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domingo, 16 de setembro de 2018

Conferência 27 de Setembro

Dia 27 de Setembro, 17.30h, no MU.SA, Sintra, debate sobre integração de refugiados e imigrantes. Com Teresa Tito de Morais, do Conselho Português dos Refugiados, Mamaduh Bah, da SOS Racismo, e Ana Couto, da Câmara Municipal de Sintra. Entrada Livre.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Conferência- A Economia da Cultura-8 de Maio





No âmbito do Ano Europeu do Património Cultural, realiza-se no dia 8 de maio pelas 17h30m, promovida pela Câmara Municipal de Sintra no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, a conferência "A Economia da Cultura" que abordará as potencialidades da cultura como motor de desenvolvimento económico, as cidades criativas e a experiência e desafios de Sintra. Oradores: Basílio Horta, presidente da CMS, Guilherme d'Oliveira Martins, coordenador do Ano Europeu do Património Cultural, Augusto Mateus, antigo governante e autor de um importante estudo sobre as industrias culturais e João Cabral, diretor executivo da StartUp Sintra. Entrada Livre.





quarta-feira, 11 de abril de 2018

22 de abril, Sintra evoca 150 anos de Viana da Motta


22 DE ABRIL 18H30M
PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ
CONCERTO-150 ANOS DO NASCIMENTO DE VIANA DA MOTTA
EXECUTANTE:JOÃO BETTENCOURT DA CÂMARA
ENTRADA LIVRE
SOBRE VIANA DA MOTTA
Figura incontornável da música e composição em Portugal no séc XX foi Viana da Motta.
José Viana da Motta nasceu no dia 22 de Abril de 1868 na Ilha de São Tomé. Com dois anos de idade veio para a Metrópole, passando a residir em Colares (Sintra), em local assinalado, em 1971, com uma lápide da autoria de Anjos Teixeira, no nº38 da R. da República.   Os seus dotes musicais precoces foram desde logo notados, nomeadamente pelo seu pai, também um amante da música, que soube incitar a vocação do filho. Aos sete anos ingressa no Conservatório e aos 13 apresentou-se pela primeira vez em concerto no Salão da Trindade, com obras da sua autoria. O rei D. Fernando nota o seu talento e a partir de então Viana da Motta torna-se seu protegido. Terminado o curso do Conservatório com distinção, o rei e a Condessa d’Edla patrocinam uma bolsa de estudo para piano na Alemanha, no Conservatório de Scharwenka. Em 1882, Vianna da Motta parte então para Berlim,e inicia uma carreira nacional e internacional de renome.
Mas voltou sempre a estas terras de acolhimento na sua infância e, inclusive contribuiu para o seu progresso. Reza a imprensa da época que, não existindo rede elétrica pública em Galamares e Colares, Viana da Mota realizou um concerto, gratuito, no salão de Galamares, a 15 de Setembro de 1923, a fim de se obterem fundos para a instalação de energia elétrica em Colares, sendo a luz para tal concerto fornecida, a título precário, pela companhia Sintra-Atlântico, através da sua rede de tração.
A parte mais significativa da sua produção artística foi confiada à música para piano e para canto e piano, onde musicou tanto textos portugueses como alemães. Esta é talvez a sua música de cariz mais íntimo, resultando nas páginas mais belas da sua criação. No entanto, a sua obra mais simbólica é a Sinfonia "A Pátria", em Lá Maior, Op.13. Composta em 1895 e estreada dois anos mais tarde no Porto, cada um dos seus quatro andamentos é expressão musical da obra de Camões, Os Lusíadas. Emblemática da corrente nacionalista, fruto do Ultimato Inglês a Portugal, esta obra constitui a primeira sinfonia bi-temática escrita por um compositor português.
 

SOBRE JOÃO BETTENCOURT DA CÂMARA
João Bettencourt da Câmara concluiu em 2006 com a classificação máxima o Curso de Piano no Conservatório Nacional, ao mesmo tempo que os estudos secundários no Colégio do Sagrado Coração (Lisboa). Em Portugal estudou ainda com V. Viardo, H. Sá e Costa, T. Achot, Sequeira Costa, A. Pizarro, P. Burmester, D. Bashkirov, G. Eguiazarova e A. Ciccolini. Recebeu, entre outros, os 1ºs prémios no Concurso Cidade do Fundão (1999 e 2000) e Concurso Maria Cristina Lino Pimentel (2001); 2º Prémio no Concurso de Piano Florinda Santos (1998); Prémio Especial do Júri no II Concurso “Veo Veo” Internacional da Radiotelevisão Espanhola (1999).
Deu o seu primeiro recital público aos sete anos de idade e estreou-se como solista aos doze, executando o Concerto K. 414 de Mozart e, poucos meses depois, o Terceiro concerto de Beethoven, com a Filarmonia das Beiras, a que se seguiram outros com diferentes orquestras portuguesas (Concerto de Grieg, Rhapsody in Blue de Gershwin). Obtendo sempre elevadas classificações (“First Class Honours”), licenciou-se em 2010 com uma das melhores classificações da história do RCM, pelo que recebeu o Sarah Mundlak Memorial Prize For Piano, atribuído ao melhor finalista do ano. Para o mestrado, foi novamente admitido nas mesmas escolas londrinas, escolhendo desta feita a Guildhall School (City University), onde concluiu o curso com distinção como aluno do pianista Martin Roscoe.
Iniciou a sua carreira internacional em 2007, com uma digressão nos Estados Unidos da América. Em recitais e concertos em Portugal (Casa da Música, Centro Cultural de Belém, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Eugénio de Almeida, entre outros), Inglaterra, França e Espanha, vem-se afirmando como intérprete do grande repertório clássico (Bach, Mozart, Beethoven), romântico (Liszt, Chopin, Brahms, Rachmaninoff) e moderno (Debussy, Prokofieff). O seu primeiro disco comercial, consagrado a algumas das maiores obras de Liszt, foi recentemente editado pela Numérica. Desde 2013, é docente de Piano na Universidade de Aveiro onde se encontra a concluir o Doutoramento.
 
PROGRAMA
J. Vianna da Motta - Balada
Francisco de Lacerda - Levantinas
                                    - Na Acrópole - Dança Grega
                                    - Dos minaretes de Suleiman-Djami
                                    - Ao crepúsculo - Dança grega
F. Liszt - Sonata em Si menor
 

 

segunda-feira, 26 de março de 2018

2 de abril, sessão evocativa de Francisco Costa



30 ANOS DO DESAPARECIMENTO DE FRANCISCO COSTA

SESSÃO EVOCATIVA

PALÁCIO VALENÇAS 2 DE ABRIL 16H. Entrada livre

 

Francisco Costa (1900-1988) foi um escritor genuinamente sintrense: nasceu, casou, viveu, trabalhou e morreu em Sintra, a 2 de abril de 1988, passam este ano 30 anos. Foi muitos anos contabilista na Adega Regional de Colares e, em 1939 transitou para a Câmara Municipal de Sintra, onde fundou a Biblioteca e o Arquivo Municipal, no Palácio Valenças.

 

Foi autor de Pó, livro de poemas, em 1920, recebendo louvores críticos de Ferreira de Castro. Posteriormente, em 1925, publicou Verbo Austero, que colheu os favores de Fidelino de Figueiredo, crítico literário classicista, e de Fernando Pessoa, que lhe pediu alguns poemas para a sua revista Athena. Neste livro, é publicado o soneto Cruz Alta, inscrito no cume da Serra da Sintra. São seus, entre outros, os romances A Garça e a Serpente (1943) Primavera Cinzenta (1944) Revolta de Sangue (1946) e Cárcere Invisível (1949).

 

 

 Na década de 50 publicou a trilogia a que deu o título geral de Em Busca do Amor Perdido: Acorde Imperfeito (1954) Nocturno Agitado (1955) e Cântico em Tom Maior (1955). Em 1964, publica o romance Escândalo na Vila e em 1973 Promontório Agreste.

 

 No plano da história, são de sua autoria os três volumes dos Estudos Sintrenses. Em 1962 criou no palácio Valenças uma sala onde recolheu a documentação produzida pela Administração do Concelho de Sintra, os livros de atas da Camara Municipal produzidos desde 1794 e os forais manuelinos de Sintra e Colares atribuídos em 1514 e 1516, respetivamente. Estava dado o primeiro passo no sentido de uma efetiva ação de recolha e tratamento sistemático da informação arquivística então existente. Encontra-se em fase de recuperação por parte da CMS a casa onde viveu em Sintra, projeto de Raul Lino e destinado a um Centro de Interpretação Literário.

 

Assinalando os 30 anos do seu desaparecimento, realizar-se-á uma sessão evocativa, promovida pela Câmara Municipal de Sintra, sendo oradores Carlos Manique da Silva, historiador, Miguel Real, escritor, e Júlio Cardoso, coordenador do Arquivo Municipal de Sintra.


Artigos sobre Francisco Costa:


Miguel Real


Carlos Manique







 Eugénio Montoito


sexta-feira, 9 de março de 2018

Sintra, uma terra (também) de música




Marco primordial da actividade musical em Sintra, é o Festival de Sintra, com origens em 1957 nas Primeiras Jornadas Musicais do Município de Sintra, em resultado de um esforço significativo de dinamização artístico-cultural, e marcadamente destinado à pianística, por ele tendo passado os mais reputados executantes mundiais. Nos anos sessenta alargou o seu âmbito a outras expressões artísticas, como o bailado, a música de câmara, o teatro e a ópera, tendo apenas sido interrompido entre 1974 e 1983. Distribuído pelos luxuriantes palácios e quintas de Sintra, dele foi mecenas principal Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, e participaram nomes como Roland Petit, Grigori Sokolov ou Artur Rubinstein.

Em 2001 a organização do Festival de Sintra passou para a responsabilidade da empresa municipal SintraQuorum e desde 2002 passou a contar com o novo espaço de espectáculos de Sintra, o Centro Cultural Olga Cadaval.

Tem Sintra igualmente tradições musicais em centenárias agremiações dedicadas à música, algumas muito antigas, como a Sociedade Filarmónica Boa União Montelavarense, fundada em 1890, a Banda dos Bombeiros Voluntários de Colares, em 1891 ou a Sociedade Recreativa e Musical de Almoçageme, de 1892. No dealbar do século XIX marcaram a vida cultural sintrense a Fanfarra União Sintrense, a Estudantina Maquieira, o Trio Paulus, que várias vezes actuou no desaparecido Teatro Minerva, em Colares, o sol-e-dó do grupo dos 20, ou o Grupo dos 14, que organizou diversas récitas e bailes

Em Agosto de 1924 foi inaugurado o Casino de Sintra, iniciativa da Sociedade de Turismo de Sintra Lda, de Adriano Júlio Coelho, projecto de Norte Júnior, construído por Júlio da Fonseca. Durante anos espaço de lazer, ficaram célebres as atuações do sexteto dirigido pelo concertista Francisco Benetó, da cantora espanhola Tina de Jarque ou de Les Demos, bailarinos franceses. Marcaram a cena musical sintrense nesse período o Orpheon de Sintra, a Sociedade União Sintrense, a Tuna Operária de Sintra, Os Aliados e o 1º Dezembro
                                                   O Estefânea Jazz, 1935

Em 19 de Março de 1941 ocorre o primeiro Baile das Camélias, em que a ainda jovem escritora Maria Almira Medina recita “Camélias de Sintra”, e canta “várias canções em americano…”, abrilhantando a festa o agrupamento musical Os Caprichosos. Ainda ocorre todas as primaveras decorre este Baile, matricial na vida cultural sintrense.

Nos anos quarenta foi a orquestra dos "Aliados" em S. Pedro, apadrinhada por Maria Clara, e nos anos cinquenta foram frequentes concurso das colectividades do concelho, com espectáculo no ringue do Hóquei no Parque da Liberdade, ou as Noites do Mambo, no Sport União Sintrense, ou do Baião, na SUS, onde actuaram entre outros o tenor Tomé de Barros Queirós e Mimi Gaspar. Por essa altura, fizeram furor as bandas “Os Mexicanos” de Galamares, ou a Orquestra Royal Star, de Sintra.

No plano da música folclórica, destaque para a Filarmónica de Pêro Pinheiro que em 1962 obteve o 2º Lugar no Festival Mundial de Bandas, em Kerkrade, na Holanda, tendo uma recepção apoteótica à chegada.

Em 1975 é criado o Conservatório de Música de Sintra e em 1979 a orquestra de Pêro Pinheiro, em 1987 a Orquestra Regional de Colares e em 1991 a Orquestra Ligeira de Almoçageme, sintoma da existência de sinergias e valores misturando elementos populares e eruditos.

Com a inauguração em 13 de outubro de 2001 do Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra passa a dispor de condições ímpares para a realização de grandes eventos musicais, ali tendo atuado o Ballet e a Ópera Nacional de Novosibirsk, a Companhia Nacional de Bailado, Pablo Milanés, Chico César, Ivan Lins, o Ballet du Grand Theatre de Geneve, a Companhia Nacional de Dança de Espanha, o Scottish Dance Theatre Tito Paris, Celina Pereira, o Scapino Ballet de Roterdão, o Teatro Negro Nacional de Praga, o Teatro Nacional e Ópera da Moldávia, o Moscow Tchaikovsky Ballet, o Ballet Estatal Russo de Rostov, Cesária Évora,em como todos os grandes nomes da música portuguesa. Destaque para a abertura às escolas e conservatórios, ou os famosos concertos para bebés.

Sintra dispõe de diversos grupos de música clássica, música popular tradicional, orquestras, ranchos folclóricos adultos e infantis, bandas filarmónicas, sete grupos de música erudita, grupos de música tradicional, de cantares e  orquestras escolares ,a que acrescem os diversos grupos de hip hop, jazz, rock, música ligeira e fado. É pois também Sintra uma terra de música e onde Richard Strauss comparou a Pena ao castelo de Klingsor, do celebrado Parsifal de Wagner.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um conto de Natal



Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2021 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima presidente da Câmara de Sintra, para um mandato de quatro anos.
Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as associações ou recebia os munícipes, o Orçamento pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência, Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária. Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "não há dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante de medula enviara para o Querida Júlia, “as pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com Sócrates, um labrador ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.
Uma noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:
-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz metalizada. Sou eu, o Mário!
Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e  antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente perto dali.
-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral, c’um raio…
-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu um grilhão, pesado, parecia uma cena de thriller americano. -Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.
-Mas…E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.
Chegado a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensando chamar a Policia, logo o vulto o advertiu que não abrisse a boca.
-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!
Mal tivera tempo de reagir, e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandys com casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros, para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu na cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:
-Suponho que sejas Sintra do presente…
O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche, um jovem fazia carjacking a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por experiência.
De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercings no lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Periquita, surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois dos despejos  por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o jovem dos piercings apontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2024”, descontraído, um cachorro urinava-lhe em cima. Estarreceu, com suores frios.
Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.
Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa florista a comprar um bouquet  para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão.
-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?
Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa, ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.

Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles Dickens… 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

V Congresso da Cidadania Lusófona

Adriano Moreira, Duarte de Bragança e Ruy Mingas são alguns dos nomes que vão marcar presença no V Congresso da Cidadania Lusófona, no Palácio Valenças, em Sintra, no próximo dia 13 de novembro, num encontro que reunirá personalidades que têm vindo a bater-se pelo reforço dos laços entre países e regiões da lusofonia.
Este congresso tem como principal finalidade agregar associações da sociedade civil de todos os países e regiões do espaço lusófono, em torno do tema “Liberdades de Circulação & e outras liberdades para o espaço lusófono”, procurando promover uma reflexão conjunta sobre a liberdade de circulação e de residência.
Pretende-se que seja uma experiência concreta de uma mesma cidadania e de uma mesma fraternidade lusófona.
O V Congresso da Cidadania Lusófona irá decorrer no Palácio Valenças (13 de novembro), e, também, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa (14 de novembro), em parceria com a Associação Nacional de Professores de Português.
A sessão de abertura decorrerá em Sintra, pelas 15h00, com a presença do presidente da Câmara Municipal, Basílio Horta.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sintra, Cidade Criativa


Amarante, Barcelos e Braga foram designadas como Cidades Criativas pela UNESCO. Braga na categoria de Artes Mediáticas, Barcelos na categoria de Artesanato e Arte Popular, e Amarante na categoria de Música. A Rede de Cidades Criativas da UNESCO foi criada em 2004 para fortalecer a cooperação entre cidades que consideram a criatividade um fator estratégico de desenvolvimento urbano sustentável com impacto social, cultural e económico. Em Portugal havia até aqui dois concelhos com a classificação: Óbidos, no domínio da literatura, e Idanha-a-Nova, na música. E Sintra, porque não?
Sintra conta com um vasto capital de heranças, recordações e aspirações de um lugar e capital intelectual, com as ideias e potencial inovador, a diversidade pode funcionar como factor positivo e concorrencial.
A economia criativa é hoje em dia reconhecida como um dos sectores em crescimento na actual economia global, por exemplo, no Reino Unido, as indústrias criativas criam 1.9 milhões de postos de trabalho em 121,000 empreendimentos e geram 8% do valor nacional bruto. Cinema, rádio, media digitais, música, artes visuais, teatro, arquitectura, moda, design, etc., são áreas afins à indústria criativa. As indústrias criativas também são notáveis pela permeabilidade entre o económico e o social, podendo alcançar objectivos sociais e culturais, lado a lado com as produções económicas.
Sintra tem grandes potencialidades como espaço de literacia cultural, pois cidade é comunicação na sua capacidade para reconhecer, descodificar e encontrar o significado e a essência de uma cidade. Todo o conhecimento é cultural. Valorizar a importância do subjectivo e sensorial sobre a cidade como também o conhecimento verificável e objectivo. Promover a Literacia cultural é usar o conhecimento cultural que implica um enfoque interdisciplinar trazendo múltiplas visões e uma diversidade de saberes.
Sintra pode ensinar, e nela se pode e deve aprender, e dela fazer um centro de aprendizagem criativa. Uma cidade de aprendizagem é uma cidade inteligente que reflecte sobre si mesma, apreende do fracasso e demonstra visão estratégica, repelindo aquilo a que José Gil chamou a «desactivação da acção».
As Câmaras Municipais  não devem ser programadoras de eventos culturais ad-hoc, antes devem assumir um papel de catalisadoras e facilitadoras dos processos criativos dos diversos agentes culturais, e a estes deve estar cometido o papel propulsor e não reativo da construção de Cidade.
A revitalização cultural de Sintra passa pela criação de sinergias e parcerias entre os agentes culturais dispersos apostando num critério de cidade criativa, aprofundando a conjugação de 3 linhas de força, a que Richard Florida no seu livro The Rise of the Creative Class chamou os 3 T:Talento,Tolerância e Tecnologia. Mas para quem começa por baixo, os passos a dar passam não pela proliferação de eventos culturais contratados fora, mas antes de mais, a fim de criar um espírito grupal, pela disponibilização gratuita de espaços que possam ser centros de criatividade, encontro e troca de informações, algo como os ingleses fizeram com os Fab Labs, pequenas fábricas, ateliers, estúdios onde se possam instalar associações e pequenas empresas, fomentando uma economia criativa, com equipamento digital base, maquinas de impressão, equipamento gráfico, nas mais diversas áreas e onde possa haver troca de informação. Este conceito catapultou já cidades antes adormecidas para novos paradigmas, como Sheffield, em Inglaterra, ou Helsínquia, com o seu Design Distrit. Em Amesterdão, o envolvimento de 9% da população em actividades e indústrias criativas ajudou ao crescimento do emprego. Na Suécia, a instalação de uma escola de artes circenses em Botkyrka, a 20 km de Estocolmo originou um centro de criatividade chamado Subtopia.
Chamar quem trabalha na ciência, arquitectura, design, moda, música, tecnologias e potenciar sinergias é o desafio que um espaço privilegiado como Sintra poderia agarrar. Pegue-se no Sintra-Cinema, na Portela, por exemplo, ou em instalações industriais encerradas, e com um mínimo de condições de funcionamento, nada de faraónico ou de fachada, promova-se a junção dos criadores e criativos. Afinal a Cultura também contribui para o PNB e com relevo, como o estudo de Augusto Mateus elencou. Sintra Criativa, pegando nos modelos que já estão inventados, essa sim, pode ser uma Marca, criando uma verdadeira Economia da Cultura num território onde existem condições naturais, população jovem e criativa e factores de localização que podem gerar efeitos multiplicadores.
Cabe ao sector financeiro igualmente apoiar nesse âmbito empresas startups de índole cultural, em que as firmas gestoras de fundos de venture capital podem ajudar com conhecimentos de gestão, acesso a redes de negócios e ajuda à obtenção de competências no posicionamento estratégico para a venda de produtores criativos inovadores e atracção de colaboradores. Recorde-se que o Sillicon Valey é o centro mundial de referência neste modelo. Efectivamente a par do apoio das instituições aos criadores e criativos, essencial se torna o apoio à formação de clusters tecnológicos, muitas vezes junto das universidades e centros tecnológicos com altos níveis de formação. Tais clusters e tais apoios são essenciais para estancar a fuga de cérebros, e que só apoios e um ambiente de empreendedorismo podem reverter.
É essencial que os criadores e criativos, depois das universidades ou de experiências desapoiadas entrem na esfera dos negócios, assim também atraindo a comunidade não só para a sua produção cultural como para novos nichos de oportunidade, criando empresas startup, apoiadas por parceiros estratégicos, como fundos de investimento, universidades ou as autarquias. Pode Sintra também aqui vir a mexer. Uma só palavra de ordem: mexamo-nos!

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quatro "estórias" para o Halloween






Palmira

-Está lá? – esfregando os  olhos, António tentava acordar- Está sim?
Já prestes a desligar o telemóvel, uma voz respondeu do outro lado:
-Sim... António? Sou eu, o Marco.
-Marco! Que se passa, já viste que horas são?
-António, tinhas razão. Nunca me devia ter metido com ela…
-De que estás a falar? Metido com quem?
-Veio buscar-me, eu sei... Está à janela, desde que anoiteceu.
-Marco – insistiu António, tentando manter a calma – andaste a beber? Quem está à janela?
-Palmira…
A ligação caiu. António levantou-se, num misto de raiva e preocupação. Não era a primeira vez que Marco o acordava a meio da noite, mas havia algo diferente neste telefonema, Marco parecia assustado. Pegou no telemóvel e ligou para o amigo, mas a chamada foi parar à caixa das mensagens.
-Ah, que se lixe! – apagou a luz do candeeiro, estava bêbado, por certo, nem sequer se iria lembrar no dia seguinte. No entanto não conseguiu voltar a adormecer, ficou com a sensação de que algo havia acontecido. Olhou para o despertador, 4:30h da manhã. Se saísse de carro, chegaria à casa de Marco já dia. Isto é de loucos, pensou enquanto se vestia. -Bolas, Marco, se te encontro a dormir e a curá-la, vais ter de te ver comigo!
Saiu de Colares e apontou à casa de Marco, na Vila Velha. Marco tinha-se mudado para lá recentemente, escritor, trabalhava num livro inspirado na vida do conde de Valenças, antigo proprietário do edifício hoje na posse da Câmara.  Luís Jardim morrera há anos, para Marco era uma interessante fonte de informações sobre Sintra em finais do século XIX. Tentou lembrar-se do que ele disse, algo sobre alguém que teria ido buscá-lo...Palmira. Quem seria essa Palmira? Uma familiar do conde descontente, por certo, Marco tinha um talento especial para se meter onde não devia.
Passava das cinco da manhã quando chegou ao casarão, com uma localização magnífica, perto do velho Paço. A porta da frente estava aberta, empurrou-a, lá dentro, tudo em silêncio, ninguém respondeu. Vasculhada a casa, nenhum sinal de violência ou de arrombamento, talvez Marco nem estivesse em casa quando lhe ligou. De qualquer forma, decidiu-se a esperá-lo, queria saber como ia o livro e quem era a tal Palmira. O escritório tinha uma enorme janela com vista para a serra, numa escrivaninha, aberto, estava um computador portátil e na parede um quadro reproduzia a paisagem que se via da janela, com o Palácio Valenças destacado a uns duzentos metros, conquanto no quadro um pequeno vulto branco surgisse miniatural numa janela. Nem sinais de Marco. Sentou-se diante do computador, estava aberto numa mensagem de e-mail: “Caro Marco. Seguem em anexo as cópias dos documentos que pediu. Um abraço. Montoito ”Anexados, três documentos.
A curiosidade começou a mordê-lo. Abriu um dos documentos, era a escritura da compra do palácio pela Câmara, no final dos anos 30. Um outro documento continha a cópia de um contrato de comodato entre a Câmara e dois criados do conde, Albertino e Palmira, um casal a quem não quis deixar na rua, garantindo-lhes morada para o resto da vida nuns anexos do palácio, com a venda quase todo destinado à nova biblioteca. Noutro anexo, a foto de uma mulher jovem, a sépia, tirada aí sessenta anos antes. Havia ainda uma pasta chamada Palmira com uma série de artigos de jornal, num deles, já antigo, o recorte de uma gazeta de Lisboa relatava a bizarra morte em Sintra de uma criada traída por uma paixão impossível por um patrão a quem a classe social apartava e que, em desespero, se lançara da janela da mansão, desesperando de um amor impossível.
António recostou-se numa cadeira, pensativo. Voltando ao computador, abriu mais um ficheiro. Outro recorte, com uma foto do conde de Valenças, sorrindo, em baixo uma legenda “Aristocrata vende palacete em Sintra ”. Observou-a com atenção e virou-se para o quadro atrás de si, era a mesma casa renascentista: janelas trabalhadas, a serra sobranceira atrás. Luís Jardim, o conde, morrera há muito, era a inspiração de Marco para o novo livro, muitas vezes pusera os belos jardins do Duche à disposição do povo, para fruição e lazer.
Havia uma foto familiar num salão com a família do conde, a um canto, uma jovem de olhos penetrantes servia chá num bule de Limoges, uma criada, cujas feições chamaram a atenção de António, uma Pola Negri da plebe, pensou. No verso da foto, os nomes de todos: Luís, Adelaide, o conde da Idanha, de visita, e Palmira, a criada do bule. Começou a abrir mais ficheiros, à procura de partes do livro em que Marco estava a trabalhar, embrenhado já naquela história intrigante. Eram histórias de aparições, e relatos de cenas estranhas ocorridas no palácio, em anos recentes. E por que motivo Marco lhe falara duma tal Palmira ao telefone? O rascunho do livro levantava suspeitas sobre esses incidentes no Palácio Valenças, insinuando que algo misterioso na velha casa estaria na origem de algumas mortes, aparentemente de causas naturais, a última, a de um subdirector do Arquivo, aparentemente de ataque fulminante, certa vez que ficara a fazer serão. Só se deu conta que o tempo passara quando o sol começou a aparecer no horizonte. Pela janela pôde ver os raios nascendo, e o ruído de uma charrete enferrujada, já próximo da casa. Levantou-se, preocupado, pensando se não seria melhor chamar a polícia, o amigo continuava desaparecido, afinal. Na parede, o quadro já não era igual, porém. A visão do palácio Valenças continuava a mesma, mas a janela central estava agora aberta, e atrás dum cortinado branco via-se tenuemente um vulto de mulher idosa, o ponto branco que inicialmente vira minúsculo no quadro. Saiu da casa a correr, e quando chegou à rua, já na Volta do Duche, descortinando a janela do palácio aberta, atrás do grosso cortinado foi nítida a visão dum vulto branco, igual ao do quadro em casa de Marco, segundos antes. Palmira, já velha, espreitava, antes que o dia nascesse. Quem levaria desta vez?  

Fogueiras na noite

Vinte e três anos e filho de pescadores da Ericeira, Raul gostava das noites de sábado para as suas conquistas nos bares da vila, cheia de turistas e em busca das marisqueiras. Certa noite conheceu Vanda, uma morena de cabelos anelados e generosa de formas, pernas roliças escondidas atrás dum vestido de chita, um sinal na testa tornava-a ainda mais interessante. Depois duma noite de copos, entregaram-se apaixonados no areal escuro mas cúmplice. Apesar do céu carregado de nuvens, a primeira noite foi vivida com emoção, as estrelas brilhavam e o luar, magnético, tinha contornos prateados.
Uns dias mais tarde, saiu com o pai e os homens para a faina da pesca, apesar de futuro advogado, havia que ajudar a família, dali vinha o dinheiro para o curso. No meio da pescaria, a nortada chegou de mansinho, para logo o mar ficar encrespado com vagas de três metros. Com a borrasca, a embarcação não conseguiu voltar ao porto e acabaram arrastados para lá de Santa Cruz, aí lançando ferro. Extenuados, levando o barco para junto da praia e sem rede de telemóvel para contactar a capitania, acomodaram-se num pinhal vizinho, pensando ali passar a noite e regressar no outro dia, no barco se possível. Atento, Feliciano, um dos pescadores, apontou uma clareira donde vinha uma luz e dirigiram-se para lá. Já perto, começaram a escutar cantos, um refrão repetitivo de vozes estridentes e femininas, soltando gargalhadas e palavras ininteligíveis numa língua indecifrável. Seguindo em frente, o clarão de fogo ficou mais visível no escuro da noite, e como por encanto, abriu-se uma clareira, onde protegidas pelo negrume da noite, umas vinte mulheres de rostos angulados e narizes pontiagudos e disformes dançavam envergando túnicas negras. As mãos eram nodosas, terminando em longas unhas, o cabelo cor de galho seco. Insistente, o vento norte sibilava, mas nada mexia na zona da clareira.
Ruidosas, as mulheres dançavam em torno do fogo, sobre uma pedra que mais parecia uma mesa estavam objectos de metal e pedra, relógios, fios de ouro, pares de óculos e outras coisas, por certo pertencentes a pessoas. Abismados, Raul e os demais, escondidos e a alguma distância, tinham agora a certeza de assistir a uma espécie de missa negra ou sabath. Raul já lera sobre o assunto, eram frequentes na serra de Sintra, as mulheres lidavam com objectos de pessoas a quem queriam mal ou dominar.Na clareira, continuaram cantando sem cessar loas ensurdecedoras, interrompidas por gritos e risos macabros enquanto ao centro um caldeirão exalava vapor e uma delas ia remexendo com uma grossa colher de pau. Pegando em canecas de barro e provando da mistela, gritavam excitadas a cada gole.

A dada altura, uma delas parou de cantar e saiu da roda, aproximando-se da moita onde se escondiam os homens e surpreendendo-os e soltando uma gargalhada estridente atraiu os olhos faiscantes das outras sobre eles. Parando a dança, uma risada em uníssono assustou Raul e os companheiros, pondo-os em fuga de volta ao barco. Elas não os seguiram mas para eles, porém, todas as bruxas da terra estavam ali naquele momento reunidas, antes uma noite lutando contra o vento e as ondas, que aquela cena de terror. Depois de uma noite no barco, de manhã e com o mar mais calmo lá voltaram à Ericeira, tão depressa não esqueceriam o que viram.
Nessa noite Raul encontrou Vanda no Ouriço e ainda fora de si deu-lhe conta do ocorrido. Ela ouviu, impávida, quando terminou estranhou a placidez no rosto da namorada. Afagando-lhe a cara, e olhando-a de perto, Raul sentiu um frémito, com aterradora certeza sentiu já haver visto aqueles olhos antes. Eram iguais aos da bruxa que descobrira os homens no pinhal na noite anterior, avermelhados e hipnóticos.
Não disse nada, sentiu que não adiantaria, estava já inexoravelmente dominado. Pegando a mão gelada de Raul, Vanda passeou-o junto ao miradouro, disfarçando um esgar de caçadora, segurou a presa amestrada, o sinal na testa parecia saliente agora.

A Terra dos Lázaros

Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme sobre a Gafaria de S. Pedro, a mal conhecida leprosaria no Arrabalde de Sintra. Lázaros escorraçados e errantes ali encontraram refúgio até ao século XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o argumento seria fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod Browning, lendo nas sombras e angustias dessas fitas grandes semelhanças com o mundo actual.
Da pesquisa feita para o filme, chamou-lhe a atenção uma tal Mabília, leprosa que ali morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de magia que usava para  seduzir os homens e depois os roubar. Morrera deformada e no maior sofrimento, jurando vingança.
Falando com os mais velhos de S. Pedro, André verificou que apesar do tempo decorrido, a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo quem jurasse ter visto missas negras nos Capuchos orquestradas por Mabília, enquanto velas rodeavam animais oferecidos em sacrifício.
Por essa altura alguns casos ocorreram reveladores de anormalidade numa terra geralmente bucólica e pacata, surgindo notícias em tablóides relatando o desaparecimento de diversas pessoas sem deixar pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda a quem haviam visto pela última vez na Mourisca, pouco antes da meia-noite. Vozes delirantes, dos que habitualmente viam filmes de terror, associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido, se bem que sempre emprestando um ar trocista aos comentários.
Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e desafiado pela adrenalina do perigo, decidiu investigar por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo, nada descobrira. Os desaparecidos não voltaram a ser vistos e a GNR pensava em arrumar o assunto, para ela a dispensar grandes cuidados. Até nem eram da terra, comentavam, se calhar até tinham fugido zangados com os familiares. Importante, eram os gangues da linha de Sintra, e fechar bares por causa do ruído aos sábados à noite.
Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando e agitado no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior, assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo Inácio que o acompanhasse com alguns guardas a S. Pedro, tinha a certeza de ter descoberto algo aterrador, tendo o grupo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta perto da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar surpreso dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com o largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se ali tivessem cavado recentemente. Perturbadores, restos de um braço putrefacto começaram a ficar visíveis. Nessa altura, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos havia que saciar. O corpo era de um dos desaparecidos, fora André, possuído por Mabília, quem o havia morto, tal como os outros, embora nada recordasse.
Arrancou a camisa e desatou a gritar, descobrindo-se marioneta sem alma e capturada por um dono invasivo do qual não se conseguia apartar, dos seus olhos chispavam os de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer descobrir sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído, e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando André como títere impotente do seu plano predador.
André recupera hoje numa casa de repouso em Mértola, quebrantado, com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda hoje pode ser avistada em S. Pedro em noites de lua cheia, sentada no Túmulo dos Dois Irmãos e esperando as infelizes presas nas noites de lua cheia.

Noite de Halloween

Fim do verão prolongado em Sintra, e tempo dum já esperado inverno, finalmente a natureza retomava rotinas e cheiros de finais de Outubro. Para a velha Gracinda, médium de Galamares e por muitos levada a sério em conselhos e mezinhas, os espíritos dos mortos do ano voltariam nessa altura, predadores dos vivos para neles viver no ano seguinte, dissera-o à Virgínia, durante uma sessão espírita onde por mil euros a pusera a “falar” com o defunto Inácio. Zombando mas ainda assim cautelosos, os homens temiam sempre esses dias de Outubro, refugiando-se na água-pé e castanhas, bem mais espirituosos que os propalados espíritos agoirados pela velha, perita em pragas, em tempos providencial parteira da aldeia. Chegava o Dia de Todos os Santos e o dia de fiéis defuntos, os velhos rumariam aos cemitérios, os mais novos, retomando a tradição pediria pão por Deus no renovado e ruidoso ritual anual.
Na noite de 31 de Outubro, agora também recente e celebrado Halloween, Hugo e Jaime montaram-se na motorizada a caminho duma festa na garagem da Vera, em Cabriz, combinada com os amigos do liceu. Vestidos a preceito, de vampiro, abóboras com velas adornavam-lhes o muro da casa, antevia-se uma noite de copos, fria mas aquecida pelo álcool e algum “bruxedo” mais noite dentro, depois de providenciais dentadinhas no pescoço. Estava frio e sem vivalma, animados, tomaram o caminho do Torrado, nessa noite silencioso e perturbador. Apenas alguns rotweilers ladravam, à passagem, sentado atrás de Hugo, Jaime com uma capa preta acossava ainda mais os cães inquietos, segurando as garrafas do vodka com que a festa enfim animaria. Junto ao moinho em ruínas, a scooter em segunda mão acusou o peso em excesso e qual burro velho “pifou”, ainda metade do caminho não estava percorrido.
-Bolas, é preciso azar, meu, esta treta não quer andar mais!- rosnou Hugo, os olhos pintados de negro, mais parecia um Zorro de segunda classe, montado numa pileca cansada - acho que por hoje não vai dar mais! - conformou-se, dando um pontapé na roda da velha motorizada.
-Fogo, meu, ganda cena! Vamos a pé, daqui lá é pouco mais de meia hora! Amanhã a ver se o Leonel vê o que se passa! Bora!
Encetado o caminho a pé, ainda mandaram um SMS a avisar do atraso, nenhum dos amigos estava de carro que os pudesse apanhar. À passagem pela casa ao abandono do velho Vicente, um cão preto, rafeiro, saiu-lhes ao caminho. Manso, escanzelado, ali ficara desde a morte do velho amolador três meses antes, vadiando e ladrando aos rapazes, conhecidos de longa data:
-Tejo, anda cá!- gritou o Jaime- vai para dentro, meu, andas às cadelas? Vai, vai!
O cachorro, sem dono agora, ainda os acompanhou uns metros. Em noite sem estrelas e falhado o candeeiro já perto da Várzea, um repentino breu envolveu-os, entre a folhagem densa e as árvores frondosas que antecediam a povoação. Ao longe, uma luz na casa da velha Gracinda, subitamente apagada, a velha recolhia-se por certo, no meio das suas velas e mesas pé de galo.
Um pouco mais à frente, uma voz roufenha cantava um velho fado de Marceneiro. Era o Seca Adegas, bêbedo como sempre, a pé para casa. Um vulto indistinto seguia-o a poucos metros, cambaleante mas em silêncio, à primeira não vislumbraram quem fosse, algum companheiro de copos, Seca, borracho como todos os dias, pronto a recomeçar no café do Sérgio na manhã seguinte. Ruborizado, cantava, com voz de cana rachada, à vista dos dois jovens mascarados, ensaiou um ar de surpresa e empunhou a garrafa de tinto como se fosse uma espada em riste:
-Quem são vocês os quatro, homens de Deus? Se é para roubar vêm enganados, daqui não levam nada!
-Pôe-te lá manso, ó Seca, somos nós não nos reconheces?
O velho ébrio cerrou os olhos e agarrou os dois pelo ombro, mudando de atitude, o bafo a aguardente quase contagiante:
-Oi, rapaziada! Então onde é o Carnaval? Não pagam um copo aqui ao vosso amigo? Estou com uma sede danada, quase não bebi nada hoje…- arrastou a voz, completamente borracho
-Vai-te mas é deitar, meu!- afastando o braço do seu ombro, Jaime procurava libertar-se do bafo e do cheiro a bosta, não deveria tomar banho há semanas- então e esse aí quem é?
-Esse quem?- questionou meio zonzo o velho funileiro- não está aqui ninguém, só vocês!...-arengou
-Aquele ali, com um casaco pre…
Antes que terminasse a conversa, um objecto contundente tombou brutalmente sobre a cabeça de Jaime, decepando-a do corpo, deixando o resto do corpo a cair desgovernado, o fato de vampiro jorrando sangue na estrada de macadame. Hugo ficou gélido, Boris Karloff de ocasião disfarçado para o Halloween. Sem que o Seca Adegas reagisse, o vulto chegou-se à frente, para zona iluminada, boquiaberto, Hugo reconheceu o rosto desfigurado do Vicente, lívido, e coberto de terra, segurando um machado de cortar lenha. Atónito, esfregou os olhos, o Vicente morrera três meses antes, como podia estar ali.
Olhando quer o vulto do Vicente quer o alheado Seca Adegas, viu chegar ladrando contente o Tejo, a roçar-se no regressado dono. Sem dizer nada, desatou a fugir, a capa de vampiro ondulando, embrenhando-se no mato e deixando o corpo inerte do amigo na viela sem luz.
Ao passar pela casa da velha Gracinda, esta estava à porta, segurando um candeeiro a petróleo, como se já esperasse por ele. Com um riso aberto e sórdido, apontou-o com a mão enrugada e carcomida e sentenciou:
-Acreditas agora no regresso dos mortos? O Vicente veio buscar a sua presa. Para o ano, será o Jaime quem virá buscar a sua! E como quem lança uma praga rematou ameaçadora:
-Assim é, na Noite das Bruxas. Hoje e na noite dos tempos!- e voltando para dentro apagou a luz, desaparecendo na escuridão da casa isolada no Torrado.
Em Cabriz, os amigos do liceu já eufóricos com a vodka preta e à luz de velas, faziam a festa, divertidos. Vera estranhou a demora dos amigos, e comentou com Pedro, escondido atrás dum disfarce de Scream:
-Onde estarão aqueles dois? Já tinham tempo de cá estar, meu!
-Não te preocupes, já devem estar com uma de caixão à cova…
Lá fora, a serra vigiava perturbadora e a noite silenciosa escondia mais um crime de 31 de Outubro. Alheio e brincalhão, o Tejo ladrava às cadelas no caminho do Torrado…