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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

André Albuquerque Ribafria, 4º alcaide-mor de Sintra


André de Albuquerque Ribafria, 4.º Alcaide-Mor de Sintra, nasceu no palacete Ribafria, onde se conservam os assentos do baptismo na Igreja de S. Martinho: «Em os 30 de Majo [de 1621] baptizou o d.or Thomaz Glz Ferrejra prior de Sancta M.ª do Arabalde desta villa a André f.º de Gp.ar Glz dalbuquerq. Alcajdemor desta villa e de D. Angela foi padrinho dom Fernando de Castro e dona Genevra madrinha».
Órfão aos 15 anos, parece ter ficado sob a tutela de D. Antão de Almada, tendo passado a juventude em Sintra, vivendo «nos brassos da imagem da guerra, que he a caça e montaria, penetrando as serras de Sintra em que se ensayou pera o trabalho, porque he ella hua palestra, ou eschola da mesma guerra em que se aprende a desprezar os perigos e injúrias do tempo». Ao que parece avesso ao culto das letras, se bem que «perito nas lingoas italiana e francesa», criou-se André de Albuquerque neste singular ambiente, forjando «hu rosto alegre, hum coração desprezador de todo o perigo, hum juizo sem dificuldades, nada entregue a regalos e delícias,grande aturador da campanha, muyto robusto e vigoroso»; e também violento: com 15 ou 16 anos, em 1636 ou princípios de 37, o encontramos culpado na morte de um tal Domingos da Silva, crime de que é, aliás, perdoado por mercê régia.
Em 1638, com apenas dezassete anos e como soldado arcabuzeiro parte para o Brasil na armada de 8 galeões e 6.000 homens que o Governador-Geral Conde da Torre comanda, com o fito de obstar ao expansionismo holandês naquele Estado, e é sob o mesmo comando que participa na desastrosa empresa naval de Pernambuco, no ano seguinte. Regressado ao Reino, em 1640, torna-se, talvez por influência de D. Antão de Almada, um dos iniciados na conjura, «hum dos fidalgos comfidentes que com o maior zello obraram o anno de quarenta na aclamação», no dizer de uma carta régia.
Era já por este tempo Alcaide-Mor de Sintra. Efectivamente, por morte do pai e apresentada a já citada carta régia pela qual Filipe III possibilitava ao mesmo a transmissão daquela para o filho primogénito André, é-lhe a dita atribuída por carta daquele soberano de 19-5-1639, escassos dias antes de perfazer 18 anos, idade mínima para dela tomar posse. Em 1640, à data da Restauração, é já referido como «o alcaide-mor de Sintra» na «Lista dos Fidalgos que se acharão na felice aclamação de Sua Majestade». E se até então a alcaidaria-mor de Sintra fora atribuída sempre numa única vida, em atenção aos já relevantes serviços prestados por André de Albuquerque Ribafria, é-lhe passada pelo novo Rei o alvará de 1 de Abril de 1644, seguido de uma carta datada de 23 de Maio de Alcaide-Mor de Sintra, mas esta com o benefício de tornar aquela de juro e herdade para todo o sempre em seus sucessores e nesta Família, como realmente o foi até ao séc. XIX, e com a especial mercê de uma vida fora da Lei Mental, caso viesse a recair a Casa numa senhora. Tudo lhe vem a ser confirmado sob a regência da Rainha D. Luísa de Gusmão, por carta de 13 de Setembro de 1649.
Mas, mais que tudo, André de Albuquerque Ribafria é um dos grandes vultos da história militar portuguesa. Em princípios de 1641 foi nomeado capitão de infantaria para o Alentejo, onde ficou largos anos sem vir à Côrte, ao contrário do que faziam a maior parte dos oficiais. Tomou parte em muitas das operações de pequena guerra e em 1642 foi promovido a Mestre de Campo. Em 1643, os Portugueses tomaram a ofensiva, apoderando-se de algumas praças secundárias, e tentando um infrutuoso ataque a Badajoz; em 1 de Setembro, no ataque de Alconchel, foi ferido, e em Outubro foi nomeado governador de Villa Nueva del Fresno, uma das praças conquistadas. Daqui passou com o seu terço à guarnição de Campo Maior e, mais tarde, à de Elvas.
Em 1645 tomou parte numa empresa, apenas iniciada, contra Badajoz, em que, ao que diz o segundo conde da Ericeira, manifestou má vontade. Todavia, durante todo este tempo, recebeu muitas cartas régias de agradecimento e em 1646, foi promovido a general de artilharia. Como tal, comandou o ataque e tomada de Codiceira e teve papel importante noutras operações; exerceu interinamente, o governo das armas da pronvíncia e foi, em 1650, promovido a general de cavalaria, arma a que não havia pertencido, mas em cujo comando se distinguiria particularmente.
Parece ter introduzido novos processos tácticos e, sobretudo, deu à Cavalaria uma capacidade de combate muito superior à que tivera, tornando-a melhor que a cavalaria espanhola, ao contrário do que sucedera antes e viria a acontecer depois da sua morte. Comandou o vitorioso combate de Arronches, onde foi gravemente ferido. Esta batalha equestre de Arronches é uma das coroas de glória da carreira de André Ribafria. E se no violento recontro tombou o general espanhol Conde de Amarante, o próprio Ribafria foi gravemente ferido no rosto, atravessado de lado a lado por uma estocada, atropelado no chão da batalha por duas cargas de cavalaria e dado por morto, o que milagrosamente não sucedeu.
Em 1675 era promovido a Mestre de Campo General, sendo especialmente encarregado, nos anos em que deteve este posto e mercê da competência que lhe era reconhecida, do comando de toda a cavalaria. Era a prova patente do favor régio que já, aliás, anteriormente se revelara. Ainda em vida do pai lhe conseguira este que, com dispensa da falta de idade, obtivesse o hábito da Ordem de Cristo. A carta de hábito e alvará de cavaleiro são-lhe dados por Filipe III em 3 de Agosto de 1633, devendo o hábito lançar-se-lhe na Capela do Paço da Ribeira ou na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Se, também, por carta de 10-12-1649, sucedeu na comenda de S. Mamede de Sortes, que como vimos fora do pai e avô, uma portaria de 31 de Maio facultou-lhe, pelos seus muitos serviços, 500.000 réis de renda na de S. Miguel de Nogueira, o que se lhe mudou por mercê régia de 22 de Agosto de 1653 na atribuição da mesma comenda e 200.000 réis de renda na de Redinha; a carta desta comenda tem a data de 24 de Fevereiro de 1654. Outra portaria, esta de 8 de Junho de 1654, atribuiu-lhe a Comenda de Redinha, na mesma Ordem, de que lhe é passada outra carta com a data de 12 de Março de 1655.
Assim, grandemente recompensado e no desempenho do alto posto militar que ocupava, continuou a campanha, dirigindo vários combates, a tomada do Forte de S. Miguel, junto de Badajoz, e especialmente o vitorioso encontro das duas cavalarias (22- 6-1658). Durante a continuação do cerco de Badajoz comandou em diferentes operações, até que adoeceu de uma epidemia que se desenvolveu nas tropas sitiadoras, a qual atingiu quase todos os generais e causou tais perdas no exército que este teve de levantar o cerco. Foi transportado para Elvas onde fora Provedor da Misericórdia e dali saiu, ainda muito doente, para organizar o exército de socorro, cujo comando foi dado ao Conde de Cantanhede, mas cujas operações, que parece terem sido dirigidas por André de Albuquerque, conduziram à Batalha das Linhas de Elvas, que provocou a dissolução do exército castelhano .
Arrostando com 8.000 homens o gigantesco exército de 30.000 comandado pelo Primeiro-Ministro espanhol D. Luiz Mendes de Haro, ainda na véspera da célebre batalha exortaria os seus homens ao brado célebre de «Amigos! ou a Elvas ou ao Ceu!». No dia seguinte, manhã de 14 de Janeiro de 1650 arrojava-se o Alcaide-Mor de Sintra contra as linhas castelhanas que sitiavam a moribunda guarnição de Elvas. Vitoriosos os portugueses e pràticamente decidida a batalha, «já em toda a parte hião os inimigos cedendo a vitória às nossas armas - segundo o escrito de Barbosa Machado -, estando a sua infantaria rôta e a cavalaria descomposta, quando a intempestiva desordem com que o terço foi perdendo o terreno na conquista de um forte que se defendia com valerosa constância, obrigou a vir àquela parte o General André de Albuquerque. Não soffreu o alentado coração d'este heroe que na sua presença dessem os nossos soldados o menor signal de fraqueza, e, querendo animá-los com o exemplo, arrojou o cavallo ao fosso do forte». Neste transe os levou até junto da estacada, repelindo os fugitivos com a bengala ao mesmo tempo que com a mesma tocava as estacas mostrando como deviam ser arrancadas. Tendo um braço levantado uma bala de mosquete entrou-lhe por um sovaco, não protegido pela couraça, ferindo-o mortalmente. Já não pronunciou palavra e, não caíndo imediatamente do cavalo, foi o corpo amparado pelo Vedor-Geral Jorge da Franca e pelo Contador António de Torres, que valorosamente o acompanhavam.
A batalha fôra, entretanto, ganha; não tanto pela direcção de Marialva, que um informador francês da época desdenha, mas porque «exeoutée par les ordres et le courage de André Albuquerque». Estava dado o golpe mortal nas forças invasoras.
Foi o cadáver de André de Albuquerque levado para Elvas onde esteve exposto na Igreja de S. Maria de Alcáçova. Daí, com soleníssima pompa militar, foi levado a sepultar na Igreja de de S. Francisco dos Capuchos, no dia 16 de Janeiro, na Capela de S. António.
Assim acabou em glória o 4.º Alcaide-Mor de Sintra, aquele que declarara «nunca temer nenhuma espada, salvo a da justiça».
Foi filho de Gaspar Gonçalves de Albuquerque Ribafria Alcaide-mor de Sintra e de D.Ángela de Noronha, terceiro neto do Grande D. João de Castro Vice-Rei da Índia e décimo neto del Rei D. Diniz
Não casou André de Albuquerque Ribafria; o Conde da Ericeira diz-nos que à data da morte estava justo para casar com D. Ana de Portugal, que acabou solteira, filha de D. João de Almeida «o formoso» que foi Vedor da Casa de D. João IV, comendador da Ordem de Cristo, Alcaide-Mor de Alcobaça, Reposteiro-Mor de D. Afonso VI.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Crepúsculo dos Deuses



O Rolls-Royce deteve-se no Rodízio, Gloria Swanson, antiga diva de Hollywood, chegava para mais uma temporada em Portugal. Passara dos setenta, mas mantinha uma pose altiva, arrogante e desafiadora. Pacientemente, o motorista descarregou as inúmeras malas e caixas com chapéus. Magra e com rugas, o brilho fenecia para a rival de Mary Pickford e Pola Negri. Brilhara como Norma Desmond no Crepúsculo dos Deuses, que lhe valera um Oscar, o papel de atriz decadente para si criado por Billy Wilder encaixava agora como uma luva, cruel vingança do tempo.

A casa do Rodízio, perto da Praia Grande, era um refúgio estival e tranquilo, mais que nunca, agora. O tempo da Paramount passara, e só esporadicamente a chamavam para séries. Vinha a Portugal regularmente, o  pequeno chalé, suave, contrastava com a luxuosa mansão de Beverly Hills, osmose de mar e serra, poiso de exílio para as rugas delatoras e o cabelo tingido, exorcizando a imagem que cruel o espelho impunha pela manhã.

Portugal, nesse dealbar de 1965, era um rincão exótico, mais calmo que Saint -Tropez ou Acapulco. Steve, o motorista, passava dos sessenta, as parecenças com Eric von Stroheim, que com ela contracenara no Crepúsculo dos Deuses prolongavam fora do ecrã uma cumplicidade que fazia Glória refém de Norma e Norma a emulação de Glória. Um bacardi à chegada saudou a brisa da Praia Grande, prestes a inaugurar umas piscinas que por certo trariam campistas ruidosos e crianças irritantes.

Os fox terrier, saltando enervados do Rolls, ladraram a um gato indígena,  enquanto Mabel e Fiona prepararam os quartos para três semanas de descanso. Um salmão com alcaparras e um copo de beaujolais, saciaram o corpo, refém de antidepressivos. Pela casa jaziam recordações de uma vida: uma foto com Mack Sennett em Los Angeles, em filmagens para a Keystone, uma carta de Chaplin convidando-a para um casting, um vestido que usara em Don’t Change Your Husband, de Cecil B. de Mille. O vestido trouxe-lhe  à memória o dia em que quase fora devorada por um leão, para gáudio deste. Sublime, a casa de banho convidava a banhos de espuma, quem sabe se bebendo champanhe pelo sapato, mítico fetiche incensado pelo mainstream.

Na manhã seguinte deu um passeio pela Praia Grande, percorrendo o vasto areal, Fiona levou os fox enquanto Steve esperava no carro. Colocou um lenço de seda verde que lhe escondia o rosto, óculos escuros garrafais e batôn vivo, queria aspirar o iodo e o sol ameno. O Fortunato, banheiro tostado pelo sol de muitos verões, cumprimentou-a, reverente, já há muito conhecia a madame, a quem regularmente levava peixe fresco. Era americana, e logo, com toda a certeza, rica. Nunca vira nenhum dos seus filmes, a maioria mudos, mas a quem perguntava, falava como se fosse íntimo, eram seus os robalos que comia, afinal. Nada sabia dos tempos em que conquistara a América, para inveja de Lillian Gish e Mae West, todas agora no ocaso da carreira e assassinadas pelo sonoro, aviltantemente relegadas para papéis de avós ou matriarcas nos seriados da tarde.

Voltava pelo paredão, com o Hotel das Arribas quase pronto, quando um jovem a abordou, Bernardo, vizinho no Banzão. Se não era a Glória Swanson, o jardineiro dela era o mesmo dos pais, o David. Vira várias vezes o Crepúsculo dos Deuses, e exultava com o seu trabalho. Glória, inicialmente desinteressada, acabou achando graça ao jovem, mendigando um autógrafo. Segurando o papel, desenhou um grande G, de Glória. Agradecido e eufórico, preparava-se para partir na velha 4L vermelha, quando surpreendentemente ela lhe pediu boleia para o Rodízio. Bernardo ruborizou, o velho carro cheio de revistas e  um rádio a pilhas não estava à altura. Mas ela achou graça, e  mandou Steve e Fiona seguirem atrás do Rolls-Royce de lata, em que o rato virava cocheiro, como na história.

Chegados, mandou-o entrar, a situação lembrou-a de Escravizada, em que fazia Tessie McGuire, uma empregada de balcão em apuros no metro de Nova Iorque, namorada da América, ainda. Bernardo sentiu-se invasor num cenário proibido, onde a seu lado, a divina Glória representava um  derradeiro papel. O seu.

Pondo num velho gramofone um vinil de Irving Berlin, acendeu um cigarro, serviu um martini rosso e brindou com Bernardo, em silêncio, como se fosse um ritual. Erguendo o copo, virou-se para a parede onde pontificava o seu retrato a óleo, altiva e dominadora, e recuou para a Glória que  Los Angeles aclamara em carro aberto, e paixão de Valentino. Sentiu-se transportada para o set, e, fitando o jovem, soltou as diletantes palavras de Gone with the Wind: -Frankly, my dear, i don’t give a damn! -bebendo o martini de um trago só.

Sete anos depois, em Lisboa, Bernardo estreava o seu primeiro filme, com um subsídio arrancado a ferros, após seis meses de rodagem intermitente e falta de verbas. Na noite da estreia, rodeado de fiéis dos Cahiers du Cinema e da fauna das premiéres, chegou um telegrama desejando boa sorte e sucesso para o seu trabalho. Em letras garrafais, estava desenhado um G.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Morreu Valdemar Alves

                                          Foto: Pedro Macieira
Tomei conhecimento do falecimento aos 50 anos de Valdemar Alves, entusiasta do eléctrico de Sintra e autor, juntamente com Júlio Cardoso, de uma obra elucidativa da sua história e evolução. Sintra perde um defensor e o eléctrico o seu historiador e ocasional guarda-freio, além dum coleccionador e fotógrafo de relevo, captando nos últimos anos muito do quotidiano de Sintra sob o prisma do "seu" eléctrico. As condolências à família enlutada e a recordação dum amigo do eléctrico, numa altura em que o mesmo sofre reveses na sua classificação como de interesse nacional.
Funcionário da Câmara Municipal de Sintra há 24 anos, tendo trabalhado 15 anos como Técnico Profissional de Arquivo, e 13 com a função de coordenação do Arquivo Intermédio,  desde 2004 desempenhou funções no Eléctrico de Sintra na área da exploração, investigação histórica e desde 2009 (quando necessário), como guarda-freio. O livro "Eléctrico de Sintra-Património sobre Carris" foi publicado pela CMS em 2004 (1ª edição) e 2009 (2ª edição) com edições em Português e Inglês.

Sintra nos anos de 1896 a 1910



Nos anos de 1896 e 1897, Sintra cumpria o seu destino de local de veraneio, com uma vida social em torno da Vila e das idas e vindas da família real e da aristocracia.

O jornal mais popular era o Correio de Sintra, fundado a 19 de Março desse ano. Dirigido por Raphael do Vale e editado em Lisboa na R. D.Pedro V por Garcia de Lima, custava 40 réis e publicava-se aos domingos, e intitulava-se “jornal politico, ilustrado, litterario e comercial”, sendo a sua sede na Vila Estephanea, hoje bairro da Estefânea.

Por essa altura era presidente da Câmara de Sintra o visconde da Idanha, Francisco de Aboim, (imagem abaixo) e administrador do concelho João Manuel Esteves Junqueira. 

Uma curiosidade: dos vários comboios, cerca de 6, que diariamente asseguravam a ligação a Lisboa, os das 6h e das 10h55m, não despachavam bagagens nem cães…

Em Abril de 1896 abriram dois estabelecimentos emblemáticos de Sintra: a papelaria A Camélia e o Hotel Nunes (1 de Abril). A 12 de Abril, dá-se nota da realização no fim de semana seguinte de um comício para preparação do 1º de Maio no quintal do senhor Manuel Galego, nas Lameiras, e nesse mesmo mês morre José Inácio Costa, conhecido capitalista e filantropo de Colares. Também esse mês casa o dr. Brandão de Vasconcelos, médico que haveria de deixar marca na via económica e cultural de Colares com D. Rufina Madureira, como com deferência refere a imprensa da época, sempre atenta a enlaces, falecimentos e relato das partidas e chegadas para veraneio ou a nomeações de personagens ilustres para altos cargos na administração pública.

A vida cultural era marcada pela Fanfarra União Sintrense, a Estudantina Maquieira, o Trio Paulus, que várias vezes actuou no Teatro Minerva, em Colares, o sol-e-dó do grupo dos 20, ou o Grupo dos 14, fundado por um conjunto de personalidades que, com João Moreira à cabeça (imagem abaixo) organizou diversas récitas e bailes, tendo nesse ano de 1896 inaugurado o seu teatro, com a peça de João Moreira, Solução e Termo e à qual assistiram mais de 900 pessoas. 

A vida social decorria nas colectividades e cafés, com destaque já nessa altura para a Sociedade União Sintrense, a tasca do Peixe Frito, o café Universal, de Afonso Gameiro da Costa, o restaurante e hotel Silva, o Hotel União ou o Nunes, tendo em 4 de Outubro desse ano sido inaugurado na R. Gil Vicente o Clube Recreativo Familiar Cintrense, ou, em Belas, em Dezembro, a Associação de Socorros Mútuos Dr. Elisiário José Malheiros. Em Março de 1897 abre em Colares o Eden Hotel, com gerência de José Maria Passos, e em Junho, em S. Pedro, surge o Grupo d’Avante Recreativo, com sede na R. Serpa Pinto, logo seguido em Julho da criação da Estudantina de S.Pedro Sempre Avante Recreativa (a 11) e do Clube da Estephanea,(a 18) presidido por Peito de Carvalho, com Chaby Pinheiro na festa inaugural. Já em Novembro, e em Queluz,  a Associação de Recreio Musical de Queluz passa a designar-se Sociedade Musical 21 de Outubro de 1895.

1896 foi um ano em que as vinhas foram atacadas pelo mildew (míldio), e em Maio os pedreiros e cabouqueiros de Montelavar fizeram greve. A imprensa, indignada relata o corte de um castanheiro da Índia em Colares, reagindo com ira e dizendo ser “preciso dar caça aos malvados authores de semelhantes proezas”. Já nessa altura… A 13 de Maio, na quinta do Cornélio, Almoçageme, ocorre um incêndio na adega de José Gomes Silva, felizmente sem danos de monta, e por essa altura – Maio- o Correio de Sintra à semelhança de periódicos da capital lança o seu folhetim semanal, O Segredo de Uma Campa.

Em Junho ocorre um acidente com andaimes no Palácio da Pena, de que resultam 3 feridos, e a 5, a esquadra inglesa fundeada no Tejo é obsequiada com uma recepção na Pena para 70 talheres. A 21, a Família Real chega para passar o Verão, sempre recebida com luminárias e fanfarra e muito povo. Já em Julho, a par de um baile de gala na Pena, com Suas Majestades o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia e mais dignitários, inaugura-se o cemitério de S. Marçal (a 1) e verifica-se um surto de angina diftérica em Barcarena, terminando o mês com o aniversário no Paço do infante D. Afonso, irmão do rei. Entre as partidas e chegadas do Verão, realce para a do conselheiro João Franco, figura proeminente da vida política, a veranear em Sintra em casa do sogro, o médico dr. Schindler, ou a dos viscondes de Monserrate, Francis Cook e sua segunda esposa, a sufragista americana Tennessee C. Chaflin, que pela módica quantia de 600 contos haviam adquirido e remodelado  o palacete  em 1863.

Em Setembro, pela primeira vez José Ignácio Paulo Costa entrega no Ministério das Obras Públicas o projecto para uma ligação ferroviária de Sintra a Colares e Praia das Maçãs, caminho de ferro de tracção reduzida e sistema americano. Era o antepassado do eléctrico, que contudo, ainda não foi dessa que viu a luz do dia.

Alertando a imprensa que os jardins do Duche se encontravam encerrados ao público, de imediato o Conde de Valenças, dr. Luís Jardim, (imagem abaixo) proprietário dos mesmos e do palacete contíguo os mandou abrir.


Em 1897 Luís Filipe Valente sobe a administrador do concelho, e a imprensa relata o sucesso da exportação de camélias de Sintra para Madrid, onde eram vendidas a 1 peseta cada. Em Fevereiro abre cartório na Vila o jovem advogado Virgílio Horta, sendo quase de seguida designado administrador do concelho. No plano político, em Fevereiro, no Hotel Bragança, em Queluz, abre o Centro Regenerador João Franco, de apoio ao controverso conselheiro. Já a 17 desse mês, mistério na Pena: aparece morto por estrangulamento o funcionário desse Palácio António Rodrigues, por todos conhecido como o Cavaco. E por esses dias, em Belas, igualmente, o médico barão da Costa Silveira, dr. Galvão de Melo, assassina a tiro de revólver o farmacêutico e figura querida da terra Manuel José Malheiros (imagem abaixo). 


Em Abril, a condessa d’Edla passa uns dias no seu chalé, e os Cook recebem em Monserrate amigos ingleses, os Kendall, saudados pela fanfarra da Sociedade União Sintrense. Como habitualmente por ocasião das visitas anuais,  a viscondessa de Monserrate visita as escolas, e distribui bolos e livros pelas crianças mais necessitadas. E, para além das récitas e festas anunciando o período estival, realce para uma festa, já em Junho, que trouxe à casa de Teodoro Ferreira Pinto na Vila Estephanea o escritor Bulhão Pato (a 19) ou em Julho (a 7) a deslocação para um jantar na Praia da Adraga da rainha viúva D. Maria Pia.

O caminho de ferro para Colares e Praia das Maçãs volta à baila, desta feita com projectos de Raul Mesnier e Sertório Corte Real, promovendo-se comícios em Colares a favor da obra. Ainda não seria desta, também…

Em Agosto o padre Mathias del Campo, galego refugiado em Portugal, é nomeado coadjutor de Colares, e decorrem sob patrocínio de Luís Augusto Collares as festas das Azenhas do Mar. E em Setembro, a par da notícia dum surto de tifo no Mucifal e da continuação das obras da estrada que finalmente ligaria Colares à Praia das Maçãs, uma polémica: o Correio de Sintra denuncia a existência de jogo clandestino no café Universal, na Vila, com a cobertura do administrador do concelho Virgílio Horta.


Em Outubro, a Câmara dá conta de que o conde da Azambuja pretende fechar o campo de Seteais, aforado em 1801. Também nesse ano se realiza um dos primeiros filmes portugueses com Sintra como tema: O Comboio de Recreio e Sintra, realizado pela empresa Gameiro Alves, do Brasil.

1898 começa com um crime que deixa as populações estupefactas: no Linhó, um desiquilibrado de 34 anos, Vicente Baptista, mata a mãe, de 60. Acaba internado em Rilhafoles. Fruto das guerrilhas políticas, é dissolvida a Câmara, substituída por uma comissão administrativa presidida por José Luís Gonçalves. Em Fevereiro, vários choupos de Colares são abatidos, substituídos em Março pela alameda que ainda hoje perdura junto à Adega Regional de Colares (posterior).

O Carnaval desse ano decorre nos espaços usuais, o  teatro do Grupo dos 14, e a Sociedade União Sintrense, ou o teatro Minerva, em Colares. Em Abril, anexo ao teatro do Grupo dos 14 é inaugurado o espaço do Grupo Dramático Pinto Ramos.

O crime de Belas chega a julgamento e o homicida do farmacêutico Marreiros, o barão Castro Silveira apanha 3 anos de prisão. Enquanto isso, nas Cortes, o deputado Chaves Mazziotti pergunta pelas obras da estrada de Sintra a Colares, muito desejadas e sempre adiadas, e na Estefânea e Vila Velha continua a saga do jogo ilegal, e as invectivas do Correio de Sintra contra as autoridades que tal permitem.

Em Maio, é fechado o tanque da Várzea de Colares, e em Agosto finalmente é publicado o decreto que aprova a construção da estrada de Sintra para Colares, enquanto na Câmara se discute a construção de um jardim público no Rio do Porto, ocorre um surto de bexigas em Belas e o círio da Senhora do Cabo em Montelavar. Como habitualmente, a família real veraneia e o Grupo dos 14 oferece um bodo aos pobres no Terreiro Rainha D.Amélia, e Carvalho Monteiro adquire os terrenos para construção de uma casa apalaçada (Regaleira)

Em Setembro a casa Siemens propõe à Câmara a concessão para instalação da luz eléctrica na Vila, e sob égide de alguns abastados proprietários, entre os quais o deputado Chaves Mazziotti é criada a Sociedade Edificadora da Praia das Maçãs. Joaquim Vicente Albogas abre uma serração em Montelavar e reúne o Centro Socialista de Sintra, presidido por Manuel Dias Ferreira. O automóvel, novidade recente, desperta interesse geral e o grupo sol e dó do Grupo Recreativo Familiar Sintrense organiza um passeio recreativo a Cascais, pela serra. O ano acaba com a tomada da Câmara pelos progressistas, presidindo José Joaquim Lopes Gonçalves.

Em 1989, o comerciante Joaquim António Pires é feito barão do Cacém, e em Montelavar, logo em Janeiro, a troupe dramática de Vítor Cruz apresenta o espectáculo Uma para Um, de Alberto Pimentel, enquanto o Grupo dos 14 leva à cena uma récita pelo grupo de Pinto Ramos

Já em Fevereiro, na Estefânea, inaugura-se o clube Pérola de Cintra, de José Pereira dos Santos e no âmbito das comemorações do centenário de Garrett, é descerrada uma lápide em sua homenagem junto aos Pisões. O Correio de Sintra de 19 de Fevereiro, entretanto, noticia que o conhecido capitalista Carvalho Monteiro pretende construir uma vistosa casa em Sintra. Também em Fevereiro, morre o chefe local do Partido Regenerador, o conselheiro Francisco Costa e Silva, e em Monserrate decorrem obras para construção de uma cascata do lado exterior da propriedade.

Em Abril abre na Vila um novo estabelecimento, o Pérola de Cintra, e em Maio morre o proprietário do Chalet Biester, Frederico Biester. A família real chega a 16 de Junho, sendo que de início a rainha D.Amélia (abaixo) passa alguns dias indisposta, razão porque a 17 de Julho se celebra em S.Martinho um solene Te Deum pelo seu pronto restabelecimento.

Na Câmara dos Deputados, finalmente passa um decreto que permite a construção duma linha férrea até Colares, já pedida desde 1986 e nunca saída do papel, enquanto na estrada Sintra-Colares se realizam obras de requalificação no local conhecido como Ponte Redonda.

Em 1900, José António de Araújo encena "Revista de Cintra" no Teatro Garrett, e Manuel Emygdio da Silva(foto abaixo) enfrenta Chaves Mazziotti nas eleições legislativas, representando Sintra, onde a Câmara é dissolvida e nomeada uma comissão administrativa presidida pelo farmacêutico José Simões Dias.

Já em 1901, a imprensa destaca a chegada das primeiras solipas para o novo caminho de ferro até à Praia das Maçãs,(eléctrico) que finalmente avança, e abre o Hotel Bragança, em Queluz, com gerência de Gonçalo Verol Júnior e diárias a 1200 réis. Morre Sir Francis Cook, visconde de Monserrate, e seu filho Frederick é confirmado como 2º visconde (o título fora atribuído por 2 vidas)

Em 1902 é adjudicada a iluminação eléctrica à Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs,  a troupe de Victor Cruz anima os teatros de Sintra, e o 2º conde do Cartaxo compra a Quinta da Ribafria   

A rainha D.Amélia em Santa Eufémia

Nasce 1903 e os jornais destacam o estabelecimento em Queluz de uma empresa de automóveis. O apeadeiro do comboio em Rio de Mouro é concluído e em Queluz destaca-se o grupo dramático Thomas do Nascimento. Em Abril, o rei de Inglaterra, Eduardo VII visita Sintra,(foto abaixo) e morre Domingos José Morais, figura destacada da vida local, e pai de Fernando Formigal Morais.

Nesse ano, João Augusto de Carvalho é regedor de S.Martinho, e os banhos  do Duche custavam 160 réis (água quente) e 140 (água fria). Na Praia das Maçãs emergente pontificavam as casas Prego e Grego e o engenheiro Van der Wallen fazia os primeiros ensaios do eléctrico, quase pronto. Dezembro termina com mais uma visita real: o rei de Espanha, Afonso XIII. Destaque para a publicação do livro "O Paço de Cintra" da autoria do Conde de Sabugosa, com ilustrações da própria rainha D.Amélia.

Em Março de 1904 o eléctrico vê finalmente o momento inaugural, a par da introdução gradual da electricidade, e em Junho é inaugurado o chafariz do Vinagre, e o conde de Mesquitela é administrador do concelho.

Em 1905, António Cunha publica o seu livro "Cintra Pinturesca" e o dr. Luís Soromenho adquire a Quinta da Penha Longa.Igualmente de visita a Portugal, e Sintra, o presidente da República Francesa, Emile Loubet(em baixo, com a rainha D.Amélia)

1906 marca o arranque das obras da nova cadeia comarcã, projecto de Adães Bermudes executado por João da Silva Pascoal, bem como da Quinta dos Lagos, de Fernando Formigal de Morais.

Em 1907, e a pedido da Liga Promotora de Melhoramentos de Sintra, a cadeia da Vila Velha passa a acolher os correios (ainda hoje).

A 12 de Abril de 1908, ano em que encontramos o Visconde do Tojal como presidente da Câmara, nasce o jornal Ecos de Sintra, dirigido por Júlio do Amaral e é inaugurado o restaurante Internacional, na Praia das Maçãs, o "Barateiro", loja e retrosaria na Vila Velha, e o "Serra de Sintra", no mesmo local. Em Agosto, finalmente a luz eléctrica chega à Vila, e um bilhete de eléctrico até à Praia das Maçãs custa 200 réis (80 até Galamares). 1908 é o ano em que definitivamente encerram os banhos na Volta do Duche.

Em 1909, o teatro e a Esplanada Garrett, com animatógrafo, animam a vila em período estival, e na Estefânea nasce por impulso de Formigal de Morais uma escola primária. Em Maio, os novos Paços do concelho (actuais), também obra de Adães Bermudes, ficam prontos, e o velho edifício da Câmara na Vila (hoje Museu do Brinquedo) é encerrado.

E assim chegamos à República, sem que muito mude no burgo, tirando as regulares visitas dos reis, substituídos por façanhudos senhores de cartola, quase sempre a banhos e em vilegiatura. Termino com um espirituoso escrito no Correio de Sintra em 1908: