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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Dois decilitros de revolução



A televisão não se calava, com a crise e a troika, na tasca do Jaime, dois velhos  revolucionários, entre um bagaço e uma amêndoa amarga, comentavam as notícias, lidos que foram os jornais, pois só pode haver opinião pública absorvida que seja a publicada. Aborrecidos por não poderem armar o povo, Acácio, Heduíno e outros velhos anarquistas, dividiam-se, unidos porém na velha crença de que havendo governo é para ser contra:
-Esta corja só à porrada!- Acácio, de fartos cabelos brancos escorrendo pelo ombro, e anarca da velha guarda, saboreava a S. Domingos, a bem dizer bebia-a dum trago, havia que matar a sede à cirrose - o Eça é que tinha razão: o Governo não há-de cair, porque não é um prédio; há-de sair com benzina, porque é uma nódoa! -chamando o Jaime, pedia um reforço de dose. Aos cinco bagaços faria um comício, aos dez salvaria o mundo e aos quinze, em êxtase, alcançaria o nirvana, agarrado a quatro amigos, que por acaso eram só dois…
Heduíno estivera no Chile, no tempo de Allende, e com a UDP em 75, fora um dos barbudos do RALIS no saudoso Verão Quente. Fosse mais novo, e saberia o que fazer com uma G-3, sabia de uma “em boas mãos”, a democracia burguesa e capitalista era a culpada da crise:
-Mandaram o Marx para o lixo depois do muro de Berlim, mas o velho cada vez está mais actual. Para quem dizia ter o capitalismo acabado, aí está ele, puro e duro! Os “mercados” mais não são que o polvo da Trilateral, do grupo de Bildeberg, e dos judeus que dominam a finança mundial! -meio zonzo, tal como Acácio, ajudava à missa na tarefa de enterrar o capitalismo antes do fim da noite, ajustando a boina basca:
-Estes gajos são todos lacaios do capital a mamar na teta do Orçamento. Arrotam que são eleitos, mas é tudo uma treta. Um deputado é um moço de recados, só que em vez dum contrato, inventaram uns papéis chamados votos, e o maralhal de quando em quando lá lhes vai garantir o tacho, enfiando o papel numa caixa de madeira. Aliás, a coisa é tão tenebrosa que a caixa é preta, e até se chama urna, já viram a ironia? -satisfeito com a chalaça, mais um bagaço vinha a caminho.
-Os gajos passam a vida aos gritos, gritam sempre, chocados uns com os outros. Mas não têm espelho lá em casa? Se calhar até levam porrada da mulher, mas na rua apregoam que ninguém os cala…- Acácio falava de cor, uma vez candidatara-se à junta, e fizera o mesmo.
Vindo das Finanças, chegou entretanto o doutor Almada, homem do contra, mas menos anarquista, simpatizava com eles, todos colegas do hóquei, nos anos setenta. O jornal falava em eleições, o perigo de bancarrota era real, mas o Acácio desvalorizou:
-Bancarrota? Na minha algibeira todos os dias há bancarrota, e a dívida externa…olha, o Baptista do talho que diga como está a minha balança de pagamentos… -ironizava -princípio sagrado: na falta de guito, não deixes para amanhã o que podes deixar para depois de amanhã - uma risada foi o pretexto para mais uma rodada, o spread do bagaço não  tardaria a ficar em alta.
-Então e quem ganha? -sondou o Almada, a espevitar os amigos, sabedor das convicções contra tudo o que fosse poder. Heduíno desvalorizou, ganharia o grande capital, pois então, e os serventuários do costume:
-A Europa já disse tudo o que era para fazer, estes anormais que cá estão é só para
carregar pianos! Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de governar, mas vão ser doze ou quinze indivíduos os que continuarão a dirigir o país. E acreditem numa coisa: quantas mais mostrarem incapacidade para governar, mais serão recompensados com administrações ou lugares em fundações. É um contabilista mediano? Vai para ministro das Finanças. Distingue um rabanete dum nabo? Grande ministro da Agricultura! E se sabe o nome de três ou quatro capitais de países, são os Negócios Estrangeiros pela certa. Acácio aproveitou a deixa e meteu colherada:
-Olha, e tu nesse estado “delitro” já podes mostrar a tua liquidez e pagar mais uma rodada....aliás, é mesmo de liquido que se trata…- ironizou, meio zonzo.
Heduíno caprichou e levantando-se já ébrio, e de copo na mão, ensaiou um discurso, japoneses que passavam exultaram com o ar castiço, saído de Woodstock, e dispararam flashes, era o avô do Che Guevara pela certa. Rodrigo, o neto do Acácio, chegou nessa altura, vindo duma acampada no Rossio, e foi ao encontro deles, bebendo o resto do copo que o avô se aprestava a despejar:
-Pessoal! Os bacanos do guito querem sugar-nos o tutano e entregá-lo ao FMI, e à Merkel. Há que abrir a pestana, atacá-los à saída das marisqueiras, sabotar-lhes os Mercedes, dinamitar os ginásios, sequestrá-los nas saunas! É preciso escutar a geração à rasca!
Prestava-se a continuar, para gáudio dos cotas, agitadores de outros tempos, quando o avô, cruzando as pernas, com ar aflito, correu para a casa de banho dos homens, Heduíno, endireitando a boina basca de muitas guerras, gracejou com Rodrigo:
-A incontinência e a próstata não perdoam. Rodrigo, chega à nossa idade, e aí é que vais ver o que é a verdadeira geração à rasca! Literalmente!

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