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quinta-feira, 26 de março de 2020

Diário da Resiliência-2

Alguém escreveu, citando Edgar Morin, que as sociedades são comunidades de destino, e nunca como nestes momentos tal se revela dramaticamente verdade. Fechados nos nossos Eus, no hedonismo e na canibalização dos Outros por uma sociedade de ganância e vaidade, momentos há em que somos chamados a confrontar-nos com a fragilidade e transitoriedade da nossa existência. E este é um deles. O Nós chama pelos Eus recalcitrantes, e convoca para novos comportamentos e atitudes, de partilha e humildade. Como disse Confúcio "Se alguém tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se alguém tem uma ideia e troca com outra pessoa que também tem uma ideia, cada um fica com duas.”. É tempo de ouvir, e também de agir.Da crise e depois da catarse, nascerá um novo amanhã, fatalmente diferente, e o Homem, aflito, continuará a sua caminhada. Voltará a errar, mas a desbravar caminhos também, curará pandemias e doenças e voltará a fazer guerras e alimentar conflitos. Aflito, sempre, na busca desnorteada da Luz que o atrai e que a Caverna onde como rebanho/alcateia deambula desde sempre lhe acena, e repele, também.. Bom dia de mitigação.

domingo, 15 de março de 2020

Diário da Resiliência-Dia 1

Sintra, pela manhã. No Pingo Doce e Minipreço, entradas controladas, 3 de cada vez, e só entram quando saem outros 3; Num cartaz afixado, o Despensa Cheia anuncia o encerramento por tempo indeterminado.
Pessoas, poucas, passeiam, a maioria acata, algumas reclamam entre dentes. Nas televisões apela-se ao fecho de fronteiras, na rua uma carrinha com espanhóis, carregados de malas, entreolha-se sem saber o que fazer.
Volto para casa, e oiço o Amor a Portugal, da Dulce Pontes, as redes sociais têm nestes dias uma atitude ambígua, quer destilando o habitual ódio a tudo o que mexa, quer apelando a correntes humanas e, felizmente, civismo e precaução. É Portugal num inesperado Março de máscara na cara.
Na Portela de Sintra, também o Mira Serra está a meio gás, muitos almoços a menos, mesas separadas e a mais de um metro entre cada uma. No Pingo Doce há fila para entrar, a partir de amanhã abre só das 10h às 14h e das 16h às 20h.
Entretanto, os infetados subiram para 245. Hoje parece haver mais pessoas a aderir à necessidade de proteção, ainda recalcitrante aqui e ali, por o número de mortos ser nulo ainda e por muitos propalarem teorias da conspiração, sempre iniciadas com a expressão "sei de fonte segura"...
É preciso não dar razão à frase do velho Estaline: "se morre uma pessoa, é uma tragédia; se morre um milhão, é uma estatística".
A tarde chegou fria e cinzenta, como se um sopro de morte holograficamente espreite, predador, à espera de ceifar vidas, aflitas na sua fragilidade. Apetece ouvir a Lacrimosa de Mozart, acompanhado dum James Martens, e refletir sobre o jogo de sombras em que dum dia para o outro tudo mudou, ante o espanto que nos deixa catalépticos e atónitos.
É preciso tratar dos vivos, e esperar que não hajam mortos em demasia. E fazer perguntas: porquê só os passageiros de cruzeiros e de Itália não podem desembarcar e os vindos de avião ou carro de Espanha ou França podem circular? Porquê fechar os bares às 21h e já agora não o dia todo? O vírus só sai à noite, é um gambosino? Quem garante que bastam 14 dias de quarenta? Muitas perguntas, respostas ataboalhadas de quem não estava e ainda não está preparado para a primeira pandemia da globalização.
Também o Salloon está fechado, o chinês também (pela primeira vez, serão remorsos?), hora para ler e ver ou rever filmes, e redescobrir o bom e são que ainda há em nós. Em tempos de Leviathan, a razão deve domar a emoção, e a paciência o alarme.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Plátanos de Colares

No momento em que os plátanos de Colares são classificados como arvoredo de interesse público por proposta da Alagamares, um clip de David Cabral.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Bye bye, Britannia!


É hoje que o Reino Unido sai da União Europeia. Uma União Europeia moribunda e em fase de estertor, acossada pelo desgaste do Brexit, o populismo eurocético, e as pressões duma América errática, duma China expansionista e duma Rússia com sonhos imperiais. Não parece fácil, contudo, o que os brexiteers pretendem, e de que convenceram os britânicos (mais ingleses que escoceses ou irlandeses). O Império Britânico simbolizado pela anacrónica Commonwealth não vai voltar, o Reino Unido não tem particulares vantagens competitivas num mundo globalizado, e não estranharia se daqui por dois ou três anos não fossem os súbditos de Sua Majestade a pedir “order!”, entalados entre os poderes fáticos que na verdade controlam o mundo.
Ficamos agora numa União Europeia dominada pela Alemanha. Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Quase três décadas depois da unificação, há que refletir sobre o futuro desta Europa. O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projeto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.
A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão duma Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa dizem ter de se manter a coesão na União Europeia. Não foram as suas instituições, principalmente o Parlamento Europeu, fortalecidas nos últimos anos, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exatamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises atuais, de que ressalta a saída da Grã-Bretanha, os populismos, com ou sem colete amarelo ou os Vox e os Fidesz a minar o rumo, mostram-nos instituições europeias incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso.
A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe uma posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal podia ter sido copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento, e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está, pois, a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa. O Parlamento Europeu é hoje um bordel espanhol e uma quinta com muitas raposas dentro do galinheiro, liderado por figuras de segunda e sem chama. Do outro lado volta a ouvir-se o Rule Britannia, do lado de cá da Mancha salva-se o Hino à Alegria de Beethoven, riscado,é certo,não se sabendo se sucedido pelo Requiem de Mozart ou pelo Sonho de Uma Noite de Verão de Mendelssohn. Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A vitória dos plátanos


Foi publicado no Diário da República nº 19, II Série de 28 de janeiro,, o despacho do Instituto de Conservação da Natureza que classificou os plátanos de Colares como arvoredo de interesse público. Tal fim foi desde sempre um objetivo da sociedade civil sintrense, com destaque neste momento de júbilo para o papel desempenhado pela Alagamares e outras personalidades, com destaque para o ativista e autor do blogue Rio das Maçãs, Pedro Macieira.
O referido despacho classifica como arvoredo de interesse público um conjunto arbóreo e três exemplares isolados da espécie Platanus hybrida Brot., sitos na Várzea de Colares. Na sua justificação, o ICNF salienta que “nenhum apresenta sinais de pouca resistência estrutural e mau estado vegetativo e sanitário que não sejam tecnicamente resolúveis, nem se encontram sujeitos a cumprimento de medidas fitossanitárias que recomendam a sua eliminação ou destruição obrigatória”
Ficam assim protegidas as 30 árvores que fazem parte do conjunto arbóreo constituem um alinhamento que se destaca pela simetria perfeita e pelo formato dos fustes “em forma de taça” que dão origem a copas de grande altura, as quais, depreende-se que terão sido plantadas na transição do século XIX para o século xx, podendo estimar-se uma idade de 120 anos, sendo das mais antigas da respetiva espécie existente em Portugal, parte da “memória e do imaginário coletivo nacional” e reconhecendo-lhes “importância determinante na valorização estética do espaço envolvente e dos seus elementos arquitetónicos”.
Também três exemplares isolados situados diante do Restaurante D’A Várzea foram classificados.
A partir de agora, estas 33 árvores, 30 como alameda e 3 como exemplares isolados, ficam dotadas de uma zona de proteção com um raio de 20 metros a contar da base do tronco de cada uma das árvores, ficando proibidas quaisquer intervenções que possam destruir ou danificar estes exemplares arbóreos, designadamente o corte do tronco, ramos ou raízes; a remoção de terras ou outro tipo de escavações, na zona geral de proteção; o depósito de materiais, seja qual for a sua natureza e a queima de detritos ou outros produtos combustíveis, bem como a utilização de produtos fitotóxicos, na zona geral de proteção, ou qualquer operação que possa causar dano, mutile, deteriore ou prejudique o seu estado vegetativo. Igualmente ficam dependentes de autorização do ICNF todas as operações de beneficiação, nomeadamente desramações, podas de formação ou sanitárias ou qualquer outro tipo de benfeitorias, bem como intervenções nas suas zonas gerais de proteção.

Garantir um contínuo verde através das cidades deverá ser um mandamento do planeamento, enfatizou um dia num colóquio da Alagamares o arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, com isso se lutando "contra o caos e a distribuição especulativa do território. ”
Muitos associam os plátanos à ocorrência de alergias, mas tal não passa de um mito urbano. Os verdadeiros causadores são os choupos. Basta um pequeno passeio num fim-de-semana ensolarado para averiguarmos que os plátanos não têm em seu redor a substância, muito semelhante a algodão, de que muitas pessoas se queixam.O que acontece é que de Março a Maio, e por vezes ainda em princípio de Junho, em alguns anos, grande parte das árvores e gramíneas têm altos índices de actividade polínica.
Citando a European Polen Information “Algumas pessoas acreditam, de forma errónea, que os plátanos e os choupos originam os sintomas da febre dos fenos. Mas isso sucede porque as sementes dos choupos e o primeiro (e invisível) pólen das gramíneas a ser libertado em cada ano, costumam coincidir no tempo…". Efetivamente, os grandes responsáveis por grande parte das alergias são as gramíneas, e não os choupos, ou os plátanos.
As árvores são parte da História e  o direito à paisagem, no respeito pelo espirito do Lugar é e deve ser igualmente, um Direito e um Dever, como registo vivo para as gerações vindouras.
As podas ornamentais são necessárias, mas são igualmente um ponto sensível, e o dever de intervir para proteger não deve ser o momento para a afirmação dos pequenos interesses que não passam da porta de cada um (a "alergia" provocada, a raiz que estraga a casa, o roubo de lugares de estacionamento), muitas vezes contando com a complacência das autoridades.  Ao invés, mais árvores são necessárias, e uma melhor organização e explicação da poda das existentes, quando necessária.
Continuar a realizar podas sem sentido (ou com ele, talvez...) é condenar os exemplares existentes, que rapidamente se degradam e dificilmente perdurarão dentro do espaço urbano.
Esta classificação, que a todos deve merecer regozijo, não é o fim dum processo, é uma etapa apenas, a que se deve seguir a tomada de medidas para sua real proteção, e identificação das mesmas no local, salvas que estão dum arborícidio precipitado e sem retorno. É uma notícia feliz para Sintra, e para todos os que por simples exercício de cidadania nesta e noutras lutas se empenham, pelaa comunidade, e afinal, por todos nós. Se tudo correr bem, algumas árvores em Colares poderão até morrer um dia, mas, ao menos, vão morrer de pé.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Maria Germana Tânger, uma aristocrata da palavra


Se fosse viva, Maria Germana Tânger completaria cem anos amanhã, 16 de janeiro. Figura da vida literária e divulgadora da palavra dos grandes poetas, tendo conhecido e privado com autores como Almada Negreiros, Sophia de Mello Breyner ou José Régio, Maria Germana Tânger deixou-nos uma marca a que só interpretes como Vilarett, Sinde Filipe, Carmen Dolores ou Paulo Renato nos habituaram.
Como divulgadora de poesia ao longos de vários anos, percorreu o país com a Pró-Arte, acompanhada por vezes pelo seu amigo, o pianista Adriano Jordão.
Foi professora de dicção no Conservatório Nacional durante 25 anos, e teve vários programas na rádio e na televisão.
Também em Sintra deixou a sua marca, tendo dirigido diversos espetáculos no Festival de Sintra, e  colaborado também com o Chão de Oliva, entre outros grupos. Chegou, aliás, a morar na mesma casa onde ficou Hans Christian Andersen quando visitou Sintra em 1866.
Vivia em Lisboa quando morreu, a 22 de janeiro de 2018, aos 98 anos de idade.


domingo, 12 de janeiro de 2020

As lágrimas não têm raça

Um estudante de Cabo Verde foi morto numa rixa em Bragança. Não se sabe se houve motivação racista, ou se foi um mero crime, onde infelizmente uma vida foi ceifada,e ontem em vários locais pelo país,e não só, centenas de pessoas reuniram-se para repudiar sobretudo a violência.
Portugueses e caboverdianos são povos irmãos, facto que na Alagamares, por exemplo, já sublinhámos por diversas vezes, visitando em tempos o Moinho da Juventude, na Cova da Moura, e o seu extraordinário trabalho cultural e social, e promovendo debates sobre a integração e o respeito pelo multiculturalismo que nos define desde o período dos Descobrimentos, quando apesar do esclavagismo decorrente do pensamento da época, muitos portugueses se uniram em casamento ou mesmo em rebelião contra o poder imperial nesses lugares de "desvairadas gentes", como lhes chamou o poeta.
Ficámos contentes, como se fosse nossa, com a classificação da morna como Património Imaterial da Humanidade, e registamos, com alegria, que nos concertos de Madonna, que hoje começam em Lisboa as batucadeiras e os sons de Cabo Verde inspiraram a cantora na sua fase "portuguesa", acolhendo os sons duma Lisboa do fado, mas também da morna e da coladeira.
A igualdade e a dignidade não têm cor de sangue, género ou religião, nem o têm as lágrimas, como sabiamente escreveu um dia António Gedeão. Não há raças superiores, só há racistas inferiores.


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.




~
As batucadeiras durante a visita da Alagamares



sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Obrigado, mas não, obrigado


Passa a 11 de janeiro mais um aniversário do famigerado ultimato inglês de 1890, quando o primeiro-ministro Lord Salisbury enviou a Portugal um memorando exigindo a retirada das forças militares portuguesas chefiadas pelo major Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola (atuais Zimbabwe e Zâmbia), a pretexto de um incidente entre portugueses e macololos. A zona era reclamada por Portugal, que a havia incluído no famoso Mapa Cor-de-Rosa, reclamando a partir da Conferência de Berlim uma faixa de território que ia de Angola à contracosta, ou seja, a Moçambique. A concessão de Portugal às exigências britânicas foi vista como uma humilhação nacional pelos republicanos portugueses, que acusaram o governo e o rei D. Carlos de serem os seus responsáveis. O governo caiu, e António de Serpa Pimentel foi nomeado primeiro-ministro. O Ultimato britânico inspirou a letra do hino nacional e prenunciou o princípio do fim da monarquia dos Braganças.
Depois da retirada da família real para o Brasil, em 1807, nunca mais Portugal voltou a ser uma potência relevante no concerto das nações, fosse pelos anos em que estivemos sobre proteção britânica, fosse pela subsistência de um Império apenas formal, e a irrelevância de Portugal foi notória daí em diante, fosse com a questão do ultimato inglês, a participação na I Guerra Mundial ou o isolamento internacional durante as guerras coloniais de 1961-1974. Vem isto a propósito da posição portuguesa face aos recentes acontecimentos no Médio Oriente. Por um lado, nada condenando quando a administração Trump ordenou o assassínio dum general dum estado estrangeiro com quem, pelo menos formalmente, não está em guerra. Mas por outro, condenando de forma clara,  segurando as calças do Tio Sam, a esperada retaliação do país agredido, numa medrosa tomada de posição, supostamente de solidariedade com os nossos “aliados”.
Desde o século XIX que Portugal vive do fantasma dos ultimatos, ingleses, americanos ou chineses (veja-se como fomos desconsiderados por Angola no caso de Manuel Vicente, ou nem sequer fomos convidados para os 20 anos da devolução de Macau). A realpolitik é a dos fortes, aos fracos cabe segui-los, de forma salivar.
Hoje é também o Dia Internacional do Obrigado, hábito criado recentemente nas redes sociais. Ultimatos? Não, obrigado. A não ser que sejamos obrigados… Obrigado pela atenção!



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

9 de Janeiro, Dia de Sintra

Passam hoje 866 anos do dia em que D. Afonso Henriques deu foral a Sintra. Para quem o desconhece, aqui vai o texto, em português do século XX:



Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amen. Aprouve-me, a mim Afonso, Rei dos Portugueses, filho do Conde Henrique e da Rainha Teresa e neto do Rei Afonso o Grande, e à minha mulher, Rainha Mafalda, filha do Conde Amadeu, dar-vos, a vós que habitais em Sintra, da classe superior ou da inferior e de qualquer ordem que sejais, e a vossos filhos e descendentes, carta irrevogável, de direito, estabilidade e serviço.
Em primeiro lugar, damo-vos trinta casais com suas fazendas em Lisboa, a vós trinta povoadores que ao presente povoais aquele castelo, a fim de que os tenhais, tanto vós como vossos filhos, por direito hereditário, e por eles não pagareis qualquer tributo em Lisboa, mas apenas no vosso castelo. E se vos aprouver pôr trabalhadores nesses casais, não pagarão eles tributo algum a não ser a vós donos dos casais; e se tiverdes ou comprardes alguma herdade em qualquer terra do rei, tê-la-eis pelo foro de Sintra.
Nunca nos dareis parte em qualquer seara.
Por homicídio, violação de mulher e esterco posto na boca, pague o que tais crimes cometer 10 morabitinos, metade para o rei, metade para o queixoso.
Mas se cometer homicídio em ocasião que homens bons o vejam, / ou pague o que lhe seria imosto por crime de violação ou / pague exclusivamente o que for arbitrado pelos homens bons.
Quem assaltar a casa alheia pague 60 soldos, metade para o rei e metade para o queixoso.
Se o salteador, porém, se apresentar com dois ou mais vizinhos que fiquem por ele (comitantibus), mas nunca menos, os que a administrem a vila (illi qui castellum judicaverint) não terão parte em qualquer multa.
Quem ferir outra pessoa com lança, espada ou faca, pague cinco morabitinos, metade para o rei e metade para o queixoso.
Quem se servir de armas sem razão dentro da vila, perda-as; mas se a questão for admitida sob fiança, não se julgue o pleito pelo foro de Sintra no que respeita ao elmo e à loriga, mas apenas quanto ao escudo e à clava.
E não entre cá homem de outra terra: tal o recado que mande, tal lho mandem a ele, igual por igual; e seja a sua caução ou fiança de 1 soldo, se houver junta ou destrinça; mas só se realizará prova testemunhal ou se remeterá a questão a juízo por valor superior a 1 morabitino e abaixo de 1 morabitino nada se faça.
Quanto às demais agressões, feitas à mão, a pontapé, à pedrada e à paulada e ainda em outras queixas apresentadas, não se pague qualquer multa além das acima referidas.
Os agricultores peões que lavrarem com um só boi paguem um sexto de trigo e de cevada, e se lavrarem com dois ou mais entreguem um quarto, entre trigo e cevada, por alqueire do mercado.
E paguem um puçal de vinho a tirar de cinco quinais; e por qualquer outro trabalho (labore) nada paguem.
Quem lavrar com bois, não pague tributo por qualquer outro ganho que ganhar.
O caçador que apanhar cervo ou cerva, ou caça no género, com laçou ou armadilha, entregue meio lombo; se for porco, uma costa. O batedor de coelhos entregue uma vez por ano, três coelhos com suas peles. O colhedor de mel selvagem entregue, uma vez por ano, meio alqueire do que tiver colhido.
Paguem por ano: o sapateiro 1 soldo, o ferreiro ferre um cavalo, o mercador e o peleiro 1 soldo cada.
Aquele que viver amantizado com mulher séria, segundo verificação e julgamento dos homens bons, pague 1 morabitino.
Quando o homem maninho morra sem filhos, devem [os do concelho] entregar os seus haveres aos seus parentes e para bem da sua alma.
Se, porém, alguém for condenado por furto, o dono dos bens recebê-los-á a dobrar, sendo a sétima parte para o príncipe régio.
Quando morra qualquer homem ou mulher, nada pague a sua família e recebam todos os seus bens os seus parentes.
Quem quer que viva no concelho [Sintra] há mais de um ano poderá vender os seus bens de herdade a qualquer vizinho.
Quem não tiver bois e lavrar na sua herdade com bois alheios de outro lugar pague foro somente ao seu vizinho.
O mercador de Sintra não pagará portagem em toda a terra do rei, quer vá vender quer comprar.
Se alguém levar mandado do concelho ou for apresentar queixa ao rei seja alimentado no paço real.
Os cavaleiros devem combater uma vez por ano no exército do rei, para terem o seu estipêndio; mas o rei nada receberá deles. Se não quiserem ou não puderem sair em fossado, nada paguem. No apelido contra cristãos, saiam por maneira que possam regressar a casa no mesmo dia; porém, contra pagãos, farão tudo quanto puderem.
Quando alguém puder ter servidores, no castelo ou fora das muralhas, em herdade sua e habitando em sua casa, o tributo só lhe será pago a ele, dono da herdade.
Quando um cavaleiro morra deixando mulher, fique ela na condição de cavaleiro, enquanto se mantiver viúva.
Se o cavaleiro perder o seu cavalo, continue na sua classe durante cinco anos; depois, se não quiser ou não puder ter cavalo, passe à classe de peão.
Entretanto, se algum dos peões puder adquirir cavalo passe à classe de cavaleiro.
Os filhos de cavaleiro ou peão, enquanto se mantiverem na herdade do pai, morto ou vivo, sejam solidários: um por todos no cumprimento das obrigações comuns.
Se alguém tiver contenda com habitantes de outros lugares e, tendo pedido justiça ao tribunal, se apoderar de qualquer penhor sem o ter requerido, restitua o penhor a dobrar, embora depois venha a ser condenado.
Se qualquer indivíduo tiver lide (intencionem) com homens de fora, ou acordar julgamento com eles, verifique-se este junto às águas correntes do seu castelo, sendo os juízes que julgarem a contenda (intencionem) metade de uma parte e metade de outra.
Se alguém não comparecer no tribunal para responder à acusação que lhe façam, o saião irá penhorá-lo e tomar conta do penhor, mas nunca deverá selar-lhe a casa.
Se o juiz ou o saião for espancado ou ferido em questão pessoal e não em serviço do príncipe, a multa, nesse caso, será igual à de qualquer outro. Se o juiz for ferido em serviço do príncipe, reverterão dois soldos para o saião e um soldo para o rei.
O juiz e o saião serão escolhidos de entre os naturais, entrando e saindo por mão do conselho; e nunca vos será imposto juiz nem saião de outra terra.
O juiz receberá a décima parte do príncipe em toda e qualquer multa e o saião receberá a décima parte do juiz.
Quem ferir ou espancar outra pessoa receberá dez varadas e porá a mão por terra; e a seguir dará satisfação judicial àquele que agrediu, segundo o seu foro.
Os cavaleiro que avistem inimigos do rei, pagãos ou cristãos, dispostos a fazer mal, devem ir com mandato a Lisboa, mas não mais longe; e por outro motivo nem peões nem cavaleiros executem mandato.
Os militares ou peões que saírem para terra alheia serão coutados, e ninguém lhes lance mão para lhes fazer mal, seja qual for a causa; e quem os prender ou derrubar do cavalo pagará cem soldos e depois indemnizá-los-á com o dobro do que eles pedirem na demanda. E se os prejudicar nos seus haveres, indemnizá-los-á com o dobro, como nas demais causas.
Aquele que brigar com armas (homo firidore) e, tendo ido a tribunal não se emendar ao fim de três vezes, e bem assim o libertino (cusculator) que não se queira emendar segundo o foro de Sintra, terão as casas derribadas.
No foro de Sintra haverá seis juízes no julgamento do homicídio; em qualquer outro julgamento bastarão três homens; e nunca haverá mais do que no julgamento de homicídio.
Os cavaleiros de Sintra devem testemunhar no castelo como quaisquer cavaleiros do território do rei, do mesmo modo os peões (pedites similiter).
Os cavaleiros de Sintra que prestarem bom serviço ao seu alcaide receberão dele uma boa dádiva uma vez por ano.
O homem que quiser receber mulher com autorização de seus parentes (per mandatum de suos parentes) dê-lhe como dote seu uma saia, um par de sapatos, uma cinta, e ainda 50 soldos como garantia de futura bênção. Mas se depois se arrepender, perca tudo quanto deu, incluindo a garantia paga. E se a mulher, por si ou por seus parentes, se arrepender ou recusar, restitua tudo quanto recebeu, e depois a garantia em dinheiro.
O homicida e o foragido que se refugiarem no concelho serão admitidos, e do mesmo modo o servo, salvo se for do rei.
Os clérigos terão condição de cavaleiros. O clérigo será natural [morador arreigado] e, pelo foro de Sintra, nunca perderá a sua igreja; tê-la-á por direito hereditário e só a perderá por delitos que o obriguem a depor as ordens, mas nunca pelo poder de qualquer pessoa, nem do rei nem do bispo.
E nós, moradores do sobredito castelo, por este bom foro que o nosso rei e sua mulher nos concederam, prometemos-lhes fiel obediência para sempre, e contra os seus inimigos empenharemos as nossas pessoas e bens.
E se vier tempo em que o rei se decida a povoar os referidos arrabaldes, aqueles que então morarem no castelo receberão cada um seu casal com suas herdades.
Os clérigos de Sintra devem servir o seu bispo e terão alimento em casa dele. E o bispo dar-lhes-á uma boa dádiva uma vez por ano.
Era Mª Cª LX’ª II [nota: Segundo Alexandre Herculano, o X aspado (X’) significava XXXX. Equivalendo a Era Hispânica a menos trinta e oito anos, temos então que 1192 é aos olhos de hoje, 1154 d.C].
Eu, Afonso, por graça de Deus rei portugalense, junto com minha mulher rainha Mafalda. Corroboro + e confirmo + esta carta. E se alguém, inclusive nós próprios, quiser desfazer este contrato, indemnize (pariat) com 500 áureos e com Satanás seja excomungado.
Sejam, pois, os limites desse território (ejus terre), para lavrar e plantar: desde Almosquer, pela vertente vai pelos outeiros, servindo de limite o caminho público que passa em Cabriz até ao monte e que dessa vertente vai pelos outeiros até ao limite de Cheleiros de onde segue até ao rio em Galamares. E se mais crescerem os habitantes (gentes), cresçam para eles os herdamentos, conforme aprouver ao rei.
Testemunhas: dapífero da cúria Fernandes Captivus, Pelagius Zapata, Gunsalvus de Saussa, Petrus Fernandiz, Dominicus Valascus, Gunsalvus Rodriguiz, Menendus Moniz, Laurencius Venegas, Sancius Moniz Egeas, arcediago da Igreja de Lisboa. – Confirmo este contrato: signífero Petrus Pelagii. Príncipe de Lisboa, Alfonsus Menendi, confirmo. Príncipe de Coimbra, Ropdrigus Pelagii, príncipe de Santarém, Johannes Ramiriz, confirmo. Mestre Alberto, notário do rei, escreveu. – Seguem-se os sinais de Alfonsus, rei portugalense, rainha Mafalda e mestre Alberto.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Amizade, essa Utopia


Chamamos amigos a todos os conhecidos com quem de forma amistosa nos relacionamos, no trabalho, no café, no ginásio, no clube de futebol, ou no ativismo, e as relações desenvolvem-se na partilha por vezes esporádica e gratuita de beber juntos um copo, dizer uma piada, praguejar contra um árbitro ou contra o governo. A forma continuada no tempo como fazemos isso faz-nos chamar amigos aos parceiros desses momentos, muitas vezes empolgados pela projeção dum ego grupal ou, se calhar, pelo álcool que a todos liberta e adormece. Gregários que somos, precisamos dessa inclusão, do abraço fácil, ontem feitos de idas ao cinema ou à discoteca, das futeboladas na rua, ou dos namoriscos de liceu, hoje filtrado pelas redes sociais e pelo preço barato de um “gosto”  que a todos faz “amigo”.

Amigos, porém, são os que, porventura tendo começado por ser conhecidos nesse contexto, souberam (soubemos) atravessar a cortina invisível das nossas personas, e olhar para eles, e eles para nós, fora das máscaras sociais com que nos projetamos, inclusive para eles (e muitas vezes, para eles, sobretudo). 

A amizade tem rituais iniciáticos, mas só quem souber ver para lá da caverna das ilusões e sentir o Ser, e não o Parecer, pode, após assentar a poeira dizer: este é um Amigo!. É um processo longo, doloroso por vezes, feito de desilusões e artifícios. Porém, quando uma centelha de Luz nascida de atos, e não só de palavras ou gestos mecânicos e previsíveis aproximar e afirmar essa cumplicidade, grandes momentos, e estradas patrulhados pelo Sol, surgirão, e os verdadeiros amigos se revelarão. A esses é consentida a frase que magoa, mas faz acordar, as lágrimas de desespero que logo um abraço limpará, ou o conselho desinteressado que pode dar força para dar um passo em frente. Eis a Grande Utopia.