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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Scotturb em Sintra: acabar com o transporte de gado!

É demais e persistente a forma como a Scotturb trata os passageiros que andam sobretudo nas carreiras turísticas- o 403 e o 434.
Carros com excesso de passageiros transpirados que muitas vezes fazem viagens de mais de 1h em pé e aos encontrões, lotação ultrapassada, passageiros com passe que por vezes não podem entrar nos carros por estarem demasiado cheios, distração dos motoristas que nem sempre param nas paragens ou fazem orelhas moucas. Enfim, um inferno digno do Terceiro Mundo. Isto com bilhetes para o Cabo da Roca a 4,25 euros, horários ou muito espaçados ou muito próximos, falta de carros depois das 20h, e tudo o mais que se possa imaginar. 
No período escolar, o drama do transporte para a Sarrazola e EPAV, tudo em péssimas condições, com o ar condicionado nem sempre ligado e motoristas que se já vão arranhando o inglês ainda estão muito longe de prestar um serviço de qualidade.
Quem pôe a Scotturb na ordem?


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

10 Sugestões para melhorar o Ambiente em Sintra

Elevado a direito nas últimas décadas, o direito a um ambiente limpo e sustentável foi-se alargando e interiorizando nas opiniões públicas e publicadas, e é particularmente sensível em zonas de transição entre a selva de betão e a paisagem classificada, como é o concelho de Sintra. Na época do automóvel, da cacofonia sonora e visual, da suburbanidade, a que prosaicamente chamamos áreas metropolitanas, Sintra fica “entalada" entre várias realidades, continuando a subsistir muitas tarefas urgentes e a faltar uma cultura de procedimento interiorizada e enraizada. Fraquezas continuam ainda por debelar, e de forma telegráfica deixaria aqui 10 delas cuja resolução em muito contribuiria para melhorar a qualidade de vida em Sintra:
1-A deficiência e semântica do planeamento, e dificuldade em levá-lo à prática, fora dos relatórios e powerpoints;
2-A continuada falta de solução para a questão da orla costeira e das arribas instáveis;
3-O conflito entre entidades, planos, e repartições disputando a gestão administrativa do território, na prática contribuindo para a ineficiência, em benefício do infractor;
4-A precária subsistência de corredores verdes, bem como a invasiva pressão da malha urbana na “fronteira” de Chão de Meninos/Ouressa, só não devassada dada a crise e abrandamento no sector do imobiliário;
5-A falta de meios para combater a introdução de espécies invasoras, não obstante algum trabalho levado a cabo pela Parques de Sintra-Monte da Lua, na sua zona de jurisdição;
6-A falta de acções de monitorização e de equipas fitossanitárias e florestais suficientes e devidamente apetrechadas;
7-A regularização das ribeiras com impermeabilização ou encanamento das linhas de água, tendo a errada política dos anos 90 levado a situações de difícil reparação, sobretudo nos núcleos urbanos;
8-A falta duma Carta do Ruído eficaz, e que tenha em conta as diversas realidades em presença;
9-A ainda insuficiente aderência à recolha selectiva de resíduos, produto de fraquezas na educação ambiental das populações;
10-A subsistência de depósitos selvagens de sucata e vazadouros, e a pouco eficaz repressão de tais práticas, com reflexo na paisagem e qualidade de vida.
Eis alguns tópicos, que, a não serem resolvidos, podem vir a criar muito mau ambiente…
 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O mundo visto do Legendary



Passou a sopa de legumes, com leve baforada caseira a legumes e infância. Passaram três imperiais, sem gás, promessa de nova rodada a confiar no gás da botija.Ao canto, dois portáteis dialogam silenciosos com seus melancólicos donos, ausentes frente a bicas pingadas, almas reféns de uma qualquer vodka preta.
Em final de tarde, a vetusta vila torce o nariz e promete o arrastar do Outono, já com cheiro a âmbar e pinho. É a avalónica transpiração da serra lunar, recortada entre palácios, acácias, travesseiros e armadilhas a diabéticos incautos, que dolentes passam em promontorial peregrinação.
Passa um japonês. Sorri. Sorriem sempre, os japoneses,milenar truque a esconder emoções, em busca duma foto (hoje selfie) para mais tarde recordar. No dealbar das sete, as ruas ficam vazias, num desmaio de Vida. Há muito não há Vida, sobejando holográficos passageiros em transumância pela Volta do Duche, bebedores de almas e  ausentes dum espaço sem tempo.
Ameaçadora, a torre da Câmara fixa-nos, prometendo pela noite soltar uivantes ogres, ou talvez duendes, sem guia de remessa ou despacho autárquico. Olha-nos, a rameira, em rendilhados contornos, guardada por um leão-rei, e ora ninho de águias. Três mesas sentam figuras em trânsito, clientes, alguém lhes chama. Ao canto, uma guitarra chora. Choram sempre as guitarras. Antes fossem violinos, e os clientes libelinhas, frágeis promessas de serenidade.
Um orvalho tardio tolda os cérebros e convida à caverna-refúgio, da casa ou da alma. Só nocturnas promessas de amor ou esconsos encontros pelas vielas dirão se assim é, ou se uma etérea felicidade invadirá os silêncios e as esperas sem promessa.
Cristo morreu, Marx também, Rimbaud arrasta-se numa labiríntica revolta, e Sintra, melancólica, observa a valsa de gambozinos espectrais, antevendo noites redentoras e silenciadas paixões.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Visita do Diabo


NOS 48 ANOS DO INCÊNDIO DA SERRA DE SINTRA
 



6 de Setembro de 1966, Sintra era notícia  na imprensa nacional e estrangeira, violento fogo lavrava com intensidade brutal na Penha Longa, Lagoa Azul e Capuchos, favorecida por elevadas temperaturas e constantes mudanças de vento. Seteais, Monserrate, a Pena e até S. Pedro, estavam em risco, e todos os corpos de bombeiros do distrito de Lisboa mobilizados, aos quais se juntaram homens das Caldas, Elvas e Leiria, forças militares e civis, num total de quatro mil homens. Sitiada, Sintra era pasto das chamas que assassinas cruzavam o ar e a vila de turistas e veraneantes transformada em quartel para uma batalha que durou seis dias, lançando cinzas e fumo a quilómetros, sob um clarão enorme e infernal.

Por esses dias, Luís fazia a tropa em Queluz, a vida do quartel repartida entre serviços rotineiros e a angústia por uma chamada para o Ultramar. Aos vinte anos e noivo da Angelina, a oficina de torneiro do tio haveria de chegar para começo de vida, se tudo corresse bem, uma casa em Queluz estava debaixo de olho. O incêndio apanhou-o no quartel, o Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa de Queluz, onde durante toda a manhã do dia 6 se escutaram sirenes. A Emissora relatava danos na vertente de Cascais, mas por toda a serra focos se espalhavam incontrolados, populares com ramos de árvores, cansados e impotentes, faziam o que podiam. Preparava-se para almoçar uma feijoada quando o comandante de batalhão mandou formar na parada, era preciso acorrer ao fogo, todos os meios estavam a ser mobilizados. Reunidos em viaturas, saíram a dar apoio. A abundância de mato por limpar ajudava a propagar as chamas, Luís, com mais alguns homens foi enviado para perto da Peninha, se bem que se denotasse no tenente que comandava insegurança sobre onde atacar e quando. Os comandantes dos voluntários dividiam-se sobre a frente prioritária, apagado num lado por viaturas em idade de reforma, reacendia logo noutro, e zonas antes cerradas eram agora clareiras incandescentes. Envolta num braseiro, a Tapada do Mouco já pouco tinha de verde. O Antunes e o Fernandes, do pelotão de Luís, rudes e habituados à mata, ajudavam a dar luta, inglória porém, Lúcifer parecia ter-se mudado para Sintra levando o inferno até lá. Nessa noite, pernoitaram na serra, poucas e inseguras horas, senhoras do Penedo alcançaram leite e pão com presunto. Passando no local, um jornalista dizia ao major que se falava em decretar o estado de sítio, e mandar vir homens de Santa Margarida, tais as proporções que o fogo tomara.

Durante todo o dia 7, exaustos e sem coordenação, Luís e os camaradas quais baratas tontas, acorreram aonde o tenente ordenava, a chuva de Setembro, que tão necessária era, tardava em aparecer. Segundo os comandos, cinquenta quilómetros estariam sob o pasto das chamas, vestígios na Lagoa Azul indiciavam origem criminosa. O Antunes transpirava, de galho na mão, asfixiados pelo fumo, dois cabos tiveram de ser assistidos e voltar para o quartel. Luís fazia o que podia, pensando quando tudo terminaria. Todo o dia a serra ardeu. Chegada a noite, o clarão laranja do apocalipse voltou a sentir-se no seu belo horrendo, persistente, o fogo levava a melhor. Motobombas dos Lisbonenses passaram por eles em correria e reposta a água necessária, concentraram-se num local elevado, mas perigoso.

Temerário, o tenente mandou avançar para o Alto do Monge, tentaria um corta-fogo, e aberta uma frente, combater fogo com fogo, esse inimigo sem pernas nem balas, a estratégia pareceu adequada. Todos os homens se colocaram no epicentro do incêndio, bombeiros e civis protegiam as povoações. Aos poucos, perdiam-se cem anos de floresta, visto de Cascais, era o juízo final. A dada altura, o Antunes gritou por trás dele, uma mudança do vento criara nova frente ali perto. Luís ficou apreensivo. Fogo pela frente e pelos lados, uma coluna de fumo por trás, o tenente ordenava que se mexessem, ele próprio tentava posicionar-se. Mais vinte e um camaradas estavam no penedo perto da anta do Monge, por ironia chamado Cerro da Queimada. Aumentando o calor e o fumo, deixaram de se ver uns aos outros, gritos lancinantes abafados pelo fogo invasivo anunciavam o Inferno colhendo novas vítimas, impotentes anjos naquele Setembro negro. Afogueado, Luís viu-se perdido, já não via nem ouvia os camaradas. De relance, pensou em Angelina, olhou o céu, vermelho, e absorto sentiu-se levar, colhido e febril. Possuída, a serra de Sintra ganhava mártires e os homens, heróis. Até que Lúcifer, desperto, regresse, ameaçador e inclemente, faminto de carne esturricada e impotente. Regressará?
 
 

 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Recordar o Professor Joaquim Fontes



Passam no dia 10 de Setembro 54 anos da morte do Prof. Joaquim Fontes, antigo presidente da Câmara de Sintra e o único que morreu no cargo, em 1960.

Joaquim Fontes (1892-1960) foi professor da Faculdade de Medicina, arqueólogo, e também vereador e presidente da Câmara de Sintra (1958-1960), secretário-geral, conservador do museu de Odrinhas, sócio honorário e presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses durante dezassete anos seguidos. Docente de Fisiologia e Obstetrícia, desde 1911 que o professor Joaquim Fontes começou a chamar a atenção dos arqueólogos, não só nacionais como estrangeiros, para os trabalhos a que se dedicava. O seu ramo predilecto era a Pré-História, e nesta o Paleolítico Superior mereceu as suas preferências. Levou os resultados das suas investigações a congressos internacionais (França, Suíça, Espanha) e o seu campo de pesquisa não se limitou ao nosso país, pois tomou parte em escavações em França e em Espanha.

Em Sintra organizou Jornadas Arqueológicas com muito sucesso; nelas não só tomaram parte cientistas portugueses como também estrangeiros. Foi por sua iniciativa que se criou o Museu de Odrinhas, na sua versão inicial, numa altura em que reunir uma série de objectos arqueológicos no local ou proximidades do lugar onde tiveram expressão ainda não estava bem arreigada no país. Assim, no Museu de Odrinhas encontram-se também objectos que foram encontrados nas ruínas de São Romão, em Lourel, e que foram deslocados para lá, como um túmulo cupiforme romano (retirado das ruínas da capela) e uma ara romana (encontrada no altar). Algumas das poucas notas históricas e etnográficas escritas sobre a freguesia de Algueirão Mem Martins foram escritas pelo Prof. Joaquim Fontes. No seu livro 'Mem Martins, Notas Históricas e Etnográficas' ele descreve as Festas da Nossa Senhora da Natividade, os saloios, a história de Mem Martins e a sua agricultura nos séculos XVIII a XX. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Minhas memórias de João Justino



Conheci o comendador João Justino, recentemente falecido, em Novembro de 1989, era eu jurista no Departamento de Urbanismo da Câmara de Sintra e ele candidato à presidência da mesma. Por ironia, semanas antes tinha-me sido distribuído um processo relacionado com um muro por si reconstruído em Colares, alvo de polémica jornalística e contestação local, o que levou na altura o comendador a perguntar-me, numa visita aos serviços: “gosta de tourada?”, ao que respondendo com um "às vezes", o levou a rematar: “é que, sabe, estou rodeado de touros e toureiros, de quais é que quer ser?”.

Ganha a eleição, durante dois anos pude acompanhar de perto a forma muito própria como abordou a sua presidência, assumindo o poder efectivo quando muitos o haviam escolhido para rainha de Inglaterra cerimonial, papel que claramente não era o dele, acabando por sucumbir a cascas de banana que a sua falta de preparação jurídica e política facilitaram. Ficou-me na memória o dia em que, estando numa reunião com ele e chegada a notícia da sua perda de mandato (por questões ridículas, que noutras situações e com outros jamais levariam a tal desfecho) teve de retirar em poucas horas as suas coisas do gabinete, perante o ar triunfante do seu vice,  que, sem nada fazer, recebeu o poder de bandeja.

Muitas foram as peripécias daqueles dois anos em que por força das minhas funções me vi envolvido, das guerras com o vereador Ferreira dos Anjos ao embargo de obras de familiares e às acaloradas sessões de Câmara, num período de grandes polémicas em torno de licenciamentos de obras com a construção em Sintra no seu auge (no bom e mau sentido). Poderoso como capitalista e self made man, que constantemente destacava as suas origens humildes, mas também a jactância do seu poder, João Francisco Justino chegou à Câmara num tempo que já não era o seu. Nos últimos anos, passado o período frenético das guerras de 1990-92, por dever de ofício tive de formatar um embargo à sua casa de Colares, já não era presidente, o que o levou a deixar de me falar (não obstante ter ele muitas ordenado embargos motivados por estados de alma), como se fosse por vontade minha ou capricho pessoal que o fazia.

Os homens são a sua circunstância, e João Justino, criado serralheiro e feito comendador, presidente e capitalista, teve a sua, e num certo espaço e tempo sintrenses marcou as últimas décadas, com um feitio truculento onde sempre transpareceu o homem do povo que ascendera socialmente. Toureando e toureado.