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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Junte-se à Rede Cultural de Sintra

 


 

Carta de Intenções da Rede Cultural de Sintra

Sintra é um espaço multifacetado onde confluem através do testemunho de várias gerações valores consagrados e emergentes nas artes e na vida cultural, constituindo um panorama diversificado composto pelos testemunhos visuais, literários e performativos de quem no seu seio cria, produz e divulga as mais diversas formas de expressão.

É nos tempos crepusculares como o que vivemos que o seu trabalho carece de maior atenção, forjando união e convergência de atitudes e propostas no sentido de dar maior visibilidade e apoio a todos os que à sua maneira têm algo para dar e comunicar, acrescentando massa crítica e substância à vida quotidiana.

Para tanto, um grupo de indivíduos ligados à cultura em Sintra vem propor e convidar os destinatários deste Manifesto, bem como todos os que se lhes queiram juntar, à criação duma Rede Cultural com o objetivo central de promover a coesão e desenvolvimento local através do acesso e dinamização das diferentes práticas culturais em Sintra, em todo o seu espectro, desde a arte tradicional à arte contemporânea.

A estrutura ora criada terá natureza informal, com base na colaboração voluntária dos seus integrantes, e respeitará sempre as orientações estéticas, criativas e inovadoras dos seus integrantes, apenas rejeitando contributos ou colaboradores que pretendam usar a Rede no sentido da propaganda político- partidária, de promoção de religiões ou confissões religiosas, ou de eventos que apelem à xenofobia, racismo, discriminação de género ou ofensa do bom nome de terceiros, sejam pessoas ou instituições, no que exceda a crítica saudável e razoável

Para alcançar esse objetivo propõe:

1) potenciar sinergias entre os diversos atores culturais presentes no território;

2) implementar estratégias de divulgação das ações culturais dos seus integrantes e desenvolver diálogos com as comunidades locais;

3) apoiar os agentes culturais em aspetos legais e de produção.

A Rede Cultural de Sintra pretende ser um espaço de encontro livre e informal de indivíduos, tendo em vista a diversidade, interligação e diálogo intercultural, sem submissão a qualquer ideologia pré-definida (religiosa, partidária, estética ou outra), no respeito pela liberdade criativa de cada um. Consideramos que o importante é o fazer dentro de um espírito de respeito mútuo e cooperação.

Do ponto de vista prático, propomos, desde já

- a organização de uma tertúlia de encontro regular e um evento também regular, ao vivo, que reúna artistas consagrados, artistas emergentes e as gentes de Sintra, tendo em vista a diversidade, interligação e diálogo intercultural, sem submissão a cartilhas estéticas ou pré-definidas, no respeito pela liberdade criativa de cada um.

- a construção dum site da Rede com uma listagem dos diversos criativos com toda a informação sobre o trabalho e iniciativas dessa pessoa ou grupo, bem como à sua página e links;

- a criação de uma Agenda Semanal dos Eventos em que participem os grupos e agentes culturais integrantes da Rede, no âmbito do site e das redes sociais, a ser divulgada pelas redes, comunicação social e bases de dados, bem como a possibilidade de registar em vídeo ou streaming eventos em que participem integrantes da Rede, com criação de um canal YouTube da mesma;

- a criação de um espaço, físico e/ou virtual, de apoio a todos os integrantes, nomeadamente no plano jurídico, técnico e artístico, com realização de workshops e ações de formação para os membros, em áreas técnicas e artísticas, a ministrar por elementos da Rede ou personalidades por si convidadas, bem como informação sobre candidaturas a apoios públicos ou privados, mecenato, crowdfunding e outras formas de financiamento.

A Rede Cultural de Sintra é um projeto em construção de todos e para todos. E será o que quisermos que ela seja com o contributo da ação de cada um. Assumindo a responsabilidade do artista para com a comunidade em que se insere, da comunidade para com o artista e das potencialidades criativas inerentes a uma rede de amizade e entreajuda.

A adesão às ideias e propostas da Rede Cultural de Sintra é simples, e opera nesta fase pelo simples envio de um mail para redeculturaldesintra@gmail.com , enquanto um próprio não for criado, com indicação de nome, endereço e contacto, área cultural onde desenvolve iniciativas (a sós ou em grupo), endereço web (se tiver) e indicação da disponibilidade para colaborar, e em que áreas.

ADERENTES A 2 DE DEZEMBRO: António Bartolomeu, produtor, do Teatro Efémero; André Fausto, ator, músico, grupo de teatro Identidades; Vanessa Muscolino, artista plástica e poeta;Vanessa Oliveira, organizadora do Poetry Slam Sintra, divulgadora ambiental; Raquel Ochoa, escritora; Fernando Morais Gomes, jurista, Presidente da Alagamares-Associação Cultural; Raul Pinto, pianista; Ricardo Pereira, Presidente da Sociedade União Sintrense; Rita da Fonseca, da Dream Makers; Miguel Moisés, ator, Teatro Efémero; Rosa Borges Jacinto, fadista; Filomena Marona Beja, escritora; Ivo Ramad, músico; João Antoniotti, organizador de eventos; Fernanda Botelho, autora de livros sobre Botânica e Natureza; David Cabral, autor e técnico de multimédia; Joana Correia, divulgadora cultural; Thalliz Duque, divulgador cultural; Salomé Pais Matos, harpista; Tiago Pereira, teatro Lordes do Caos; Marco Oliveira Borges, historiador; Daniel André, divulgador cultural e guia de montanha; Maria Barracosa, atriz, Voando em Cynthia; Carlos Manique, historiador; Thiago Bradell, arquiteto; Luciano Reis, formador, animador sociocultural e autor; Eurico Leote, professor e encenador; Alexandre Gabriel, músico, da Zéfiro e Casa do Fauno; Luís Filipe Sarmento, escritor; Rui Zilhão, artista plástico, cartunista, músico; Nuno Miguel Gaspar, historiador; Nuno Correia Pinto, encenador, Chão de Oliva; Nuno Bastos, escritor, performer, artista plástico; Massimo Mazzeo, maestro, fundador do grupo Divino Sospiro; Susana C. Gaspar, atriz e encenadora; Cláudia Faria, atriz; Sílvia Rocha, advogada; Renato Epifânio, filósofo, diretor da revista Nova Águia; Francisco Andrade, podcast Sessão da Meia Noite; Filipa Guimarães, técnica de Relações Internacionais; Inês Franco, estudante universitária grupo de Flamencas Ai a Dança!, tunas da Faculdade de Letras e Poetry Slam; Jorge Trigo, escritor e historiador; Analua Zoé, poeta, pintora, atriz, fotógrafa; Maria José Ferreira, artista plástica; Pedro Rodil, ator; Rodrigo Figueiredo, designer gráfico; Frederico Pais, professor de música; Adriano Reis, ator, contador de histórias; Rute Moura, autarca; Bruno Caseirão, musicólogo; Vasco Nascimento, guia turístico; João Maria, street artist;Hugo Ginjas, baixista da banda rock Trotil, técnico de som free lance; Paulo Lawson, músico, vocalista da banda D. Elvira; João Reis Pedreira, músico; Filomena Barata, técnica superior do Museu Nacional de Arqueologia; Paulo Croft, músico; Sérgio Fontão, maestro; Paulo Cintrão, produtor e ator, byfurcação; Rui Cardoso, produtor radiofónico; Eduardo Sérgio, operador poliestético, músico prospectivo, performer, filósofo, professor universitário; João Aguiar, advogado; Pedro Neto, diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal; Cristina Félix, autora; Cláudia Ferreira, professora, Coletivos Cirandart; João Mais, ator; Vítor Amaro, presidente da Associação de Artesãos do Concelho de Sintra; Ofélia Cabaço, autora; Criaatividade Cósmica, Associação Cultural;Marcos Félix Gomes, ilustrador, desenhador; Célia Colimão, pintora; Andreia João, cantora; José Manuel Anes, professor universitário; Daniel Alves, produtor de vídeo;Miguel Real, escritor e ensaísta; Luís Martins Pereira, Café Saudade; Maria Rolim, Colares Editora; Rugas Associação Cultural; Clara Saraiva, presidente da Associação Portuguesa de Antropologia; Raúl Tomé, sociólogo; Sérgio Moura Afonso, ator; Cláudio Marques, conservador do Palácio da Vila de Sintra; Vanessa Henriques, realizadora; Coral Allegro, grupo coral; News Museum-Museu das Notícias de Sintra; Rui Oliveira, divulgador de História Local; Vítor Pena Viçoso, professor e ensaísta; Sandra Canelas, animadora cultural; Rui Mário, ator e encenador; Liberto Cruz, escritor; André Filipe, músico; Marina Ferraz, escritora e blogger; Ariadne Castro, animadora cultural; Nuno Antunes, fotógrafo;Filipa Vieira, designer e fotógrafa; António Luís Lopes, sociólogo; António Carlos Cortez, escritor, vencedor do Prémio Ruy Belo 2020; Paula Pedregal, atriz; Samuel Saraiva, ator; Hélder Silva, músico

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A Esquizofrenia da Pandemia

 

Porque Portugal é um Estado de Direito Democrático, de acordo com o artº 2º da Constituição”, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais” a validade das leis e dos demais atos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com a Constituição (nº 3 do artigo 3º), sendo tarefa fundamental do Estado garantir os direitos e liberdades fundamentais, e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático (artigo 9º, alínea b). 

Nos termos do artigo 18º os preceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são diretamente aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas, e a lei só pode restringir os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição, devendo as restrições limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos, não podendo os órgãos de soberania conjunta ou separadamente suspender o seu  exercício, salvo em caso de estado de sítio ou de emergência, declarados na forma prevista na Constituição, e por períodos de 15 dias, devidamente balizados e fundamentados. Igualmente, nos termos do artigo 26º, a todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à proteção legal contra quaisquer formas de discriminação. Mais claramente, dispõe o artigo 35º que a  informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem étnica, salvo mediante consentimento expresso do titular, autorização prevista por lei com garantias de não discriminação ou para processamento de dados estatísticos não individualmente identificáveis, rezando o nº 4 desse normativo: “ É proibido o acesso a dados pessoais de terceiros, salvo em casos excecionais previstos na lei”.

Com estes constrangimentos legais, há que evitar dar o passo que abriria a caixa de Pandora para uma sociedade concentracionária, condicionada, e com um leque das liberdades claramente profanado.

Sabemos que cada telemóvel que usamos há muito põe estes valores em causa: podemos ser georreferenciados, podem desenhar-nos perfis para uso comercial, político ou policial, e são recentes os casos da Cambridge Analytica e da campanha de Trump, em 2016, baseada em perfis recolhidos ilegitimamente,  ou  ainda a invasão de propostas comerciais baseadas nas escolhas que fizemos ao comprar online uma vez que fosse, ou ao consultar certos sites ou bases de dados, aí deixando uma pegada digital.

Contudo, mal ou bem, é ainda nossa opção dispormos dessa privacidade quando decorre da nossa vontade individual,  mais ou menos esclarecida, numa sociedade onde estar na montra é cada vez mais uma hedonística prova de vida e a manifestação de opinião se reduz a um like ou um emoji.

A máscara que hoje nos protege, pode porém ser um dia o açaime que nos silencia, e o telemóvel que nos liga ao mundo a torre de marfim onde nos vigiam.  

Que a pandemia não nos deixe escorregar para a esquizofrenia.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

Os nossos amigos "bifes"

  
Estes ingleses ditos nossos mais velhos aliados nem sempre o foram. E se ajudaram em Aljubarrota também foram ajudados quando, estando Carlos II na penúria foi o casamento com Catarina de Bragança quem lhes levou o dinheiro, as possessões e até o chá que hoje bebem.

Já durante as invasões francesas, foi por causa deles que Napoleão mandou invadir Portugal, por sermos fieis à velha aliança e recusado o Bloqueio Continental, tendo eles, depois de nos "ajudar"  feito do país um protetorado até 1822, e mandado entretanto enforcar Gomes Freire de Andrade. Como ponto alto da "amizade", o famoso Ultimato com que nos humilharam após o Mapa Cor de Rosa, bem retratado na letra do nosso Hino, cuja primeira versão, indignada, era "contra os bretões, marchar, marchar."

Sejamos claros: após o desconfinamento, os países mais afetados esconderam os mortos e os infetados, e só Portugal, ingénuo, não se apercebeu de que era "the economy, stupid!". Por um lado, seriam de dispensar as hordas de proletários ingleses bêbados, de peúga branca e sandálias, que anualmente fazem do Algarve o seu quintal de férias. Por outro, não há que fugir ao facto de a british pound pesar muito na economia local, culpa de nos termos tornado um país de serviços cujo maior ativo é o sol. Venham aos menos os irlandeses e os escoceses, que também bebem muito, mas ao menos sabem cantar.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Todos iguais, mas todos diferentes

A morte de George Floyd foi um momento triste numa América violenta e onde a discriminação racial permanece latente e pronta a manifestar-se a qualquer fósforo incendiário. Contudo, tal não pode nem deve levar a manifestações de racismo de sinal contrário, como o derrube e vandalização de monumentos parece demonstrar, ou o protesto traduzido no assalto a lojas de marca para roubos e pilhagens sem justificação.
A escravatura foi um momento negro (passe a ironia) na História do Mundo. Mas, infelizmente desde sempre existiu, porque o homem é o lobo do outro homem, seja branco, negro ou amarelo, e a dominação pelo poder, por alimentos ou honrarias sempre moveu a natureza humana. Quando o infante D. Henrique comprou os primeiros escravos na Guiné, quem lhos vendeu? Régulos locais que se digladiavam entre si e escravizavam os inimigos para seu belo prazer, ou vendê-los aos europeus como coisas, com o beneplácito da Santa Madre Igreja. Tal como a Inquisição, a escravatura é execrável, mas podemos transpor para o século XXI a mentalidade de tempos imemoriais que só no século XIX europeu se interrompeu? À violência de séculos devemos responder com o apagar do passado ou com intolerância de sinal contrário? Vamos fazer fogueiras com a "Cabana do Pai Tomás", "Chaimite" e "O Feitiço do Império", ou cuspir e derrubar as estátuas de Mouzinho de Albuquerque ou do Infante D. Henrique? Já agora, em Sintra, vamos acabar com a Casa do Preto, esse antro escravocrata, o Jardim da Preta, no Palácio da Vila, ou mudar o nome a Negrais, tenebrosa terra onde se oferecem leitões em holocausto?. Também dirigentes africanos, muitos ditos libertadores do colonialismo se tornaram ditadores e até racistas de sinal contrário, como Mobutu, Bokassa, Idi Amin ou Mugabe, torturando e perseguindo o seu povo, após se livrarem do europeu explorador.
Haja bom senso, e assuma-se a História com clarividência e sem vinganças ou ajustes de contas ,ensinando e incentivando a tolerância em todos os níveis das sociedades modernas, sem esquecer a profética frase de Brecht: "do rio que tudo arrasta dizem ser violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem". Há negros, e brancos, latinos e eslavos, árabes e ameríndios, mongóis e índios de várias proveniências, e também entre eles e no confronto com eles nem sempre vislumbrou o Outro, igual e parceiro,mas inimigo e desconfiado. Acima de tudo, está a  raça humana e é a Humanidade a nossa comunidade de Destino.


terça-feira, 2 de junho de 2020

"Deixem-nos respirar"!

O coronavírus, tal como o racismo e a violência policial contra as minorias, apesar de combatidos por muitos, propagam-se de forma viral numa sociedade com poucos e fracos anticorpos, e geralmente assintomática, apenas reagindo quando o medo e o excesso acordam os espíritos dolentes e conformados. O vírus andava aí, mas foi só quando bateu à porta da Europa que reagimos, defensivamente. O racismo e violência contra os negros ou outros grupos aí esteve sempre, mas foi só quando um telemóvel transmitiu a morte em direto que reagimos de forma grupal.
“Não consigo respirar”, foram as últimas palavras do mais recente mártir desta guerra desigual. Todos nós dificilmente poderemos respirar num mundo onde os Trump, Bolsonaro e outros títeres, alguns portugueses, também, nos apertam o pescoço com a perna, até nos derrotarem ou liquidarem. Respirar é preciso, e eliminar a perna opressiva que nos quer fazer desaparecer como seres diferentes e distintos, onde a cor da pele, o sexo ou as convicções acobertados numa farda, num posto ou numa autoridade são motivo para matar ou oprimir. Se nos cuidados intensivos das vítimas do Covid ventiladores são precisos, é toda uma sociedade também a precisar do ventilador da tolerância, da justiça e da equidade. Deixem-nos respirar!

sábado, 23 de maio de 2020

A Ditadura do Precariado

A pandemia que avassala o mundo fez de 2020 um ano que deixou de existir em muitos campos, com destaque para o das artes performativas e dos espectáculos, pondo a nu a realidade de um sector que em 2018 contabilizava 134 mil trabalhadores de diversas áreas, artísticas e técnicas com um volume de negócios de 6,3 mil milhões de euros. Acalmada que seja a dramática situação de muitos artistas e produtores há que construir um edifício jurídico que em momentos de stress não atire milhares de pessoas para o assistencialismo cultural das esmolas do Estado, que é sujeito de deveres neste campo igualmente.
Os agentes culturais são maioritariamente artistas individuais ou pequenos grupos por vezes com uma estrutura orgânica precária, e raramente se orientam por interesses globais, a não ser em momentos de aperto. Tive essa experiência há dez anos quando com um pequeno grupo de personalidades de Sintra fui um dos promotores e fundadores da PAACS- Plataforma das Associações e Agentes Culturais de Sintra, que juntou na altura 25 grupos e associações, visando potenciar o trabalho em rede e unificar vozes no sentido da optimização e partilha de recursos e da defesa dos interesses da classe, indo dos dançarinos ao pessoal do teatro e cinema, das correntes alternativas à música de vários estilos. Durante mais de um ano, ainda funcionou, Contudo,a hesitação em dar passos resolutos no sentido de criação duma estrutura forte, não engajada a poderes públicos, partidários e fácticos, fez com que, prematuramente, ficasse pelo caminho. Um dos pontos fracos do mundo artístico é a sua atomização, e por vezes rivalidade na disputa dos magros subsídios que um Estado avaro da cultura e que para ela olha como entretenimento e com diletantismo, embora a classe artística sempre esteja disponível para as causas de solidariedade de forma pro bono, porque os artistas são o povo que canta, escreve, e em verso, música ou risos, talha a alma dos povos .
Muitos estão hoje pela fragilidade da sua situação, no limiar da sobrevivência, e há que olhar de frente e de forma estruturada o seu futuro não só imediato como, em termos de futro, a nível da proteção social efectiva, garantia de um rendimento médio, e atribuição de espaços condignos para os seus espectáculos, ensaios e encontros. Há que ser criativo, e encontrar nesta fase novos e transitórios espaços e modelos de levar a Cultura ao povo, pois nem todas as manifestações artísticas se completam só com o online ou o You Tube, há que cheirar os lugares, escutar as vozes, apreender as cores, rir e aplaudir em uníssono e em grupo experimentar a catarse que a arte a todos proporciona, e faz evoluir.
Se os espaços interiores não comportam lotação, façam-se espectáculos nas ruas, nos parques de estacionamento, nos coretos ou nos mercados. Se pode e deve haver distanciamento social nos supermercados, nas farmácias ou nos transportes públicos, porque não nesses locais, reinventando o Espaço para o adequar a este Tempo, transitório e de purgatório?
Ninguém tem culpa da pandemia, mas um Estado avaro e pouco inovador tem culpa da anemia que assola o sector cultural e o coloca à porta da sopa dos pobres.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Os historiadores eunucos.

A polémica em torno de Rui Tavares por causa da utilização dum vídeo de arquivo em que o mesmo fala da Exposição do Mundo Português, usado por um professor do EstudoemCasa, mostra como certas pessoas pensam pequenino e não sabem separar as águas, passeando atitudes ultramontanas e censórias.
Enquanto aluno de Direito, estudei por livros de Marcelo Rebelo de Sousa, então do PSD ou Vital Moreira, do PCP, e vários anos depois do 25 de Abril a referência máxima para o estudo do Direito Administrativo era ainda o Manual de Direito Administrativo do professor Marcelo Caetano, político que nunca apreciei, mas ainda hoje eminente referência da História do Direito e do Direito Público. Muitas figuras do nosso meio cultural militam ou militaram em partidos, e ao mesmo tempo foram ou são académicos brilhantes (só para citar alguns, recordo Adriano Moreira, Fernando Rosas, Freitas do Amaral, Saldanha Sanches, José Hermano Saraiva etc), todos conotados com partidos ou determinado pensamento político, e nem por isso feridos na sua independência e conhecimento científico. E então?
O conhecimento técnico não ostenta nem pode ostentar autocolante partidário na lapela, sobretudo quando a honestidade intelectual não interfere com as convicções pessoais de cada um nem é subvertida para converter os incautos. Como escreveu um autor que não me canso de invocar, Baruch Spinoza, filósofo holandês de origem portuguesa, "interessam-me os factos humanos não para aplaudi-los ou atacá-los, mas meramente para compreendê-los". A Cultura só tem uma trincheira, que é da sua promoção e afirmação pluralista, típico duma sociedade aberta que alguns insistem em coartar. Depois, cada um que aplauda ou ataque, essa a essência da democracia, não a de criar eunucos.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Do Diário do George (um qualquer George)



Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, sombra envelhecida dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão da praia, agora sem gente, cinzenta, onde alguns náufragos em terra circulam, sedentos de miragens. Recolho ao carro, e ao cúmplice rádio de tranquilizantes melodias.
É estranho este novo país desconhecido, onde não se pode abraçar um amigo, beijar uma namorada ou acariciar uma avó, raptados das nossas emoções atrás de aviltantes panos que talvez um dia sirvam para nos enrolar, como múmias nos sarcófagos, mortos por ter de deixar de ser humanos, por ousar respirar a liberdade e, sem o querer, viver capturado por um microscópico ditador, alheio a lágrimas, sorrisos e ilusões.
O mar provoca, desafia a vencer, a cavalgar a onda, ousando, e logo a seguir, uma quebra, um atávico apelo a desistir, vencidos de nós, temerosos. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, anunciando um perturbador purgatório, entre o pesadelo e a ilusão. No leitor do carro, oiço Kurt Weil, e, como ele, suplico, onde está o caminho para o próximo whisky bar?…
Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo ao inimigo? A Primavera fugiu, fugaz, em quarentena da Vida e confinamento da Alma. Volta, és nossa, és Sul, e és Sal, és o tónico deste velho e atónito Portugal!
Ululantes e fantasmagóricas hordas de conformados, a medo patrulham a Cidade, raptada e de luto. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas, ameaçadoras agora, com a promessa de castigos, cruéis e castradores, e de estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não mais despertar, para de vez voltar ao filme onde todos são felizes, que inveja. Ah, como é puro o cheiro límpido do iodo, magnânimo e libertador.
Dedilho umas linhas para a imortalidade, esculpidas no vasto areal, ao lado observo trilhos de passos, na areia molhada. Empolga, a canção do CD, a velha Alabama Song, cantem os Doors ou David Bowie, é Portugal amarelo scotch passando em fundo, albergue de errantes, trôpego de futuro, e sem pedras de gelo. Vamos todos para Alabama e acolhamo-nos num whisky bar esperando o nirvana e acordar do pesadelo!
Num solitário quiosque, anoréticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, os cardíacos relatos deste diário crepúsculo. Aconselho deixar de ler jornais. De tão abusadas, gastaram-se as palavras, analfabetos, não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos, melhor beber uns copos, fanfarrões talvez salvemos o mundo aí pelo quinto gin. Só o álcool-não o do tal gel- é redentor, e concubino. Amigo certo, presentear-me-à por certo com uma poética cirrose, maleita de intelectual, é o mínimo, os verdadeiros intelectuais sempre se trataram com álcool. Não morrerei de pijama, mas de fraque, que não se vai para o outro mundo de pijama, espero que no tal do Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro.
Afastando-me do paredão, posso agora pensar em novas madrugadas, com cravos brancos. Sim, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com o som de Chopin em fundo, talvez o meu velho amigo Fernando me dedique uma estória das dele. Campa. Sim, quero uma campa, grunge, salpicada de cruzes entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, que é coisa para frango assado, ou talvez para a Joana d'Arc.
Passou a Ângela no calçadão, trauteio baixinho a Alabama Song, pelo retrovisor vejo o Max sentado no banco de trás, grande Max, já partiu, e de fraque, sete outonos atrás, espera aí Max, vou a caminho!
É cruel, escrever com caneta de aparo. As palavras sangram, e impiedoso o aparo mata, invasiva arma contra as palavras vãs, com caneta de aparo e tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar epitáfios e apunhalar palavras errantes em confidenciais cadernos.
Cristo morreu, Marx também, e eu, francamente, não me sinto lá muito bem. São cruéis os dias, mais a merda da máscara, convoca à lassidão do corpo. E ainda hoje é quarta. O homem de Nazaré morreu numa sexta. Aninhado entre pregos de aço, ressuscitou num sábado, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a um copo no bar. Mas qual?
Esfíngico, o sol põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, o leitor no carro repete o Alabama em looping, talvez o Kurt e o Brecht queiram um bourbon. Aguarda, Max, vou já!…
Assina: um poeta das cirroses, mas das elegantes, sempre aconchegadas em copo alto e, se o Valdez fiar, perfumadas com um puro de Havana. A pandemia é uma monotonia.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Internacional da Língua Portuguesa

Hoje é o Dia Internacional da Língua Portuguesa, em tempos de lay-off, lockdown, take away, burnout, instagram stories, e outras portuguesissimas expressões. De volta dos seus laptops e tablets, fazendo download de programas e upgrade de app's, os portugueses celebram com emojis e GIF's, enquanto devoram happy meals e aguardam under stress que Bruxelas emita recovery bonds, revistos que sejam os ratings. Leiam e-books para providenciar mais royalties aos autores portugueses e aumentar a sua popularidade no ranking dos best-sellers e mainstream. Portuguese is beautifull!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Carta ao Rogério, em dia de Quarentena

"Caro Rogério
Observo um Glenffidich, com gelo, em fundo, toca a dança dos espíritos abençoados, do Orfeu e Eurídice. Mais um dia de quarentena, tardia que está esta envergonhada Primavera, e o regresso à liberdade. O sol espreita tímido, mas para quê sol nos corpos, quando gelam as almas? Odeio estes dias do dito "confinamento". Dantes a família almoçava aos domingos, depois da missa. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio de barco ao Ginjal, no fatinho à marujo, a comer enguias e a visitar a avó, que esperava com bolo de noz e scones com geleia. Nunca mais comi bolo como esse. Também têm passado, os sabores, Rogério, e muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, que saudades do rádio, gritando cada penalty como se o locutor fosse ter um enfarte.
É, o passado está todo aqui, numa prateleira, nos retratos em álbuns, arquivos mortos de vidas passadas. Cansei do Gluck, agora que deram os mortos da Espanha, oiço agora o Strauss, Rogério, uma valsa, que seja, encerra juventude e nostalgia, só por isso, outro Glenfiddich, raios partam o Famous Grouse, está cada vez mais martelado. Engraçado. Nunca estive nesse passado, com valsas e palácios, mas também ele é passado do meu passado. Cliché. Bonito. É sempre bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. Vou apagar a televisão, chega de electrodomésticos e de mortos, por hoje!
Não mexe uma palha lá fora, sabes, só uma velhota sem máscara a caminho da padaria, cá dentro, corre um vento intranquilo. Que presente recordaremos daqui a vinte anos como sendo um bom passado? Os copos que se beberam? A infância dos filhos, ingénuos e puros, azul ou rosa, como os fatinhos lhes enfiámos à nascença? Queria ouvir Jim Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Oiço a Annen, Rogério, sim, a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Para os infelizes, antes Philip Glass ou Bartok, eu quero evadir-me, quero Glenffidich, vou aumentar o som e dizer à vizinha que enlouqueci, e que o som é a conselho médico!
Engraçado, Rogério, sinto-me um pássaro numa melodia de Dvorák. Dantes todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações. Olha, bebe um copo à minha saúde e diz ao mundo- ou pelo menos ao caseiro- que o Arnaldo da Nóbrega desistiu de viver. Só ouvia vinis, e num mundo onde já não se vendem pontas de diamante, riscou-se de membro do clube. Que partiu, ao som de Annen, levando os livros, os sonhos, o perfume de Sofia, muitos passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn! É forte, o adeus em alemão, seguro e sem lamechas. Rogério! Maldito, se não fosse a tia Zita já te tinha esfrangalhado, degenerado! Olha, pensando bem compra mais uma garrafa de Glennfiddich e deixa-me aqui à porta, imprestável!
Assina: Arnaldo Nóbrega, vendedor de insónias"