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sábado, 27 de outubro de 2012

Letargias de sábado



O sábado de Outono estava solarengo, sol baixo e fora de época. Intruso, Bruno rumou à cidade, deserta como há muitos domingos para cá, desde que, fugindo, os moradores se mudaram para o subúrbio, escapando de rendas caras e prédios em ruína. Ao sábado, Lisboa era pachorrenta e ausente, de ruas vazias e centro despovoado. Sob a arcada de um prédio, um sem-abrigo dormitava, dando voltas na caixa dum plasma, a cidade inteira como quarto, o céu como candeeiro. Após um galão num tasco decorado de ovos verdes e jaquinzinhos da véspera, rumou à Graça, no 28, esventrando as aguareladas vistas de Lisboa. Velhinha e mal tratada, a cidade era sempre familiar, varina, e aristocrática, secular testemunha de autos de fé e carreiras da Índia, pestes e cercos. E a luz, essa luz azul rasgada, cegando de radiosa, quente e colorida.
Ao contrário do céu, iam cinzentos e perigosos os dias e tempos. O espírito em baixo, os amigos desalentados, a vontade de partir, sem mapa para a felicidade ou plano B para o dia seguinte. Uma prostituta velha saiu duma pensão, familiar de décadas, ambas velhas e a cair. Observador, sentou-se no miradouro, onde sobreviventes de vidas se arrastavam a caminho de mais um jogo de cartas, um cigarro ao canto da boca e rugas veteranas, que um turista atento fotografouradiografando almas em silêncio. A manhã passou vagarosa, e Bruno deteve-se em volta dum licor, familiares e chiando, os eléctricos iam cruzando as vielas apertadas.
Curiosamente, lembrou-se de Fernando Pessoa, e imaginou-o ali, sulcando a cidade, bebendo aguardentes em tascas, vendo passar os mesmos eléctricos e o mesmo céu azul. Há magia em Lisboa, e a sua poção é o fado, pensou, despejando a ginja.
Tocando o telemóvel, Susana perguntou por ele. Saíra sem avisar, um desejo irresistível de deambular levara-o no comboio, explicou, não se inquietasse, voltaria pela tarde. Um casamento rotineiro, esfriada a paixão, aguçava a vontade de se isolar, a pensar nas coisas, prisioneiro do tédio e do emprego, da mesma bica à mesma hora, e da  imperial ao final do dia, espectral e sórdida.
Descendo à Baixa, tocou o sino na Sé, o casario despertava aos poucos, vindas da missa, senhoras idosas, com ciáticas e reumáticos, voltavam a casa. Por momentos pareceu-lhe reconhecer a gabardina de Pessoa, a parar para um analgésico brandy, a marcar o ponto no Martinho. Faltava um Martinho a Bruno, cansado do café do Baptista, mausoléu de chamuças requentadas e bolos de arroz intragáveis, até nisso era execrável o subúrbio. Melhor seria voltar a casa, enfiar-se num Chopin com gin, ou num Duke Ellington de reserva, Susana ainda iria visitar a mãe, tinha um dia horroroso em perspectiva. Fugido da cidade nua, refugiar-se-ia no quarto, esperando-a, sonhando cidades felizes e futuros em papel, no seu mundo de fortuito escritor. Voltou ao comboio, esse fantasmagórico trem de terrores mundanos, vidas perdidas e sem salvação, olhares aflitos arrastando-se no grafitado depósito de existências,  e fechou os olhos, ausente, exilado.
Saiu em Queluz, para um martini. Ali esperaria Susana, até voltar da visita à mãe, já não aguentava os queixumes de D.Berta e os bicos de papagaio. Estranhamente, pareceu de novo ver o vulto do Pessoa ao balcão, em pé,  devia ser do licor, que faria o poeta de Orpheu naquele ermo que nem absinto vendia? Pensando bem, tinha razão de ser, o lugar de Pessoa seria ali, entre gente perdida, e a leste da esperança.
Susana chegou entretanto, recriminando-lhe a ida a Lisboa sem avisar. De volta a casa, logo voltou a sair, a buscar um xarope na farmácia. Letárgico e aliviado, por mais uns momentos a sós, Bruno enfiou-se no quarto, pondo a tocar um Mussorgsky de vinil. Saudosista, buscou um velho álbum de fotografias, confortando-se com os rostos alegres e vivos dum passado agora sépia, bebendo outro martini. Curioso, como o passado era sempre feliz, os rostos sorridentes e soltos, e as fotos de família nunca transmitiam angústia ou pesar, mas crença no futuro, rostos sem acne, glamorosos mesmo, nos fatos estreados para tirar o retrato.
Tocou o telefone, interrompendo-lhe a introspecção. Era o João, colega do escritório, convidava-os para um fondue lá em casa, estavam só ele e a Sónia, os miúdos haviam saído com amigos. Aceitou. Pensando bem, o sábado fluía depressivo, o Reguengos do João depressa o devolveria ao presente. Regressada a Susana, foi tomar um duche. Ao arrumar o álbum na gaveta, numa foto do casamento do avô Jesuíno, descortinou uma figura familiar, posando esfíngica ao lado dos noivos. Era Fernando Pessoa. Com um ar melancólico pareceu-lhe fitá-lo, finito no infinito. Esfregou os olhos, fechou a gaveta e meteu-se no chuveiro, maldito martini!

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