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quarta-feira, 29 de junho de 2011

M.S.Lourenço recordado em Sintra a 5 de Julho


Finalmente, dia 5 de Julho, pelas 18h,vai ser inaugurada uma placa comemorativa na fachada da casa onde viveu M.S.Lourenço, na Vila Velha, em Sintra (a poucos metros da Sociedade União Sintrense). A Câmara  e o Centro Nacional de Cultura associam-se, e a Alagamares, representada pelo signatário, já em reunião em Junho do ano passado com o presidente do CNC sugeriu o descerramento de tal peça evocativa, tendo este então diligenciado a sua concretização junto da CMS, o que agora ocorre.
Integrado na programação dos habituais Passeios de Domingo, o Centro Nacional de Cultura, com a participação da Alagamares,efectuou dia 30 de Maio do ano passado  um passeio/homenagem ao escritor sintrense M.S.Lourenço, falecido em 2009, em Sintra.
Esta homenagem ,que teve a  a participação de família e amigos do autor,foi conduzida pela escritora Helena Langrouva e pelo Prof. Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do CNC, e percorreu alguns dos lugares emblemáticos da sua vida e seus preferidos na vila de Sintra."Um aristocrata do espírito", como lhe chamou Guilherme d'Oliveira Martins,um efabulador de realidades heterodoxa,ou o poeta que é, no dizer de Liberto Cruz.
          Helena Langrouva e Oliveira Martins falam de M.S.Lourenço
Sobre ele, escreveu para o nosso sítio a escritora Helena Langrouva o seguinte texto, por ocasião da sua morte:
"Manuel António dos Santos Lourenço, que assinava com o nome literário M.S.Lourenço, nasceu em 13 de Maio de 1936, na Vila Velha de Sintra, onde viveu toda a vida, excepto quando teve missões a cumprir no estrangeiro, até à sua morte, em 1 de Agosto de 2009.
 
        Casa em Sintra, junto à Igreja de S.Martinho, onde nasceu em 1936
Era filho de Manuel António Lourenço e de Maria Alice dos Santos Lourenço. Foi encarregado da Biblioteca Municipal de Sintra (nas instalações do antigo Casino), nos anos cinquenta. Desde muito jovem, era apaixonado por Filosofia, Literatura, Ciência, Artes, em especial a Música. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa (1965), foi professor do ensino secundário privado (Colégio da Cidadela, Cascais), bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Oxford (1965-68), Leitor de Português (1968-1971) nas Universidades de Oxford e de Santa Barbara (Califórnia, E.U.A.), tendo ainda ensinado nas Universidades de Bloomington (Indiana, E.U.A.), e de Innsbruck (Aústria). Era pós-graduado (M.A. - Oxford) e Doutorado (Lisboa) em Filosofia Analítica, tendo-se fixado como professor de Lógica e Filosofia da Matemática, no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa. Dedicou a sua vida à Poesia, à Tradução, ao Ensaio, à Filosofia e ao Ensino. Foi sempre apaixonado por Sintra onde vivia, passeava discretamente, escrevia e meditava a sua obra.
Como filósofo, além de professor de Filosofia, M.S. Lourenço foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia (1999-2004) e director da revista de filosofia Disputatio. Publicou, em livro: A Espontaneidade da Razão; A analítica conceptual da refutação do empirismo na Filosofia de Wittgenstein (Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986, a partir da tese de doutoramento ); Teoria Clássica da Dedução (Assírio e Alvim, 1991). O livro A Cultura da Subtileza; Aspectos da Filosofia Analítica (Gradiva, 1995, editado por Desidério Murcho), resultou de diálogos, no programa Rádio Cultura, da RDP2, com filósofos, homens da cultura e críticos de arte portugueses (entre os quais, João Bénard da Costa, Sidónio Freitas Branco Paes e João Paes ), sobre Diálogo, Lógica e Metafísica, Estética e Filosofia da Arte. De 2003 a 2008 publicou, com a colaboração de alunos, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Departamento de Filosofia e Centro de Filosofia - as aulas de Mestrado em Filosofia Analítica, com os títulos Estruturas Lógicas de Primeira Ordem (2003); Os elementos do programa de Hilbert (2004);Acordar para a Lógica Matemática (2006 – tendo continuado, online, até 2009). Mais recentemente ,publicou, sob o pseudónimo Gribskoff, Fundamentos da Matemática - treze artigos escritos em inglês -, na enciclopédia online de matemática PlaneMath (2008-2009).

Como tradutor de filósofos, escolheu autores de obras marcantes para o estudo da Lógica e da Filosofia Analítica, além da sua tradução do teólogo e filósofo Romano Guardini, O Fim dos tempos modernos ( Moraes, 1964). Traduziu William Kneale e Martha Kneale, O Desenvolvimento da Lógica (Fundação Calouste Gulbenkian, 1972, 3ª edição, 1991, 773 pp. Esgotado), Kurt Gödel, O Teorema de Gödel e a hipótese do contínuo (Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, 2ª edição 2009, 943 pp.) e Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico* Investigações Filosóficas(Fundação Calouste Gulbenkian, 1987, 4ª edição 2008, 611pp.)

Pertenceu à chamada geração de O Tempo e o Modo, com António Alçada Baptista, João Bénard da Costa – que também viveu discretamente em Sintra durante mais de cinquenta anos, Alberto Vaz da Silva, Pedro Tamen, Nuno Bragança, entre os principais. Esteve próximo de todos até ao fim, em especial de João Bénard da Costa (falecido em 21 de Maio de 2009). Em O Tempo e o Modo, revista de pensamento e acção, publicou poemas, ensaios, a tradução de uma parte de Finnegans Wake de James Joyce, I, 3 (nº 57/58, pp. 243-24,Lisboa, 1968). O então jovem escritor Almeida Faria publicou, a este propósito, um artigo sobre a tradução de Finnegans Wake em português (revista Colóquio-Letras, nº 23, Janeiro de 1975, pp. 27-31).Ainda em O Tempo e o Modo publicou a tradução de três breves contos de Samuel Beckett, Imaginação morta imaginando (nºs 71/72, Maio-Junho de 1969), recentemente editados pela revista Ficções (nº 15, Maio, 2006).
          Casa a caminho de S.Pedro onde viveu  e onde será descerrada a placa

Como poeta, publicou em livro, antes de partir para a guerra colonial (1961), na editora Moraes, fundada por António Alçada Baptista, O Desequilibrista (1960), obra de estreia, Fora de Colecção. Seguiram-se, na mesma editora, as duas pequenas colectâneas de histórias - O Doge (1963, assinado sob o pseudónimo Arquiduque Alexis-Christian von Rätselhaft und Gribskov – Tradução de M.S. Lourenço -, reeditado, sob o pseudónimo Alexis Von Gribskoff, Fenda, Lisboa, 1998), Ode a Upsala ou Ária detta la Frescobalda (1964), Depois de ter vivido em Oxford, criou uma nova orientação estética e técnica da escrita poética em Arte Combinatória (1971) e Wytham Abbey (1974). Defendeu o labor e o aperfeiçoamento da musicalidade do verso, da arquitectura musical do poema, a procura da capacidade visionária, através da expressão poética, em particular no livro Wytham Abbey.

A obra poético-literária de M.S. Lourenço demarca um lugar difícil de se definir na literatura portuguesa, pela surpreendente aglutinação e desequilíbrio do real, do quotidiano e do surreal, o nonsense, o humor, o permanente filtro da angústia, a crítica, a encenação e a máscara da própria obra, a irreverência, a liberdade, a interrogação, o enigma, os mitos, o mistério, a procura para-mística ou mística, a certeza da morte, a reflexão filosófica, teológica, metafísica, escatológica, a fantasia, o sonho, a constante criação, recriação e aperfeiçoamento de linguagens, inúmeras alusões culturais, palavras em várias línguas, convergindo na meditação da própria língua portuguesa.

Em Pássaro Paradípsico (Perspectivas e Realidades, Lisboa, 1979) - com ilustrações de Mário Cesariny – cada verso é uma palavra e cada poema construído à maneira de uma composição musical. Em Nada Brahma (Assírio e Alvim, 1991), obra escrita em verso e integrando um texto dramático – retomando o caminho traçado por O Desequilibrista -, procura realizar o ideal da poesia como arte musical, decantando ao extremo a procura do essencial dos seus universos, na poesia que é, na poesia que a si própria se pensa, lembrando o princípio aristotélico do “pensamento que a si próprio se pensa”. A poesia ainda expressão e voz do silêncio, a poesia como som – Nada, em sânscrito – do Todo, Deus – Brahma, em sânscrito, deixando perpassar, em particular neste livro, e dispersamente noutros livros, a presença discreta de Sintra.

Apesar de algumas afinidades com o classicismo num sentido lato, o surrealismo, o pós-simbolismo e o neo-construtivismo, a poética de M.S. Lourenço seguiu um caminho individual, solitário, perseverando na procura, a um tempo, de liberdade, contenção e abertura no pensamento e na palavra.

Os ensaios que publicou na revista Colóquio-Letras e as crónicas que publicou no semanário O Independente estão reunidos no livro Os Degraus do Parnaso (Assírio e Alvim, 1991, 2ª edição integral, 2002) -, distinguido com o prémio Dom Dinis, da Fundação Casa de Mateus, em 1991. Nesta obra de referência para o ensaio, a cultura e a literatura portuguesa do século XX, pela pertinência e variedade dos temas abordados, a meditação sobre a vida, a filosofia e a arte, a literatura, as interrogações, a actualidade e a crítica, vigora a procura de reformulação narrativa do mesmo ideal da escrita como arte musical.

Pássaro Paradípsico, os livros de filosofia e as traduções de livros filosóficos estão assinados por Manuel Lourenço.

Manuel António dos Santos Lourenço foi galardoado com a Grã Cruz da Ordem de Santiago de Espada,(foto) e a Cruz de Honra de I Classe da República da Aústria.
Foi homenageado, na sua presença, em 2006 e 2007. Em 2006 ,ano da jubilação como professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa ,com Maria de Lurdes Ferraz, no âmbito da cadeira de Teoria da Literatura, tendo, na sessão de homenagem argumentado sobre a necessidade de um curso de Lógica para o estudo da Teoria da Literatura. Em Maio de 2007, no Palácio Valenças, em Sintra, no III Encontro de História de Sintra, numa conferência de Liberto Cruz, poeta e crítico literário sintrense da mesma geração (Sintra, 1935) – sobre a sua obra poética, intitulada “M.S. Lourenço, o Desequilibrista definitivo”, e numa exposição bibliográfica da sua obra poético-literária, conjunta com a de Liberto Cruz, por nós organizada .

Numa longa entrevista de Miguel Tamen, publicada em A.M. Feijó & Miguel Tamen (eds.) A Teoria do Programa. Uma homenagem a Maria de Lourdes Ferraz e M.S. Lourenço. Lisboa: Programa em Teoria da Literatura. 2007. Pp 313-364 – M. S. Lourenço esclarece aspectos cruciais do seu itinerário intelectual, não omitindo a inexistência do seu gosto pela discussão pública, o facto de a sua obra ser praticamente desconhecida do público. A Autobiografia, ainda inédita, anunciada por Liberto Cruz, na conferência acima referida – publicada online, http://www.alagamares.net/documentos permitirá novas achegas para a compreensão da sua vida e obra.

M. S. Lourenço deixou no prelo a Obra Completa poético-literária, que foi lançada no dia 28 de Outubro, de 2009 na Faculdade de Letras de Lisboa e em cujo título - O Caminho dos Pisões, Assírio e Alvim, 2009, 687 páginas - faz convergir o caminho pessoal como escritor – remetendo para o título da Carta Aos Pisões ou Arte Poética do poeta latino Horácio - e a presença de Sintra – Caminho dos Pisões é o nome antigo de um caminho da Vila Velha de Sintra onde M. S. Lourenço passeava e meditava, na sua juventude - entre a Vila Velha e a Regaleira. Esta obra, como outras, é dedicada aos seus pais. Obra rara de um autor sintrense e internacional, na complexidade e profundidade dos seus mundos, escrita com notável mestria da língua portuguesa, uma presença diferente, a investigar, no panorama da literatura, filosofia, ensino da filosofia, da cultura em língua portuguesa.

Ouvimos alguns dos seus textos poético-literários de Manuel Lourenço que ele nos ditava, para os escrevermos à mão, na sala da casa de seus pais, na Vila Velha (finais dos anos 50 e início dos anos 60), ouvimos comentários em que nos tentava explicar poemas da sua própria obra (finais dos anos 50, anos 60 e 70), até decidir remeter-se ao silêncio. Continuámos a ler e a meditar a obra, em silêncio. Esperamos que venha a ser conhecida das gerações actuais e vindouras.

Sempre foi nosso intento fazer homenagens em vida. Liberto Cruz, com a sua comunicação e nós com a exposição bibliográfica, em 2007, homenageámos em vida o nosso conterrâneo Manuel Lourenço, visivelmente satisfeito, no Palácio Valenças. Não sabíamos que era a última vez que o veríamos. Que Sintra saiba preservar a sua memória."
Neste roteiro usaram ainda da palavra para sentidas e coloridas intervenções a sua amiga Ana Maria Benard da Costa e sua filha Catarina Lourenço, que nos levou à casa onde viveu, tendo igualmente sido recordado o momento em 2007, no III Encontro de História de Sintra,organizado pela Alagamares, em que Liberto Cruz, outro escritor sintrense insigne fez uma comunicação sobre a sua obra, e a que o próprio M.S.Lourenço, incógnito na assistência, assistiu....A História testemunha a Vida.Morto o Artista, nasceu a Imortalidade.O seu espólio seguiu já para a Biblioteca Nacional.Mas outros gestos significantes faltam levar a cabo com algum significado:que podem começar pelo  gesto simples da Câmara de Sintra mandar colocar uma lápide no local onde viveu, nesse caminho dos Pisões onde as várias personalidades que vestiu deambularam numa solidão organizada, dum desiquilibrista compulsivo.Entre outras coisas.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Quando o feriado de Sintra foi a 29 de Agosto


Sintra celebra a 29 de Junho, dia de S.Pedro, o feriado municipal, mas talvez poucos saibam que entre 1916 e 1926 o feriado municipal foi a 29 de Agosto, data da morte em Sintra do grande escritor Latino Coelho em 1891. Em reunião de Câmara de 22 de Junho de 1916, foi deliberado assinalar o 25º aniversário da sua morte. Assim, para além de se ter publicado um livro de homenagem, onde participaram as principais figuras políticas e literárias do tempo, foi escolhido o dia 29 de Agosto para feriado do concelho.
José Maria Latino Coelho militar, escritor, jornalista e político português, formado em Engenharia Militar, seguiu a carreira das armas, tendo atingido o posto de general de brigada do estado-maior de engenharia. Seguindo um percurso político que o levaria do Partido Regenerador, pelo qual foi eleito deputado, ao Partido Republicano Português, com passagem por um governo do Partido Reformista, de que foi fundador e ministro, a sua carreira política percorreu todo o arco partidário da Monarquia Constitucional. Foi várias vezes  deputado, par do Reino eleito e exerceu as funções de ministro da Marinha e de vogal do Conselho Geral de Instrução Pública. Foi lente na Escola Politécnica de Lisboa e sócio efectivo e secretário perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa. Como escritor, notabilizou-se com obras de foro histórico e ensaístico.Em 1870, foi incumbido pela Academia Real das Ciências de Lisboa de dirigir a comissão encarregada de dar continuação aos inglórios esforços de José da Fonseca, Bartolomeu Inácio Jorge e Agostinho José da Costa Macedo, os organizadores do Dicionário da Lingua Portuguesa, de 1793, também produzido sob a égide da Academia de Ciência de Lisboa, mas que tinha parado na letra A, em azurrar, e assim se encontrava. Para tal, foram-lhe confiados os subsídios legados a Alexandre Herculano e vendidos pelo falecido historiador àquela corporação.Publicou várias biografias de figuras históricas, as melhores das quais publicadas na colecção intitulada Galeria de varões ilustres de Portugal, do editor David Corazzi.Recebeu também o encargo de escrever, oficialmente uma História do cerco do Porto em 1832, tendo dos seus esforços resultado a publicação da obra intitulada História Política e Militar de Portugal, desde Fins do Século XVIII até 1834 (3 volumes publicados entre 1874-1891).Grande parte da sua obra académica encontra-se dispersa por jornais e revistas, as mais relevantes das quais nas Memórias da Academia das Ciências, na Revista Peninsular, Revista Contemporânea de Portugal e Brasil e no Arquivo Pitoresco.
Faleceu em Sintra a 29 de Agosto de 1891, na casa situada no largo com o seu nome na Vila Velha(foto)
                             Foto: Pedro Macieira ,"Rio das Maçãs"

domingo, 26 de junho de 2011

O regresso do checkpoint Charlie

Até ao extraordinário ano de 1989 a Europa que a guerra separara em blocos ideológicos e militares vivia na suspeição permanente da guerra fria, fragmentada e ferida, sendo seu mais icónico símbolo o muro de Berlim, fronteira entre mundos e esperanças, separada por esse ínfimo corredor a que os americanos chamaram  checkpoint Charlie, uns metros de barreira policial para lá da qual estava, estático e perturbador, o mundo dito socialista e gélidas e felinas Nikitas sempre prontas a seduzir os James Bond paladinos  do Ocidente e da liberdade.
Uma providencial perestroika e a inexorável dialéctica da história derrubaram esse e outros muros, muros físicos, comportamentais, congelado degredo de sonhos de amanhãs adiados, e celebrada a liberdade recuperada, o Mundo de Lá se fez Europa, os 15 passaram a 27, a palavra democracia recuperou lugar no léxico político, Monet, Schumann, Willy Brandt ou Delors podiam dar os seus sonhos como recompensados. A terra de leite e mel da Europa, antes Comunidade e depois União trilhava novos caminhos, de cooperação e visão estratégica, finalmente e a sério, a Europa dos Cidadãos. Da política agrícola passou-se ao derrube das fronteiras e finalmente, voluntarista à união monetária, a cereja quase no topo do bolo.
Porém- há sempre um porém- o passo foi maior que a perna e onde só se descortinavam virtudes um qualquer Lehman Brothers além-Atlântico fez balançar as ténues estruturas criadas e regressar fantasmas e medos. A Europa de hoje, pusilânime, tem bons e maus alunos, Merkels valquírias e Rompoys sonolentos, a Europa dos Cidadãos avara morre na praia em Lampedusa, Schengen breve voltará a ser apenas uma vila no Luxemburgo. Adamastores de laptop chamados “mercados” plantaram-se no cabo tormentoso de Bruxelas, e à falta de navegadores destemidos e homens do leme são hoje meros caixeiros de mercearia apenas preocupados com a sua banca e a sua freguesia. E nem 10 anos passaram desde que os chegados da Cortina de Ferro se juntaram ao clube...
Quo Vadis,pois, Europa da dívida e da dúvida? Depois dos homens de Esparta terem imposto frugalidade aos vencidos, de o Cavalo de Tróia dos resgates ter entrado de rompante na cidade conquistada, de a Grécia estar prestes a cair à falta dum Péricles que reestruture a dívida, pouco há a esperar com tais protagonistas, segundas figuras em qualquer comédia de Aristófanes, corifeu de carpideiras posando para a foto de família no fim dos Conselhos Europeus. Mais cedo que o esperado, o checkpoint Charlie voltou.

Pardal Monteiro


Personalidade nem sempre recordada e ligada à actividade dos mármores no concelho de Sintra é o arquitecto Porfirio Pardal Monteiro, nascido em Pêro Pinheiro (1897-1957) um precursor do modernismo em Portugal nos anos trinta do século passado. Ligado pela família à indústria dos mármores, a ele se devem edifícios de referência na paisagem urbana do século XX, como sejam: o edifício do nº49 da Av. da República, em Lisboa (Prémio Valmor de 1923), a estação ferroviária do Cais de Sodré (1925-1928), o Palacete Vale Flor (Prémio Valmor de 1928), uma moradia no nº207 a 215 da Av. 5 de Outubro, em Lisboa(Prémio Valmor de 1929), a igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (Prémio Valmor de 1938), o edifício do Diário de Notícias (Prémio Valmor de 1940), os edifícios das Faculdades de Direito e de Letras, em Lisboa, o Instituto Superior Técnico (1939), a Biblioteca Nacional e os Hotéis Ritz e Tivoli, em Lisboa.

    sábado, 25 de junho de 2011

    Colares de outros tempos

    Hoje é o Restaurante Camarão, e a antiga Casa dos Frangos

    R. da Abreja

    Farmácia Rocha

    Vista panorâmica, anos 20

    Festa popular no Coreto

    Largo do Coreto

    Actuais correios, do outro lado são os Bombeiros

    Vista bucólica

    Hoje, o Cantinho da Várzea

     Adega Regional de Colares

    sexta-feira, 24 de junho de 2011

    Os frustrados do costume

    Nos dias que passam é corriqueiro e quase inevitável falar da famigerada crise, não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento,creio mesmo que se um dia porventura acabar a sensação de orfandade será  tão grande que se terá de arranjar logo outra se possível pior para pôr à prova o nosso sadismo colectivo.Desde Alcácer Quibir que assim é, é endémico. O certo é que vamos estando(aliás, em Portugal, país do gerúndio, não se vai ,vai-se andando ...)
    A idiossincrasia dos povos tem destas coisas, mas analisando à lupa ,a História encarrega-se de provar que apesar do fado nacional , sempre soubemos domar os Adamastores, fossem eles  o grande e desconhecido Mar-Oceano ou os mais prosaicos e invisíveis "mercados".Já vêm da época dos descobrimentos os velhos do Restelo, contudo não deixámos de ousar lutar e ousar vencer, contra castelhanos, terramotos, franceses, ditaduras, e afinal ainda cá estamos, o país mais antigo da Europa e com as fronteiras mais estáveis, a 5ª  lingua mais falada em todo o mundo, em 32º no ranking mundial de 194 países ( com o detalhe de sermos dos mais pobres entre os ricos, mas ainda assim no clube...).Ponha-se os olhos em povos como o alemão,devastados por guerras que provocaram milhões de mortos e destruição em massa e  contudo sempre a renascer das cinzas. Temos  sempre a tendência para achar que a culpa é “deles”, os que nos governam (porque se governam) mas “eles” somos nós,todos, no que temos de bom e mau, como qualquer outro país.O pessimismo é como o auto-golo, só serve para perder pontos.
    Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm certas elites e certa opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional é marcado pelos vencidos da vida de várias gerações,desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literáriamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se  olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumem como profetas da desgraça,(os optimistas chamam-lhes "visionários...). Quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles,premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers.Quem são os mais convidados e “respeitados”? os que autofagicamente anunciam a “piolheira” do país, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, o  "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é exactamente "lá". Já Almada dizia que o  pior de Portugal eram os portugueses, e eles aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas tudo com"eles".
    Faça-se uma experiência: ouçamos um dia inteiro iluminados como  Medina Carreira,  Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, a equipa do Eixo do Mal ou o inenarrável Mário Crespo, e, se não estiver deprimido e enterrado em whiskies veja qual o contributo positivo destes profetas da desgraça para melhorar o estado de coisas, profetas da desgraça depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas entretanto nada viram e nada avisaram.
    Entre nós, as veneradas elites pensadoras são sobretudo faladoras, e sobretudo maldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e aó pouco ou nada mudou desde a fuga de D.João VI para o Brasil e o ciclo de declínio que endémico se seguiu. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos, apesar de sermos o país que nasceu com o filho a bater na mãe. Somos uma matriz da civilização ocidental e um berço de culturas,(eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendêssemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta e fazendo planos para a floresta.
    Temos  a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente.Como aquele velho anarquista que dizia:há governo? Sou contra!
    Com crise ou sem crise, os povos não acabam, apesar de poder suceder como nos vírus da gripe, com o tempo estes degenerarem noutros, com novas roupagens e atitudes, e a geração que abriu o século XXI  poder vir a sair mal na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento, apesar de  pairar negro nos espíritos. Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte". E aos velhos do Restelo, uma temporada nas termas não faria nada mal...

    quinta-feira, 23 de junho de 2011

    In memoriam de Eduardo Lacerda Tavares


    Foi no passado  dia 18 de Junho descerrada uma placa toponímica que dá o nome do Dr. Eduardo Lacerda Tavares à rotunda fronteira ao Palácio da Justiça de Sintra. Recordo com respeito e amizade o dr. Eduardo Lacerda Tavares, insigne advogado com quem privei desde os anos 80, primeiro como advogado estagiário, quando nos cruzámos algumas vezes em processos onde defendemos clientes diferentes, e depois na Câmara Municipal, momentos em que sempre pude registar um profissionalismo e elevação na defesa das causas a que se entregava, exemplo de urbanidade, discrição e competência. O Dr. Lacerda Tavares era um Advogado com A grande,duma estirpe que hoje quase não há, um lutador pela Justiça e uma humanista praticante, na sua profissão e para com a comunidade onde se integrava.
    Falecido há poucos meses em circunstâncias que a todos chocaram, pela surpresa e circunstancialismo, vivia em Sintra desde 1954 ,onde estudou no Colégio Académico, tendo ingressado em 1957 na Faculdade de Direito de Lisboa onde se licenciou em 1962. Em Sintra 47 anos seguidos se distinguiu no exercício da advocacia.Teve igualmente ao longo da vida inúmeras intervenções na sociedade civil sintrense e na defesa de causas sociais, de que se destacam a Santa Casa da Misericórdia e a Liga dos Amigos da Terceira Idade «Os Avós».De 1998 a 2006 exerceu o cargo de provedor da mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Sintra e de 2007 até à data do falecimento foi presidente da assembleia geral, funções que igualmente exercia na Liga dos Amigos da Terceira Idade «Os Avós», que ajudou a fundar. Foi também membro do Rotary Clube de Sintra e presidente do conselho distrital de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas.
    Em 1975 foi um dos fundadores da secção de Sintra do então PPD. Foi candidato a deputado à primeira Assembleia Constituinte e em 1976 candidato à presidência da Câmara Municipal de Sintra, tendo exercido as funções de vereador entre 1977 e 1979.
    Encontrei-o pela última vez na véspera da sua morte, na Portela de Sintra, no quiosque dos jornais, como sempre tinha um sorriso afável e a elegância dum cumprimento frontal e fraterno. 
    Uma rotunda não é muito, mas maior homenagem é a que os advogados, antigos e agora chegados, e demais membros da comunidade lhe podem fazer lutando diariamente não só pela realização do Estado de Direito mas sobretudo por essa utopia generosa que é o Estado de Justiça nunca perdendo de mira o seu destinatário principal, o Homem.

    Um poeta esquecido na lucidez da loucura:António Gancho


    Dizem que morreu a rir e diz-se que foi de ataque cardíaco após 38 anos de internamento na Casa de Saúde do Telhal. Pouco se sabe acerca das circunstâncias da morte do poeta 'louco', como pouco se soube da sua vida e da obra, escrita integralmente no manicómio. "Foi muito mal tratado pela sociedade,um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional", disse Álvaro Lapa, conterrâneo de António Gancho, que lhe arranjou editor quando o poeta o informou de que tinha um livro por publicar. Homem de grande lucidez poética, como o retratou Manuel Rosa, da Assírio & Alvim, a editora que publicou aquela que é considerada a grande obra de António Gancho, O Ar da Manhã, em 1995. Um livro que, segundo o poeta, "são quatro livros" num volume O Ar da Manhã, Gaio do Espírito, Poesia Prometida e Poemas Digitais de onde se destaca este "Noite, vem noite sobre mim sobre nós/ dá repouso absoluto de tudo/ traz peixes e abismos para nos abismarmos/ traz o sono traz a morte..." António Gancho nasceu em Évora em 1940 e desde os 20 anos que correu várias instituições psiquiátricas. Dizia ser Luís Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Dizia ainda que não sabia por que escrevia, que o escritor "só pode ser escritor quando já nasceu escritor" e que "a imaginação é tudo. É ela que deve estar ao comando da inspiração, quero dizer, a inspiração deve comandar a imaginação do autor, do escritor, do poeta." (in A Phala, n.º45). Herberto Hélder deu-o a conhecer, com uma selecção de 11 poemas, em Edoi Lelia Doura das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Assírio & Alvim). E foi a Herberto Helder que Manuel Rosa recorreu quando se lhe pediu para classificar a poesia intensa e de matriz surrealista de António Gancho.Era um poeta nocturno, de uma poesia nada construída, muito espontânea.
    Bibliografia: O Ar da Manhã (1995) / As Dioptrias de Elisa (1997)

    "... Suponho que de tudo o que escrevi
    só o amor
    só o amor louco me disse
    o que era a poesia
    só o amor e os teus lábios
    o teu sexo
    a tua púbis incandescente
    só isso canto e cantei
    e cantarei ...
    " [A.G.]
     
    Sintra ainda não homenageou convenientemente o seu poeta nocturno. Mas lá onde estiver, há-de rir a bom rir quando o fizerem.

    quarta-feira, 22 de junho de 2011