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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

No centenário de Vergílio Ferreira



Vergílio Ferreira, o consagrado autor de Manhã Submersa, nasceu há 100 anos, a 28 de Janeiro de 1916, e Sintra é um dos lugares frequentemente presentes na sua obra. Na sua Conta-Corrente, por exemplo, são frequentes as referências a Fontanelas, onde passou largos períodos, e a outros sítios de Sintra, como local onde pôde repousar e ler, e também concluir alguns dos seus livros até a morte chegar, em Março de 1996, aos 80 anos.

Dois dos seus romances foram concluídos em Fontanelas: Para Sempre (1982) e Na Tua Face (1993). E a acção de Nítido Nulo (1971) decorre no Magoito.

Além de Fontanelas, muitos são os registos sobre Praia das Maçãs, Praia Grande, Azenhas do Mar ou a Aguda. Sobre a Praia das Maçãs escreveu em 1981:”A Regina e eu fomos depois do almoço à Praia das Maçãs tomar o café e olhar o mar. Praia quase deserta. A armação de algumas barracas agrupadas a um lado. Os panos listrados de azul já arrumados. Um ou outro banhista ainda despido por exemplarismo ou falta de resignação. O mar com uma cor já fria de inverno e muito batido de espuma da ondulação. Sentamo-nos na esplanada do café, ao sol.”

Ou a Praia Grande, depois das cheias de 1983:

“22 de Novembro.1983 - Ontem de tarde fomos ver os desastres da cheia aqui ao pé. Do Rodízio para a Praia Grande há uma ponte com um pilar sobre uma ribeira seca durante quase todo o ano. Com a enchente, a ribeira inchou pavorosamente e levou a ponte adiante ontem inundava todo o areal numa maré de água turva. Havia almofadas vermelhas a boiarem, talvez de automóveis, muros derrubados, canos rebentados ou postos à mostra nas ruas. Na grande adega de Colares os tonéis sem vinho boiavam leves e ficaram trancados contra as portas que eram estreitas para darem passagem”.

Deslumbrado pelas Azenhas do Mar, onde “as águas alargavam-se até a um horizonte de neblina, as ondas quebravam num rolar manso e dormente sobre a breve areia da praia”, grande parte de Até ao Fim (1987) decorre em Fontanelas e nas Azenhas do Mar, com a Capela de São Mamede relembrada na Conta-Corrente em 1983:

“Aproveitámos para excursionar até São Mamede que tem uma capela num alto donde se vê o mar. E foi um deambular lento, de olhos abismados na verdura dos campos, nas flores silvestres à beira da estrada. (...) Divagámos até ao alto de São Mamede. Nas margens da estrada e no meio dos campos visíveis havia maciços rubros de papoilas, manchas amarelas de malmequeres. De um eucalipto novo colhi um ramo de que esmaguei na mão algumas folhas para o seu perfume me penetrar.”

Também a Peninha, Galamares ou o Cabo da Roca são presença familiar nos seus textos (“ouve-se ao longe, no Cabo da Roca, a "ronca" de aviso à navegação. Não há vento, os pinheiros imobilizam-se na névoa como espectros. Silêncio. Nem uma ave se ouve. E irresistivelmente lembro- me de um mundo nos começos da génese, antes de um ser vivo surgir à sua face. E então, mais evidente, assola-me o absurdo de um universo sem razão, sem sequer um ser pensante que o fizesse existir.”)

De resto, há sempre um registo dos muitos amigos que passaram por Fontanelas para longas conversas e tertúlias. E foi nesse modo de conviver descontraído que o autor de Aparição encontrou a razão de ser para assim não deixar de registar as suas impressões de Fontanelas e quase sempre nos dias de Verão, na presença de pinheiros, o cantar dos pássaros ou a imensidão do mar.

Sobre Sintra, “o único lugar do país onde a História se fez jardim”, como escreveu um dia, foi profético, quando a exalta, de forma lapidar: ”Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que "mar e céu". E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça.”

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Minhas memórias de Marcelo


Filho e discípulo de proeminentes figuras do Antigo Regime, e um dos mais brilhantes alunos de Direito do seu tempo (no seu curso obteve a nota mais alta, a par de Leonor Beleza), Marcelo Rebelo de Sousa foi depois do 25 de Abril um destacado jornalista do Expresso e professor da Faculdade de Direito de Lisboa, onde o tive como regente de Direito Constitucional no ano lectivo de 1978/79. Recordo bem a sua agilidade intelectual e a postura hiperactiva (ainda hoje um traço do seu carácter) e a forma como sempre abordou a política, apaixonado e maquiavélico mestre de cenários, usado aqui o termo maquiavélico no sentido renascentista do termo e não no pejorativo.
As suas aulas eram sempre das mais frequentadas, numa altura em que governavam Eanes e Lurdes Pintasilgo, e muito se discutia a natureza dos governos de gestão e a extensão dos poderes presidenciais. A constituição de 1976 era recente ainda, e os seus pais intelectuais- o próprio Marcelo, Jorge Miranda e Vital Moreira- publicavam os primeiros manuais e estudos temáticos, tendo Marcelo na altura elaborado a sua tese para catedrático com um trabalho sobre os partidos políticos em Portugal. Quando por via de não ter frequentado as aulas de avaliação contínua nessa cadeira (tempo de viagens pela Europa de inter rail…) fiz exame final, e tive necessariamente de comparecer num exame oral, recordo bem a maratona que tal foi, começando as ditas orais depois de almoço, com mais de uma hora por cada aluno, e sendo as notas anunciadas já perto da meia noite, com a faculdade deserta e a fechar, terminando a maratona com um bife na Portugália. Recordo nessa época também as visitas de estudo que no âmbito da cadeira promoveu, nomeadamente uma ao extinto Conselho da Revolução, órgão resultante do Pacto MFA-Partidos, que enformou a feitura da Constituição de 76, e a forma desenvolta como questionou e suscitou a curiosidade dos seus alunos em torno da política e do direito constitucional.

Licenciado, e seguindo a minha vida, por diversas vezes o tenho encontrado por aí, em restaurantes ou sessões públicas, e, apesar de terem passado mais de 30 anos, a sua memória recorda sempre o antigo aluno, perguntando pelos meus sucessos pessoais e profissionais, como se nos tivéssemos separado dias antes apenas, e por si não tivessem passado muitos anos, acontecimentos e centenas de alunos.

Menos bem sucedido até agora como político que como comentador, Marcelo Rebelo de Sousa é indelevelmente um príncipe florentino na era da televisão, e o exemplo claro que o poder é muitas vezes mais de quem o exerce pela palavra do que de quem o detém pela caneta. Não foi o meu candidato, por motivos de genética política, mas será por certo intelectualmente mais estimulante que uma certa geringonça que ainda mexe, ferrujenta, para os lados de Belém.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Animais" no Teatro Turim



O homem é um animal racional. Será? Há que contar com a racional irracionalidade da criatura enquanto fenómeno zoológico gregário, sempre pronto quer para comportamentos de cliché, como para surpreender na sua por vezes bizarra forma de estar.

“Animais”, peça que vai à cena no Teatro Turim, em Benfica, expõe de forma irónica mas incisiva aspectos da vida quotidiana alcandorados a mitos urbanos- o adultério, o swing, o machismo, a guerra dos sexos, numa trepidante sessão de 2 horas durante a qual os quatro actores se desdobram em personagens que todos reconheceremos na pessoa de algum amigo ou vizinho, com um humor contagiante e uma interpretação segura e cativante.

Élia Gonzalez, Filipe Salgueiro, Pedro Rodil e Susana Rodrigues com a sua parafernália de (des)construção de personagens prendem os espectadores que surpresos vêm desfilar a fauna urbana enjaulada em preconceitos, aflições e paradoxos. O público, engaiolado na plateia, observa, sorri, e vê-se ao espelho, rindo quando identifica arquétipos que crê serem dos outros, sorrindo quando alguma cena lhe é mais familiar ou terá ocorrido consigo mesmo.E embarca nesta Arca de Noé onde o mais desconcertante é Noé, o motorista...

Por ser o actor que melhor conheço dos quatro, um destaque para a interpretação segura e refrescante do Pedro Rodil, num conjunto de intervenções que permitem dar a conhecer a sua versatilidade e evolução, fora de anterior formatação televisiva, e que mostram um crescimento como profissional promissor, sem desprimor dos demais, sem desníveis ou inseguranças.

A toda a equipa, parabéns e muito sucesso, e até breve, num teatro por aí.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

À conversa com Paulo Campos dos Reis

Paulo Campos dos Reis em Auto da Barca do Inferno

Conheço o Paulo Campos dos Reis há cerca de sete ou oito anos, quando através da Alagamares, com ele, a Susana Gaspar e o Filipe Araújo, companheiros da cena teatral sintrense e valores de referência já firmados, fizemos uma parceria para apresentar ao público a peça IGNARA, em torno do stresse a que foram sujeitos e ainda são hoje vitimas muitos antigos combatentes das guerras de África. Daí para cá, têm sido frequentes os contactos. O Paulo é um talentoso actor e destacado agente cultural em Sintra, tendo trabalhado em inúmeras peças, quer como actor e encenador, quer liderando grupos como o teatromosca, colaborando na Éter Cultural, ou, presentemente, com a Musgo, que presentemente leva à cena na Quinta da Regaleira uma inovadora versão de Os Lusíadas.
Recentemente, passou a integrar também a equipa da Alagamares, onde a sua experiência, entrega a projectos, e talento, serão por certo de particular valia.
No âmbito da nossa nova plataforma multimédia, a Alagamares TV, trocámos uma pequena conversa sobre a sua obra e percurso, que aqui partilho.

 
 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O porquê da Alagamares TV



Nestes dias de Aldeia Global mal andaria uma associação como a Alagamares se descurasse os meios comunicacionais postos ao seu dispor para fazer chegar a sua mensagem junto do grande público, seja na divulgação de tendências, eventos e iniciativas, seja na defesa das suas causas e valores, entrando em casa de cada um ao clique dum dedo ou manusear de um comando.
Temos uma equipa jovem e empenhada, e sem os recursos das organizações mainstream faremos o caminho caminhando, com imperfeições, que faremos por corrigir, com limitações, que faremos por ultrapassar, e com paixão, que faremos por nunca perder.
Será um espaço plural, ecléctico, simples e diversificado, onde conviverá a informação e a divulgação de eventos, mas também o humor, as terapias alternativas, o teatro e cinema, a integração de deficientes, o desporto e a nossa História e património. Com uma equipa jovem e trabalhadora, vimos para, a par da experiência já adquirida nos 10 anos da Alagamares, afirmar a nossa maneira de ver as coisas e delas dar a nossa visão. 
Não surgimos de novo, porque já cá estamos há muito tempo, nem vimos contra ninguém, porque só a ignorância e a indiferença serão nossos adversários. Vimos para somar e não para subtrair, para acrescentar massa crítica e juntar os mais jovens da nossa equipa num espírito grupal e empenhado, que as longas horas de trabalho já dedicadas ao lançamento desta plataforma testemunham.
Haverão no início fragilidades técnicas ou erros de falta de experiência, mas tudo faremos para os ultrapassar, sem nunca deixar para trás o trabalho já feito e que não deixaremos de continuar a fazer. 
Aqui fica entretanto um resumo da festa de apresentação no passado dia 9, no MU.SA: