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terça-feira, 30 de julho de 2013

Artur Brás, couteiro mor de Sintra



Existe na capela do Palácio da Pena, do tempo dos frades jerónimos, uma inscrição sepulcral cuja leitura é a seguinte:

AQUI IAS ARTVUR

BRAS PEREIRA

E SVA MOLHER I

SALSEL DE SEQra FA

LECEO A 17 DE MAIO DE

1617

Quem foi este casal, inumado no dito convento?

De acordo com um estudo de 1959 de José Maria Cordeiro de Sousa, “Inscrições lapidares portuguesas do concelho de Sintra”, arquivado na Biblioteca Municipal, nas vésperas de Natal de 1515, por alvará de 20 de Dezembro, estando D. Manuel no paço de Almeirim, ordenou ao seu tesoureiro, Rui Leite, que desse aos seus monteiros de cavalos, entre eles, Artur Brás, um capuz, pelote e calças e pano de trezentos réis, com gibão de chamalote com meias mangas e colar e pontas de veludo. Este Artur Brás, segundo o autor, será o mesmo que vem mencionado no rol dos cavaleiros de D. João III, com moradia de setecentos réis por mês, e que ao tempo residia em Colares, e a quem o mesmo rei fez “monteiro de cavalo” e guarda-mor da serra de Sintra, lugar que vagara por aposentação de Martim Albernaz, a 14 de Setembro de 1522. E reza o referido documento que lhe foi mandado dar de “mantimento” a cada dia 1 de Janeiro mil réis, com direito a cavalo.

Passados muitos anos, concedeu o rei a Artur Brás aposentação em Janeiro de 1544, com vinte mil réis de tença para sua manutenção.

Artur Brás casou com Isabel Pereira, que faleceu viúva em Colares a 10 de Julho de 1559, e foram pais de Álvaro Pereira, residente em Colares e moço da câmara de D. João III, com a moradia de 406 réis por mês e três quartas de cevada por dia.



Este Álvaro Pereira casou com Isabel de Quadros, e tiveram um filho, Artur Brás Pereira, baptizado a 28 de Outubro, nascido provavelmente entre 1549 e 1550, uma filha, Leonor, nascida em 1560, e um filho de nome Álvaro, nascido em 1563.

No mesmo dia em que o primeiro Artur Brás, o monteiro a quem em 1515 D.Manuel dera roupa e cavalo foi aposentado, D. João III nomeou para o lugar de guarda-mor da serra de Sintra seu filho Álvaro Pereira, com ordenado anual de 15.000 réis.

Este Artur Brás, neto do primeiro, foi moço da câmara de D. Sebastião, tendo-lhe este monarca por carta datada de Salvaterra de Magos de 28 de Maio de 1570 feito mercê do ofício de couteiro da vila de Sintra. Em Maio de 1577 casou na igreja de S. Martinho com Isabel de Sequeira, filha de Cristóvão de Sequeira, que foi escrivão da Vila. Filipe II, por carta datada de Lisboa a 15 de Maio de 1583 fez-lhe a mercê de 20.000 réis de tença cada ano, tendo-se assim aposentado com metade do ordenado que obtivera enquanto desempenhou as funções de couteiro, e por ter ficado doente. Continuou contudo servindo como escrivão dos órfãos da vila de Sintra.

Artur Brás Pereira enviuvou de Isabel Sequeira em data que os livros de S. Martinho e Colares não permitem apurar, mas o seu nome surge referenciado em Setembro de 1614 numa escritura de casamento e dote celebrada na Ponte do Rol, então concelho de Torres Vedras, em que foram nubentes Margarida de Magalhães, enteada de Lianor Motta Gouveia, e o próprio Artur Brás Pereira, em segundas núpcias.

Já septuagenário, morreu em Sintra a 17 de Maio de 1617 e foi enterrado em Nossa Senhora da Pena, junto da primeira mulher, Isabel Sequeira. A viúva, Margarida de Magalhães, foi viver para casa dos irmãos, na Ponte do Rol, e passados dois anos, em 1619, voltou a casar com Álvaro de Avelar Barracho. Para a posteridade, na capela do primitivo convento da Pena ficou a memória de Artur Brás, couteiro-mor da serra de Sintra.


Fonte: José Maria Cordeiro de Sousa, Inscrições lapidares do concelho de Sintra, 1959

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Novo herói de banda desenhada

Sábado passado, na companhia de amigos fui à feira medieval (whatever!) em S.Pedro. De autocarro, apanhado o 433, na Estefânea, calhou em conversa com o meu amigo Zé Smith a história do Solar dos Pisões, contíguo ao Lawrence's, local pouco conhecido mas rodeado de mistério e atmosfera que só em Sintra se pode absorver. Postas algumas sangrias, imperiais e outras mais coisas "medievais" despedimo-nos até breve. Contudo, o Zé, (abaixo à direita, com Rui Mário ao meio) pessoa de imenso talento em várias áreas, da música ao desenho e literatura, presenteou-me ontem com uma prancha de banda desenhada onde a história que lhe fui contando prepassa, rodeada de pormenores e memórias visuais que foi captando e traçam o espirito do lugar. Obrigado Zé!. 
O Zé Smith é igualmente o formador das oficinas de banda desenhada da Alagamares, pelo que, à vista do exemplo abaixo, muito poderão os participantes que nelas venham a participar aprender.

sábado, 20 de julho de 2013

Sá da Costa, a pornografia continua.

Fechou a Livraria Portugal. Fecha agora a Sá da Costa. Paulatinamente, fecham livrarias e teatros, cinemas, cafés históricos, memórias colectivas, uns sob o peso do camartelo, outros asfixiados pelas dívidas. Que país sobrará dos escombros quando esta pornográfica política desaparecer? Que ratos somos nós que protestamos nas redes sociais e jamais passamos do folclore? Que autofágica miopia nos leva a tudo delegar nos partidos que eucaptilizam as sinergias do povo e o tornam anémico e depauperado? 
A cacofonia disfuncional do Finis Patriae assola-nos a alma nestes dias de chumbo. Os políticos dão vómitos, ubíquos e mentirosos, vendidos aos interesses e tacticismos, é aviltante a sua presença ou audição, e enquanto isso o povo sangra e estrebucha. É demais! Povo português, onde estás tu?

terça-feira, 16 de julho de 2013

A esquizofrenia lusitana



A democracia portuguesa apresenta por estes dias sinais de anormalidade que vieram criar precedentes graves para o futuro e mostrar algumas das nossas originalidades como já não víamos desde os tempos do PREC.

Assim, inaugurámos a moda das cartas de demissão-choque, onde um ministro que quis sair e outro que não queria mas se lembrou do seu mentor, Sá Carneiro, criaram uma nova moda: a crise pela via epistolar, vertendo estados de alma e ressabiamentos mal disfarçados. E assim, um ministro de convicções irrevogáveis pôs em prática aquela máxima leninista de dar um passo atrás para depois dar dois passos em frente.

Depois, tivemos a moda do jogo de espelhos, onde ninguém quer aquilo que diz querer. Um Presidente que quis ouvir os partidos, mas de facto queria era ouvir-se a ele, um primeiro ministro remodelador que não percebeu que o remodelado que se pretendia era ele, os que pedem eleições pedindo a todos os santinhos que elas não ocorram antes dos cortes e do odioso da tragédia lusa estar consumado.

Não contentes, assistimos ainda a outras originalidades. Um Presidente que quer um acordo, dois anos atrasado, e se arrisca a decepcionar toda a gente: aos que querem eleições, promete-as, mas não para já; aos que as não querem, aponta-as, mantendo-os a prazo. E depois, tão institucional que o homem de Boliqueime diz ser e logo qual revolucionário de sangue na guelra anuncia eleições antecipando os calendários e sem que ninguém se tenha demitido, sem ouvir o Conselho de Estado (quando por dá cá aquela palha o reuniu no passado) e querendo que os partidos deixem de o ser, metendo a luta política e a pluralidade de propostas no permafrost, até que um dia possamos ser uma democracia como as outras (o que, pelo andar da carruagem, será cada vez mais longínquo).

E os “agentes políticos”, essa classe impura que o pobre do Presidente tem de tolerar, não podendo suspender a democracia seis meses, como a sua amiga queria, o que fazem? Como baratas tontas, vão dizendo fazer tudo o que não pensam sequer sugerir: vão deixando que o regime resvale de semipresidencialista mitigado para presidencialista assistido, que se finja querer um acordo mas que não se concretize nenhum, esquecendo que estão todos num beco sem saída.

O Presidente, porque ao falhar, terá de meter a viola no saco, e, ou governa e ocupa o centro do espaço político, ou uma de duas: se convoca eleições, havendo acordo na coligação, divorcia-se do seu espaço político e definitivamente recolherá ao eremitério de Belém, depois de falhar o seu momento Jorge Sampaio; se não convocar, empossando o governo recauchutado, terá feito perder tempo, paciência e juros, adensando o contributo para a crise que dizia querer estancar.

Mas se conseguir o tão desejado acordo, pode o país perguntar: se era viável, e numa semana, o que se andou a fazer nestes últimos dois anos?
Os "agentes políticos", porque com acordo, terão empenhado as saídas para o país, mostrando serem todos iguais e deixando pouca escolha e serem inúteis, por falta de alternativa, as futuras eleições;sem acordo, mostrarão um egoísmo larvar e pouco interessados no país e mais na sua retórica autista. Em qualquer caso, deixando o regime democrático nas ruas da amargura e num intolerável grau zero.

Uma coisa é certa: nada ficará na mesma, e os alunos de Direito Constitucional terão mais um capítulo para estudar no futuro, talvez designado “Formas coloridas de garantir o regular funcionamento das instituições democráticas”.

sábado, 13 de julho de 2013

Poirot e as férias em Sintra



Naquele Verão Poirot e Hastings decidiram-se por umas férias exóticas: longe da verde mas fria Cornualha, tentariam Portugal, Catherine Nightingale, uma sua admiradora, vivia no país e convidara para duas semanas no continente. A viagem desde Madrid foi no Lusitânia Express, nada das comodidades do Expresso do Oriente, mas mais tranquilo à chegada, contudo.

Na Estação do Rossio esperava-os o motorista de Mrs. Nightingale, um português com alguma idade e fardado a rigor, de nome Pacheco. Poirot reparou que tinha um tom de pele escuro, sangue africano, por certo. Mirando a cidade, pareceu-lhe agradável, um estranho troar de vozes sugeriu-lhe desacatos, mas eram varinas com cabaças à cabeça, apregoando peixe na Baixa. Colorido e étnico, pensou, colocando as luvas brancas e ajeitando o monóculo, o bigode escuro e retorcido não o distinguia muito dos locais, como ele, maioritariamente de cabelo escuro e estatura mediana.

Em Sintra, Catherine preparara dois quartos e um almoço farto, com geleia de maçã para a sobremesa. A casa era uma soberba mannor na estrada da Pena, a Hastings lembrou a placidez do Lake District, com o mar a duas milhas. Antes fora propriedade dum negreiro que fizera fortuna no Brasil vendendo escravos para os engenhos de açúcar, com uma traça muito particular. No salão, pontificava um retrato do antigo proprietário, de chicote e com uma sanzala em fundo, bem como as armas do major na parede. Catherine enviuvara recentemente do major Nightingale, que estivera com Allenby no Cairo nos anos vinte, apaixonada pela beleza de Sintra, que conheceu durante uma viagem com o major a Portugal, por cá ficou, pintando e trabalhando como correspondente do Daily Chronicle.

Por esses dias sentia-se uma tensão latente nas chancelarias, Portugal seguia alheio, sob a batuta de Salazar. Em Sintra, agradado com o clima, familiar ao das ilhas, Poirot dedicou-se ao seu hobby mais recente: colecionar borboletas, as matas de Monserrate e da Pena eram fartas em exemplares. Armado dum camaroeiro, a tal dedicou as manhãs, enquanto Hastings ia até à praia no elétrico, tomar um refresco e ler na esplanada do Grego.

Cinco dias depois, ao descer para o pequeno-almoço, encontrou Catherine particularmente agitada: o quadro do negreiro, no salão grande, sumira. As janelas e portas estavam fechadas e não havia sinais de arrombamento. Poirot, agastado por atrasar o pequeno-almoço, mirou o salão, mas tudo pareceu no lugar, apenas o quadro sumira. Após um exame detalhado, perguntou quem mais tinha acesso à casa, além de Mrs. Nightingale. Apenas uma empregada portuguesa, a Alice, e esporadicamente o Pacheco, o motorista morava na serra e só fazia serviços quando chamado. Alice, nada vira, dormira com as galinhas, pois manhã cedo teria de ir buscar queijo e frutas para o pequeno- almoço dos senhores, Pacheco não voltara lá desde que fora a Lisboa buscar os visitantes. Hastings, cansado dos ares do mar, toda a noite roncara, Poirot incomodado bem ouvira, o quarto era ao lado do seu e a parede de madeira.

Tomado o pequeno- almoço, o belga saiu até à vila, para um passeio, e apenas voltou pelo almoço. À tarde, sem nada dizer, voltou a sair, a visitar o palácio da vila, segundo disse. Hastings estranhou-lhe o desinteresse pelo roubo, a polícia foi porém avisada e a GNR tomou conta do ocorrido.

Antes do jantar, Poirot pediu a Mrs. Nightingale que chamasse Alice e Pacheco e reunissem na sala, tinha uma revelação a fazer. Hastings, conhecedor do amigo e seus segredos, antecipou que seria sobre o roubo. Poirot, em pé, impecável no seu fato escuro, rematado com umas polainas brancas, passou a explicar:

-Messieurs, merci por terem vindo. Como sabem, um valioso quadro de mrs Catherine foi furtado desta casa pela calada da noite. Neste momento, creio saber quem abusivamente terá levado o quadro retratando o primitivo dono desta casa, monsieur Gouveia de Ornelas!

-Sabe? E quem foi, mr.Poirot? -perguntou Catherine, arregalando os olhos.

-O dinheiro motiva muitas vezes o crime, madame, o quadro é da autoria de um pintor português famoso, Vieira Portuense, e até tem valor económico. E o dinheiro é sempre um bom motivo para o crime, não é miss Alice? -sublinhou, virando-se para a empregada, de famílias modestas e apenas há seis meses ao serviço da inglesa.

-O que é que está a insinuar sr.Poirot? Sou pobre mas honrada, meus pais já serviram o sr. Carvalho Monteiro e o conde de Sucena, nunca faria mal à senhora Nightingale, que tão boa tem sido comigo! –replicou, quase chorando, Catherine aguardava expectante o desfecho da história.

-Eu sei, miss Alice, eu sei. Mas o criminoso não atuou por dinheiro, creio…. Virando-se para Pacheco, até ali sorumbático e em silêncio, Hercule sondou:-Tem ido muito à Camélia, senhor Pacheco?

-Como diz? A Camélia? Porque pergunta? -surpreso, o motorista ignorava que o belga conhecesse a papelaria da vila, nessa tarde, a pretexto de comprar o Times, Poirot estivera lá à conversa:

-Parece que costuma lá ir muito. Aliás, a entrada está um pouco desagradável, há muita areia no chão por causa de umas obras. Como aquela que trás nos seus sapatos, não acha?

Os sapatos de Pacheco tinham vestígios de areia, amarelada e grossa. Antes que dissesse algo mais, Poirot continuou:

-Igual àquela que está aqui junto à lareira, estão a ver? -com um pedaço de papel branco, Poirot recolheu areia do chão junto ao local onde antes estivera o quadro. Todos olharam para Pacheco, que ruborizado contrariou o belga impertinente:

-E isso que prova, senhor Poirot? Qualquer pessoa podia ter passado pela Camélia e pisado a areia. Aliás, o senhor é o primeiro a dizer que esteve lá esta tarde, quem garante que não foi o senhor?

-Duas questões, messieur Pacheco. Na papelaria, o senhor Mourão, um antiquário local, falou-me que o senhor lhe prometeu vender umas antiguidades que teria herdado duma tia. Mas o senhor Cunha, da casa das queijadas, garantiu-me que o senhor não tem família. E mais: que a sua avó terá sido uma escrava trazida para Sintra pelo senhor Gouveia de Ornelas. Grávida. É verdade, n’est-ce pas?

A argúcia de Poirot deixou o mulato estarrecido, olhando Alice e Catherine fez silêncio uns segundos e finalmente decidiu abrir o jogo:

-Sim, é verdade, fui eu que tirei o quadro. Mas não foi por dinheiro! Desde que minha mãe me contou que esse patife abusara da minha avó, jurei que havia de vingar a sua memória. E para mim isso passava por destruir a única imagem que dele restava ainda hoje, o quadro. Não tencionava vendê-lo, mas destruí-lo apenas!

Catherine, sensibilizada, aproximou-se de Pacheco, que ficou em silêncio, colocando-lhe a mão no ombro, tranquilizou-o:

-I understand you, António, really, I do! E como prova disso, faremos o seguinte: traga o quadro. Vamos queimá-lo todos no jardim, e assim afastar desta casa o espírito do Ornelas!

Poirot ufano, sorriu e torceu o bigode fino:

-Trés bien, assim sendo, se não se importam, comeria um pouco da esplêndida galinha que miss Alice tem no forno, que já lhe senti o cheiro. E amanhã, bientôt, serra, que as borboletas aguardam!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Rumo da Cultura: à atenção dos candidatos autárquicos

                                    Cena de "Conspiração no Palácio" pelo Utopia Teatro


Agora que se aproximam eleições autárquicas, normal será que frenéticos candidatos se desdobrem em promessas de apoio ao associativismo cultural, fazendo juras de para eles a Cultura ser estruturante e preocupação escrita em letra grande nos programas com que se apresentarão a sufrágio. Contudo, as associações e colectividades locais sentem profundamente o quanto são o parente pobre do Orçamento e os agentes culturais meros adereços decorativos nas campanhas ou usados para abrilhantar as listas dos apoios.

Pergunta-se se o modelo associativo como o conhecemos tem futuro. Terá se certos atavios forem debelados de forma enérgica.

Baluartes de resistência e cidadania durante o período do Estado Novo, as associações irromperam no pós-Abril como cogumelos, sendo numericamente hoje mais de 40.000, distribuídas nas vertentes cultural, desportiva, sócio-profissional ou de solidariedade. Mas se ser associativista é uma forma de dizer que se quer estar activo como cidadão-actor em prol duma participação efectiva e do legítimo exercício da democracia cultural -na vertente de cultura para todos, e com todos -tal não impede que a mudança de paradigma que as novas solicitações da sociedade global e da informação impõe permitam e exijam que se ultrapassem algumas patologias.

A falta de formação de novos dirigentes, articulados com as realidades do tempo que passa e sem espírito corporativo, de imobilismo na preservação de lugares ou incapazes de congregar novas sinergias.

A eterna falta de verbas e da perspectiva de olhar para as associações sobretudo para a preservação da vertente patrimonial, das sedes e equipamentos, desenquadrada do fim último de congregar vontades, mobilizar opiniões, e gerar actos de cultura, desporto, etc

A prevalência do individualismo hedonístico, que desvaloriza o trabalho de equipa ou colectivo, em benefício das figuras, num estereótipo transmitido por um modelo de sociedade onde o Eu vence o Nós, mas de forma volátil, efémera e perversa.

A falta de investimento na inovação, e na ruptura com certas práticas, reproduzindo uma "cultura de corpo" estática, distanciada das necessidades para que muitas vezes essas associações foram criadas, facto espelhado nas múltiplas associações que apenas mobilizam para jogar o dominó ou assar o courato, mas deixaram de ter desporto activo, de produzir cultura da terra para importar cantores de moda efémeros e dissonantes, ou de se rever com o conjunto da população, num multiplicar por esse país fora de inúmeros Cinema Paraíso decadentes e ansiosos por revitalização.

A subsidiodependência, a suburbanidade de escolhas culturais, o divórcio com as forças mais dinâmicas das comunidades, e o espírito -há que dizê-lo- reaccionário e imobilista de certos dirigentes- fazem os pavilhões às moscas, os teatros a cair de podres, os balneários sem água quente, tudo símbolos que ninguém quer herdar ou assumir, e logo de pouca atractividade.

É na subversão deste estado de coisas que o associativismo, com novos modelos de financiamento, com novos e empenhados dirigentes, de braço dado com as novas tecnologias e sob o desígnio de parcerias profícuas poderá singrar. Daí a necessidade de conjugar esforços com outras associações no sentido de criar elos de fortalecimento do movimento associativo cultural, em prol de mais Cultura com mais Organização e mais Capacidade e Alcance. Mas, é preciso, sobretudo, que tal decorra duma interiorização do papel social e comunitário dos agentes culturais, e da manifestação pujante e unida destes perante um Poder que deles faz parente pobre, e a quem, infelizmente, muitos se submetem.

Como escreveu André Malraux, a cultura só morre vítima da sua própria fraqueza. Há que lubrificar as mentalidades e tomar em mãos a força que, mais que qualquer arma, a Cultura e seus agentes devem ter na Sociedade, se se quer viva e factor de mudança.

Senhores Candidatos, pensem nisto, e não olhem para as gentes da cultura como bibelôs instrumentalizados para fotos de ocasião ou contagem de espingardas.Oiçam-nos como parceiros de desenvolvimento, pensem nas suas necessidades no momento de elaborar orçamentos usurários, sentem-nos num orgão consultivo com visibilidade e representatividade, vão aos seus espectáculos, exposições, debates e mais eventos sem ser em período eleitoral, pensem neles nos regulamentos de taxas e na ocupação das salas municipais . Aí terão cumprido o vosso papel cidadão. Ficamos à espera.