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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Por uma Liga dos Amigos do Festival de Sintra











Marco primordial da actividade musical em Sintra, é o Festival de Sintra, com origens em 1957 nas Primeiras Jornadas Musicais do Município de Sintra, em resultado de um esforço significativo de dinamização artístico-cultural, e marcadamente destinado à pianística, por ele tendo passado os mais reputados executantes mundiais. Nos anos sessenta alargou o seu âmbito a outras expressões artísticas, como o bailado, a música de câmara, o teatro e a ópera, tendo apenas sido interrompido entre 1974 e 1983. Distribuído pelos luxuriantes palácios e quintas de Sintra, dele foi mecenas Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, e participaram nomes como Roland Petit, Grigori Sokolov ou Artur Rubinstein. Em 2001 a organização do Festival de Sintra passou para a responsabilidade da empresa municipal SintraQuorum e desde  13 de outubro desse ano o Centro Cultural Olga Cadaval passou a dispor de condições ímpares para a realização de grandes eventos musicais, ali tendo atuado o Ballet e a Ópera Nacional de Novosibirsk, a Companhia Nacional de Bailado, o Ballet du Grand Theatre de Geneve, a Companhia Nacional de Dança de Espanha, o Scottish Dance Theatre, o Scapino Ballet de Roterdão, o Teatro Negro Nacional de Praga, o Teatro Nacional e Ópera da Moldávia, o Moscow Tchaikovsky Ballet, o Ballet Estatal Russo de Rostov, entre outros, bem como todos os grandes nomes da música portuguesa. Sintra dispõe de diversos grupos de música clássica, música popular tradicional, orquestras, ranchos folclóricos adultos e infantis, bandas filarmónicas, grupos de música erudita, grupos de música tradicional, de cantares e orquestras escolares, a que acrescem os diversos grupos de hip hop, jazz, rock, música ligeira e fado. É, pois, também Sintra uma terra de música, onde Richard Strauss comparou a Pena ao castelo de Klingsor, do celebrado Parsifal de Wagner.

O Festival de Sintra é uma marca que pode e deve ser utilizada como marca de água na futura promoção de Sintra como cidade criativa da UNESCO, e um evento que cada vez menos deve ser visto como isolado na programação de grandes festivais europeus, ou condenado a só ser divulgado e promovido no período que antecede a sua realização. A recuperação das memórias de outros anos, de instrumentistas, músicos ou cantores, bem como a divulgação de outros festivais congéneres, merece que a sociedade civil melómana e os atores institucionais congreguem esforços no sentido de constituir uma Liga dos Amigos do Festival de Sintra, que agregue personalidades  do mundo musical com ligações ao Festival, agentes culturais, sociais e políticos sintrenses e faça da sua memória, defesa e promoção um projecto permanente ao longo do ano, seja pela criação de um site e blogue dedicados ao Festival, (aos do passado e do futuro), seja pela divulgação de músicos e festivais congéneres, realização de palestras e encontros, e parceiro ativo na sua promoção, enquanto referencial comunitário e em apoio às iniciativas que para a sua concretização, bem como da candidatura a Cidade Criativa se imponham, como novo e virtuoso stakeholder. O que pensam os sintrenses?


 

sábado, 6 de outubro de 2018

"Lisboa Nazi" apresentado em Sintra

Dia 20 de Outubro, sábado, 18h30m, apresentação em Sintra da nova obra de Sérgio Luís Carvalho "Lisboa Nazi", no café Garagem, junto à Biblioteca de Sintra, com apoio das edições Parsifal, da Alagamares-Associação Cultural e da Garagem. Apresentação de Miguel Real. Entrada Livre.

Sérgio Luís de Carvalho nasceu em Lisboa em 2 de julho de 1959 e reside em Sintra.
Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1981) e tirou o mestrado em História Medieval pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1988).
Atualmente é docente de História e de História da Arte, sendo ainda Diretor Científico do Museu do Pão e do Museu da Cerveja.

Ver sobre o autor em
https://www.wook.pt/autor/sergio-luis-de-carvalho/24126


domingo, 16 de setembro de 2018

Conferência 27 de Setembro

Dia 27 de Setembro, 17.30h, no MU.SA, Sintra, debate sobre integração de refugiados e imigrantes. Com Teresa Tito de Morais, do Conselho Português dos Refugiados, Mamaduh Bah, da SOS Racismo, e Ana Couto, da Câmara Municipal de Sintra. Entrada Livre.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Conferência- A Economia da Cultura-8 de Maio





No âmbito do Ano Europeu do Património Cultural, realiza-se no dia 8 de maio pelas 17h30m, promovida pela Câmara Municipal de Sintra no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, a conferência "A Economia da Cultura" que abordará as potencialidades da cultura como motor de desenvolvimento económico, as cidades criativas e a experiência e desafios de Sintra. Oradores: Basílio Horta, presidente da CMS, Guilherme d'Oliveira Martins, coordenador do Ano Europeu do Património Cultural, Augusto Mateus, antigo governante e autor de um importante estudo sobre as industrias culturais e João Cabral, diretor executivo da StartUp Sintra. Entrada Livre.





quarta-feira, 11 de abril de 2018

22 de abril, Sintra evoca 150 anos de Viana da Motta


22 DE ABRIL 18H30M
PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ
CONCERTO-150 ANOS DO NASCIMENTO DE VIANA DA MOTTA
EXECUTANTE:JOÃO BETTENCOURT DA CÂMARA
ENTRADA LIVRE
SOBRE VIANA DA MOTTA
Figura incontornável da música e composição em Portugal no séc XX foi Viana da Motta.
José Viana da Motta nasceu no dia 22 de Abril de 1868 na Ilha de São Tomé. Com dois anos de idade veio para a Metrópole, passando a residir em Colares (Sintra), em local assinalado, em 1971, com uma lápide da autoria de Anjos Teixeira, no nº38 da R. da República.   Os seus dotes musicais precoces foram desde logo notados, nomeadamente pelo seu pai, também um amante da música, que soube incitar a vocação do filho. Aos sete anos ingressa no Conservatório e aos 13 apresentou-se pela primeira vez em concerto no Salão da Trindade, com obras da sua autoria. O rei D. Fernando nota o seu talento e a partir de então Viana da Motta torna-se seu protegido. Terminado o curso do Conservatório com distinção, o rei e a Condessa d’Edla patrocinam uma bolsa de estudo para piano na Alemanha, no Conservatório de Scharwenka. Em 1882, Vianna da Motta parte então para Berlim,e inicia uma carreira nacional e internacional de renome.
Mas voltou sempre a estas terras de acolhimento na sua infância e, inclusive contribuiu para o seu progresso. Reza a imprensa da época que, não existindo rede elétrica pública em Galamares e Colares, Viana da Mota realizou um concerto, gratuito, no salão de Galamares, a 15 de Setembro de 1923, a fim de se obterem fundos para a instalação de energia elétrica em Colares, sendo a luz para tal concerto fornecida, a título precário, pela companhia Sintra-Atlântico, através da sua rede de tração.
A parte mais significativa da sua produção artística foi confiada à música para piano e para canto e piano, onde musicou tanto textos portugueses como alemães. Esta é talvez a sua música de cariz mais íntimo, resultando nas páginas mais belas da sua criação. No entanto, a sua obra mais simbólica é a Sinfonia "A Pátria", em Lá Maior, Op.13. Composta em 1895 e estreada dois anos mais tarde no Porto, cada um dos seus quatro andamentos é expressão musical da obra de Camões, Os Lusíadas. Emblemática da corrente nacionalista, fruto do Ultimato Inglês a Portugal, esta obra constitui a primeira sinfonia bi-temática escrita por um compositor português.
 

SOBRE JOÃO BETTENCOURT DA CÂMARA
João Bettencourt da Câmara concluiu em 2006 com a classificação máxima o Curso de Piano no Conservatório Nacional, ao mesmo tempo que os estudos secundários no Colégio do Sagrado Coração (Lisboa). Em Portugal estudou ainda com V. Viardo, H. Sá e Costa, T. Achot, Sequeira Costa, A. Pizarro, P. Burmester, D. Bashkirov, G. Eguiazarova e A. Ciccolini. Recebeu, entre outros, os 1ºs prémios no Concurso Cidade do Fundão (1999 e 2000) e Concurso Maria Cristina Lino Pimentel (2001); 2º Prémio no Concurso de Piano Florinda Santos (1998); Prémio Especial do Júri no II Concurso “Veo Veo” Internacional da Radiotelevisão Espanhola (1999).
Deu o seu primeiro recital público aos sete anos de idade e estreou-se como solista aos doze, executando o Concerto K. 414 de Mozart e, poucos meses depois, o Terceiro concerto de Beethoven, com a Filarmonia das Beiras, a que se seguiram outros com diferentes orquestras portuguesas (Concerto de Grieg, Rhapsody in Blue de Gershwin). Obtendo sempre elevadas classificações (“First Class Honours”), licenciou-se em 2010 com uma das melhores classificações da história do RCM, pelo que recebeu o Sarah Mundlak Memorial Prize For Piano, atribuído ao melhor finalista do ano. Para o mestrado, foi novamente admitido nas mesmas escolas londrinas, escolhendo desta feita a Guildhall School (City University), onde concluiu o curso com distinção como aluno do pianista Martin Roscoe.
Iniciou a sua carreira internacional em 2007, com uma digressão nos Estados Unidos da América. Em recitais e concertos em Portugal (Casa da Música, Centro Cultural de Belém, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Eugénio de Almeida, entre outros), Inglaterra, França e Espanha, vem-se afirmando como intérprete do grande repertório clássico (Bach, Mozart, Beethoven), romântico (Liszt, Chopin, Brahms, Rachmaninoff) e moderno (Debussy, Prokofieff). O seu primeiro disco comercial, consagrado a algumas das maiores obras de Liszt, foi recentemente editado pela Numérica. Desde 2013, é docente de Piano na Universidade de Aveiro onde se encontra a concluir o Doutoramento.
 
PROGRAMA
J. Vianna da Motta - Balada
Francisco de Lacerda - Levantinas
                                    - Na Acrópole - Dança Grega
                                    - Dos minaretes de Suleiman-Djami
                                    - Ao crepúsculo - Dança grega
F. Liszt - Sonata em Si menor
 

 

segunda-feira, 26 de março de 2018

2 de abril, sessão evocativa de Francisco Costa



30 ANOS DO DESAPARECIMENTO DE FRANCISCO COSTA

SESSÃO EVOCATIVA

PALÁCIO VALENÇAS 2 DE ABRIL 16H. Entrada livre

 

Francisco Costa (1900-1988) foi um escritor genuinamente sintrense: nasceu, casou, viveu, trabalhou e morreu em Sintra, a 2 de abril de 1988, passam este ano 30 anos. Foi muitos anos contabilista na Adega Regional de Colares e, em 1939 transitou para a Câmara Municipal de Sintra, onde fundou a Biblioteca e o Arquivo Municipal, no Palácio Valenças.

 

Foi autor de Pó, livro de poemas, em 1920, recebendo louvores críticos de Ferreira de Castro. Posteriormente, em 1925, publicou Verbo Austero, que colheu os favores de Fidelino de Figueiredo, crítico literário classicista, e de Fernando Pessoa, que lhe pediu alguns poemas para a sua revista Athena. Neste livro, é publicado o soneto Cruz Alta, inscrito no cume da Serra da Sintra. São seus, entre outros, os romances A Garça e a Serpente (1943) Primavera Cinzenta (1944) Revolta de Sangue (1946) e Cárcere Invisível (1949).

 

 

 Na década de 50 publicou a trilogia a que deu o título geral de Em Busca do Amor Perdido: Acorde Imperfeito (1954) Nocturno Agitado (1955) e Cântico em Tom Maior (1955). Em 1964, publica o romance Escândalo na Vila e em 1973 Promontório Agreste.

 

 No plano da história, são de sua autoria os três volumes dos Estudos Sintrenses. Em 1962 criou no palácio Valenças uma sala onde recolheu a documentação produzida pela Administração do Concelho de Sintra, os livros de atas da Camara Municipal produzidos desde 1794 e os forais manuelinos de Sintra e Colares atribuídos em 1514 e 1516, respetivamente. Estava dado o primeiro passo no sentido de uma efetiva ação de recolha e tratamento sistemático da informação arquivística então existente. Encontra-se em fase de recuperação por parte da CMS a casa onde viveu em Sintra, projeto de Raul Lino e destinado a um Centro de Interpretação Literário.

 

Assinalando os 30 anos do seu desaparecimento, realizar-se-á uma sessão evocativa, promovida pela Câmara Municipal de Sintra, sendo oradores Carlos Manique da Silva, historiador, Miguel Real, escritor, e Júlio Cardoso, coordenador do Arquivo Municipal de Sintra.


Artigos sobre Francisco Costa:


Miguel Real


Carlos Manique







 Eugénio Montoito


sexta-feira, 9 de março de 2018

Sintra, uma terra (também) de música




Marco primordial da actividade musical em Sintra, é o Festival de Sintra, com origens em 1957 nas Primeiras Jornadas Musicais do Município de Sintra, em resultado de um esforço significativo de dinamização artístico-cultural, e marcadamente destinado à pianística, por ele tendo passado os mais reputados executantes mundiais. Nos anos sessenta alargou o seu âmbito a outras expressões artísticas, como o bailado, a música de câmara, o teatro e a ópera, tendo apenas sido interrompido entre 1974 e 1983. Distribuído pelos luxuriantes palácios e quintas de Sintra, dele foi mecenas principal Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, e participaram nomes como Roland Petit, Grigori Sokolov ou Artur Rubinstein.

Em 2001 a organização do Festival de Sintra passou para a responsabilidade da empresa municipal SintraQuorum e desde 2002 passou a contar com o novo espaço de espectáculos de Sintra, o Centro Cultural Olga Cadaval.

Tem Sintra igualmente tradições musicais em centenárias agremiações dedicadas à música, algumas muito antigas, como a Sociedade Filarmónica Boa União Montelavarense, fundada em 1890, a Banda dos Bombeiros Voluntários de Colares, em 1891 ou a Sociedade Recreativa e Musical de Almoçageme, de 1892. No dealbar do século XIX marcaram a vida cultural sintrense a Fanfarra União Sintrense, a Estudantina Maquieira, o Trio Paulus, que várias vezes actuou no desaparecido Teatro Minerva, em Colares, o sol-e-dó do grupo dos 20, ou o Grupo dos 14, que organizou diversas récitas e bailes

Em Agosto de 1924 foi inaugurado o Casino de Sintra, iniciativa da Sociedade de Turismo de Sintra Lda, de Adriano Júlio Coelho, projecto de Norte Júnior, construído por Júlio da Fonseca. Durante anos espaço de lazer, ficaram célebres as atuações do sexteto dirigido pelo concertista Francisco Benetó, da cantora espanhola Tina de Jarque ou de Les Demos, bailarinos franceses. Marcaram a cena musical sintrense nesse período o Orpheon de Sintra, a Sociedade União Sintrense, a Tuna Operária de Sintra, Os Aliados e o 1º Dezembro
                                                   O Estefânea Jazz, 1935

Em 19 de Março de 1941 ocorre o primeiro Baile das Camélias, em que a ainda jovem escritora Maria Almira Medina recita “Camélias de Sintra”, e canta “várias canções em americano…”, abrilhantando a festa o agrupamento musical Os Caprichosos. Ainda ocorre todas as primaveras decorre este Baile, matricial na vida cultural sintrense.

Nos anos quarenta foi a orquestra dos "Aliados" em S. Pedro, apadrinhada por Maria Clara, e nos anos cinquenta foram frequentes concurso das colectividades do concelho, com espectáculo no ringue do Hóquei no Parque da Liberdade, ou as Noites do Mambo, no Sport União Sintrense, ou do Baião, na SUS, onde actuaram entre outros o tenor Tomé de Barros Queirós e Mimi Gaspar. Por essa altura, fizeram furor as bandas “Os Mexicanos” de Galamares, ou a Orquestra Royal Star, de Sintra.

No plano da música folclórica, destaque para a Filarmónica de Pêro Pinheiro que em 1962 obteve o 2º Lugar no Festival Mundial de Bandas, em Kerkrade, na Holanda, tendo uma recepção apoteótica à chegada.

Em 1975 é criado o Conservatório de Música de Sintra e em 1979 a orquestra de Pêro Pinheiro, em 1987 a Orquestra Regional de Colares e em 1991 a Orquestra Ligeira de Almoçageme, sintoma da existência de sinergias e valores misturando elementos populares e eruditos.

Com a inauguração em 13 de outubro de 2001 do Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra passa a dispor de condições ímpares para a realização de grandes eventos musicais, ali tendo atuado o Ballet e a Ópera Nacional de Novosibirsk, a Companhia Nacional de Bailado, Pablo Milanés, Chico César, Ivan Lins, o Ballet du Grand Theatre de Geneve, a Companhia Nacional de Dança de Espanha, o Scottish Dance Theatre Tito Paris, Celina Pereira, o Scapino Ballet de Roterdão, o Teatro Negro Nacional de Praga, o Teatro Nacional e Ópera da Moldávia, o Moscow Tchaikovsky Ballet, o Ballet Estatal Russo de Rostov, Cesária Évora,em como todos os grandes nomes da música portuguesa. Destaque para a abertura às escolas e conservatórios, ou os famosos concertos para bebés.

Sintra dispõe de diversos grupos de música clássica, música popular tradicional, orquestras, ranchos folclóricos adultos e infantis, bandas filarmónicas, sete grupos de música erudita, grupos de música tradicional, de cantares e  orquestras escolares ,a que acrescem os diversos grupos de hip hop, jazz, rock, música ligeira e fado. É pois também Sintra uma terra de música e onde Richard Strauss comparou a Pena ao castelo de Klingsor, do celebrado Parsifal de Wagner.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um conto de Natal



Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2021 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima presidente da Câmara de Sintra, para um mandato de quatro anos.
Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as associações ou recebia os munícipes, o Orçamento pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência, Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária. Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "não há dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante de medula enviara para o Querida Júlia, “as pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com Sócrates, um labrador ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.
Uma noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:
-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz metalizada. Sou eu, o Mário!
Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e  antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente perto dali.
-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral, c’um raio…
-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu um grilhão, pesado, parecia uma cena de thriller americano. -Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.
-Mas…E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.
Chegado a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensando chamar a Policia, logo o vulto o advertiu que não abrisse a boca.
-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!
Mal tivera tempo de reagir, e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandys com casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros, para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu na cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:
-Suponho que sejas Sintra do presente…
O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche, um jovem fazia carjacking a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por experiência.
De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercings no lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Periquita, surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois dos despejos  por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o jovem dos piercings apontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2024”, descontraído, um cachorro urinava-lhe em cima. Estarreceu, com suores frios.
Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.
Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa florista a comprar um bouquet  para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão.
-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?
Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa, ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.

Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles Dickens… 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

V Congresso da Cidadania Lusófona

Adriano Moreira, Duarte de Bragança e Ruy Mingas são alguns dos nomes que vão marcar presença no V Congresso da Cidadania Lusófona, no Palácio Valenças, em Sintra, no próximo dia 13 de novembro, num encontro que reunirá personalidades que têm vindo a bater-se pelo reforço dos laços entre países e regiões da lusofonia.
Este congresso tem como principal finalidade agregar associações da sociedade civil de todos os países e regiões do espaço lusófono, em torno do tema “Liberdades de Circulação & e outras liberdades para o espaço lusófono”, procurando promover uma reflexão conjunta sobre a liberdade de circulação e de residência.
Pretende-se que seja uma experiência concreta de uma mesma cidadania e de uma mesma fraternidade lusófona.
O V Congresso da Cidadania Lusófona irá decorrer no Palácio Valenças (13 de novembro), e, também, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa (14 de novembro), em parceria com a Associação Nacional de Professores de Português.
A sessão de abertura decorrerá em Sintra, pelas 15h00, com a presença do presidente da Câmara Municipal, Basílio Horta.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sintra, Cidade Criativa


Amarante, Barcelos e Braga foram designadas como Cidades Criativas pela UNESCO. Braga na categoria de Artes Mediáticas, Barcelos na categoria de Artesanato e Arte Popular, e Amarante na categoria de Música. A Rede de Cidades Criativas da UNESCO foi criada em 2004 para fortalecer a cooperação entre cidades que consideram a criatividade um fator estratégico de desenvolvimento urbano sustentável com impacto social, cultural e económico. Em Portugal havia até aqui dois concelhos com a classificação: Óbidos, no domínio da literatura, e Idanha-a-Nova, na música. E Sintra, porque não?
Sintra conta com um vasto capital de heranças, recordações e aspirações de um lugar e capital intelectual, com as ideias e potencial inovador, a diversidade pode funcionar como factor positivo e concorrencial.
A economia criativa é hoje em dia reconhecida como um dos sectores em crescimento na actual economia global, por exemplo, no Reino Unido, as indústrias criativas criam 1.9 milhões de postos de trabalho em 121,000 empreendimentos e geram 8% do valor nacional bruto. Cinema, rádio, media digitais, música, artes visuais, teatro, arquitectura, moda, design, etc., são áreas afins à indústria criativa. As indústrias criativas também são notáveis pela permeabilidade entre o económico e o social, podendo alcançar objectivos sociais e culturais, lado a lado com as produções económicas.
Sintra tem grandes potencialidades como espaço de literacia cultural, pois cidade é comunicação na sua capacidade para reconhecer, descodificar e encontrar o significado e a essência de uma cidade. Todo o conhecimento é cultural. Valorizar a importância do subjectivo e sensorial sobre a cidade como também o conhecimento verificável e objectivo. Promover a Literacia cultural é usar o conhecimento cultural que implica um enfoque interdisciplinar trazendo múltiplas visões e uma diversidade de saberes.
Sintra pode ensinar, e nela se pode e deve aprender, e dela fazer um centro de aprendizagem criativa. Uma cidade de aprendizagem é uma cidade inteligente que reflecte sobre si mesma, apreende do fracasso e demonstra visão estratégica, repelindo aquilo a que José Gil chamou a «desactivação da acção».
As Câmaras Municipais  não devem ser programadoras de eventos culturais ad-hoc, antes devem assumir um papel de catalisadoras e facilitadoras dos processos criativos dos diversos agentes culturais, e a estes deve estar cometido o papel propulsor e não reativo da construção de Cidade.
A revitalização cultural de Sintra passa pela criação de sinergias e parcerias entre os agentes culturais dispersos apostando num critério de cidade criativa, aprofundando a conjugação de 3 linhas de força, a que Richard Florida no seu livro The Rise of the Creative Class chamou os 3 T:Talento,Tolerância e Tecnologia. Mas para quem começa por baixo, os passos a dar passam não pela proliferação de eventos culturais contratados fora, mas antes de mais, a fim de criar um espírito grupal, pela disponibilização gratuita de espaços que possam ser centros de criatividade, encontro e troca de informações, algo como os ingleses fizeram com os Fab Labs, pequenas fábricas, ateliers, estúdios onde se possam instalar associações e pequenas empresas, fomentando uma economia criativa, com equipamento digital base, maquinas de impressão, equipamento gráfico, nas mais diversas áreas e onde possa haver troca de informação. Este conceito catapultou já cidades antes adormecidas para novos paradigmas, como Sheffield, em Inglaterra, ou Helsínquia, com o seu Design Distrit. Em Amesterdão, o envolvimento de 9% da população em actividades e indústrias criativas ajudou ao crescimento do emprego. Na Suécia, a instalação de uma escola de artes circenses em Botkyrka, a 20 km de Estocolmo originou um centro de criatividade chamado Subtopia.
Chamar quem trabalha na ciência, arquitectura, design, moda, música, tecnologias e potenciar sinergias é o desafio que um espaço privilegiado como Sintra poderia agarrar. Pegue-se no Sintra-Cinema, na Portela, por exemplo, ou em instalações industriais encerradas, e com um mínimo de condições de funcionamento, nada de faraónico ou de fachada, promova-se a junção dos criadores e criativos. Afinal a Cultura também contribui para o PNB e com relevo, como o estudo de Augusto Mateus elencou. Sintra Criativa, pegando nos modelos que já estão inventados, essa sim, pode ser uma Marca, criando uma verdadeira Economia da Cultura num território onde existem condições naturais, população jovem e criativa e factores de localização que podem gerar efeitos multiplicadores.
Cabe ao sector financeiro igualmente apoiar nesse âmbito empresas startups de índole cultural, em que as firmas gestoras de fundos de venture capital podem ajudar com conhecimentos de gestão, acesso a redes de negócios e ajuda à obtenção de competências no posicionamento estratégico para a venda de produtores criativos inovadores e atracção de colaboradores. Recorde-se que o Sillicon Valey é o centro mundial de referência neste modelo. Efectivamente a par do apoio das instituições aos criadores e criativos, essencial se torna o apoio à formação de clusters tecnológicos, muitas vezes junto das universidades e centros tecnológicos com altos níveis de formação. Tais clusters e tais apoios são essenciais para estancar a fuga de cérebros, e que só apoios e um ambiente de empreendedorismo podem reverter.
É essencial que os criadores e criativos, depois das universidades ou de experiências desapoiadas entrem na esfera dos negócios, assim também atraindo a comunidade não só para a sua produção cultural como para novos nichos de oportunidade, criando empresas startup, apoiadas por parceiros estratégicos, como fundos de investimento, universidades ou as autarquias. Pode Sintra também aqui vir a mexer. Uma só palavra de ordem: mexamo-nos!