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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um Coelho fora da Cartola



Passos chegou para jantar, sendo recebido em S. Caetano à Lapa pelos fiéis, cantando hossanas e a Nini dos 15 anos.
Ufano, convidou os mais chegados para uns jaquinzinhos, em tempo de crise convinha não abusar de carne. Contudo, antes do jantar, premonitório, predisse que nessa mesma noite seria traído por um dos seus. Todos se entreolharam, admirados. Ao servir o presunto comentou: "Tomai e comei todos, este saiu-me do lombo". Logo após, e em sinal de brinde, ergueu o copo de Reguengos e disse: "tomai e bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, por vós emborcado para comemoração dos meus feitos”. À mesa, os doze correligionários celebraram, apenas Vítor Gaspar, preocupado, via a taxa do vinho, 13º em dez minutos subiriam o juro mais recalcitrante. Falava Passos ao telefone com o acólito Relvas, quando, ruidoso, chegou ao local o Corpo de Intervenção. Mal pousou o telemóvel, para ver o que se tratava, logo Portas, repentino, lhe deu um beijo, de soslaio. Surpreendido, e sem reacção, olhando ora Gaspar, ora os polícias, foi algemado, ante o olhar incrédulo dos convivas. Marques Mendes, em bicos de pés, bem tentou chegar ao comandante da força, para lhe explicar que cometia um grave erro, aquele era o Primeiro dos Primeiros, Senhor da Lapa e Guardião de S. Bento, mas nada, havia ordens expressas para o prender. Infiltrado, Portas prometera denunciá-lo a Pôncio Cavaco, o Governador de Belém. Em troca, seria embaixador na OCDE, precisava de descanso, e nada como Paris, longe da crise e da dívida. “Eis o vosso homem”, apontou Portas, assim vingando a TSU e o Orçamento de 2013. Era séria, a coisa.
Levado ao Parlamento, reunido de emergência, sentado e algemado na bancada do governo, vários deputados o cercaram, quais chacais. Inquisitorial, António Seguro, com ar sério, abriu o interrogatório:
-Sabemos, Primeiro dos Primeiros, que contra nossa vontade negociaste um novo pacto com a valquíria Angela. Quem te mandatou, depois dele aqui ser chumbado, nos idos de Março?
-Sim -Manuela Ferreira Leite, carinhosamente tratada como“a Bruxa Velha”, quase lhe enfiou um dedo num olho- eu bem avisei…- e virando-se para Pacheco, o filósofo de serviço, buscou neste apoio: - avisei, não avisei?….
Passos pasmava com este autêntico golpe de estado. Quis chamar apoios, mas com o fim-de-semana prolongado, estavam todos no Algarve, a discutir os cortes na Manta Rota. Altivo, manteve-se calado, um simples telefonema e despacharia a oposição, tonitruante mas inofensiva, já assim fora com o deposto Sócrates. Enganava-se, porém, pois dali, os líderes sublevados levaram-no a Belém, à presença de Pôncio Cavaco, que se deliciava comendo um pedaço de folar. Acusaram-no de trair o país, e pactuar com os teutões, e anunciar milagres onde outros viam défices. Pôncio, hesitante, ainda pensou enviá-lo de presente a Ângelo Correia, mas este, ouvido ao telefone, devolveu-o a Cavaco. Era de praxe libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa. Cavaco alinhou Passos e um burlão de nome Oliveira e Costa, o “Robin dos Bosques dos ricos” na escadaria do palácio, e pediu à multidão que escolhesse qual dos dois devia ser libertado. A turba voltou-se contra Passos, e escolheu o velho, pelo sim pelo não, podia ser que pagasse a dívida do BPN- Banco de Pagamentos Nocturnos. Então, lavando as mãos, Cavaco entregou-o para ser julgado, num interrogatório conduzido pela vestal Ana Drago. A Passos, enfiaram umas orelhas de burro, e ao pescoço, pendurada, uma cenoura de papel. A seguir, forçaram-no a carregar três pesados caixotes, com memorandos da troika até ao morro de Massamá, onde a Drago o esperava já, vingadora.
Lá chegado, e bastante combalido, sentaram-no numa cadeira, cruéis, negaram-lhe farófias, e o bom servo Moedas. Com um foco de luz sobre si, Ana Drago atacou:
-Diz-me, tu a quem chamam Primeiro dos Primeiros, são ou não verdadeiras todas as acusações que te fazem: é verdadeiro ou não o negócio da TAP com o barão da droga? e o ordenado milionário do Borges? e o curso relâmpago do Relvas?? e a derrota do Sporting? e aquela vez que o Daniel Oliveira falhou comigo na cama, alegando cansaço? Não vale a pena negar, nós sabemos  tudo!- os lábios, carnudos, pareciam jorrar sangue, o professor Marcelo, a um canto, assistia deleitado, lendo quatro livros de cada vez. Já o pior parecia ter passado, sempre mandando que se calasse antes que pudesse responder, quando cruel, Louçã, de túnica negra e gadanha na mão, avançou com a sentença, votada a 60 cêntimos mais IVA: como castigo por negociar com a troika sem autorização parlamentar, a demissão, e o exílio nas Berlengas, sem cachupa nem Moedas. Antes de o levarem, levantou os olhos ao Céu e suspirou:
-Angela, Angela, porque me abandonaste?
O Novo Primeiro dos Primeiros, empossado no Domingo de Páscoa, foi o usurário Goldman Borges, que depois de apear o retrato de Passos, pôs o país a pão e água, e instituiu a semana de 166 horas, com duas de descanso, para compras no Pingo Doce. Álvaro Santos Pereira foi martirizado, engolindo de um fôlego dezenas de pastéis de nata, a Vítor Gaspar atiraram aos leões. Diz quem ouviu que as suas últimas palavras foram a pedir desculpas ao felino, com toda a delicadeza, por ter tão pouca carne para eles comerem.
Do exílio, Passos tentou voltar, com a ajuda de Carlos Abreu Amorim, fiel entre os fiéis, mas debalde, o bote que este arranjou voltou-se, com o peso, e ambos sucumbiram nas águas do Atlântico. Pescadores que no local passaram na ocasião, com ironia viram ir ao fundo aquele que ao povo prometera afogar em impostos, ao serviço dos tubarões, e, sozinho acabou afogado pela inépcia duma baleia laranja.

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