em número de mensagens enviadas. O Snapchat, mecanismo de comunicação através de fotografias momentâneas, também cresceu exponencialmente tendo agora cerca de 100 milhões de utilizadores.
Na perspectiva de Zuckenberg, a grande novidade será a realidade aumentada. Nos próximos 10 a 15 anos, haverá uma nova plataforma, ainda mais natural e ainda mais engrenhada nas nossas vidas que os telemóveis, algo que possamos vestir ou usar que será tão natural como usar óculos e que nos fornecerá um contexto do que se está a passar no mundo, da realidade em redor. Seremos então meros chips controlados por quem dominar as redes, em teias onde conviverão de modo predador as novas aranhas e as minúsculas moscas, à mercê do totalitarismo tecnológico que nos orientará desde a escolha política até ao abastecimento do frigorífico. De Admirável Mundo Novo a caminho dum Perturbante Mundo Novo…

terça-feira, 30 de abril de 2019

A morte de Hitler- uma "estória" da História

30 de Abril de 1945.No bunker  de Berlim surgia uma nota confidencial: "O Reichsführer SS Himmler estabeleceu negociações com o Alto-Comando anglo-americano".Os efectivos soviéticos já se encontravam na Alexanderplatz e uma chuva de granadas começava a cair sobre o abrigo secreto de Adolfo Hitler. Pela uma da tarde, este, no estertor final, realizava o casamento com Eva Braun, tendo como testemunhas Goebbels e Bormann. A cerimónia terminou com um brinde aos novos cônjuges que minutos depois se retiraram para os seus aposentos, onde Gertrude Junge, a secretária lhe anotou o testamento. Doze anos de paranóia caminhavam paulatinamente para o fim.
Os soviéticos já estavam perto do abrigo onde os soldados que o defendiam do lado de fora disparavam furiosamente. No testamento, Hitler ditou “não quero cair em mãos do inimigo, que quer oferecer um novo espectáculo com o único objectivo de divertir as massas histéricas. Consequentemente, decidi ficar em Berlim e escolher, voluntariamente, a morte, no momento em que considere que a posição do Führer e a da Chancelaria não possam ser mantidas por muito tempo. Morro com a alegria no coração, consciente dos imensas realizações do nosso povo e da contribuição incomparável que a juventude que leva o meu nome deu à História” .Cumprimentou, um a um, todos os seus assistentes e almoçou com as duas secretárias e o cozinheiro. Depois, despediu-se dos outros e acompanhado por Eva Braun, dirigiu-se para o quarto, para o desfecho planeado. Uma vez fechada a porta, por uma passagem secreta Otto Gunche fê-los atravessar um corredor que dava acesso a um hospital próximo e dai os levou, disfarçados de médico e enfermeira, numa ambulância, para fora de Berlim.
 No bunker, eram três e quarenta e cinco quando no quarto se escutou um disparo, posto o que Bormann entrou no aposento acompanhado pelo criado, Linge. Um corpo, morto, estava inerte numa cadeira, um outro, de mulher, estendido num divã, a seu lado duas pistolas, uma Walter PPK, e outra menor que Hitler sempre trazia no bolso, do corpo feminino exalava um forte cheiro a cianeto.
Bormann voltou à sala onde se encontravam Goebbels, Burgdorf e outros e anunciou, solene e hirto:"O Führer está morto." Em seguida, os cadáveres foram rapidamente envolvidos em mantas e levados para fora do abrigo onde foram regados com gasolina e ateado o fogo em seguida. Hitler e uma época acabavam de desaparecer, deixando a Alemanha derrotada e nas mãos dos ocupantes.
Portugal, 7 de Maio de 1945. Berlim fumegava, destruída, os russos vitoriosos controlavam já a cidade depois da rendição total. Longe dali, no extremo ocidental da Europa, alheio a tudo, Joaquim Gregório, banheiro da Praia da Adraga, no litoral de Sintra, recolhia mexilhões para uma patuscada na taberna do Zé Patrocínio. Mar encrespado, apesar de dia claro, nada como a praia pela manhã, ainda sete horas não eram e o dia raiava, primaveril. Ao fundo, uma traineira dirigia-se para o porto da Ericeira, dolente e rodeada de gaivotas. Um vulto negro e compacto pareceu surgir junto da traineira, emergindo do mar, a idade entorpecia-lhe já a vista, era ilusão de óptica, por certo, foi até à taberna emborcar um tinto retemperador.
Junto à traineira, e longe dos olhares, um submergível vinha agora à superfície, um U-BOOT tipo XXI alemão, a suástica do Reich não deixava dúvidas. Depois de aberta a escotilha e de na traineira estranhos pescadores de gabardine e chapéu baixarem uma escada, um homem e uma mulher saíam do submarino entrando de imediato na traineira. Ele aparentava cinquenta anos, magro, cabelo cortado rente, ela algo mais nova, assustada e seguindo-o obediente. Pelo comportamento dos homens da gabardine seria alguém importante, a PIDE encarregara aqueles inspectores de uma missão secreta, de recepção a importantes dignitários alemães fugidos da guerra, nada mais se adiantando, a neutralidade do país não podia arriscar notícias de envolvimento com o Eixo.
Dali a traineira rumou a Cascais, não sem que o comandante do submarino fizesse a saudação nazi, dizendo para o homem que nunca abriu a boca  “Até sempre, mein Führer!”.As instruções eram de, após deixar o casal na costa portuguesa, acordada com o governo local, desembarcarem perto de Leixões e afundar o submergível, desmobilizando depois da Marinha alemã, cada um a um novo destino.
Com discrição, o casal foi alojado numa casa na Malveira da Serra, de longe guardada por agentes da polícia internacional de Portugal, embarcando em Agosto seguinte sob identidade holandesa e passaportes fornecidos por Lisboa num vapor com destino a Buenos Aires. Na Malveira, apenas constava serem refugiados judeus em trânsito para a América, era o que se dizia na vizinhança, nunca saíram da casa enquanto lá permaneceram.
Rio Gallegos, Argentina, Setembro de 1964. Entre consternação geral, gaúchos a cavalo escoltavam o funeral de Marcus Schoof, fazendeiro de origem holandesa há quase vinte anos radicado na Patagónia e um dos maiores proprietários locais, uma fazenda com um milhão de hectares e a melhor carne da Argentina. Muitos outros europeus, sobretudo alemães e austríacos radicados na província compareciam ao enterro. A viúva, a senhora Eva seguia atrás, numa charrette, vários dos presentes, amigos de Schoof esticavam o braço saudando em sinal de respeito. Pablo, que fora feitor da fazenda nos últimos anos lamentava com Juanita a morte do patrão, vítima de sífilis, dizia-se à boca pequena, comentando a estranha colecção de dentes de ouro que guardava num cofre, algo bizarra, mas de onde se dizia provir muito do rendimento com que adquirira a propriedade em 1945 ao chegar de Portugal. Junto a Eva, uma velha amiga dos tempos da Europa, uma senhora que fazia filmes, segundo Juanita, Leni Riefensthal, inconsolável já lhe confidenciara como quando novo e na terra dele o siñor Schoof fora um grande orador em prol de grandes causas e grande amigo dos pobres.


quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sintra em 1974

Em vésperas de mais um 25 de Abril, recordar Sintra nesses já remotos dias:
Inaugurado o campo de futebol do Ginásio 1º de Maio, em Agualva Cacém
Entra em funcionamento o Centro Operacional de Satélites em Alfouvar, perto de Negrais 
Janeiro 
5- Abre o restaurante Ad Hoc, de Francisco Catalão
12-Inauguração da sede da Liga dos Amigos da Rinchoa 
13-Festa dos Avós em S. Pedro, onde Marcelo Caetano participa como "avô" 
20- O Ministro do Interior, Moreira Baptista, visita Sintra.


26-Francisco Cordeiro Baptista administrador do Bairro Administrativo de Queluz


O bacalhau custa por essa época trinta escudos o quilo (15 cêntimos).
Fevereiro
O Grupo Dramático do Mucifal leva à cena nos Bombeiros Voluntários de Colares a peça “Recordar é Viver”.
António Casul Reis é presidente do Sport União Colarense.
IV Encontros de Sintra. 
Março
1- Entrada em funcionamento do Centro de Saúde de Sintra, dirigido por Aires Gouveia
António Nunes é treinador do Sintrense
Abril
2-Visita a Sintra do Lord Mayor de Londres, Sir Hugh Wontner 
Com o 25 de Abril, demite-se a Câmara. No Jornal de Sintra de 27 de Abril, o edital 38 da CMS anuncia estar aberto concurso para "desinfectação e desratização no concelho"... 
Maio
1-Grande manifestação em Sintra assinala o primeiro 1º de Maio e a recente revolução de 25 de Abril. 

24- Vitor Roneberg preside ao grémio, agora Associação de Comerciantes do concelho de Sintra 
25- Reúne-se em Colares a comissão local da CDE, o partido que vinha da oposição democrática, intervindo José Alfredo Azevedo e Maria da Graça Forjaz
Junho
14-Toma posse a Comissão Administrativa da CMS pós 25 de Abril, composta por José Alfredo Costa Azevedo (presidente) José Joaquim de Jesus Ferreira, Aristides Campos Fragoso, Lino Paulo, Jorge Pinheiro Xavier, Cortêz Pinto, Álvaro de Carvalho, Manuel Monteiro Vasco, Carlos Quintela, António Manuel Carvalheiro, Manuel Maximiano e Mário Barreira Alves. 

Valério Chiolas é presidente da Comissão Administrativa de Colares. 
11-Carlos Galrão preside aos Espeleólogos de Sintra 
19- Comício do MDP/CDE no Carlos Manuel, com José Tengarrinha
19- Fundação do Grupo Cultural e Recreativo de Rio de Mouro 
Jornal de Sintra custa nessa altura dois escudos (1 cêntimo). 

24-Luis Pedroso Miguel é presidente do Mem Martins Futebol Clube.  
28- Morre o padre José Oliveira Boléo 
29-Morre o escritor e grande amigo de Sintra Ferreira de Castro.
Julho
1- Comício da Comissão Administrativa da Câmara no ringue do Parque da Liberdade
Fecha a fábrica de queijadas Mathilde, de Manuel Soares Barreto. 
O PCP ocupa o edifício da cadeia comarcã. 
10-
13-Morre Raul Lino, arquitecto com vasta obra em Sintra.

24-Comício do PS no Cineteatro Carlos Manuel, com Sargo Júnior, Maria Barroso, Jorge Campinos e José Alfredo.
O Liceu Nacional de Sintra aprova uma moção defendendo a sua professora Maria Almira Medina, injustamente atacada.
Decorre uma polémica em torno da não abertura do Hospital de Sintra.
Agosto
15- Abre em Cabriz o restaurante "Curral dos Caprinos"
Setembro 
8-Festas de Nossa Senhora do Cabo em S. João das Lampas
20-Hermínio Lopes de Sousa presidente do Sintrense
24-Assinada a cedência do espólio dos escultores Anjos Teixeira, pai e filho, à Câmara de Sintra.
António Costa Alcobia é presidente da Comissão Administrativa da Junta de S. Martinho.Compõe a junta António Luís Pedro Baptista, Luís Oram Soares,Maria da Graça Macedo Forjaz e Albino Morais Calinas. Outras juntas: Agualva Cacém-José Manuel Cunha Ferreira, Algueirão-Mem Martins, Rogério Solano da Silva; Almargem do Bispo Alberto Rodrigues Almeida; Belas Guilherme Dias; Colares Valério Chiolas; Montelavar Romualdo Cipriano;Queluz Salvador da Luz; Rio de Mouro Américo Serronha; S. Maria e S. Miguel António Faria; S. João das Lampas Joaquim Pedro;  S. Pedro, Pedro Soares Santos;  Terrugem Josué Duarte Gaspar.
30- O Hockey Clube de Sintra sobe à I Divisão
Outubro
31-Inauguração da luz eléctrica no CF Os Montelavarenses
Novembro
15-Armando Esteves Pereira presidente do HCS
Flagelo da construção clandestina em Casal de Cambra 
Um ministro nesta altura ganha 26 contos (cento e trinta euros) que podem chegar a 35 com ajudas de custo.
Dezembro
13-Abre o supermercado Carôço em Mem Martins
19- Norberto Lopes Leal presidente dos Bombeiros de S. Pedro 
21-Pelo DL 735/74 o monumento do Outeiro das Mós, na Praia das Maçãs (tholos) é classificado como monumento nacional. 

Francisco Barreto das Neves passa a gerência da Sapa para Maria Fernanda das Neves

sábado, 20 de abril de 2019

O rasto da serpente

Passam hoje 20 anos do massacre de Columbine, na Columbine High School em Jefferson County,Colorado. Além do tiroteio, o ataque envolveu o uso de bombas para afastar os bombeiros, tanques de propano convertidos em bombas, 99 dispositivos explosivos, e carros-bomba. Os autores do crime, Eric Harris e Dylan Klebold, mataram 12 alunos e um professor e feriram outras 21 pessoas, tendo depois cometido suicídio. De então para cá, uma América cada vez mais violenta e em negação sobre a repressão na aquisição livre de armas,cultivada pela Administração Trump e hoje pelo Brasil de Bolsonaro, assistiu a inúmeros massacres, sinal duma sociedade desestruturada e herdeira dos velhos cowboys do Oeste. Uma coisa é certa: violência gera violência, e apesar de Rousseau e Voltaire, Hobbes e o seu homem lobo do outro homem ainda campeiam por aí.Ironicamente, o massacre ocorreu na data do nascimento de Adolf Hitler em 20 de Abril de 1889, passam hoje 130 anos.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Paris já está a arder


Vendo a Notre Dame em chamas, recordo a minha primeira viagem a Paris, nos idos de 1979. O velho Sud-Express, testemunha de muitas partidas dolorosas e excitadas chegadas, de emigrantes a salto e camones louros que de fora traziam a Europa ao rincão, em tempos de chumbo e melancolia, foi a minha porta de embarque para um primeiro banho de Europa e para muitos que fora de portas pouco ou nada conheciam. Aos castanhos de Portugal e Espanha, recortados pelos picos nevados dos Pirenéus, a Europa surgiu molhada, em Irun, na mudança para comboio mais moderno e paisagens de vinha e castelos, a Provença e a França industrial. A verdadeira Europa começava aí. Paris foi uma sensação esquisita: a tão aguardada Cidade Luz, fosse pelo tardio da chegada ou pelo cansaço da viagem, pareceu sombria e soturna: uma ratazana coquette serpenteando nos carris, em Austerlitz, já na gare, um clochard sem abrigo dormindo e fazendo duma caixa de sapatos uma almofada. Paris, enfin!...
O dinheiro não era muito, mas a diversão imensa: passeios em Pigalle, fotos no Moulin Rouge, a aventura dumas ostras no Boulevard des Italiens, que se danasse, a vida eram dois dias. Ao fim da segunda noite, na esplanada do Café de La Paix, não estavam Breton nem Hemingway, mas alguns portugueses e o mundo, razoáveis exigindo o impossível, despreocupado, um velho acordeonista tocava canções de Chevalier e Trenet.
A Notre Dame era a velha senhora, do alto dominada por Montmartre, impondo a grandeza do tempo das catedrais feitas para distanciar os Homens de Deus, entre anjos, vitrais e esfíngicas estátuas. Entrando reverente, lembrei o corcunda da história, quiçá escondido num torreão entre as gárgulas, o suplício de Jacques de Molay, ali perto, ou o casamento de Bonaparte com uma pouco provável Josefina. E dali, a vista para a Rive Gauche, de Sartre e Levi Strauss, de alfarrabistas, pintores e poetas parnasianos, Toulouse-Lautrec ou Edith Piaf.
E os versos de Eluard:”et d’abord j’ecriverai ton nom: liberté”.
Arde Paris e ardem séculos de holográficas epopeias e insuportáveis misérias. Não arderá a memória, pois se para glória de Deus foi feita esta glória dos Homens, do engenho dos Homens ressurgirá de novo a silhueta gótica da vetusta e senhorial catedral.


Maria Alberta Menéres

Leio no Twitter que morreu a professora e escritora Maria Alberta Menéres. Recordo-a como minha professora de Português na Escola Preparatória Pedro de Santarém, em Benfica, nos idos de 1971, e as suas exaltantes aulas nas quais descobri o gosto por Homero, tendo com prazer, e pela sua palavra e energia descoberto as aventuras de Ulisses nessa tortuosa mas trepidante viagem para Ítaca que ela nos desfiava como se para lá nos transportasse. Pedagoga, possuidora dum sorriso envolvente, é com mágoa que a vejo partir, exemplo maior dum tempo de professores missionários em prol da Educação e da Escola como formadores de Cidadãos. Ulisses voltou a Ítaca e a professora Maria Alberta, sorrindo, entrou no Olimpo.

domingo, 14 de abril de 2019

Phubbing, ou o medo de existir

Estão a ver quando quatro ou cinco pessoas estão à mesa de um café e ninguém fala com ninguém com os olhos postos no telemóvel? Estamos perante uma nova doença da classe das esquizofrenias chamada phubbing, onde o que o que se passa para lá do retângulo mágico é a realidade e a realidade o seu avatar.
Vivemos tempos de mudança. Vidrados na Sarjeta Mágica que nos diz quão verdadeiras são as notícias falsas, cá vamos arregimentados pelo Big Brother que já não está watching you mas nos devorou, apoderou da alma, filtrou a realidade, tornou a democracia um depositório de likes ululantes e de forma desvairada odiando e amando tudo o que mexe várias vezes ao dia, seja o clube de futebol, a política ou o video amador do amigo, tudo entrecortado por muitas selfies, a comer uma lasanha, a ver o por do sol na praia, com o Toy ou o professor Marcelo, numa perturbadora necessidade de mostrar. 
E no meio de tudo, não desligar do eletrodoméstico mágico, não se vá perder um comentário, uma "boca" ou a salvação do mundo entre duas imperiais ou um zapping na televisão.
Ele é nas paragens de autocarro,  nos cafés, nos centros de saúde ou nos cabeleireiros, como sarna incurável umbilicalmente ligando-nos a tal mundo. Por lá passam os novos hedonismos, a vaidade pessoal, a solidão de muitos que nesse novo confessionário se refugiam ante os altares dos download. Morre alguém? O RIP na rede social chora o defunto, com smileys adequados e gifs à escolha. Há uma festa de anos? Cria-se um evento no Facebook. Quer-se dar para uma causa para estar na moda? Promove-se um crowdfunding que muitas vezes não passa do contributo virtual do promotor, mas nos deixa com o espírito filantrópico do Live Aid de centro comercial. É este o Admirável Mundo Novo, paradoxalmente dito de era da comunicação mas onde provavelmente se janta em família (quem ainda janta em família...) a olhar para o ecrã mágico e sem nada para dizer ou partilhar.