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domingo, 28 de outubro de 2012

Crime no Hotel Promontório



Na escarpa da Azóia, ululante em noite de tempestade, António Soares ateava o lume no salão do Promontório, o pequeno hotel junto às arribas, ao longe, rotineiro, o farol pestanejava ao mar revolto. A televisão, interrompida por interferências, anunciava o assassínio essa tarde em Colares de Mário Esteves, funcionário dos correios, o criminoso estava a monte e a polícia de imediato montara uma caça ao homem. Apesar de ser época baixa, quatro hóspedes acolhiam-se junto da crepitante lareira, enquanto António servia um licor de poejo aos clientes. A noite prometia borrasca, muita chuva e ondas de sete metros, o vento de nortada convidava a uma bebida junto ao lume e uma fatia do bolo de nozes que Mafalda tão bem fazia. Os clientes, chegados todos essa tarde, eram o coronel Mendes Cachado, um solteirão em busca de sossego, Jorge, um finalista de Arquitectura, e a doutora Áurea Soveral, uma juíza aposentada, atraída pela beleza das arribas. A meteorologia anunciava vento forte para a noite, o jantar seria às oito, para, querendo, recolherem cedo, Áurea, porém, desafiava o coronel para um bridge ao serão, acompanhado por uma reconfortante bebida.
Posto o jantar, passava já das nove quando inesperadamente a campainha tocou. Um indivíduo de gabardina branca, completamente encharcado, pedia para falar com os donos do hotel, coisa urgente. Era o inspector Toscano, da Polícia Judiciária, com notícias preocupantes: o assassino de Mário Esteves, o tal que a televisão noticiara, andava a monte na zona, era preciso prevenir, não se escondesse ali ou molestasse algum hóspede, uma agenda esquecida no local do crime mencionava o nome “Promontório”. Após secar-se, o inspector bebeu uma poncha quente, que António lhe ofereceu, e acolheu-se por momentos à lareira, a aquecer-se, os demais jogavam bridge e só Jorge, a um canto, lia um romance compenetrado, não se apercebendo da conversa, tirara uns dias para descansar, a conselho médico.
Um relâmpago, seguido de um ruidoso trovão e a luz eléctrica faltou subitamente na casa fustigada pela chuva. Dez minutos levou António até encontrar um candelabro, interrompendo a partida de bridge, a luz demorou a ser reposta, mortiça, com a trovoada açoitando o breu da Azóia. Servia António bebidas aos presentes quando Mafalda soltou um grito estridente: o corpo da doutora Áurea jazia no chão, com a força, o vento abriu uma janela, nesse instante, fazendo esvoaçar as cartas e quebrando um copo no chão. O inspector, que, se prestava a interrogar os presentes antes de a luz falhar, baixou-se e examinou a falecida. Estrangulada, apurou. O assassino estava entre eles, e fora rápido. Toscano recolheu indícios, e tentou comunicar com a Polícia, mas a rede estava em baixo, estavam isolados e, pior, em perigo. Intrigado, o coronel Cachado interpelou o polícia:
-Diga-me, senhor inspector, porque razão o assassino desse tal Mário Esteves haveria de vir para aqui?
-Lembra-se de um caso ocorrido à uns anos, em Sintra, um rapaz que foi violado pelo pai e irmão adoptivo, até veio nos jornais? Pois o Mário era o tal pai adoptivo, e temos razão para crer que o assassino seja o rapaz, um tal José Pimentel, e ande atrás das pessoas ligadas à sua adopção para lhes fazer o mesmo que já fez ao pai. Vingança será o móbil, sabe…
-Então, mas o que é que a doutora Áurea tinha a ver com isto? -sondou o coronel, acendendo um cachimbo preto.
-Ela foi a juíza que na altura entregou o jovem ao Mário e à mulher. Daí a referência ao Promontório no tal caderno, o assassino sabia que ela estaria cá por estes dias.
-Então se o móbil para a morte da doutora foi esse, é porque está entre nós o rapaz que foi violentado! -deduziu apreensivo o até ali calado Jorge, a notícia da morte de Mário Esteves deixou-o aparentemente agitado. Enquanto falava, António pareceu reconhecê-lo, já o havia visto em Sintra:
-Você não é parente do Mário Esteves, Jorge? E pela idade, poderia até ser esse filho adoptivo...-lançou, desconfiado.
Jorge ficou surpreendido pela associação e um pouco assustado, emborcando a bebida de um trago:
-Não, António, eu sou efetivamente filho do Mário Esteves, o meu nome é Jorge, Jorge Esteves, mas sou o filho biológico. Era adolescente quando ocorreu esse caso, há mais de dez anos, se soubessem como estou arrependido dessa insanidade. Tive um internamento psiquiátrico, inclusive. O meu pai era alcoólico, perdeu o controle emocional, e está morto agora! Virando-se para Toscano, que escutava atentamente cada palavra, perguntou:
-Acha que o assassino é um dos presentes, inspector?
-É, tenho a certeza, agora! -respondeu o inspector Toscano, puxando duma arma, e apontando-a a Jorge -estás a olhar para ele, canalha! Não te lembras de mim? O órfão que adoptaram para saciar a vossa lascívia nojenta?
O polícia era afinal José Pimentel, o rapaz violado anos antes. A juíza negligente e o padrasto alcoólico já tinham pago pelos seus actos, faltava só o irmão. Há muitos anos não o via, e acabava de se denunciar. O truque de passar por polícia pegara, a providencial falta da luz fora um momento precioso para, depois do velho tarado, se livrar da juíza que o entregara a gente sem moral.
Lá fora os relâmpagos não paravam, no chão da sala, ao corpo inerte da juíza, juntar-se-ia agora outro. O tempo passara, mas José não esquecera. Mafalda, em pânico escondeu-se atrás do aparador enquanto Jorge, sem reacção ficou a olhar para o falso inspector. Já a arma ia fazer nova vítima, quando José Pimentel sentiu atrás da nuca um objecto frio. Toscano, aliás José, virou-se e deparou, surpreso, com o coronel Cachado, armado com uma pistola, que o mandou pousar a arma:
-Tenha calma, José. Compreendo a sua raiva, mas não acha que duas mortes já são demais? - sacando da carteira, identificou-se -Baltazar Martins, Policia Judiciária. Mafalda pensou endoidecer: o polícia não era polícia, e agora o coronel também não era coronel.
Duas horas mais tarde, já a tempestade amainara, a verdadeira polícia finalmente chegou para levar o corpo e prender o assassino, entretanto mantido sob vigilância. Ao cruzar-se na porta com José, Jorge ainda balbuciou um pedido de perdão, a que este não respondeu, chispando desprezo pelos olhos. Extenuados, António e Mafalda iriam finalmente dormir, depois duma noite inacreditável, o Promontório sossegava, depois da tempestade, silencioso e sem clientes. Junto à lareira e ainda confusa, guardando o baralho de cartas, Mafalda virou-se para o marido, que reacendia o lume, e indagou, insegura:
-António, diz-me uma coisa. Tu chamas-te mesmo António, não chamas?

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