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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

D.Gregório, rei de Portugal



Pedro Carmona e António Olavo, jornalistas do Privado, preparavam uma reportagem sobre os reis de Portugal e mão amiga deu-lhes a ler a história de Gregório, agendada uma  entrevista, comprovavam:era uma figura de opereta. Cinquenta anos, obeso, e quase careca, um blaser azul com botões dourados, lenço vermelho saindo do casaco, o almoço no Cantinho era a ocasião para finalmente conhecer Gregório Caravaca, alfarrabista e antiquário em S. Pedro de Sintra. O chapéu tirolês emprestava-lhe um ar caricato, vergado pelos mais de cem quilos.
-Boa tarde, boa tarde, prazer em conhecê-los. Gregório Caravaca-saudou, um cartão com as armas dos Braganças identificava Gregório Caravaca, rei de Portugal e dos Algarves. António sorriu entreolhando Pedro, e piscando-lhe o olho de soslaio:
-Senhor Caravaca, muito prazer, nós…
-Majestade.
-Como?
-Pode tratar-me por Majestade. Pessoalmente, prefiro Alteza Sereníssima, como o meu tetravô, mas eu sou constitucional, moderno, basta Majestade! –respondeu, com ar sério, os dois não sabiam se haviam de rir ou entrar na onda.
-Majestade, seja, como sabe, estamos a preparar um livro com histórias secretas dos reis de Portugal, e o prof. Sottomayor falou-nos no seu caso, muito curioso, convenhamos- foi adiantando Pedro, folheando documentos fornecidos por um professor da Clássica. -Segundo ele, o senhor será descendente de D. Maria I e como tal, reclama para si o título de rei…
-Efectivamente, e posso prová-lo! –afirmou, peremptório, enquanto fazia o pedido, pernil com castanhas e um Pêra Manca de 2003, a barriga não enganava ninguém.
-Segundo o professor, o senhor, digo, Vossa Majestade, será descendente da rainha D. Maria I. Pode explicar-nos como foi isso, e como o descobriu? -Pedro antevia um almoço divertido, o queijo de Serpa estava seco, como gostava, colocando um ar sério, Gregório Caravaca começou a desbobinar a sua história:
-Como sabem, senhores, a rainha D. Maria I casou em 1760 com um tio, o irmão de D. José, D. Pedro, muito mais velho que ela. O pai, com medo que algum rei estrangeiro deitasse a mão a Portugal por ela ser mulher, quis manter a sucessão na família, e forçou-a a essa união. Quando tinha 19 anos, e ainda solteira, teve uma relação proibida com um general de artilharia, Bernardo de Atouguia e Melo, da qual nasceu o meu tetravô Diogo. Ora como o seu primeiro filho, D. José, apenas nasceu em 1761, sou eu, por via dessa descendência, quem deve ser reconhecido como chefe da casa real, e não esse usurpador do Duarte Pio! -foi explicando, apontando a casa solarenga de D. Duarte em S. Pedro, não muito longe do restaurante.
-Mas se assim é, que provas tem o senhor….Vossa Majestade, perdão… daquilo que acaba de afirmar? - Pedro Carmona gravava a conversa, daria uma bela história para o suplemento de domingo.
-O diário do meu tetravô, o general, e a confissão da rainha à hora da morte, no Brasil, recolhida pelo seu confessor. Mas como diziam que estava louca, ninguém a levou a sério. Olhe, a história de Portugal talvez tivesse sido muito diferente! -defendeu o putativo monarca, degustando o pernil.
-Mas é difícil de provar, não acha? Como era possível a rainha estar grávida durante nove meses, ter tido a criança, e ninguém dar por nada? - António tentava não desiludir o convidado, apesar de tudo, cordial e bom garfo. Caravaca tinha a explicação:
-Quando a princesa apareceu de esperanças, o Sebastião José convenceu o rei D. José a mandá-la uns meses para Vila Viçosa, longe dos compromissos e do escândalo, de modo que quando o rapaz nasceu, foi entregue a uma ama, a Anastácia, que o trouxe para Sintra, como seu filho, aqui tendo sido criado na casa do capitão-mor, Máximo José dos Reis. Consta que durante uma visita da rainha a casa do marquês de Marialva terá mesmo mandado chamar a antiga aia, para que, sem ninguém o suspeitasse, pudesse ver o seu primeiro filho! - Gregório Caravaca parecia agora rever a cena, dono do maior segredo da história nacional, quase uma história de Alexandre Dumas, mas real, e dramática.
-Então, e depois? –quis saber Pedro Carmona, tirando apontamentos.
-Depois, os descendentes foram vivendo aqui, e pasme-se, o meu bisavô até ajudou a proclamar a República em Sintra. Se ele soubesse…Como sou alfarrabista, um dia deitei a mão ao diário do general Bernardo, e assim pude reconstituir a história, os arquivos da Misericórdia de Sintra permitem conferir a descendência a partir daí. E aqui estou eu, vosso soberano e senhor! -rematou, de garfo no ar, qual espada de Aljubarrota.
-Quer dizer então que vai pagar a conta do almoço? -gracejou António, tirando umas fotos, o rei fazia pose de estado, a mão no casaco qual Napoleão.
-Bem, bem, já estivemos a falar melhor…- rematou, dando um trago no vinho, um repasto daqueles não era todos os dias e o negócio ia mal, com a crise.
-Então e outro tipo de prova, mais científica…-voltou à carga Pedro Carmona, insistindo.
-Já escrevi ao primeiro-ministro para ele autorizar a recolha de ADN dos restos mortais de D. Maria, para se fazer uma comparação. O corpo está em S. Vicente de Fora, como sabem, mas não foi autorizado. Têm medo, sabem….
O telemóvel tocou, e o pretendente ao trono pediu desculpa, aparecera um cliente para uma edição rara de Camilo, e tinha de se ausentar. Feitas as despedidas, Sua Majestade D. Gregório I, sem pagar a conta, saiu apressado e metendo-se num táxi correu para Lisboa, quando fosse aclamado rei, prometia fazê-los condes.

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