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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Silêncio" ou a intermitência do grito



O recente filme de Martin Scorsese “Silêncio” vem colocar sérias questões em torno de áreas metafísicas como as da fé, da devoção, do confronto de culturas e da fragilidade da natureza humana, o que, só por si, não é de menos.
Que Deus é este que deixa sofrer o seu rebanho, como se constantemente o esteja a por à prova, e que só com a promessa de redenção no “paraíso” atenua o tormento da incerteza das convicções em seres aflitos, mas no fundo, os únicos que distinguem a água da água benta?
Pessoalmente agnóstico, embora baptizado, comunhão e crisma feitos, vestido de anjinho em procissões na minha infância, e padrinho de 4 afilhadas de baptismo e 2 casais pelo casamento , tudo sobre as normas da Santa Madre Igreja de Roma (processo mais cultural que de fé), descortino neste filme de Scorsese, que é apimentado por os protagonistas serem jesuítas portugueses no Japão do século XVII, uma reflexão sobre a natureza humana, a força da fé e a fé imposta à força, de deuses oficiais e clandestinos que sublinham sobretudo a necessidade de através da fé se afirmar antes de mais a fé na própria força interior, seja ela dominada pelas crenças e convicções seja pelo afirmar do Eu individual perante o Outro diferente e desconhecido.
Pessoalmente, não acredito na existência de Deus (com D, grande, fruto duma formatação cultural judaico-cristã) mas não contesto a sua possível existência. Sobre a sua existência se moldaram civilizações, guerras, correntes artísticas e feitos heroicos. Não acredito, mas acredito nos que acreditam, e isso leva-me a um profundo respeito pelos crentes de diversos credos, como minha avó com o seu santinho padre Cruz no missal de mesa de cabeceira, ou minha mãe, acedendo velas nos dias dos meus exames (não tivesse eu estudado, e nem a “cábula” de Cristo ajudaria…). Mas o respeito por essa fé era imenso, era terapêutico e unificador, no que tinha de afirmação de unidade na família e de referência e ligação entre passado e futuro. Lá estava a igreja no momento do baptizado, do crisma, do casamento, da Páscoa e Natal e do funeral, muitas vezes já sem questionar as convicções mas como fenómeno cultural assumido como natural.
Pirro de Élis, o fundador da escola filosófica do cepticismo, caracterizado por negar ao conhecimento humano a capacidade de encontrar certezas, acompanhou Alexandre, o Grande na conquista do Oriente, ocasião em que entrou em contato com os faquires da Índia. Estudou filosofia com o atomista Anaxarco de Abdera, durante e após esta expedição e ao estudar a pluralidade de discursos filosóficos do seu tempo, concluiu que todas as doutrinas eram capazes de encontrar argumentos igualmente convincentes para a razão. Desdobrou a sua filosofia em três questões: qual a natureza das coisas, como devemos portar-nos ante elas e o que obtemos com esse comportamento. Para ele, toda a intenção de ir além das aparências está condenada ao fracasso pelas deficiências dos sentidos e pela fraqueza da razão.
Não é possível afirmar que Deus ou os deuses não existam, e a refutação científica do Big Bang ou mesmo uma eventual comprovação de algo como a vida após a morte, também não serão por si provas da existência de algum deus em particular ou de deuses de modo geral.
Sou pois um agnóstico teísta, mas não fora do debate: haja Deus ou não haja, o mundo seguirá o seu caminho e a Terra girará à volta do Sol (como também disse -e desdisse- Galileu…). E ele continuará presente ou ausente nos que acreditam ou não, a uns gritando, a outros sendo mudo, mas a ninguém sendo indiferente. Todos precisamos dessa intangibilidade difusa que nos preserve a Esperança, seja a mística religiosa, o militantismo político ou a devoção a causas e ideais, por muito pessoais que eles sejam. A História do Homem é a permanente busca da Luz no topo da Caverna.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por autarquias de proximidade



É chegado o momento do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das autarquias, impondo-se um novo modelo, pois realidades há que exigem novas abordagens, pesem os bloqueios de paróquia que mais se devem afirmar no quadro de afirmação cultural que na representação institucional.
No quadro da gestão, vê-se com bons olhos a criação de sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro intermunicipal e regional, potenciando economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, proteção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderão obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada? O quadro deverá contudo ser complementado com a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou ações de interesse comunitário e uma maior participação na fatia dos impostos nacionais. No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano diretor aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustem a plano-tipo que a autarquia poderia disponibilizar. O recurso a empresas externas para a apreciação de projetos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante, numa vertente de menos Estado e não só um Estado maquilhado. Afigura-se correto que a gestão das áreas da educação, saúde, polícia municipal, cultura ou cobrança de impostos possa ser feita num âmbito intermunicipal, por exemplo, a que a presente proposta acrescenta competências na área das zonas marítimas e portuárias, estacionamento ou simplificação administrativa.

Como pontos menos claros, a relação de forças entre diversos níveis de poderes locais (freguesias, câmaras e as novas entidades intermunicipais) misturando entidades emanadas do voto popular com outras criadas pela lei e sem tal legitimação, e que na prática, dada a panóplia de poderes que podem vir a ter em abstrato, podem configurar o cavalo de Troia da Administração Central, sobretudo se ficar por esclarecer a forma de financiamento e os recursos humanos e materiais a elas adstritos. Igualmente por esclarecer o papel futuro das CCDR.

O Governo tem em consulta pública o projecto da nova lei quadro de transferência de competências para as autarquias e entidades intermunicipais.Nota menos positiva para a redação do nº 1 do artº 2º do projeto: “A transferência de competências efetua-se para a autarquia local que, de acordo com a sua natureza, se mostre mais adequada ao exercício da competência em causa”. Afigura-se que esta cláusula aberta pode permitir tudo, mas também nada, esperando que a legislação complementar prometida no artº 4º concretize mais estas balizas.

Estranha-se a ausência de uma clara possibilidade de transferência da  gestão da rede de transportes terrestres de passageiros, que tanta importância têm na solução de questões de mobilidade, e que no caso dum município como Sintra, claramente marcado por uma lógica metropolitana, deveria ter sido mais concretizado.

O projeto abandona a enumeração taxativa das atribuições e competências das autarquias para adotar um sistema de cláusula geral, onde tudo podem ser atribuições em correlação com o princípio da subsidiariedade. A baralhação pode vir a ser maior, se, aplicada a possibilidade de delegação legal de competências das câmaras nas freguesias, ou das câmaras nas entidades intermunicipais, (nova figura, agora criada), ou até do governo diretamente nestas, se vier a criar um quadro em que umas fiquem sobrecarregadas e sem verbas, e outras vejam o controlo democrático pelos eleitores subtraído por uma comunidade intermunicipal ou área metropolitana que não foi objeto de sufrágio e tenderá a repercutir a vontade das maiorias políticas nelas representadas e não a dos eleitores ou órgãos dos municípios.

O projeto de lei aparentemente reforça no papel as competências das freguesias, como prometido na proposta de reorganização administrativa, mas sem ficar claro o correspondente envelope financeiro, nem de quem partirá a iniciativa de contratualizar, correndo-se o risco de duplicação de serviços e de funcionários adstritos às mesmas funções.

O nº2 do artº 29º do projeto pode conduzir a uma paralisação de decisão ao impor que o exercício das novas competências pelas entidades intermunicipais dependa do acordo da totalidade dos municípios que as integram, pelo que seria melhor uma outra redação sobre a forma de tomada de decisões.

Saliente-se, contudo, a vontade de prossecução do desiderato do artº 6º da Constituição da República Portuguesa na concretização dos princípios da subsidiariedade, da autonomia das autarquias locais e da descentralização democrática da administração pública.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um ano sem Maria Almira Medina


Passa agora um ano, morreu Maria Almira Medina, a decana da vida cultural sintrense. Escritora, poeta, caricaturista, filha do fundador do Jornal de Sintra, António Medina Júnior, durante muitos anos dominou o panorama local como batalhadora pelas causas dos artistas e da escrita. Ainda jovem, cantou na primeira edição do Baile das Camélias, em 1941, na Sociedade União Sintrense, e em 1954 recebeu o 1º Prémio Nacional de Caricatura.
Conheci-a em 2006, e em 2007 participou no III Encontro de História de Sintra, organizado pela Alagamares, com uma apaixonada intervenção evocativa duma figura esquecida de Sintra, o Carvalho da Pena, comunicação impressiva pela forma como nos guiou pela memória dum passado, que foi seu e nosso também.

Associada da Alagamares desde quase a sua fundação, a Menina Girassol, nome de um dos seus livros mais aclamados, connosco participou desde 2006 na campanha cívica pelo restauro do Chalé da Condessa, e dedicado ao qual escreveu um inspirado poema, lido em 2008 perante umas dezenas de activistas e frente ao então abandonado e esventrado Chalé da Condessa d’Edla, campanha felizmente levada a bom porto, apesar de já na altura passar dos oitenta. Recordo a sua figura pequena, mas firme, passando a corrente que impedia o acesso ao local e que prontamente passámos, apesar de proibido, com um juiz de Direito a encabeçar os “insurrectos”
Maria Almira é um exemplo para as novas gerações e a Alagamares teve ocasião de lhe prestar uma singela homenagem durante uma das suas oficinas de teatro orientadas por Rui Mário, grande figura do teatro em Sintra, e durante a qual textos seus foram representados dramaturgicamente perante uma Maria Almira emocionada.

A memória é uma rosa aberta, escreveu ela um dia. Para perpetuar essa rosa, e em nome da memória, por que não criar um prémio literário com o nome de Maria Almira Medina?


 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os bárbaros dentro de muros




Fazer pontes, não muros, eis a diferença genética entre quem deseja uma democracia que seja cada vez mais inclusiva e participada e os que visam segregar, acicatar contra o Outro, dividir e abrir brechas.

Na próxima sexta-feira, um Doutor Strangelove maléfico aterrará em Washington prometendo desenterrar os medos e apelar ao pior da natureza humana: o racismo, a xenofobia, o poder do dinheiro, o desprezo pelo semelhante, apregoando um mundo visto da tribuna imperial e ameaçando com leões contra os novos mártires, sejam eles mexicanos, utentes sem seguro de saúde, mulheres ou minorias étnicas. Godzilla aterra na Casa Branca, porventura futuro bordel de prostitutas caras, falcões belicistas e magnatas da finança, governando-se em vez de governar.

Como chegámos até aqui? Pavlov explica. Dê-se um osso ao cão- seja a miragem do emprego, da segurança ou da supremacia duns perante os outros- e, obediente ,este salivará. Assim foi com Hitler, e com a recuperação da Alemanha humilhada em Versalhes e Weimar, ou com muitos líderes populistas que falam o que os outros querem ouvir, apelando ao mais negro da natureza humana. Porque os muros, mais que proteger, isolam, e se não deixam entrar, também não deixam ver para fora. Impor um cordão sanitário e uma quarentena sobranceira faz tábua rasa de 200 anos de racionalismo e de evolução civilizacional, dum mundo que se quer de iguais perante a lei e perante as oportunidades, e não de caudilhos totalitários e providenciais, por mais que as hordas ululantes os aplaudam e sigam. Eis-nos na hora do homo lupus.

 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sintra numa manhã de Janeiro



Sintra, espectral viagem, sabendo a serra ao lado, milenar guardiã de lendas, num presépio aninhando casas, palácios, fontes e miradouros. Em volta se absorvem seus cheiros e matizes, o silvar ventoso e o perfume da serra. Passo a Correnteza, miradouro e varanda, parapeito de amores e de pombos, e aproxima-se o burgo, ao som cadente de cavalos e de pretéritas lembranças. O paço municipal é a porta de entrada e guardiã fronteira, o leão de pedra a sentinela, palpitam os sentidos à vista da estrada do Duche, do Grande Maior, das camélias de Nunes Claro, e parece ver-se o vulto do Carvalho da Pena cavalgando entre eucaliptos  penumbrosos. Sintra, utópico altar de poetas, palpável Parnasso onde na noite dos tempos perpassam danças medievais e bailes das camélias, invisíveis ogres lançando caldeirões de azeite, perturbantes bruxas invadindo a noite em vassouras, sob o repicar do sino em S. Martinho, sempre a  holográfica viagem por um mundo que não é deste Mundo à sombra duma argêntea e virginal lua. É apenas uma manhã fria de janeiro, o mês que nos levou Maria Almira e traz a névoa húmida do spleen e as gárgulas dos dias tristes e perturbantes.

Só em Sintra há dias assim, só a Sintra pode um dia regressar D. Sebastião, o de todas as esperanças e todos os medos, pois Sintra é Adamastor e promontório, mas também bosques de faunos celebrando a vida e o verde que nos invade e de nós se apodera.

É Sintra. É Janeiro. É manhã.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

As democracias no fio da navalha





No seu discurso de despedida em Chicago, Barack Obama enfatizou que a democracia sai sempre fragilizada quando se dá como garantida. Efectivamente, é o enfraquecimento da relação entre representantes e representados, resultado da falta de transparência e verdade na tomada de decisões que acarreta o cepticismo e a descrença, traduzidos presentemente nos populismos e extremismos que apelam frequentemente à intolerância, ao radicalismo e à quebra do contrato social entre poder e sociedade, governantes e governados.
Os cantos de sereia que vão enchendo o espaço público e publicado, ampliados pelas redes sociais ululantes e congregadoras das novas seitas dos descamisados e zangados com o poder são um perigo que deve ser combatido com pedagogia, mais transparência, mais envolvimento dos cidadãos nas decisões e mais empenho no cumprimento das promessas eleitorais.
As democracias formais, sobretudo as europeias, estão invadidas por movimentos de protesto que, no extremo, tendem a aniquilá-las. Vejam-se os movimentos xenófobos, populistas, eurocépticos, e ditos de “cidadãos”. Só o regresso da política dos valores e das causas que envolva os cidadãos e os volte a fazer crer nas virtudes da democracia os pode trazer de volta ao espaço de liberdade que devem ser as democracias modernas. Esse o combate mais premente, sob pena de ver claudicar um modelo que se esvai na anemia da ausência de valores, de desígnios comunitários e ponha o progresso e a felicidade dos cidadãos no topo das agendas políticas.
Os tempos são de apelo à mobilização. Mas, como diria Mário Soares, só é derrotado quem desiste de lutar. Deixemos de ser rebeldes sem causas, e retomemos causas que nos devolvam a vontade de ser rebeldes.





quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Os dias da geringonça



Há governo? Sou contra!” Esta velha história atribuída a um conhecido anarquista é típica do bota-abaixismo que caracteriza uma certa visão nihilista e maniqueísta do poder, onde o governo do país é conhecido como “eles”, e todo o governo desde que o nosso partido não esteja nas rédeas do poder é mau. É típico dos países latinos, em que tudo se arregimenta em torno do partido ou do clube de futebol, numa visão paroquial do mundo e da forma de governar.

Ora dirigir um país é uma arte que requer compromisso, cedências no supérfluo sem recuar no essencial, o que faz com que, na melhor tradição leninista por vezes se tenham de dar dois passos atrás para dar um passo em frente. Prova-o a solução de governo que vai para um ano vem dando lições da arte do compromisso, o que há muitos anos já deveria ter acontecido.

Questionam alguns que quem governa não chegou em primeiro, mas as eleições não são uma maratona, e é preferível uma maioria de 3 que soma, do que um bloco central que subtrairia. É claro que a pureza ideológica fica um pouco afastada, mas quando se inventou a terceira via para os partidos trabalhistas, o eurocomunismo ou os partidos liberais, onde ficou então a pureza ideológica?

O mundo mudou muito, com a globalização, a irrupção da era digital e das redes sociais e a democracia do espectáculo que nos leva para caminhos diferentes dos de há 20 anos ou mais. Os ideólogos foram substituídos pelos opinion makers, o Capital de Marx e a Bíblia pelo Facebook e o Instagram, e um paralítico como Roosevelt ou um velho gordo como Churchill nunca seriam eleitos nos seus países, quando conta mais o fato que se usa, a música que se houve ou a mentira mil vezes repetida que passa a ser um dogma.

Vivemos dias da chamada geringonça. Mas não foram geringonças também as asas de Ícaro, a passarola de Bartolomeu de Gusmão, o zepelim ou o avião dos irmãos Wright? E não abriram tais feitos as portas para o progresso e nova visão de um mundo, em permanente criação de geringonças desde a descoberta da roda?

Governar é uma arte performativa. Governar com arte e engenho é uma ciência, que todos os dias adiciona páginas aos manuais de sociologia ou ciência política. E nas sociedades democráticas, tem sempre uma vantagem: é que se pode mudar quando perder o fôlego ou deixar de funcionar.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

12 passas para 2017





E pronto, 2016 está de partida, e ou me engano muito ou ainda vamos ter saudades dele, atentas as sombras de além atlântico e o King Kong da melena loura. Afinal fomos campeões em futebol, Guterres foi para a ONU e vimos mais uns cêntimos no bolso, apesar das fatwas do ayatolah laranja.
Para 2017, alguns desejos.
Primeiro, o da paz. Paz na Síria, no Iraque, e em todas as zonas de conflito de onde nos chegam as hordas de descamisados em botes no Mediterrâneo. A realpolitik não deixará muita margem de manobra no tabuleiro dos interesses, mas há que porfiar por uma ordem mundial de Humanidade, apesar de já termos vivido Hiroshima, Srebrenica e Saigão.
Depois, a solidariedade com os mais desfavorecidos e a persistência na luta por uma sociedade de iguais e mais igual (enfim, a velha utopia…). E para tanto há que tratar de forma distinta quem já é discriminado pela crise financeira e pelas agruras da globalização, antes vista como boa e agora causa de todos os males.
E por fim, algumas vontades mais egoístas: a de ver o Sporting campeão,(São os 100 anos das aparições de Fátima, logo é ano de milagres) perder mais 10 quilos (todos os anos faço esta promessa em Janeiro, logo é tradição) acabar mais um livro e voltar a fazer uma viagem grande, com amigos se possível
2017 pode ser um ano de desafios, mas também de inseguranças e perigos novos. Não queremos muros, mas pontes, não queremos refugiados mas parceiros, não queremos fechar mas abrir, contra o ciclo da autofagia hedonista e a ditadura das redes sociais, cloaca das mais diversas frustrações.
2016 deixou-nos perante a tormentosa constatação de que a evolução do mundo não é gradualmente para melhor e que de vez em quando também pode regredir, obrigando a um novo passar do Rubicão. Trump, o Brexit, os refugiados o confirmam. Mas há que ter esperança.
Despeço-me com uma frase lapidar de Nelson Mandela:A paz é a maior arma para o desenvolvimento que qualquer povo pode ter.”


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Milionários de todo o mundo, uni-vos!






Tudo se prepara no salloon de Washington para a chegada dos Dalton, Jesse James e Billy the Kid dia 20 de Janeiro. Apeado o escravo liberto que durante oito anos tomou conta da fazenda, é a vez dos cowboys voltarem à cidade para encharcar os adversários em alcatrão e penas, talvez com vodka russa aos brindes...

Agora que chegou onde queria, Donald Trump, o novo xerife, já pode voltar a ser o que nunca deixou de ser: um banal troglodita que durante uns meses virou um troglodita político, não para regenerar o sistema americano ou ser a voz dos deserdados de Washington, mas para o narcísico cumprimento de um capricho: o de, depois de milionário, apresentador de televisão, e socialite depravado ser presidente dos Estados Unidos. Podia tê-lo feito entrando numa série da Netflix ou num filme de Clint Eastwood, mas não, tal como o coronel do Apocalipse Now, que precisava do cheiro de napalm pela manhã, Trump precisava de agarrar a Casa Branca como agarrou as pussy das meninas do The Apprentrice. O poder é afrodisíaco, dizem, e Trump está a saborear o seu, Nero dos tempos modernos pondo a culpa nos imigrantes como antes este nos cristãos, pegando fogo a Roma e culpando islâmicos, latinos, mulheres, com os seus cowboys pronto a devolver os Speedy Gonzalez aos desertos do México ou os refugiados às ruinas de Alepo donde nunca deviam ter saído.

Tudo teria graça não fosse uma desgraça.Trump, o construtor civil, vai agora dedicar-se a construir muros, cimentar a segregação, humilhar, deportar, ameaçar, qual novo e requentado doutor Strangelove com o botão nuclear ao lado do champanhe francês e de alguma playmate contemplando a "sua" América da janela da Sala Oval ou da penthouse na Trump Tower. É claro que pouco ou nada do que disse ou prometeu sairá do papel, mero soundbite para abrir telejornais e ganhar votos nos rodeos do Kansas ou Arizona. Mas o mundo vai ficar mais perigoso, desconfiado, fechado nos seus medos e numa perigosa esquizofrenia isolacionista. A América que produziu Obama, também pode produzir um Trump.(ou talvez por isso mesmo). Resta ver como reagirão chineses, europeus e mexicanos a esta fronda da direita que em vez de proletários uniu milionários.  Os dados estão lançados, e a hora é de Trump, o novo dono do salloon.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Dois centenários em 2017







Em 2017, passarão 100 anos sobre as aparições de Fátima e da Revolução Russa, dois fenómenos igualmente religiosos pelos seguidores, altares e liturgias que daí em diante suscitaram. Em Fátima, a superstição, em Moscovo, a ilusão, que desde então passaram a levar milhões à Cova da Iria e à Praça Vermelha.
Escreveu um dia Freud que o homem comum entende a religião como um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado lhe explica os enigmas do mundo com uma perfeição invejável, e que por outro lhe garante que uma Providência atenta cuidará da sua existência e o compensará, numa futura existência, por qualquer falha nesta vida. Trata-se pois do reconhecimento de que o homem por si só nunca poderá triunfar como indivíduo sem a totémica sombra do Partido ou de Deus, acima de si e da sua circunstância, errando como eterno animal aflito procurando o Fogo no topo da Caverna. Tanto a crença nos pastorinhos e na senhora de branco que lhes apareceu (nunca percebi onde aprendeu a senhora português, ou se os pastorinhos falavam aramaico…) como nos descamisados de Outubro marchando ao som da Internacional até à vitória final, são fenómenos visualmente cénicos e catalisadores de emoções, catarse de frustrações e espécie de fé (ou fezada…) em algo que no fundo se sabe que nunca virá, mas fica bem pensar que sim.
Uma das características do ser humano é a sensação de insegurança e a necessidade de protecção e de amparo. A religião surge como o mecanismo de defesa perante as ameaças da natureza e a avareza da sociedade, e a senhora de branco,como protectora suprema que alivia as angústias e os medos perante a realidade, tal como o Partido e o seu líder vanguardista foram o protector sem dúvidas a caminho da sociedade de iguais, nova terra do leite e do mel socialista.
A constante necessidade de ter um pai ou uma mãe nasce dos desejos mais intensos do ser humano, e das suas fragilidades. Aflitos de todo o mundo, uni-vos pois para celebrar as certezas que tantas dúvidas suscitam. E se puderem, vão a Fátima de joelhos, ou cantem hinos revolucionários de punho cerrado. Não resolve nada, mas tal como a aspirina, atenua a dor de cabeça sem curar a doença.
Mas isso sou eu, agnóstico confesso e ex-revolucionário que também por lá andou, de vela na mão em Fátima ou nas Festas do Avante. Ninguém é perfeito. Como escreveu Bernard Henry-Levi, "Cristo morreu, Marx também, e eu não me sinto lá nada bem".