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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Revolta Monárquica




O momento era solene na Quinta do Espingardeiro. Sua Alteza Real El-Rei D.Duarte II, novo rei de Portugal, recebia os conjurados que o haviam restaurado na Coroa depois dos extraordinários eventos daquela manhã.
Assinalando-se pela última vez o 5 de Outubro, grupos monárquicos haviam convocado através do Facebook, uma manifestação contra o regime, no Terreiro do Paço, em protesto contra a degradação das instituições e do prestígio do país. Bloggers do 31 da Armada, João Braga, Paes do Amaral e Paulo Teixeira Pinto, entre outros, estavam entre os promotores, e cedo se juntaram no local onde em 1908 o saudoso rei D. Carlos foi assassinado por cobardes carbonários.
Habitualmente discreta e pouco participativa, desta vez muita juventude marcou presença. Afinal, os melhores anos de glória nacional haviam sido sob a égide de reis, e em quase novecentos anos de história, a maior parte havia sido em monarquia.
Rápido alguns milhares acorreram em apoio. O fadista João Braga, usando da palavra, incitou os presentes contra os corruptos e vendilhões da Pátria, momento em que, um grupo mais determinado, gritou pedindo que se restaurasse a monarquia no país. Inflamados, e fugindo ao controlo dos poucos policias destacados, cansados de tantas manifestações desde 15 de Setembro, marcharam então até à fragata Corte Real, ancorada em Alcântara, onde em dia de folga só o oficial de dia e alguns marinheiros permaneciam. Invadindo a mesma, e aprisionado o pobre tenente de serviço, fuzileiros veteranos e à paisana apoderaram-se do navio e do paiol, para gáudio da populaça, com nacionalistas e skinheads à mistura, bem como alguns noctívagos de ressaca, vindos duma noite nas docas, conduzindo de seguida o amotinado vaso de guerra para Belém, onde, via rádio, e já frente ao palácio presidencial, contactaram o Estado Maior da Armada. Mal este imaginava que vinha por aí um 31…
Enquanto grupos civis cortaram os acessos a Belém e S.Bento e as saídas dos cacilheiros e metro, os do Corte-Real ameaçaram com fogo sobre o Palácio, exigindo a rendição do Presidente da República. Este, porém, encontrava-se na residência da R. do Possôlo, descansando, e, ironicamente, acabando uma fatia do seu bolo-rei favorito. O Chefe da Casa Militar ainda tentou parlamentar com os revoltosos, mas, sem sucesso. Dado o alarme via rádio, o presidente foi evacuado de helicóptero para a Base Aérea nº1, em Sintra, mais a primeira dama Maria.
Entretanto, Paes do Amaral, conde Cantanhede foi-se desdobrando em contactos com a comunicação social, anunciando o fim do regime, a CNN, alertada, colocou um correspondente no terreno. D.Duarte, que se encontrava tranquilamente a beber chá na Natália, em S.Pedro, ia sendo informado dos acontecimentos pelo telemóvel
O ministro Aguiar-Branco, alertado, ainda ameaçou com a força militar, e mandou a Armada accionar o novo submarino, o Tridente, mas este tinha o pessoal ainda em formação e nunca fizera tiro real, e os Comandos, surpreendidos, não tinham operacionais ou artilharia de reserva, estava tudo no Kosovo e Afeganistão.
Vitoriosos, pelas quatro da tarde, com o apoio de forças civis, os conjurados entraram no Palácio de Belém, apeando a foto de Cavaco Silva e içando a bandeira azul e branca, uma proclamação ao país circulou por SMS e no Facebook. Desfraldadas, mais bandeiras azuis e brancas se multiplicaram nas ruas da Baixa,  no mastro do Castelo de S. Jorge, e no Oceanário de Lisboa.
Às cinco horas, sem tropas leais ou apoios, e sem derramamento de sangue, caía a III República Portuguesa, implantada a 25 de Abril de 1974.As redes sociais ficaram entupidas e os telemóveis saturados, o Hino da Carta, o vídeo mais visto no You Tube, foi partilhado no Facebook e tocado pela banda da Praça da Alegria, em programa especial.
Por essa hora, na casa de Sintra, D.Duarte recebia uma delegação de conjurados que, em exaltação patriótica, o proclamaram legítimo herdeiro do trono, gritando real por el-rei de Portugal e ofertando travesseiros da Piriquita. Ainda atónito, e rodeado de Isabel Herédia e dos filhos, aceitou o pesado fardo que o povo português, nação de gente boa, lhe pedia, e em cortejo triunfal, partiu de seguida para a Ajuda num UMM blindado, escoltado por motards, campinos a cavalo e dois dos novos tuk-tuk de Sintra. Lá onde estivesse, o bisavô, D.Miguel, exultaria por certo nesse momento pela restauração do reino de Portugal.
Na sala do trono no Palácio da Ajuda, já noite, logo as forças armadas prestaram lealdade ao novo monarca, enquanto as chancelarias europeias mandavam felicitações, quase todas monarquias por sinal, os primos da Holanda, Juan Carlos, Alberto II,Beatriz, até o príncipe Harry de Inglaterra, em missão de Estado em Las Vegas, mandou um SMS, a partir do seu Blueberry.
Dirigindo-se da varanda central ao povo, que, eufórico, aos milhares ali se juntou, e envergando o manto branco de arminho que pertencera a D.Carlos, o novo rei prometeu democracia e pluralismo, respeito pela tradição, e julgamentos isentos para os derrotados, seria um monarca constitucional e moderno, como a situação o exigia. No final, e frente à multidão inflamada, uma banda tocou o Hino da Carta. Cento e doze anos depois, os Braganças estavam de volta.
Depois, essa noite ainda, as primeiras medidas: a extinção da Guarda Nacional Republicana, substituída pela Guarda Real, a convocação de Cortes, a nomeação dum novo governo, chefiado por Paulo Teixeira Pinto, feito Duque da Azóia. A aclamação oficial de D.Duarte II ocorreria na Sé, com pompa e circunstância. um mês depois, perante o clero, a nobreza, os parceiros sociais, e os membros da troika.
Nessa noite ainda, o deposto presidente Cavaco Silva partiu para o exílio em Lanzarote, ficando com residência fixa na casa onde outro português, um escritor, morara anos antes. Perturbado, ao embarcar, falava sozinho, e soltava frases sem sentido, amparado pelo secretário Liberato. O ex-primeiro ministro Passos Coelho, ameaçado com prisão se voltasse, ficou pela Guiné, onde nesse dia visitava a família da esposa, e lhe foi oferecido um lugar na empresa de cajus de Ângelo Correia. Nas ruas, o povo exultava, grupos de forcados de Salvaterra e ganadeiros de Alter acorreram a celebrar o novo rei. Uma corrida à antiga portuguesa celebraria mais tarde a entronização, marialvas e embuçados estavam finalmente vingados.
Refreadas as emoções desse dia histórico, havia que retomar a administração da coisa pública. Três dias depois, Conselho de Ministros das Finanças da UE em Bruxelas. O novo ministro, agora rebaptizado da Fazenda, o marquês da Amareleja, muito cumprimentado pelos outros colegas, ouviu o plano de resgate para a economia portuguesa que a troika preparara depois da 5ª avaliação: liberalizar os despedimentos, tirar mais 3% suplementar aos vencimentos, privatizar toda a segurança social. Desolado, ainda pediu tempo para o novo regime atacar os problemas, e dar a volta à trapalhada herdada dos republicanos, ainda estavam em estado de graça. Sorumbáticos, os colegas e a troika negaram, monarquia ou república, estavam ali para resolver problemas a sério, e não para reinar….

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