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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Apresentação do livro sobre S.Martinho


Decorreu ontem na Casa Mantero, em Sintra, a apresentação do livro de minha autoria e do Daniel André "A Freguesia de S.Martinho". No encerramento de um ciclo histórico centenário, a recolha de factos para memória futura do que foi e será sempre o miolo histórico e matricial desta Sintra, nossa Casa Comum.
Agradecimento particular ao Fernando Pereira, último presidente daquela Junta pelo convite para em tempo recorde elaborar esta obra, o qual, sem intuitos eleitorais ou pessoais decidiu deixar este testemunho, e a todos os mais de 140 amigos e fregueses que se dispuseram a comparecer na singela cerimónia da apresentação da obra. 






terça-feira, 24 de setembro de 2013

Uma gramática do prazer


Cidadão do mundo, e frequente retirante em Sintra, Luís Filipe Sarmento é um escritor do Prazer e por prazer, espelhando os nossos dias sem umbiguismo diletante mas onde o Espelho está sub-repticiamente presente.

Destaque para o seu recente livro Como um Mau Filme Americano, onde o jogo de sedução entre um pintor americano de meia idade e uma jovem com trinta anos menos é o ponto de partida para um jogo que Pirandello não desdenharia, e onde autor, narrador e personagens são avatares de estados de alma, quiçá o de um deles, ou, quem sabe, de nenhum.

A arte, a liberdade, o prazer, tudo se joga numa história onde o kitch roça o sublime num desfiladeiro de incertezas e verdades tudo menos absolutas, e onde tudo se sucede como se o computador fosse um ecrã onde do lado de lá os personagens fluem e por vezes se rebelam contra o rumo do autor e dum alter ego maniqueísta chamado narrador, manobrando o que poderia ser o enredo de um mau filme americano mas também um excelente filme de tradição francesa.

Ao longo da história vêm à memória Marlene Dietrich e o seu Anjo Azul, Rotko e as suas inseguranças, Henry Miller e Annais Nin, Woody Allen, sempre, um espaço contaminado por lugares comuns que desembocam em surpresas constantes, tal como o fim, igualmente surpreendente.

Um livro de cor anil, como anil é o período artístico do personagem, a que não falta, provocatória, a cena recorrente duma ex-mulher enciumada( há sempre uma ex-mulher, e não precisa de ser um filme americano…) e a masturbativa trama da construção dum novo quadro, o da materialização do prazer, no fundo, a sagração do fetiche. Um livro a ler dum autor  enredado numa gramática dos sentidos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Por uma Sintra Sustentável

O quadro sócio-económico do concelho de Sintra revela-nos um território dispare, policêntrico e a carecer de coesão social e territorial, o que deve passar não só por criar apetências nos núcleos consolidados, como novas centralidades, evitando a fragmentação urbanística decorrente de aprovações casuísticas, apesar dos planos existentes.

Para tanto, há que apostar na reabilitação urbana, finalizar o processo de legalização dos bairros clandestinos, optimizar a rede de transportes, com aposta no sector ferroviário, criar um corredor verde entre a serra de Sintra e a Carregueira, por exemplo.

Como pontos fracos a ultrapassar, identificaria os seguintes:

1. A dimensão do concelho, e as suas realidades diferenciadas, interseccionadas pela zona-tampão de Chão de Meninos/Ranholas, que separa as “duas” Sintras, com realidades diferenciadas.

2. A sobreposição de planos e entidades, que criam uma cacofonia de gestão e não permitem ao decisor dos licenciamentos- a autarquia- uma assunção plena do seu papel, sendo certo que é a única com génese democrática e escrutinável.

3. A resiliência da administração local à agilização de procedimentos, numa postura penalizadora para os munícipes e seus projectos de investimento.

4. A quase paralisia do sector de planeamento, com inúmeras planos de urbanização e pormenor a marcar passo, penalizando quem espera por decisões e desincentivando a iniciativa reprodutiva de emprego e crescimento.

5. A multiplicidade de jurisdições de decisão- CMS, PNSC, PSML, IGESPAR, Região Hidrográfica, CLAFA, CCDR, etc.

6. A deficiente fiscalização da legalidade, raramente se fazendo valer a sua natureza preventiva e desincentivadora de intervenções ilegais no território.

7. A ameaça das decisões judiciais que imponham o respeito por direitos adquiridos originados em decisões tardias ou mal fundamentadas e às quais ao arrepio dos planos haja que dar cumprimento.

8. As lacunas ao nível dos cuidados de saúde (hospital) e de estabelecimentos de ensino superior, para os quais com opções recentes terá porventura passado a janela de oportunidade de ver implantados no concelho de Sintra, pelo menos nos tempos mais próximos.

9. O segmento do turismo ainda baseado no excursionismo, com uma média de dormidas no concelho de 2,3 noites (Cascais tem 3,4) e apenas cerca de 1500 camas entre hotéis, pensões e demais alojamentos.

10. A degradação do Centro Histórico, desertificado, sem plano actualizado e sem atractividade para moradores e visitantes.

11. O envelhecimento da população nas freguesias rurais e a falta de emprego para os jovens nas zonas urbanas que os fixem, permitindo a mobilidade social e a exponência de massa crítica e criativa.

12. A falta de apoio ao comércio tradicional e às PME (96% das empresas tem menos de 9 trabalhadores).

13. A falta de um plano de marketing territorial assente nas virtualidades das pessoas e não só no património histórico, sendo que a marca romantismo não é idónea a caracterizar um concelho onde apenas 10% da população vive na Sintra dita “romântica”.

Para tanto, dever-se-iam priorizar alguns nichos de intervenção:

-Apostar no segmento de eventos, no turismo de saúde, no ensino profissional e na agro-indústria transformadora, atento o facto de, apesar de desprezado, o sector agrícola ainda oferece vantagens competitivas pouco exploradas (vinho de Colares, pêra rocha, hortícolas, etc).

-Apostar numa rede de hotéis de charme e quintas de lazer, a par de espaços para bolsas mais débeis e na introdução de parques de campismo (quase inexistentes) e hostels de pequena dimensão.

-Criar bolsas de estacionamento e uma rede de mini buses que atravesse as zonas críticas e a carecer de preservação ambiental.

-Apostar no transporte público no acesso à serra e seus pólos turísticos (porque não preços mais moderados para quem aceda aos palácios de transporte público, sendo o bilhete de entrada e transporte vendidos em conjunto, e com um diferencial de preço significativo?).

-Reforçar a sinalética e as placas explicativas dos monumentos a visitar, bem como dos pontos de maior interesse.

-Adoptar benefícios em sede de taxas ou impostos a quem voluntariamente recupere edifícios e património, bem como destinar 1% do montante cobrado em sede de contra-ordenações para um fundo de reabilitação urbana.

-Explorar as virtualidades da biomassa e dos combustíveis não poluentes e amigos do ambiente.

-Criar estímulos à arquitectura rural e tradicional.

-Criar uma bolsa de emprego rural, no quadro duma política efectiva e pró-activa de retorno ao mundo rural, e estimulando as hortas urbanas e a agricultura biológica.

Os espaços urbanos ocupam já 47% do território sintrense, pelo que há, no futuro, que actuar com parcimónia nas futuras áreas urbanas programadas, atento o facto de ainda subsistirem 100 áreas urbanas de génese ilegal, ocupando a REN 35% do total (incluindo espaços culturas e naturais).

Se é certo que o número de licenciamentos entre 2001-2009 ficou pelos 9.908, 1/3 do total da década anterior, o facto é que o concelho dispõe já de 180.000 fogos, 12% do total da Área Metropolitana de Lisboa, e dispondo de um número razoável de equipamentos e do grau de cobertura dos mesmos- 77 creches, 184 jardins de infância, 19 equipamentos desportivos, 25 centros de dia, 28 lares, 15 jardins de infância, 62 escolas básicas e básicas com o 1º ciclo, 18 escolas básicas com o 2º e 3º ciclo e 7 secundárias. Ao nível do ensino superior a oferta reduz-se, porém, contabilizando-se apenas a Academia da Força Aérea e o campus da Universidade Católica no Taguspark.

O tecido empresarial tem vindo a sofrer mudanças profundas desde a crise de 2008, tendo sido relevante tal mudança ao nível da construção e comércio, sector onde haviam nessa data 4075 e 8412 empresas, respectivamente, ocupando o 2º lugar a seguir a Lisboa e garantindo nessa data 15% do emprego na região da Grande Lisboa. É pois com esse quadro, e tendo em conta muitas (não todas) patologias aqui elencadas, que se deve desenhar o concelho de Sintra, num quadro metropolitano, reflectindo aquilo que se deseja para os próximos anos. Ouvindo as partes, que são parte do Nós, e não o Outro, intruso e amorfo. Para uma verdadeira Democracia do Território.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

3 de Setembro de 1968: A Festa Schlumberger




Pierre Schlumberger inspecionava as luminárias e archotes ultimando os pormenores para a festa na Quinta do Vinagre, enquanto os repórteres da Time e Paris Match iam chegando a Colares. Militares da GNR garantiriam a segurança dos mil e duzentos convidados servidos por um batalhão de criados impecavelmente vestidos. Dois dias depois, Anteñor Patino daria outra festa no Alcoitão, era o momento de brilhar e esmagar.

Pierre acabava de se retirar da presidência da Schlumberger Well Surveying Corporation, desde 1956 que o alsaciano assegurava a presidência da firma que seu pai lançara em 1927.Mais de trezentos milhões de dólares de receitas, era o fruto do império construído em quarenta anos, com mais tempo livre agora, era tempo de mostrar ao mundo o poder dos Schlumberger. Quatro anos antes desposara Sãozinha, uma portuguesa com sangue alemão, que estudara em Lisboa e o convencera a comprar a quinta de Colares.

A casa era uma mansão quinhentista, agora ricamente decorada. Sem olhar a despesas, mandou vir Picassos, tapeçarias, samovars e castiçais e durante meses decoradores trabalharam para construir um cenário feérico, aplicando três milhões de dólares nos mais de vinte quartos e jardins. No pátio da entrada, onde pontificava uma arejada varanda assente em colunatas, um tanque com dois leões heráldicos rematava um harmonioso conjunto. Antes da festa, alguns momentos a sós com Sãozinha, um anel de brilhantes premiaria o bom gosto da anfitriã, distribuindo charme pela várzea de Colares.

Nessa noite de 3 de Setembro toda a beautiful people do mundo confluía para Lisboa. Jactos, iates, bólides, todos os prendados com o cobiçado convite. Não estar na festa Schlumberger era ser irrelevante. Até ministros quiseram ir, Salazar opôs-se porém, havia que ter contenção e sobriedade, já iam as filhas do almirante Tomás. À hora aprazada, o glamour da Europa e América, o exotismo asiático, playboys e tycoons da finança, espalhavam elegância na estrada de Colares enquanto nas bermas voyeurs tentavam identificar as estrelas, apreciar os vestidos, as jóias e os decotes: o rei Umberto de Itália, Juscelino Kubitschek, os duques de Bedford, a princesa Ira von Furstenberg, Vincent Minnelli, Zsa Zsa Gabor, Audrey Hepburn, Françoise Sagan, Gina Lollobrigida, a Begum Aga Khan, todos os que contavam. Flûtes de champanhe e canapés de lagosta circulavam ao som de orquestras, qual conto de fadas. Á meia-noite, porém, os cocheiros não virariam ratos, ou as carruagens abóboras. A condessa Rotschild ostentava uma tiara que era cópia da de Grace do Mónaco, asseveravam alguns, Gina Lollobrigida, a mais decotada, desde o Estoril que vinha seguida por papparazzi. Audrey Hepburn recordou que nessa noite Henry Ford II celebrava o aniversário, e lá veio um regado happy birthday, dear Henry, enquanto Soraya da Pérsia, alertada para mais um sismo no seu país comentava com Curd Jurgens que não a incomodassem com trivialidades…

Os homens da GNR, entre o pasmo e o assombro, contemplavam aquele inusitado desfile de pavões, as luzes admiráveis, a fartura de comes e bebes que gentilmente os anfitriões puseram à disposição. O cabo Antunes, transferido de Mesão Frio, sentia-se o chefe da guarda em Buckingham, montando o perímetro entre Almoçageme e a Ribeira, onde só os convidados passavam. Ainda provou um canapé chamado cabiar mas aquelas bolinhas pretas sem sabor não convenciam, antes uma posta mirandesa com tinto do Dão, que aquela comida fina. Sãozinha obsequiava, esmagadora. O deslumbrante vestido enfiaria o da Duquesa de Argyll num sapato, passeando classe pelos jardins da Quinta do Vinagre.

Como era exótico Portugal em 1968.Num país onde as notícias mais frequentes eram as da partida de soldados para o Ultramar e os festivais da canção onde o jet set doméstico desfilava anualmente, em apenas dois dias decorriam duas grandes festas, separadas apenas por vestidos, penteados, diadema e charutos.
Por cá, uma era chegava ao fim. A 6 de Setembro à noite, um carro acelerado saía do Palácio de São Bento, Salazar, com o seu médico, Eduardo Coelho, ao lado e Silva Pais director da PIDE à frente, seguia com urgência para o Hospital de São José. Os médicos não se entendiam quanto ao diagnóstico, mas concordavam que era preciso operar, o que aconteceu no dia seguinte. Uma cadeira que não estivera na festa milionária, havia feito das suas…