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sexta-feira, 28 de março de 2014

Na partida do Pedro


Partiste numa noite fria e invernosa. Ingrata, a morte cobrou-te o prazo de validade, curto em anos mas longo e intenso em vivências, muitas delas cúmplices e fraternas.

Foram quase quarenta anos de convívio nos muros do café do Alcino, serões na conversa, deslizando pela Vida com a fragilidade que ela comporta mas sempre com uma tirada irónica, um gracejo provocador ou uma teima sobre um nome ou um filme, pretexto para mais uma feliz e despretensiosa rodada. O cemitério de elefantes, como muitas vezes designavas o espaço e tempo onde foste o Grande Elefante, o guru da manada, pelas noites claras desvendando a encruzilhada das coisas e as memórias de passados a sépia, onde todos nos reencontrávamos e assim celebrávamos a Vida. Foste dos primeiros de nós a partir, capturado por uma dessas armadilhas infames que ainda têm a cura a longa distância. Mas não partiste, não te daremos essa folga de desaparecer na noite do esquecimento. Lá estarás nas nossas conversas e memórias até que a nós chamem para a Grande Viagem, com o teu kispo preto e uma inseparável imperial na mão. Lá estarão os sons da tua música, nostálgica de passados fraternos e futuros que não chegaram. Lá estará o trocadilho mordaz, a ironia inteligente, o desprendimento de quem viveu a Vida como quis, e esse é um cognome que te assenta na perfeição. Pedro, aquele que moldou a Vida e não deixou que a Vida o moldasse a ele.

A aparente tragédia da morte que nos está destinada desde que nascemos, faz da vida não uma mera existência mas um destino para onde  somos conduzidos por uma mão invisível e trágica. Contigo não foi bem assim: tiveram que contar contigo e a tua teimosia. Só no fim levaram a melhor, pensam eles. Mas só no castigo ao corpo, que no resto triunfaste tu, com a elegância de quem soube estar, e a irreverência de estar nas condições que tu impuseste, avesso a rotinas, lugares comuns e trivialidades. A verdadeira grandeza consiste em sermos senhores de nós mesmos e tu, Pedro, verdadeiramente, foste-o.

Até já, Grande Elefante, estará sempre uma fresquinha para ti no congelador para quando quiseres aparecer. Escondes-te mas não partes, ficas em silêncio mas a tua voz rodeia-nos, interrompe-se um capítulo mas a história continuará a ser escrita. Uma salva de palmas para ti.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O 6º Aniversário da Voando em Cynthia


Passa hoje o 6º aniversário da Voando em Cynthia, associação cultural responsável pelos Encontros de Alternativas em Sintra e diversos eventos na área da animação cultural, artes plásticas e modos de vida alternativos. À Tila (foto) à Maria e a todos os que como nós na Alagamares acompanhamos as suas actividades, agora com um espaço permanente na Av. Heliodoro Salgado em Sintra, os votos de continuação com espirito criativo e dinâmico. O caminho faz-se caminhando. Parabéns!

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sintra sem sanitários públicos

É bonito e estimulante ver o crescente número de visitantes que durante todo o ano e exponencialmente chega a Sintra de comboio, inundando as ruas e vielas do velho burgo e aqui passando algumas horas, ora em direcção ao Centro Histórico e palácios, ora em direcção ao Cabo da Roca, fetiche sobretudo dos turistas asiáticos que enchem as diversas carreiras que para lá se dirigem.
Contudo, se o ar fresco de Sintra e a relaxante visão do Castelo dos Mouros podem deixar antever um dia bem passado e recompensador para a viagem desde Lisboa, a primeira angustia que assalta os turistas ao chegar a Sintra é a de qualquer outro ser humano com necessidades fisiológicas, que, em japonês, espanhol ou russo não deixam de se fazer sentir, e a primeira coisa a buscar será um aliviante sanitário antes de, relaxados, partirem à conquista da Vila. É aí que começa o problema para o turista aflito olhando para todo o lado. Onde encontrar um W.C. (não, não é o Winston Churchill...) a tal fim destinado? Há um sanitário (pago) ainda dentro da estação, mas quando se pergunta por ele ou se localiza, já o pobre turista está fora, e terá de invalidar uma viagem só para viajar até ao W.C. E fora, nada senão o recurso aos cafés das redondezas onde antes de pedir uma bebida ou travesseiro, se corre aflito e de sorriso amarelo (amarelo é duplamente correcto, neste caso...) para o alívio que antes gerara o torcer de pernas típico destas situações de emergência. Aliviado, muitas vezes, inclusive, o visitante limita-se a dizer bom dia e partir sem nada consumir. Chegados à Vila, o mesmo ocorre, não sendo raro que até hotéis de 4 estrelas têm já colocado as requintadas paredes em mármore rosa e ambiente perfumado ao serviço das aflições dos visitantes que aqui chegam, cá onde a terra acaba e a aflição começa.
É tempo de se resolver um problema tão comezinho mas essencial como este. Sintra Património Mundial não pode ficar à mercê de ver as árvores regadas com algo que não seja água, ou os cafés e restaurantes devassados sem ser para os fins comerciais com que foram abertos. E já que se deu um ar de graça retirando a obsoleta cabine telefónica que desfeiteava a praça de táxis junto à estação, procure-se resolver este elementar problema que só pode denegrir perante quem chega a imagem da vila ex libris de Portugal. 
 
 

sábado, 22 de março de 2014

O Quarteirão das Artes


Foi recentemente aprovada a criação duma área de Reabilitação Urbana com cerca de 180 hectares para o Centro Histórico de Sintra, ampliando-a em 130 hectares  em relação à delimitação anterior, o que a Assembleia Municipal de Sintra ratificou na sua reunião de 20 de Março passado.
Para a zona da Estefânea foi proposto pelos vereadores do PSD na Câmara Municipal um projecto de animação cultural designado "Quarteirão das Artes", que pretende dinamizar uma série de equipamentos públicos e privados existentes nesse perímetro, bem como diligenciar pela utilização futura de locais como o Sintra Garagem, recentemente recuperado, ou a arruinada Vila Granja, onde em tempos funcionou uma escola primária. Tal poderá ter potencialidades, mas implica, a meu ver, um conjunto integrado de políticas e procedimentos que envolvam os agentes culturais, os comerciantes e suas associações representativas e os moradores, num quadro onde cultura, branding comercial, ordenamento e estacionamento funcionem em articulação virtuosa.
Deve pois ser elaborado um projecto  que passe pela animação das ruas, com pequenos espectáculos musicais ou outros e de periodicidade regular e estabilizada, concursos de montras, a iluminação e decoração festiva, as semanas temáticas. Estes são alguns dos eventos que poderão servir como antídoto ao marasmo reinante, onde espaços velhos aguardam que a especulação imobiliária os transforme em bancos ou lojas de compra de ouro ou de telemóveis, como agora é o caso. Essenciais se tornam igualmente benefícios camarários na transmissão de imóveis para comércio tradicional e criação de emprego local, apoios à reabilitação contratualizados não só para as obras mas também para os usos subsequentes; política de eventos e de promoção agressiva, segurança e criação de um Gabinete Municipal que centralize a recuperação comercial, a política de horários, a segurança e mobilidade e uma política de toldos, esplanadas e ocupação do espaço público agilizada, pró-activa e dinamizadora.
No plano institucional tal poderá concretizar-se com a celebração de protocolo de médio prazo com todos os partners envolvidos, equacionando quais os eventos e iniciativas que devem ser executados pela Câmara ou pela União de Freguesias e aqueles que podem e devem ser delegados ou descentralizados, sempre acompanhados dum quadro financeiro e de recursos humanos adequado, numa óptica de proximidade (a ligação com as escolas do ensino básico e secundário, as associações culturais e desportivas, os criativos, os  alojamentos, restaurantes e bares e as associações de idosos, por exemplo). A isso não deve ser alheia a criação de um plano de reabilitação urbana urgente, a limpeza de fachadas, os horários de funcionamento e a agilização de procedimentos no que a licenças de recinto improvisado ou divulgação de eventos igualmente concerne.
A revitalização cultural de Sintra passará sempre por uma necessária criação de sinergias e parcerias entre os agentes culturais dispersos com o apoio dos poderes públicos, apostando num conceito de cidade criativa e aprofundando a conjugação de 3 linhas de força, a que Richard Florida no seu livro The Rise of the Creative Class chamou os 3 T: Talento,Tolerância e Tecnologia. Mas para quem começa por baixo, os passos a dar passam  antes de mais pela mobilização dos agentes culturais e disponibilização de espaços que possam ser centros de criatividade, encontro e troca de informações, algo como os ingleses fizeram com os Fab Labs, pequenos ateliers ou estúdios onde se possam instalar associações e pequenas empresas, fomentando uma economia criativa, com equipamentos básicos, máquinas de impressão, material gráfico, nas mais diversas áreas e onde se possa promover a troca de informação. Este conceito catapultou cidades antes adormecidas para novos paradigmas, como Sheffield, em Inglaterra, ou Helsínquia, com o seu Design Distrit. Em Amesterdão, o envolvimento de 9% da população em actividades e indústrias criativas ajudou ao crescimento do emprego. Na Suécia, a instalação de uma escola de artes circenses em Botkyrka, a 20 km de Estocolmo originou um centro de criatividade chamado Subtopia.
Chamar quem trabalha nas artes, ciência, arquitectura, design, moda, música, arte urbana e artesanato ou novas tecnologias e potenciar sinergias é o desafio que um espaço privilegiado como Sintra pode e deve agarrar. E aos espaços antes referidos na proposta do PSD para a Estefânea junte-se o Sintra-Cinema, na Portela, por exemplo, ou instalações encerradas, como o Casal de S.Domingos e a casa de Francisco Costa, numa base de arrendamento ou protocolo, e com um mínimo de condições de funcionamento, nada de faraónico ou de fachada, promovendo-se a virtuosa junção de criadores e criativos. Afinal a Cultura também contribui para o PNB e com relevo, como o conhecido estudo de Augusto Mateus já demonstrou. 
Sintra Criativa, essa sim pode e deve ser uma Marca, projectando uma verdadeira Economia da Cultura num território onde existem condições naturais, população jovem e criativa e factores de localização que podem gerar efeitos multiplicadores e dinamismo social. Na Estefânea e em outros muitos outros locais do concelho de Sintra, criando novas e profícuas centralidades nas periferias desordenadas.
Cabe igualmente ao sector financeiro e à banca  apoiar nesse âmbito pequenas empresas startup de índole cultural, que  firmas gestoras de fundos de venture capital podem ajudar com conhecimentos de gestão, acesso a redes de negócios e ajuda à obtenção de competências no posicionamento estratégico para a venda de produtos criativos inovadores e atracção de colaboradores, que nesse campo poderão inclusivé criar os seus postos de trabalho. Também aqui Sintra pode vir a mexer!

quinta-feira, 20 de março de 2014

Mestre Anjos Teixeira


Passam hoje 17 anos da data da morte de Mestre Pedro Anjos Teixeira.

Filho de outra grande figura das artes plásticas, Artur Gaspar dos Anjos Teixeira, aos seis anos veio viver para Sintra, tendo a família fixado residência em Mem Martins. Aos 16 anos começou a trabalhar, em colaboração com o pai no ateliê de Lisboa, actividade que exerceu até 1935. Aos 26 anos de idade, esculpe "Homem com o Polvo", obra que pela, sua originalidade, o revela como escultor. Dotado de grande sensibilidade, é exímio na representação estética naturalista, tanto humana como animal, mostrando grande rigor técnico a par de grande conhecimento de anatomia humana, esta última patente nas estátuas de nus e em "Os Perseguidos". No âmbito da anatomia animal, destacam-se "O Boi de Trabalho" e os animais do "Transporte do Vinho da Madeira".

Entre 1952 e 1953, frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vindo a exercer depois a função de professor de Modelação e de Desenho nas Escolas António Arroio, Pedro de Santarém e Francisco Arruda.

Foi perseguido pela PIDE ao ponto de, durante anos, não ter ganho um único concurso de Escultura. Por essa razão, em 1959 decidiu "auto-exilar-se" no Funchal, onde exerceu atividades diversas: docente, escultor, músico, jornalista, entre outras. Regressou a Sintra em 1980, onde veio a falecer, deixando um legado de mais de 900 trabalhos.

O Neo-Realismo português teve em Pedro Anjos Teixeira um dos precursores. A sua peça "Monumento aos Perseguidos" é comummente aceite como sendo o seu expoente, ao transmitir uma mensagem política e social - a luta, a persistência, a resistência e a esperança num futuro melhor em liberdade e democracia. Muitos dos seus trabalhos deste período encontram-se expostos no Concelho de Sintra, como por exemplo, o "Monumento ao Trabalhador Rural", reproduzido em bronze em tamanho natural em São João das Lampas (foto abaixo), e o "Monumento ao Professor Primário" (1972), no Cacém.

Na Madeira, deixou várias obras importantes, entre as quais o "Monumento ao Trabalhador Madeirense" (1973); a "Florista Madeirense" (1976); o "Trabalhador" (década de 1960); e o "Transporte do Vinho da Madeira" (bronze), no Funchal, que representa a sua derradeira obra de grandes dimensões.
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Cavaco, Passos e o medo


Vivemos sob a égide do Medo. Ou melhor, querem que tenhamos Medo.


Cavaco quer-nos temerosos nas europeias, com Medo dos grandes teutónicos, debatendo sem discutir, aceitando sem questionar, submissos nas urnas (nunca a palavra teve tanta razão de ser!) para construir a “Europa”. Passos regressou de Berlim, onde, a medo, solicitou amen à vestal do euro, e aí tranquilizado com um biscoito qual cachorrinho obediente. Medo dos funcionários públicos em tomarem posição, com medo de represálias. Medo dos doentes em faltar para não perder dias de “baixa”, suportando a doença. Medo de fazer greve receando o despedimento, a mobilidade e o dia a menos no final do mês.


Medo do futuro e medo de pensar o futuro, zombies colectivos arrastamo-nos e querem que nos arrastemos na incivilidade, famintos entre rostos fechados e desesperados e a esmola de que aproveita as necessidades indisfarçadas.

Medo de ousar alternativas, medo de participar, medo de ser cidadão, anémico e desiludido com os amanhãs que não serão como se pensava serem, abandonados e sós no meio das multidões de máscaras a caminho do metro, do emprego e do Nada.

É o medo que nos inibe, incrédulos na Palavra e inertes na Acção, jurando vinganças no silêncio das ruas sujas e povoadas de pedintes, e, contudo, a nada reagindo, senão no balcão da cervejaria ou no final da partida de futebol, contra um inevitável árbitro sempre tendencioso e sempre ladrão.

O Medo voltou, como epidemia da Alma, e o Leão luso lambe as feridas e silencia as dores no longo Inverno que impiedosamente  atravessa. Já houve mouros e castelhanos, adamastores e terramotos, junots e bancarrotas. Desabituámo-nos de lutar. Até quando?
 

terça-feira, 18 de março de 2014

De regresso à Saloia TV

De regresso à Saloia TV, e ao programa Do Outro Lado do Monte da Lua, numa plataforma digital perto de si. Depois de entrevistas a Jorge Menezes, Filomena Oliveira, Raquel Ochoa, uma nova série, atenta à realidade cultural do concelho de Sintra.
Sugestões culturais da quinzena: "A Última Noite em Lisboa", livro de Sérgio Luís Carvalho, recentemente editado; "Ulisses" peça de teatro para a infância na Quinta da Regaleira, sábados e domingos até 15 de Junho, pela Musgo- Associação Cultural; e o colóquio sobre Raul Lino, dias 3 e 4 de Abril no Palácio de Seteais, nos 40 anos da morte daquele arquitecto com obra na paisagem sintrense.
No primeiro programa da nova série, entrevista ao poeta e advogado João Afonso Aguiar, que recentemente lançou a sua primeira obra Ab Initio.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Desafios da nova área de Reabilitação Urbana


Foi ontem, dia 13 de Março, aprovada a criação duma área de Reabilitação Urbana com cerca de 180 hectares para o Centro Histórico de Sintra.
Sobre o Centro Histórico muito já foi dito, subsistindo velhas questões como a da sobreposição de planos e entidades, que criam uma cacofonia de gestão e não permitem aos decisores uma assunção plena do seu papel, sendo certo que a autarquia é porém a única com génese democrática e escrutinável.Persiste igualmente um segmento do turismo baseado no excursionismo, com uma média de dormidas no concelho de 2,3 noites (Cascais tem 3,4) e apenas cerca de 1500 camas entre hotéis, pensões e demais alojamentos, não obstante se registe o aparecimento de novos espaços de alojamento.
A degradação do Centro Histórico, desertificado, sem plano actualizado e sem atractividade para moradores e visitantes e o envelhecimento da sua escassa população não incentivam a mobilidade social ou o surgimento de massa crítica e criativa a partir de dentro, a par da falta de um plano de marketing territorial assente nas virtualidades das pessoas e não só no património histórico, sendo que apesar da marca romantismo esta não é idónea a caracterizar um concelho onde apenas 10% da população vive na Sintra dita “romântica”.Como problema central por todos reconhecido continua a sentir-se o da mobilidade,faltando bolsas de estacionamento e uma rede de mini buses que atravesse as zonas críticas e a carecer de preservação ambiental.
Apostar no transporte público no acesso à serra e seus polos turísticos, com preços moderados para quem aceda aos palácios de transporte público, sendo o bilhete de entrada e transporte vendidos em conjunto, e com um diferencial de preço significativo poderá ser uma medida entre outras, bem como o apoio fiscal, o reforço da sinalética e o incremento de placas explicativas dos monumentos a visitar. Adoptar benefícios em sede de taxas ou impostos a quem voluntariamente recupere edifícios e património, bem como destinar parte do montante cobrado em sede de contra-ordenações a um fundo de reabilitação urbana, criar no PDM a Área de Paisagem Cultural de Sintra, englobando a área do concelho, do Parque Natural, POOC, Rede Natura 2000 e Centro Histórico, com homogeneidade de gestão, são iniciativas que se afiguram plausíveis, no quadro de uma Agência Municipal de Investimentos ou estrutura semelhante que promova o emprego e o crescimento, as actividades económicas essenciais (na óptica do turismo, empregabilidade, fixação no terciário, lazer e habitação qualificada ) e proponha uma política de apoios tributários apelativa, passando pela celebração de protocolos ou contratos programa que desenvolvam um partenariado positivo e gerador de sinergias que se manifestem de modo permanente e não só no momento do licenciamento ou instalação.
As lojas têm igualmente que desenvolver um conjunto de especificidades, que determinarão não apenas a sua sobrevivência, como também o seu sucesso em termos de futuro, devendo a política de estacionamento ponderar a mobilidade das pessoas mas num quadro que reconheça a particularidade do Centro Histórico e a indesejável massificação turística redutora do “espirito do lugar”.
Deve pois ser elaborado um projecto de urbanismo comercial do Centro Histórico que envolva de forma clara  comerciantes e autoridades. A animação das ruas, com pequenos espectáculos musicais ou outros, concursos de montras, a iluminação e decoração festiva, as semanas temáticas, são alguns dos eventos que poderão servir como antídoto ao marasmo reinante, onde espaços velhos aguardam que a especulação imobiliária os transforme em bancos ou lojas de compra de ouro ou de telemóveis, como agora é o caso. Essenciais se tornam igualmente benefícios camarários na transmissão de imóveis para comércio tradicional e criação de emprego local, apoios à reabilitação contratualizados não só para as obras mas também para os usos subsequentes; política de eventos e de promoção agressiva, segurança, branding comercial, que não se esgote em eventos avulsos e de cosmética, criação de um Gabinete Municipal que centralize a recuperação comercial, a política de horários, a segurança e mobilidade, e uma política de toldos, esplanadas e ocupação do espaço público pró-activa e dinamizadora.A proposta de um Quarteirão das Artes formulada na reunião camarária de ontem pode também comportar virtualidades.
Institucionalmente tal implica equacionar quais os serviços que devem continuar a ser executados pela Câmara  e aqueles que podem e devem ser delegados, sempre acompanhados do respectivo cheque financeiro e recursos humanos, numa óptica de proximidade (a ligação com as escolas do ensino básico, as associações culturais e desportivas ou as associações de idosos, lares e centros de dia, por exemplo) e procurar  resposta para alguns casos patológicos de degradação de património e da paisagem, como a casa da Gandarinha, o Hotel Netto ou a Quinta do Relógio, bem como diligenciar no sentido de certas urbanizações já iniciadas não ficarem ao abandono, como parece estar a ocorrer em Monte Santos, na zona tampão do Centro Histórico.A isso não deve ser alheia a urgência de concluir a revisão do Plano de Urbanização de Sintra, há anos em estudo, e melhorar a articulação com a Parques de Sintra-Monte da Lua na óptica da gestão da área de paisagem cultural. Outro problema por resolver é também o da mobilidade dos deficientes e o seu acesso aos monumentos e edifícios da Vila.Tudo pois desafios para uma estrutura que tardava a sair do papel. Os primeiros tempos serão determinantes.

terça-feira, 11 de março de 2014

Para que serve hoje o Parque Natural Sintra-Cascais?

Passam hoje 20 anos da publicação do Plano de Ordenamento do Parque Natural Sintra-Cascais, e a propósito será interessante reflectir sobre o mesmo.
Em 1981, era Nunes Liberato Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, foi criada a Área de Paisagem Protegida de Sintra-Cascais(APPSC) visando criar um "anel" verde na zona sensível de Sintra e seu litoral, atenta a incapacidade de aplicar eficazmente o Plano de Groer, de 1949, umas vezes em vigor, outras não, consoante os interesses e as conjunturas. Tal situação originou a criação de uma Comissão Instaladora que levou mais de dez anos a "instalar-se", sem quadro legal vinculativo, cumprimento de prazos ou fundamentação de Direito adequada. E assim, pelos buracos de uma legislação "coxa" passaram muitas ocupações de solo em zonas sensíveis, sem que a autarquia invocasse o Plano de Groer( só em 1996 se decidiu a considerá-lo eficaz) e sem PDM aprovado, num tempo em que o crédito bancário abundava e ter casa em Sintra voltava a ser in. 
Confrontado com imensos pedidos de deferimento tácito ou de falta de vinculação dos pareceres emitidos pela então APPSC, foi finalmente publicado um Plano de Ordenamento a 11 de Março de 1994, que, como todos os planos de primeira geração, pecou pelo excesso e pretendeu criar uma Sintra virtual, escamoteando a ocupação humana e as actividades económicas, mas ao mesmo tempo privilegiando as ocupações do solo não por anéis ou zonas de protecção, assim contendo o cerco do betão, mas em função da dimensão das parcelas, permitindo construir a quem pudesse adquirir 1 hectare de terra mas expulsando os filhos e netos dos antigos habitantes, sem dinheiro para emparcelar e assim empurrados para o subúrbio.
Além do mais, confrontado com a realidade das inúmeras construções erigidas antes da entrada em vigor do Plano, não soube o dito texto encontrar uma solução de compromisso, radicalizando os pareceres numa leitura restritiva e absurda do mesmo, e não promovendo ao mesmo tempo a demolição ou remoção das construções que, não vendo luz verde para legalizar, continuaram pululando nas zonas agora proibidas ou restritas.
A reestruturação do Estado levou, inclusive, a que com o passar dos anos deixasse de haver uma estrutura sediada em Sintra e articulada com a autarquia que permitisse articular posições, todos se comportando de costas voltadas para os problemas, com dispêndio inútil de verbas e pouca eficácia na resolução de conflitos ou efectiva protecção do Parque Natural (veja-se o caso paradigmático das arribas instáveis, até hoje sem solução, e casos patológicos, como a Quinta Verde de Nafarros, com mais de 90 habitações num local onde não deveriam ter sido consentidas mais de 15).
Assim sendo, e com serviços concentrados em Lisboa e uma estrutura pálida ainda instalada em Sintra, com um PDM em revisão que bem pode absorver o essencial das propostas do PNSC passando a gestão do mesmo para a CMS, para que serve hoje o Parque Natural Sintra-Cascais?
Defenda-se o ambiente, mas com eficácia e oportunidade, no terreno e não em gabinetes, com eficácia e sem imperial sobranceria.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Os 500 anos da embaixada de D.Manuel ao Papa

Passaram ontem, 9 de Março, 500 anos da embaixada de D. Manuel ao Papa. Um texto em jeito romanceado do meu anterior blogue Café com Adoçante:

Hanno, o Paquiderme do Império


Já desde Livorno corria de boca em boca, uma exótica e vistosa comitiva aproximava-se da Cidade Eterna e estranhas bestas desbravavam a Via Ápia sem que fossem repelidas. O povo estranhava.

Naquele 9 de Março fazia a entrada nos Estados do Papa a luxuriante embaixada do rei de Portugal, o poderoso D. Manuel, alardeando os sucessos da sua navegação e com fausto indo prestar tributo ao senhor da Cristandade. Tristão da Cunha, o plenipotenciário, instruíra Garcia de Resende para que distribuísse moedas de ouro pelos pobres e fosse esmoler com as igrejas, o que o secretário do embaixador fez, para gáudio dos locais, que à vista de tal davam vivas àqueles bizarros portoghesi. Avisado da chegada, Leão X anunciou que receberia a comitiva a 20,dispensando a bula de entrada nos Estados Pontifícios.

Diogo Pacheco e João Faria montaram guarda ao tesouro que seria ofertado, e a custo mantiveram calmos os exóticos animais, tirados de seu sossego em paragens longínquas e agora na terra dos campanários. Leopardos, uma pantera, papagaios, perus, cavalos da Índia, o circo real chegava à cidade. Mais que todos, impressionava um enorme elefante albino de doze palmos, carregando no dorso um palanque de prata em forma de castelo contendo um cofre com presentes, entre os quais paramentos bordados com pérolas e pedras preciosas, e moedas cunhadas para a ocasião. Um rinoceronte indiano estivera previsto, mas morrera num naufrágio, já perto da costa italiana.

Mais de cem pessoas escoltavam a parafernália de presentes, para glória do Venturoso, Senhor do Oriente, do Império e da Conquista, vassalo do Papa, mas seu igual, temido e invejado dono dos mares tormentosos. A Tristão da Cunha competia obter bulas e breves, e a bênção papal, a troco das generosas arcas carregadas pelo paquiderme.

Roma estava rendida. À ordem de João Faria, trombetas e tambores anunciaram as novas legiões. Fernão Pires, do Paço de Sintra, era o responsável pelo elefante, e o guardião do tesouro, de quinhentos mil cruzados. O animal diversas vezes se mostrou enervado com os ruidosos camponeses que em algazarra seguiam o cortejo pela estrada, só o mahout, sentado na lombada, o mantinha em sossego, afugentando os campónios quando, estridente, fazia ecoar a presença, atarantando os cavalos da embaixada. Garcia de Resende tombou inclusive quando o seu alazão se desgovernou, assustado, projectando-o numa poça enlameada, para regalo de Tristão da Cunha, que riu a bom rir, troçando do pobre secretário.

Entre satisfação geral, com os cardeais abismados e a criadagem receosa, a comitiva enfim entrou no Castelo de Sant’Angelo, com os lusos ricamente paramentados e os tesouros expostos em louvor do Santo Padre. Ainda não refeitos do espanto, provocado pelos leopardos e pelos elegantes cavalos árabes que desfilavam altivos, perante o assombro geral abriram-se alas para o visitante mais vistoso: o portentoso elefante, paramentado e guiado pelo mahout, com Fernão Pires escoltando a cavalo, lançando moedas de ouro e com o estandarte do rei de Portugal desfraldado ao vento. Atónita, toda a praça estremeceu, e quase dispersou, quando o proboscídeo soltou um guincho tonitruante, deixando os guardas suíços temerosos e em posição de fogo.

Para espanto geral, à ordem de Tristão da Cunha, o elefante ajoelhou três vezes, em sinal de reverência, e depois, obedecendo a um aceno do tratador, aspirou a água de um barril com a tromba, e espirrou-a sobre a multidão, deixando aterrados os cardeais.

A medo, o Senhor dos Altares foi ao encontro do Senhor da Selva, e Tristão da Cunha fez então a entrega da besta ao romano pontífice:

-Santidade, El-Rei D. Manuel, meu senhor, fez mercê de vos enviar o mais pujante dos animais, encontrado em nossas e vossas terras das Índias. Um elefante, Hanno, o nome porque atende. Apesar de ser corpulento, conta só quatro anos, poucos para a sua espécie. Veio de Cochim até Roma, para Deus Nosso Senhor servir e reverenciar!

A um sinal do tratador, o elefante ajoelhou a receber bênção do Papa, que o olhou, inseguro, não fosse enervar-se.

Garcia de Resende registou o momento. Séculos depois do grande Aníbal, o poderoso rei de Portugal, senhor de remotas e desvairadas gentes, e também ele Grande Elefante dum Império onde o sol nunca se punha, deslumbrava a Sé Apostólica e erguia o nome luso às portas da Cidade Eterna.

À ordem do Pontífice, o camerlengo conduziu Hanno para um improvisado picadeiro, à sombra de igrejas e basílicas. Afeiçoado, mais tarde o Papa mandou erigir-lhe estábulo no Borgo de Sant’Angelo, e com o tempo participou em procissões e desfiles, recordação da nação portuguesa, grande e pujante nos mares, como Hanno entre os romanos.

No Paço de Sintra, recebida a notícia do deslumbre provocado, o Venturoso regozijou-se, triunfante, enquanto da varanda lançava ao fosso uma lebre, a alimentar um tigre do Malabar. Deus punha e o rei de Portugal dispunha, num mundo onde o mar oceano era ainda um imenso lago português.


 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Cultura:Galináceos e Avestruzes


Uma das virtudes da democratização dos meios de comunicação possibilitada pela blogosfera e pelas redes sociais é a de que a todos se tornou possível opinar sobre tudo o que ocorre no espaço público, o que, sendo uma conquista da Sociedade Aberta e uma virtude, traz consigo também a possibilidade diletante de tudo com a maior displicência criticar e atacar, sem que nenhum contributo positivo daí resulte (já sem falar da inércia em se envolver na elaboração de projectos e sua consecução, a tudo preferindo a frisa cáustica e a certeza de, ao não se envolver, fugir ao escrutínio dos outros).
Ser um operário da Cultura (em todas as suas vertentes, e não só as ditas eruditas) implica estar não só na concepção e no nascer das ideias, mas também na captação da comunidade para causas colectivas, no trabalho associativo que tanto pode passar por conceber um projecto ou uma iniciativa mas também contribuir para a mobilização dos demais, colar o cartaz, mandar o mail, arrumar as cadeiras ou vender a bifana. E essa é uma tarefa que muitos gurus da nossa praça escamoteiam, pensando que dar ideias para iniciativas é suficiente e que alguma empresa de catering ou batalhão de funcionários fará o trabalho de sapa. E depois, quando as coisas pela sua natureza tiverem dificuldade em alcançar um certo patamar ou revelem as lacunas próprias de quem muitas vezes tem de agir sem verba ou voluntários, lá vêm as vozes ululantes dos velhos (e novos) do Restelo, questionando as faltas mas nunca elogiando o que apesar de tudo se conseguiu, ou oferecendo contributo, não poucas vezes invocando a "indisponibilidade" naquele dia, um parente distante doente ou um inesperado compromisso noutro sítio.Mas sempre prontos a receber os "louros" e a ficar na foto quando o mérito é reconhecido ou a associação a certas imagens se mostrar oportuna.
Longe vão os tempos dos carolas das associações, do teatro amador ou dos saraus de poesia, e razão tem José Gil: tornámo-nos meros consumidores de produtos ditos culturais, muitas vezes não inscrevemos opinião que não seja mimetizando a opinião publicada vendida como  própria, ao palco onde se pode ser artista mas também electricista preferindo o confortável camarote das vaidades, em busca do aplauso fácil, mas raramente dando a cara pelo insucesso ou na hora das dificuldades.
 

terça-feira, 4 de março de 2014

Lembrar Artur Anjos Teixeira

A 4 de Março de 1935, há 79 anos, falecia Artur Anjos Teixeira.
Artur Gaspar dos Anjos Teixeira nasceu a 18 de Julho de 1880. Filho de um Arquitecto e sobrinho de Escultores, desde muito cedo demonstrou os seus dotes de grande artista, não só na Escultura, como também a nível do Desenho, da Aguarela, da Caricatura, da Ilustração e da Música.
Em 1907, decide entrar para a Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde se torna pupilo do Escultor Simões de Almeida.
Terminada a sua formação, vai trabalhar no Atelier de Escultura de Costa Mota. Concorre, mais tarde, a uma Bolsa de Estudos do `Legado Valmor` para Paris. Na capital francesa, e à semelhança de outros artistas seus contemporâneos, notabiliza-se com diversos trabalhos, que merecem, desde logo, grandes elogios da crítica e dos meios de comunicação.
Com o estalar da I Grande Guerra, em 1914, regressa a Portugal, fixando residência em Mem-Martins. Após o reconhecimento artístico em França, o Estado Português encomenda-lhe a "Estátua da República" que se encontra, ainda hoje, na Sala de Deputados do Palácio de São Bento.
Também atribuída a este fecundo período português, 1914-1934, temos a execução dos seus trabalhos mais representativos, sobretudo os de cariz monumental: "Monumento a Carvalho Araújo" (Vila Real, 1925); "Monumento ao Soldado de Infantaria 19" (Cascais, 1922); "Imagem de São Patrício" (Museu de Escultura Comparada, Mafra, 1922); "Monumento aos Soldados Mortos na I Grande Guerra" (Viseu, 1927); "Busto de Egas Moniz", (Penafiel, 1927): "Busto de Adriano Coelho" (Jardim Zoológico, 1934); e "Monumento a Camilo Castelo Branco", de grande pureza estética e força dramática, o qual ganhou o 1º Prémio de Escultura, em 1934.
Motivo comum a toda a sua obra, de magistral observador, é a figura humana, que o leva, inclusivamente, a humanizar os pedestais e os ambientes em que as pessoas se encontram, nas composições.