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quinta-feira, 13 de junho de 2013

A Granja dos Serrões



Pela Portaria 268/2013 de 10 de Maio foi classificado como de interesse público o sítio arqueológico da Granja dos Serrões, que integra um conjunto de vestígios de grande valor patrimonial e natural e onde os testemunhos arqueológicos surgem ligados às características geológicas do local, caracterizado por um Campo de Lapiás-classificado como Património Natural-associado ao coberto arbustivo e arbóreo representativo da vegetação espontânea da região, com reconhecido interesse do ponto de vista paisagístico e científico.

A singularidade do local deriva da articulação de elementos epigráficos e arqueológicos, com valor inquestionável para o estudo e compreensão da Lusitânia romana. Ali foi recolhido significativo acervo de inscrições romanas que se presume associadas aos vestígios de um templo dedicado a Júpiter, bem como a um mausoléu de grandes dimensões.

Na Granja dos Serrões foram igualmente identificadas as estruturas de uma villa romana, das quais se destacam vestígios da pars rústica, além dos vestígios de pavimentos de mosaicos e testemunhos da sua manufactura, bem como de uma estrutura defensiva de dimensões assinaláveis.

A identificação de uma sepultura de incineração romana, datável do século I a. C., e de uma necrópole de inumação alto-medieval reforçam a importância deste sítio arqueológico como marco determinante da estruturação do território envolvente. A presente classificação cria coroas de protecção, com uma área central que inclui o núcleo onde se incluem os vestígios da villa romana, da necrópole romana, da necrópole alto-medieval, da estrutura defensiva baixo-imperial e a área do presumível templo consagrado a Júpiter, onde apenas serão autorizadas intervenções de investigação e valorização científicas, sendo que na área seguinte qualquer operação urbanística deverá ser precedida por uma acção arqueológica de diagnóstico prévio. Na designada área C, que integra o campo de lapiás (classificado como monumento natural), incluindo parte de necrópole de incineração romana, a jazida de Monte da Macieira e a estação paleolítica de Terra das Cenouras, apenas serão autorizadas intervenções de investigação e valorização científicas.

Como se formaram estes lapiás? Segundo os cientistas, o calcário é uma rocha de origem sedimentar constituída predominantemente por carbonato de cálcio, que é um composto solúvel na água. Não o é directamente, mas sim através de um processo químico que envolve o dióxido de carbono. A água da chuva, quando cai das nuvens, reage com o dióxido de carbono existente na atmosfera. Desta reacção resulta ácido carbónico, que vai ficando dissolvido na água à medida que a chuva cai. Quando a água da chuva incide sobre o calcário, o ácido carbónico nela contido reage por sua vez com o carbonato de cálcio que compõe esta rocha, do que resulta a libertação de iões cálcio e hidrogenocarbonato, que também ficam dissolvidos na água. Este processo, em que na prática os constituintes do calcário acabam por ficar dissolvidos na água, corresponde a uma erosão química desta rocha, à qual se juntam uma erosão mecânica, correspondente ao desgaste causado pela própria água, pelo vento, e outros agentes físicos, e também uma fractura e desagregação progressiva da rocha, em resultado das dilatações e contracções provocadas pelas variações de temperatura. A esta erosão do calcário dá-se o nome de carsificação e dela resulta a formação de grutas, algares, lapiás, etc.

Os lapiás são relevos que se formam à superfície do calcário e são constituídos por fendas, canais, buracos, fragmentos, campos de rochas, etc. Em Portugal há dois campos de lapiás costeiros: um no Cabo Carvoeiro, junto a Peniche, e outro em Cascais, entre a vila e a Praia do Guincho, incluindo a famosa Boca do Inferno. Na zona do Farol da Guia este campo de lapiás é estreito, mas no Cabo Raso ele é muito mais amplo.

De entre os campos de lapiás que não se encontram à beira-mar, dois estão classificados como monumentos naturais e ambos no concelho de Sintra, o Campo de Lapiás da Granja dos Serrões e o de Negrais. Ambos lapiás ficam muito próximos um do outro e podem ser facilmente acedidos através da estrada que liga Pêro Pinheiro à Ponte de Lousa, passando por Pedra Furada, Negrais e Santa Eulália. O Campo de Lapiás da Granja dos Serrões fica junto ao troço da estrada entre Pêro Pinheiro e Pedra Furada e o Campo de Lapiás de Negrais fica nas imediações de Negrais, como o nome indica.

Apesar da sua importância e das classificações, como a de Maio passado vem reforçar, falta informação suficiente sobre este património, bem como o incremento da sua divulgação científica, com visitas ao local, enquadradas num vasto programa escolar e de turismo cultural que abranja o vastíssimo legado arqueológico do concelho de Sintra. Um campo onde muito ainda há a fazer.

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