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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ei-los que partem...



Escreveu Miguel Torga ser apanágio do português ter uma nesga de terra para nascer e o mundo inteiro para morrer. Assim é, desde Ceuta e da senda do mar-oceano, antecedendo a ecuménica miscigenação dos Albuquerques, e a criação da mulata, lusa invenção a sul do Equador, as levas para o Brasil, ou a fuga para França a salto nos idos de sessenta. Pelo mundo repartido, negreiro ou soldado, colono ou evangelista, poucos recantos há onde o português não tenha erguido igreja, construído forte, porfiado fazenda, ou aumentado a prole. Fê-lo sempre em atenção à grandeza da alma e do sonho, e à estreiteza do chão, e, frente a um mar cúmplice e desafiador, partiu a sulcá-lo, em frágeis cascas de nozes ontem, a partir de aeroportos, hoje.
A crise dita a cadência das partidas, por desafio, umas, por subsistência, outras, é porém do gene luso partir, mas, soltando amarras da terra, jamais se desprendendo da pátria (eu sei, eu sei, cheira a 10 de Junho…). Não é por acaso que em cada canto do mundo há um rancho ou procissão, um fado sofrido ou um frugal cheiro a chanfana, um cachecol da selecção ou uma senhora de Fátima. Esta doença crónica, a que chamam ser português, é uma doença incurável, que anos de ausência ou quilómetros de saudade não mata, porque é sã, e porque sangra, porque se partidas houve em desafio e conquista, outras houve de exílio interior, de desterro da própria terra, de raiva pela zanga com Portugal, de um amor-ódio que não resiste a um fado de Amália ou ao som de um adufe beirão.
Escreveu Agostinho da Silva que os que emigram são os reais portugueses, os portugueses que preferem todos os incómodos de um exílio à dor de viver numa pátria que, de sua, só tem céu, terra e mar. Tem muito de autobiográfico, esta opinião, mas terá de ser sempre assim? Será, como gritou Almada na Cena do Ódio, que o pior de Portugal são os portugueses? E porque será que saindo, passam logo a competentes, vencedores e visionários? Porque a intelectualidade lusa se compraz a ver no país o Reino Cadaveroso e  lá fora, fulgurantes terras prometidas?
Novas levas partem por estes dias, engrossando o exército dos ausentes, flagelados da crise, não já para uma emigração gloriosa, mas para uma nova vaga de emigração dolorosa, como lhe chamou Eduardo Lourenço. Não já com malas de cartão, mas com Ipad e Skype, na era global em que Londres fica perto de Murça, e a Austrália a um clique no Facebook. Ainda assim, expatriados. Poderão voltar, passada a borrasca, e apelando o sangue. Pode porém novo sangue despontar, passados muitos sóis e muitas luas, encontradas noivas, nascidos filhos ou alicerçadas carreiras. Serão sempre portugueses, não duvido. Mas o som do adufe e o iodo das praias tenderá a ser nublado e vago, o rincão mero resort de férias, e a aldeia, rua, ou velha casa, um retrato num álbum do Picasa. E sem sangue novo, que estimule massa crítica, anime o consumo, permita o imposto, e repovoe o país, cada vez mais avaro do riso de crianças e de esperança nos rostos, difícil será contrariar o mago Torga, enredados no labirinto da História, que da esperança faz saudade, e do futuro purgatório. O esforço da hora presente é de Libertação da Morte para, uma vez mais, não sermos da vida vencidos.

 

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