Follow by Email

sábado, 30 de novembro de 2013

De Casablanca ao Hotel Netto



O Douglas DC-3 proveniente de Casablanca aterrou já noite na Granja do Marquês, fugindo da barbárie nazi, Ilsa Lund e Victor Lazlo logravam escapar do major Strasser, com o apoio de Rick e a complacência do capitão Renault. O checo, chefe da resistência na clandestinidade, esperaria em nova escala o necessário visto para a América, a partir de onde reorganizaria a oposição à ocupação hitleriana.

No aeródromo em Sintra, aguardava-os Mário Soares, destacado pelo sector intelectual do MUD para os acompanhar enquanto não se obtivesse o almejado visto. Mário e Ilsa trocaram olhares cúmplices, e, uma vez metidos num Ford de 1935, Mário levou-os para Sintra, onde os alojou no Hotel Netto, sob o falso nome de Walinski, polacos de visita a Elieser Kamenesky, o exilado ator que fizera de amigo dos animais no Pátio das Cantigas. A estadia seria de pelo menos duas semanas, Soares o elemento de ligação nesse período.

No dia seguinte, já acompanhado pela jovem Maria Barroso, levou-os a conhecer o Estoril e a costa, Ilsa, mais faladora, interessou-se pelo português:

-Já alguma vez esteve em Paris, Mário?

-Nunca, miss Ilsa, embora tenha a maior paixão pelos escritores franceses. O Anatole France, o Malraux, que é nosso camarada sabia…-comentou, num francês arrevesado, línguas não eram o seu forte.

-Ah Paris... -suspirou, transportada para as recordações duma existência curta mas recheada de desencontros. Em Paris fora feliz com Rick e aí o perdera, em Casablanca, madrasta, de novo a vida os cruzara sem voltar a juntar.

Mário era um idealista. Recrutado para célula intelectual dos comunistas, os contactos com a resistência no exterior eram-lhe familiares, tinha como controleiro um professor de geografia do Colégio Moderno, o circunspecto Álvaro Cunhal. Curioso, sondou Victor sobre o curso da guerra. Subitamente despertado, o checo ganhou entusiasmo na voz:

-A Résistance está muito activa, Mário, os partisans estão espalhados por todo lado e muitos patriotas lutam contra os ocupantes. Vichy, creio, estará por dias. Em Lyon a propaganda incrementou-se desde que mataram o Marc Bloch, sabia?

-Quando a guerra acabar, também aqui Salazar será afastado, Victor. Ele faz–se passar por neutro, mas é um germanófilo convicto. Lisboa está infestada de alemães, por estes dias, e você é um alvo, tem de se resguardar. Não vos aconselho que saiam de Sintra até chegarem os papéis! –recomendou,  Maria concordava.

Os dias seguintes foram descontraídos. De manhã, passeio até Seteais, pela tarde, lendo e escrevendo cartas, um momentâneo descanso de guerreiro, porém, angustiado, e sempre com o pensamento nos camaradas, em Praga e por toda a Checoslováquia. Vaclav fora capturado e internado em Teresin, muitos estavam na clandestinidade e em parte incerta.

Duas semanas depois, descendo para o pequeno-almoço, Ilsa reparou em dois vultos, com malas de viagem, falando com o rececionista do Netto. Um, alto, com gabardina branca e um chapéu preto, o outro, negro, falavam inglês e exibiam uma reserva para o hotel. Sentiu um frémito na espinha quando de súbito reconheceu as personagens, familiares afinal: eram Rick e Sam, o pianista do Rick’s, em Casablanca, logo correndo para eles, com incontida alegria. Surpreendidos, voltaram-se, provocando no negro um sorriso franco e sonoro:

-Por aqui, miss Ilsa? Gosh, o mundo é mesmo pequeno! -saudou sorridente o velho Sam.

-Que fazem aqui, quero saber tudo! -Ilsa ganhou um ânimo jovial, de quem reencontrava quem nunca quisera perder. Meio retraído, Rick sondou-a:

- E… Victor…?

-Está no quarto, escrevendo. Mas, digam-me, o que fazem aqui, na Europa?

Antes que Rick respondesse, o pianista adiantou as novidades:

-Mr.Rick vendeu o café, miss Ilsa, vamos a caminho de França. O capitão Renault foi colocado em Marselha, e convidou-nos para abrir lá um casino. Depois de a guerra acabar, vai ser o nosso novo sócio.

-Que bom para vocês…-comentou Ilsa, Rick, ainda surpreso, estava parco em palavras. De novo o destino os juntava e logo preparava para separar, nunca fruindo mais que breves momentos de felicidade.

Sabedor da chegada, Victor desceu a cumprimentar os amigos, em trânsito, e com destino oposto ao seu. Nessa noite, jantaram no salão do Netto. Quatro vidas com rumos diferentes, em jogo de sombras numa Europa destroçada, reuniam-se numa bela e serena vila portuguesa, para quem a guerra chegava sobretudo pela praga dos racionamentos. Depois do jantar, Victor recebeu uma chamada de Mário, Sam, premonitório, levantou-se para fumar um cigarro, deixando-os a sós. Na varanda do hotel, com vista para as muralhas mouras, e com as chaminés alvas do palácio mesmo ao lado, ficaram em silêncio uns momentos, deixando esvoaçar a baforada do cigarro na noite fresca. Passada alguma hesitação, Ilsa achou oportuno falar:

-Rick, eu….

-Palavras não alterarão nada, Ilse –interrompeu o americano, pondo-lhe um dedo nos lábios. -Victor precisa de ti, e eu nunca te poderei dar a felicidade que mereces. Somos pessoas vindas de mundos diferentes e eu hoje não pertenço a nenhum.

Terminado o cigarro, Rick saiu do hotel, a deambular sem rumo, a noite estava amena, brumosa um pouco. Acabrunhada, Ilse passou ao salão onde entretanto Sam descobrira um piano já velho. Instintivamente, agarrou-o pelo braço e fez-lhe um pedido:

-Toca, Sam.Toca “As time goes by”….

O velho pianista hesitou ainda, mas anuiu, puxou do banco e uma vez mais a nostálgica melodia ecoou, desta feita no salão do Netto. Definitivamente seguiriam o seu rumo.

Três dias depois, Mário e Maria levaram Ilse e Victor ao aeródromo, a caminho da América, enquanto Rick e Sam voavam para o sul de França, ao encontro do seu novo negócio.

A guerra acabou e Victor Lazlo finalmente voltou a Praga, mas novo percalço aí esperava. Estaline, o novo senhor, substituíra os anteriores ocupantes por outros da sua confiança, adiando por vários anos a esperança na liberdade. Acabou preso, e morreu em 1950, amargurado e sem ver o seu país livre. Ilsa foi para a América, então, e dedicou-se a escrever livros para crianças. Rick e Sam, depois de uns anos em Marselha, instalaram-se em Cuba, e lá abriram um casino, onde pontificava um cliente especial e admirador de Sam, um tal Ernest Hemingway. Amargurado e refém do álcool, Rick acabou vítima da cirrose, por altura da revolução cubana.

Por cá, Mário e Maria casaram, no fim da guerra, ele acabou por se afastar dos camaradas, e encetou uma carreira política reformista, sempre contra Salazar, contudo. Ainda hoje, na sua casa de Nafarros, entre as centenas de livros e quadros, uma foto emoldurada de Victor e Ilsa recorda os desencontrados compagnons de route de passagem por um país pardacento no já remoto ano de 1943.

domingo, 24 de novembro de 2013

A paisagem cultural de Sintra



O presidente da Câmara de Sintra, Basílio Horta, foi eleito presidente da Organização das Cidades Património Mundial durante o 12º Congresso desta Organização que se realizou em Oaxaca, México. Depois de no ano passado termos acolhido em Sintra a 11ª edição desse encontro, Sintra continua na linha da frente dum fórum onde passou a ser membro de pleno direito pela singularidade da sua paisagem cultural que no próximo ano completará 20 anos.Recorde-se que aqui foi aprovada a Declaração de Sintra,  que procurou unir esforços para a mitigação e adaptação às alterações climáticas.Documento em cinco pontos nele se procurou recolher experiências das várias zonas classificadas, criar plataformas de conhecimento para troca de experiências e boas práticas, consolidar a valorização do património, criar e manter parcerias e contribuir para um debate global sobre alterações climáticas.
Sintra integra igualmente desde há alguns anos a Aliança das Paisagens Culturais, uma rede internacional para preservar espaços declarados Património da Humanidade pela UNESCO,e que são hoje mais de 60.Em 2008 produziu-se a Declaração de Aranjuez, onde os sítios classificados expuseram as suas inquietações e analisaram a necessidade de compatibilizar a preservação dos lugares com um adequado desenvolvimento económico e social das terras e gentes em seu torno.
Um dos pontos chave desta declaração faz referência ás políticas de difusão do património cultural entre a população,assinalando que a melhor forma de gerar cultura entre os cidadãos passa por estes valorizarem o seu próprio património,pois só se valoriza o que se conhece.
A tensão entre cultura e desenvolvimento e o progressivo abandono do mundo rural são alguns dos pontos fracos apontados nesta declaração.
O texto exige “implicação,cumplicidade e compromisso” do mundo científico na melhoria destes lugares e na garantia da sua sustentabilidade e apela à participação cívica das comunidades locais, enquanto elemento fundamental para um desenvolvimento sustentável das área classificadas.
Traduz este anseio o reconhecimento e a verificação da necessidade duma cultura democrática de participação e transparência na gestão da Paisagem Cultural,chamando os parceiros da sociedade civil mais vezes em ligação com os técnicos,e pondo fim a uma certa “ditadura tecnocrática” na gestão(ou falta dela) dos espaços que a todos pertencem e cujo sentimento de pertença esta Declaração de Aranjuez visa reforçar.
Para tanto há que juntar os cidadãos interessados, as associações cívicas,os técnicos e os moradores e suas plataformas representativas.Só se pode acarinhar uma ideia como a de Paisagem Cultural se ela for geradora de consensos e fonte de desenvolvimento para quem habita em seu torno,e não se ela funcionar como eucalipto que a tudo o que a rodeia seca,e que põe os moradores contra si.Paisagem Cultural sim,mas pró-activa e não repressiva e distante.Não há paisagem cultural sem as pessoas e não há gestão efectiva sem consensos.
Que os conceitos de Aranjuez cheguem com o seu real alcance, e que Sintra os promova neste ano de presidência são os desejos dos Sintrenses e defensores da "sua" Paisagem Cultural, Património Mundial da Humanidade.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O país das bancarrotas



A dívida absorvia três quartos da despesa e os juros metade das receitas, as taxas de juro subiam, apertando o cerco às contas públicas. Tudo como de costume, no Portugal rotativista, dançando de Hintze Ribeiro para Luciano de Castro, num previsível vira, que nem o manguito do Bordalo conseguiam evitar.

O Baring Brothers, banco inglês que já colocava a divida pública de vários  países nos mercados, abanou com a insolvência da Argentina, o que gerou o pânico internacional, assustando os mercados. Em Portugal, a solução foi uma vez mais a austeridade. Tornaram-se patentes as más aplicações da banca e o governo, pressionado, viu-se obrigado a negociar uma receita extraordinária, ao conceder por três milhões de libras o monopólio dos tabacos ao conde de Burnay.

Corria o mês de Outubro. D. Carlos caçava em Vila Viçosa, alheado ao vexame que o governo do primo Eduardo lhe impusera com o humilhante ultimato, os republicanos conspiravam nos cafés e o Governo de João Crisóstomo debatia-se com a dívida e os adiantamentos à casa real.

Em Sintra, pintada de castanhos outonais, de costas voltadas a Lisboa engalfinhada e claustrofóbica, Henry Burnay, recente conde pela mão de D. Luís e novo magnata dos tabacos, visitava o amigo Santos e Viana, a sua ajuda propiciara uma folga financeira ao governo regenerador. A viagem desde as Laranjeiras fora tranquila e solarenga, no final  aproveitaria para rever a condessa d’Edla na casa do Regalo, a pobre sofria de solidão, depois de enviuvar de D. Fernando, dividida entre o chalé de cortiça e a casa de Lisboa.

A  casa Henry Burnay & C.ª  não descurava uma oportunidade de negócio, a partir dela Henry Burnay tornara-se omnipresente nos grandes empreendimentos, valia mais de um milhão e quatrocentos mil réis, só em dinheiro. Fosse a metalurgia, lanifícios, papel, ou sabão, nenhum grande negócio se fazia sem que tivesse uma palavra a dizer. O recente negócio dos tabacos foi puxado por Santos e Viana, entre um charuto na biblioteca da casa de S. Pedro:

-Você, Henry, sempre saiu melhor que a encomenda! Então lá conseguiu que o João Crisóstomo lhe viesse comer à mão!..

-É como lhe digo, Anselmo, estes tipos, por dinheiro, até a mãe vendiam. Eu limito-me a aproveitar as oportunidades! - Burnay desfrutava a vista sobre a Pena enevoada, era sublime, pena o governo já a ter comprado à condessa d’Edla, chegara tarde para o negócio.

-Então este ano não foi à Granja? -Burnay veraneava em Gaia, mas esse ano por causa do negócio dos tabacos ficara por Lisboa.

-Não, não houve oportunidade. Sabe que tive de adiantar trinta e seis mil contos ao Ministério da Fazenda? O João Crisóstomo estava em pânico: era isso ou a bancarrota! Este país não tem tino nenhum! Ainda sugeri que aligeirasse a contribuição predial e industrial mas disse-me que não podia, o défice e tal…Assim não arranja aliados!

-Você é que devia estar no Governo, Henry! Só quem sabe o que custa o dinheiro é que o sabe administrar! - Santos e Viana bem sabia o que havia despendido para abrir o banco, com os ministros a criar dificuldades, logo resolvidas com uns lugares na administração.

-E parece que mesmo assim o dinheiro não chega! O Baring está com dificuldades em emprestar, parece que tem de se apresentar uma garantia em ouro! Ainda há dias disse ao Oliveira Martins que suspender a conversão das notas por noventa dias era errado, cria pânico nas pessoas, mas há lá uns “iluminados” que o aconselham. Mal, como sempre! O que está a aguentar isto é a pauta aduaneira. E nós, claro… Bom, meu caro, tenho de ir, fiquei de passar a visitar a condessa. O José Luciano ficou-lhe com a propriedade, mas deram-lhe um monte de bilhetes do tesouro sem valor e parece que está com dificuldades. É uma joia de pessoa, coitada!

-Então não fica para almoçar? Tenho aí um capão…

-Não, não, obrigado. Fica para depois. A ver se falamos do negócio da vidreira, na Marinha Grande, passe lá nas Laranjeiras um dia destes…

Apressado, saiu, mandando seguir para a Pena, uma livrança de dez mil réis estava já preparada para a condessa d’Edla. Embora poupada, a boa senhora tinha de acorrer às despesas, D. Fernando deixara-lhe bens mas pouco dinheiro em moeda.

Passados uns dias, apesar do empréstimo, o Governo, pela mão de Oliveira Martins, ministro da Fazenda, declarou a bancarrota parcial. O país saiu do padrão-ouro, reescalonou a dívida externa e passou a financiar-se com a emissão de moeda e só em 1902 se deu a situação como controlada. O país definhava, Henry Burnay, cavalheiro da indústria, apesar de tudo enriquecia. O segredo está em agarrar as oportunidades, pensava, terminando o charuto, enquanto a carruagem deslizava na estrada da Pena.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Tapafuros, ano 23



No dia em que passa mais um aniversário dos TapaFuros, irmãos e amigos de várias cumplicidades, aqui reedito um texto a eles dedicado, por mim escrito em forma ficcionada algum tempo atrás. Aquele abraço!

A tarde caía fresca na penumbra das frondosas árvores, no improvisado camarim da Regaleira, actores e técnicos agitavam-se para a estreia de Hamlet, com toda a família Tapafuros em azáfama, levando o príncipe de Elsinore ao palco da Quinta Mágica. Em noite cacimbada, com um ventinho irritante mas familiar, mestre Rui Mário dava instruções, o teatro feito verbo, atento a detalhes e lembrando marcações, enquanto ao relento e num canto Hilário testava o som, revendo as músicas minimais com que ilustraria o desassossego em som. Já vestido e maquilhado, Samuel, o Hamlet de Sintra, relia o texto uma última vez, muita merda, haviam já desejado a Rute e o João Vicente. Noite fora, a lua cheia bafejaria as mulheres com uma hora pequenina, também a peça entraria em trabalho de parto. Na bilheteira, com o conforto de casa cheia, Marco desdobrava-se recebendo os espectadores, cúmplices, os amigos viriam para um copo ao fim da noite. Um percalço: um jovem actor, nervoso com a estreia, tivera uma "branca", o Olavo substituiria, decorara o texto.
Desta vez, Rui Mário seria o fantasma, invisível voz na noite escura, do além conduzindo os títeres mortais em valsa lenta. Ao jantar, no Culto, bebera um revigorante tinto, qual guerreiro antes da batalha, ortónimo de fantasmas vários, da vida, de vidas, fingidor, sem falsidade. No camarim, com Samuel, a verificação das marcações, a colocação da voz, o guião uma vez mais relido:
-"Que velhaco sou eu, que vil escravo! Pois não será monstruoso? Este actor pôde, numa simples ficção, num sonho apenas de paixão, forçar a alma aos seus preceitos, a ponto de fugir-lhe a cor do rosto, marejarem-lhe os olhos, o conspecto confundir-se-lhe, a voz tornar-se trémula, e toda a compostura conformar-se às suas influências?" -repetiam, o texto em confissão, a confissão em texto, olhar no espelho onde Samuel era Hamlet, e Hamlet o mundo.
O silêncio invadia a noite no antro do Grande Alquimista. Começada a função, a pantomina das máscaras desfilou o seu jogo de sombras, Sintra-Elsinore, Dinamarca em Cynthia, a pequenez e grandeza dos homens, convocando-os para o desvendar das fragilidades que o truão de Stratford-Upon-Avon desnudara, temido dos poderosos, mordaz porta-voz dos sem voz. Os jovens actores do Resistências debutavam, como há vinte anos outros o haviam feito, tapando furos das aulas, iniciáticos filhos do teatro. Um deles, fazendo de discreto escudeiro no Pátio das Quimeras, outros dois, de silenciosos cortesãos na corte de Cláudio, rei indigno, no palco do mundo, muitos Cláudios por aí pulando também na pérfida récita da traição. Rui Mário acompanhava, tutelar, e o primeiro acto fluía, o público bebendo as palavras ditas, Rui, letárgico, repetindo-as, sentidas:
-“Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se desfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo! Que horror! Jardim inculto em que só medram ervas daninhas, cheio só das coisas mais rudes e grosseiras”
Marco registava em vídeo, e como produtor eficaz, guiava uma jornalista, que assistia, prometendo uma reportagem para a televisão. No canto superior da bancada, os amigos dos Tapas escutavam em silêncio, no final se daria bálsamo às gargantas, no primeiro dia do resto daquele Verão.
-Cada peça encenada é um libelo de resistência - comentou o Rui para o Jorge Menezes- fazer teatro hoje é ter a sobriedade de ser louco, porém sem loucura corremos o risco de ficar doidos - rematou, o criador olhando a criatura, Jorge, aconchegando o cachecol, concordou, só os Tapas o arrancavam do exílio em Fontanelas.
Aos poucos, a peça caminhava para um perturbador clímax, que o dramático enredo tecera, profético, inquieta, a sonoridade do Hilário acompanhava, e na bancada expectante antevia-se a tragédia, renovada em cada récita. Já Samuel erguia o crânio do bobo Yourik, finitude de Ser prostrado convidando à reflexão, e no confessionário da Regaleira-Mundo se incensava a Vida, abúlica e trágica nas lapidares palavras confessadas por gerações de actores, naquele mágico e catártico momento do Grande Teatro do Mundo:
-"Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se…"
A assistência bebia cada palavra, no breu da noite, druida junto ao carvalho, Rui Mário, de olhos fechados, deixava cair o pano imaginário, Príncipe da Dinamarca no orvalho de Sintra, desfiou o texto para si, na solidão do recinto cheio:
-"Morrer… dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando enfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal?”

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Águas passadas não tornam a passar

Em mais um aniversário do massacre de Santa Cruz



Novembro de 1991. Em Dili, António despedia-se no aeroporto de Maria, a jovem esposa que enviava para Portugal, fugindo ao regime indonésio, os amigos nas montanhas precisavam de ajuda e para ele não era ainda tempo de partir. Em Lisboa, familiares acolheriam Maria até que chegasse, Timor sangrava nas mãos do ocupante enquanto o mundo calava, adormecido. Uns dias depois, a 11, faleceu um companheiro, abatido em recontros com os indonésios, e no dia seguinte, a 12, António e mais amigos acompanharam o seu funeral no cemitério de Santa Cruz. O ambiente estava tenso, ao levantar de voz de um jovem contra a presença dos ocupantes, militares indonésios dispararam, abatendo num ápice e à queima-roupa dezenas de timorenses. António fugiu, assustado, e pelo caminho tropeçou. Ao tombar, sentiu cair-lhe em cima um corpo, antecedido de um tiro silvante. Deixou-se ficar, como se estivesse morto e até que parassem os disparos, e assim ficou uma meia hora, com o cheiro a morte envolto em sangue. A dois metros, morto, um jovem segurava as flores que levara para o enterro.

Mal o tropel acalmou, António escapuliu do cemitério, e durante a noite, a pé, fugiu para as montanhas, a juntar-se aos camaradas das FALINTIL, não estaria seguro em Díli. Os indonésios deram-no como morto, sem curar de o procurar, em Lisboa, semanas mais tarde, Maria recebeu a notícia da morte do marido, inscrito no meio duma lista de baixas.

Durante os oito anos seguintes, António sobreviveu nas montanhas entre os guerrilheiros, as aldeias, cúmplices, proporcionavam protecção, o drama timorense arrastava-se e parecia não vir a ter fim. Preso em Cipinang, Xanana era o Mandela da Ásia, o Nobel a Ramos Horta e Ximenes Belo ajudara a dar notoriedade ao drama maubere. Só em 2000 a Indonésia retirou, e finalmente António desceu o Ramelau.

Em Lisboa, com o passar dos anos, Maria acabou casando com Jorge Carrascalão, um patrício de Baucau, de quem teve um filho. De António, nem uma foto sobrara, e a vida continuou. Auxiliar numa escola, de Timor lembrava os cheiros, as montanhas, e uma vaga recordação de António, que um filho e Jorge com o tempo abafaram.

Finda a guerra, António ingressou nas forças armadas de Timor e chegou a coronel. Um dia, já em 2012, veio pela primeira vez a Portugal, integrado numa missão militar. Sem ter voltado a casar, procurou Maria, só o Serafim, um primo que há muito não via por cá vivia, ao dar com ele empalideceu julgando ver um fantasma, há dezoito anos que o faziam morto, naquela manhã fatídica. Depois dos abraços, e a medo, António perguntou-lhe pela companheira:

-E Maria….

Serafim, baixou os olhos, sondando o que saberia ele da esposa:

-Não voltaste a falar-lhe?...

-Perdi-lhe o rasto. Nunca pude vir a Portugal, mas sei que fui dado como morto nessa altura. De certa forma, foi o que me valeu, assim pude sobreviver nas montanhas…

Serafim fez uma pausa, e pondo-lhe a mão no ombro, esclareceu o primo:

-Maria fez luto por ti uns anos,António, mas depois, voltou a casar. Tem hoje um filho, com 14 anos, e mora aqui perto de Lisboa. Olha, trabalha na escola do filho, o meu também lá anda…

António fez silêncio. As cicatrizes do corpo não haviam posto cobro às da alma, um mundo em guerra e vários mares um dia os separaram e o destino, inexorável,  fizera o resto. Para os vivos, António estava morto, mártir em Santa Cruz. A vida que ressuscitara Timor, para sempre o apartara de Maria.

-Posso vê-lo? -pediu António, num turbilhão de emoções.

-Claro. Olha, logo à tarde vou buscar o meu José Alexandre à escola. Maria estará lá, geralmente ela sai à hora do filho e vão juntos para casa, vou-tos apresentar.

-Não! - António tinha outra ideia - não quero que saibam quem sou. É tarde para desenterrar o passado. O que teve de ser, assim ficará…

Pela tarde, com António sem o uniforme militar, foram até à escola. Vários miúdos brincavam no pátio, a um canto, dois moços de feições mauberes mandavam mensagens pelo telemóvel, ao longe, uma senhora de cabelo esbranquiçado chamava-os. António sentiu um frémito na espinha. Era ela, era Maria. Mais velha, mas a mesma beleza de vinte anos antes. No lado oposto da rua, António recolheu-se atrás de uma árvore, enquanto Serafim se dirigiu aos jovens e os levou até António:

-Olhem rapazes, este é um amigo meu de Timor, o coronel António, cumprimentem-no!

Admirados por conhecerem um militar de Timor verdadeiro, cumprimentaram, mais curioso, o filho de Maria, quis saber coisas:

-És amigo do Xanana?

-Sim, sou, ele agora está mais gordo… E é do Benfica, sabiam?- melancólico, António olhou fixamente o miúdo, poderia ser seu filho.

-Alguém aqui em Portugal te conhece? -quis saber o garoto, nunca ouvira os pais ou Serafim falar deste António, militar em Timor, e pelos vistos importante. António fez uma pequena pausa, e rematou sorrindo:

-Não. Ninguém! -com os olhos, cúmplice, mirou Serafim, e em silêncio ficaram ambos olhando o céu, ameaçava chover para os lados de Sintra.