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sábado, 26 de dezembro de 2015

A Cultura em 2015: no Mundo, em Sintra e na Alagamares


Em 2015 Palmira foi destruída,e partiram alguns dos nossos melhores, de Anita Ekberg, Demis Roussos, Colleen McCullough, Gunther Grass, Eduardo Galiano, B.B.King, John Nash, Laura Antonelli, Christopher Lee, Omar Shariff, Chantal Ackerman ou André Glucksmann, a Manuel Lucena, Manoel de Oliveira,  Herberto Hélder, Mariano Gago, Ana Hatherly, Maria Barroso, José Fonseca e Costa ou, aqui em Sintra, o arquitecto Francisco Castro Rodrigues.Contudo, a arte chocalheira passou a Património Mundial, e Óbidos e Idanha a Nova viram o estatuto de vilas literárias reconhecido pela UNESCO.

Em 2015 passaram 600 da conquista de Ceuta e da morte de D. Filipa de Lencastre, 500 da morte de Afonso de Albuquerque, 100 anos da edição do primeiro numero do Orpheu e o centenário da morte de Ramalho Ortigão, e em Sintra os 90 anos da criação da freguesia de Queluz, os 80 da morte de mestre Artur Anjos Teixeira, os 70 da construção do Cine-Teatro Carlos Manuel, os 60 da inauguração do Hotel de Seteais, os 40 da inumação de Ferreira de Castro na Serra de Sintra e, sobretudo, os 20 anos da elevação de Sintra a Património da Humanidade, número redondo que impõe festa e regozijo, mas também responsabilidade, segurança na acção e firmeza no caminho a prosseguir.

Em Sintra, permanecem diversas áreas para melhorar. Há porém uma mudança de paradigma com a filosofia de “abrir para obras” acompanhando as recuperações em curso, atitude internacionalmente aconselhada, já se tendo verificado no caso do Chalé da Condessa e no castelo dos Mouros, iniciou-se um processo de classificação de árvores e arvoredo relevante, e têm-se feito esforços- ainda incipientes- para ordenar o território, com a Área de Reabilitação Urbana aprovada e as ténues alterações ao trânsito.A revisão da política de preços para as visitas aos monumentos permanece como um ponto a alterar, bem como a questão da mobilidade.

Em Sintra, durante 2015, destaque para o Periferias, festival que se vai afirmando, reunindo geografias de afectos em torno do teatro como arte, bem como para o Cortex, um festival de curtas metragens diferente, e o Festival de Sintra, na sua 50ª edição. Concluiu-se o ciclo sobre Raul Lino, com um conjunto notável de comunicações, ciclo que  Rodrigo Sobral Cunha brilhantemente coordenou, abriram a casa da Marioneta na Agualva, os jardins da Ribafria e a Quinta Nova da Assunção, em Belas, e o nome de Lívio de Morais foi atribuído à Casa de Cultura de Mira Sintra. Foram assinados protocolos para revitalizar o antigo Museu do Brinquedo, futuramente o News Museum, o Pavilhão do Japão, futuro Centro Cultural Kobayashi, e foi inaugurado o Centro Mitos e Lendas, um espaço interactivo no posto de Turismo na Vila. Associações como o Danças com História e a Byfurcação viram ser-lhes atribuídos espaços em S. Pedro, e decorreram eventos como o Lumina, o Festival de Estátuas Vivas, o IX Encontro de Bandas Filarmónicas, a XXIV edição da Mostra de Teatro nas Escolas e o Sintra Press Photo.Os 20 anos da elevação de Sintra a Paisagem Cultural da Humanidade propiciaram igualmente a abertura dum Gabinete dedicado ao Património Mundial e de um Centro UNESCO em Sintra.

No âmbito associativo, Jorge Telles de Menezes voltou a revitalizar as tertúlias “Meninos d’Avó”, 10 anos depois de terem sido criadas, e grupos como a Byfurcação e o Tapafuros deram vida aos jardins de Sintra e da Regaleira. João Rodil lançou “Os Dias do Corvo”, Jorge Menezes a colectânea de poesia “Suma Uma”, Raquel Ochoa o romance “As Noivas do Sultão”, Filomena Marona Beja “Um rasto de alfazema”, Miguel Boim, o Caminheiro de Sintra, "Sintra Lendária", Miguel Real "Vieira, o Céu na Terra: Nos 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, uma homenagem" (com Filomena Oliveira) "Portugal: Um País Parado no meio do Caminho (2000-2015)" e "O Último Europeu: 2284", Sérgio Luís de Carvalho "Quem se atreveu a tanto?" e "Traidores e Traições na História de Portugal" e eu próprio "Histórias Com Sintra Dentro".

A Alagamares colaborou ou promoveu em muitas dessas iniciativas: logo a 15 de Janeiro estivemos com os Meninos d’Avó; a 12 de Fevereiro promovemos a exibição no MU.SA do documentário de Miguel Ferraz “Barros Queiróz, figura moral da República”, sobre o homem que proclamou a República em Sintra; a 21 de Fevereiro decorreu no MU.SA o debate “O Islão e o Ocidente”, com José Rodrigues dos Santos, Basílio Horta, Ana Gomes, José Manuel Anes, Saoud Eltayari e Mamady Sissé e em 4 de Março novo debate sobre Sintra nos 20 Anos de Património Mundial, com Sidónio Pardal, Cardim Ribeiro, Nunes Correia, Basílio Horta, João Rodil e Gerald Luckhurst.

A 9 de Março decorreu o 10º aniversário da Alagamares no Salão de Galamares. Foram homenageados Miguel Real, o teatro TapaFuros e a Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, e actuaram o Grupo Coral de Queluz, Rui Mário, Cláudia Faria, Paulo Campos dos Reis e Susana Gaspar, além das bandas Paradoxo e Reckless Society. E o ano continuou a 26 de Março com a tertúlia dedicada a Ruy Belo no Legendary Cafe, em parceria com a Caminho Sentido e o Tapafuros, uma visita botânica a Monserrate em 29 de Março, guiada pelo arq. Gerald Luckhurst, a invocação da Geração d’Orpheu na Quinta do Relógio pelo escritor João Rodil em 7 de Maio, a visita a Tomar em 30 de Maio, a apresentação em 23 de Julho no Café Garagem da obra de Raquel Ochoa “As Noivas do Sultão”, a ida colectiva em 25 de Julho à Quinta da Regaleira para ver “Os Lusíadas” pela Musgo Cultural, a visita ao Centro Histórico de Belas a 12 de Setembro, um evento dedicado à Guiné-Bissau, no MU.SA, a 26 de Setembro, em colaboração com a Uno e a Éter Cultural, a apresentação em 5 de Novembro no MU.SA do livro de Filomena Marona Beja “Um rasto de alfazema”, a caminhada na serra de Sintra com observação de cogumelos a 21 de Novembro e a homenagem aos 40 anos de vida literária do escritor Luís Filipe Sarmento, com jazz, fado e mais de 150 participantes no passado dia 19 de Dezembro.
Cultura, mais que coleccionar eventos, é patrulhá-los no sentido de criticamente deles bebermos informação e promover "inscrição", no sentido de contribuir para mudar mentalidades, comportamentos e tiques, no avisado reparo de José Gil.  No silêncio das nossas consciências, na ponta das nossas canetas ou no grito das nossas aspirações, em 2016 sejamos dinâmicos em nossa casa e na nossa comunidade, acordados que não parados, activos que não passivos, conscientes que não pacientes, pugnando pela claridade que faz o Dia, não assistindo apenas ao anémico fluir da espuma dos dias.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A primeira árvore de Natal

Do meu livro "Histórias Com Sintra Dentro"


Os príncipes já estavam no salão, impecáveis nos fatos tiroleses que o tio Augusto oferecera para a recepção que a rainha daria nas Necessidades ao corpo diplomático, um presépio gigante, ladeado por serafins dourados adornava o salão do trono. Pedro terminara as aulas de geografia com o visconde de Carreira, e como sempre, quedava-se sorumbático e calado, seria rei um dia, e o visconde vigiava-lhe a postura. Intrigado, Lipipi, contemplava um barco numa garrafa, tentando descobrir como o teriam enfiado lá dentro. Pelas sete horas, com o salão profusamente iluminado e decorado com esculturas que Fernando comprara em Paris, começaram a chegar os embaixadores das nações amigas, ministros e convidados. O país estava pacificado, depois da convenção de Gramido, e a família real ocupava-se com a educação dos filhos, sete já, com o nascimento de Augusto, em Novembro.

À hora marcada, a rainha entrou na sala, com Fernando a seu lado, duas camaristas secundavam-nos. As várias gravidezes haviam-na tornado obesa, vinha enfiada num vestido roxo que não lhe favorecia as formas,   fardado de general dos exércitos, com o longo cabelo louro em desalinho, D. Fernando fazia suspirar as cortesãs. Era um pinga-amor, respeitador de Maria, porém, e zeloso da educação dos filhos. Nessa manhã estivera em Mafra, montando o Monarch, avisando no palácio que se preparassem, pois faria uma surpresa durante a recepção da noite. Tinham nascido poldros à égua da rainha, iria vê-los e passaria pela Pena, a inspeccionar as obras, carros de bois transportavam por esses dias blocos de pedra de Ançã para a ala sul, onde já se desenhavam os contornos do palácio.

Na sala, o príncipe Augusto, irmão de Fernando, de visita para o Natal e conhecer o novo sobrinho, a quem puseram o seu nome, conversava com o barão Eschwege, que dava pormenores sobre a construção da Pena, noutro canto, o visconde de Carreira comentava com a marquesa de Lavradio como a rainha ficara desgostosa com o óleo que Beaulieu pintara retratando os príncipes, achando-os pouco favorecidos.Após as boas vindas da rainha, Fernando, num português atrapalhado, pediu silêncio, e mandou que entrasse o coro de S. Vicente de Fora, que perfeitamente afinado, entoou canções em canto ambrosiano. No final, também D. Fernando fez questão de cantar uma melodia austríaca, Stille Nacht, Heilige Nacht, para tanto chamando ao piano Manuel Inocêncio, professor de música dos príncipes. O ambiente, de início formal e protocolar, estava agora desanuviado.De seguida, D. Fernando pediu a palavra:

-Majestade, Excelências, se não vos importais, passemos à biblioteca, tenho uma surpresa para todos vós!

Era a altura de desvendar o mistério da ida a Sintra de manhã. Aberta a sala contígua, até então fechada, um pinheiro gigante, profusamente engalanado, deslumbrava, repleto de velas e doces. Vários candelabros luminosos e uma crepitante lareira aqueciam o ambiente, irrompendo a sala numa salva de palmas, em sinal de admiração.

-Em Coburgo, conta-se a história de São Bonifácio, que certo dia salvou um príncipe que ia ser sacrificado num bosque pelos druidas. –explicou -Derrubada a árvore onde o príncipe ia ser imolado, nasceu no local um pinheiro, que para nós, simboliza a paz. É tradição desde então colocar em todas as casas uma árvore pelo Natal, como símbolo de fraternidade!

Extasiados, Lipipi e Pedro correram para a árvore luminosa, enquanto a rainha se deteve a apreciar as velas que Fernando, com o auxílio de Eschwege e dos criados, passara a tarde a colocar. Mas não ficavam por ali as surpresas. A um bater de palmas, um indivíduo com enormes barbas brancas entrou na sala, transportando um saco:

-Eis um Weihnachtsmann, o homem que no Natal premeia quem praticou boas acções, distribuindo prendas às crianças! -explicou, deitando um olhar misterioso na direcção dos filhos. Perante a alegria de Lipipi, futuro rei D. Luís, seguiu-se a distribuição de presentes que o homem das barbas ia tirando do saco e que Fernando entregava, um a um. Para Maria, um vestido, do atelier de madame Clochard, em Paris; para Pedro, livros com a anatomia de animais, oferta da rainha Vitória, que adorava os primos portugueses, um chapéu de almirante para Luís. Nenhum convidado foi esquecido, e todos foram presenteados com aguarelas de flores e pássaros, pintadas por Fernando em Sintra durante o Verão.

Naquela noite, serena e feliz, iluminava-se pela primeira vez uma árvore de Natal, sendo Fernando o weihnachstmann do Norte, invadindo as Necessidades naquele Natal português. Finda a memorável noite, a todos saudou, de coração cheio:

-Feliz Natal para todos, meus amigos!Frohliche weihnachten!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

D. Fernando II- o rei de Sintra partiu há 130 anos


Passam a 15 de Dezembro 130 anos do falecimento de D. Fernando II, o rei de Sintra.Aqui reedito um texto por mim inserto no meu livro "Histórias Com Sintra Dentro", onde de forma romanceada reconstituo o último dia de vida do monarca.



Envolvo num grosso jaquetão e com o chapéu enterrado até às orelhas, desafiando o invernoso Dezembro, D. Fernando saiu das Necessidades com ar cansado e o rosto deformado pela doença. Elise não quis ir, mas nem o frio e as dores o demoveram da récita em S. Carlos, para ver “Os Huguenotes”, de Meyerbeer. S. Carlos era a sua segunda casa.Em S. Carlos estivera com Maria, em S. Carlos se apaixonara por Elise, logo enviando um bilhete ao Fraschini, para que lha apresentassem.

-Para S. Carlos, Majestade? -perguntou o cocheiro, reverente.

-Não, ainda não…-respondeu, com voz trémula -Vamos primeiro pelo Rossio, preciso de apanhar ar, vai andando por aí até eu dizer, que ainda falta uma hora...…

Nessa noite estava particularmente melancólico. Lembrava o filho Pedro, precocemente colhido pela morte, a corte, que nunca aceitara Elise, mesmo depois de a fazer condessa, os ódios de Maria Pia e suas fúrias latinas. Regressara recentemente da Alemanha, onde visitara Antónia, em Sigmaringen, e na véspera voltara a falar com o Serpa Pimentel sobre o testamento, um lento adeus estava já em curso.

Lisboa estava deserta nessa noite fria, a récita não esgotaria e as tosses em S. Carlos seriam poucas, por certo. O elenco era razoável e o libretto em torno dos amores de Valentine e Raoul. Como Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Daphne e Chloé. Ou Fernando e Elise…

Elise. Antes de sair das Necessidades tomaram chá na biblioteca. Passara o dia cansado, ofegante, olhava e em volta via sombras desfocadas, mirando-a,sentada na bergére roxa, a custo lhe desvendava o vulto. A mão quente e macia confirmava a certeza duma paixão de anos, flirtando-a primeiro, e desposando-a depois, contra tudo e contra todos.

-Fernando, não devia sair nesse estado! –advertiu Elise, maternal. As noites estão frias e…

-Mas a música é quente, Elise. Só a música me aquece, por estes dias….

E fechando os olhos, relembrou outras noites em S. Carlos, os saraus na Pena, Paris. Arfando no cadeirão, pareceu escutar uma orquestra invisível, e qual maestro regendo, as mãos dançaram no vácuo, trémulas e já magras de carne.

-Elise, diga-me, meu anjo, têm vindo flores da estufa da Pena?

-Todos os dias, Fernando. Apesar do Inverno, todos os dias um estafeta vem trazer plantas da feteira, para os arranjos do palácio.

O velho rei sorriu. De todas as obras a que se dedicara, nenhuma como essa lhe dera tanto prazer. O Eschwege e o Cifka eram homens de bom gosto, mas fora ele quem idealizara sala a sala, pintura a pintura, um portentoso ninho à semelhança da sua Gotha natal. Pouco lá ia, agora, a viagem cansava-o e Kessler desaconselhava, um resfriado traiçoeiro poderia agravar-lhe a saúde, já frágil.

-Deve estar lindo, o jardim...-pensou. E lembrou o eucalipto plantado no dia do casamento, marco de amor de almas que tardiamente se encontravam. Ele já viúvo, estrangeiro num país de querelas, dedicado aos seus quadros e partituras, ela, a jovem promessa lírica que um dia o Lusitânia trouxe a Lisboa.

Tossindo, pediu mais um chá, Elise insistiu que se deitasse, cancelando S. Carlos. Sentia náuseas, incómodas dores no rosto, como se uma tenaz castigadora o apertasse. Resistiu, há já dois meses pensava ver essa récita. Levantou-se, e saiu na berlinda, cearia no regresso.

S. Carlos deslumbrava, com a parafernália de dourados, serafins e veludos. D. Fernando ocupou o seu camarote, enterrou-se no libreto, e ignorou os cortesãos bajuladores, que o saudaram da plateia. A função foi um sucesso, sete minutos de palmas e chamadas ao palco, noite cheia, afinal de contas. Ao sair do camarote, tropeçou num degrau e caiu desamparado, batendo com a cabeça na parede. Ainda atordoado, pareceu-lhe ver, disforme, uma valquíria que lhe estendia a mão, ao lado uma outra tocava harpa, e sentiu-se levitar, lentamente, um violoncelo invisível chorava a sua música favorita. Deu a mão à valquíria e dançando com as mãos, regendo a orquestra, suspirou, sorrindo, antes de entrar em coma: Elise….