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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nas vésperas da Restauração


Manuel Martins, irmão da Misericórdia de Évora, não tinha designação de ofício no livro das eleições, mas André Escária, mesário antigo, afirmava ser boa alma, padecendo de cabeça fraca, porém, muitas vezes o haviam visto falando aos pombos e agoirando desastres. Mas era um bom coração, acólito em S. Francisco, trabalhara no arranjo da Capela dos Ossos.
Nesse mês de Agosto, estafetas de Lisboa informavam Antão Sarmento, corregedor da cidade, da decisão do governo de elevar o imposto da água e o valor das sisas. O tesouro régio carecia de quinhentos mil cruzados, visando minimizar a quebra das remessas das Índias Ocidentais, e em todas as cidades se deveriam acatar os aumentos, o selo da vice-rainha não deixava dúvidas:
-É uma usura! Tivessemos um rei português e tais desaforos se não verificariam! - vociferou, informado das medidas. Espanha mais não faz que alijar a canga sobre o povo!
-Há que tomar posição, isto é um desaforo! -concordou Aires de Gusmão, o escrivão- vejam o Porto, com o imposto do linho fiado! – a lembrança do motim das maçarocas, em 1628, acicatava os espíritos, há 57 anos que os Filipes governavam Portugal, desejado, e apesar dos oragos,nunca D.Sebastião regressara. Um corpo fora sepultado nos Jerónimos, mas o povo não se convencia, não podia ser ele.
-Creio bem que o povo receba com desagrado estes aumentos, senhor corregedor! -gizou André Nóbrega, o procurador.
Efectivamente, afixados os editais, grandes clamores se ouviram na Praça do Giraldo. Durante a missa da Sé, aludindo ao tema, o arcebispo, perorando a favor do governo, irritou o povo, e vários fiéis abandonaram o ofício, indignados com a posição do prelado.André Nóbrega e Aires de Gusmão convocaram os comerciantes e os representantes do povo para uma reunião em casa de André, havia que tomar medidas. Alheio, e entretido com os seus pombos no Rossio, Manuel Martins não se pronunciou. Mendicante e boa alma, para a cidade, era o Manuelinho, a quem ninguém negava uma sede, se bem que falasse por enigmas, que os antigos respeitavam, descortinando alusões proféticas.
Por aclamação decidiu-se não pagar os impostos, e mesmo organizar  patrulhas, evitando que os oficiais régios os cobrassem. Em minoria, o corregedor não se pronunciou, André e Aires encabeçaram a insurreição. Livros de assentos das contribuições foram queimados, isolados, e sem reforços militares, os adeptos de Castela, portugueses passados para o partido castelhano, mal se dispuseram a enfrentar a multidão. Briosa, Évora erguia-se por Portugal.
Da casa de André Nóbrega, durante duas semanas e pela calada da noite saíram proclamações ao povo, afixadas nas ruas, mas para salvaguarda das identidades assinadas por um tal Manuelinho. Notícias traziam a nova de a revolta se haver espalhado a Sousel, Ourique, Vila Viçosa e Abrantes. Uma janela se abria, e os povos ousavam respirar.
Manuel Escária, lendo um edital dos indignados, pasmou da assinatura. Manuelinho…. Quem seria o tal Manuelinho, o chefe sem rosto que assinava as proclamações? Seria o mesmo que estava a pensar? Curioso, buscou por ele. Manuel Martins estava no Rossio de S.Brás, dando milho aos pombos, aos quais durante anos nunca faltara. Manuel chegou-se e sondou-o, o ar tranquilo e distante não indicava ter algo a ver com a refrega em curso na cidade:
-Manuel, por aqui com os teus pombos?
Manuel empapava pedaços de pão em água, pronta a malga, chamaria os amigos, e retiraria depois para uma sesta, perto da Cartuxa:
-Os pombos são como as pessoas, Manuel Escária. Andam em bandos, onde um vai vão todos. Mas também sabem quando não devem ir, ou quando lhes fazem mal. Aí arrulham. Nunca ouviste os pombos a arrulhar, zangados?
Manuel Escária deixou-o, nada parecia saber, não seria ele, por certo, o Manuelinho atrás de quem se escondiam os revoltosos.
Durante uns dias mais, Évora e mais cidades fizeram ouvir a voz do desagrado. O movimento insurreccional não conseguiu destituir o governo, em Lisboa, sucumbindo às tropas castelhanas que reprimiram a sedição. Nobres locais, afectos ao governo, ainda responderam, criando a Junta de Santo Antão, mas a população pouco aderiu, e a força das armas acabou vencendo. Três anos ainda teriam de esperar para sentar um Bragança no trono.
No Rossio de São Brás, Manuel, o suposto Manuelinho, continuou alimentando os seus amigos, frases intraduzíveis e espaçadas denunciavam um espirito difuso e demente. Nas vilas e aldeias do Alentejo, e de Portugal, aos poucos, em surdina o povo ia arrulhando, o voo da glória surgiria num frio Dezembro, logo no dia primeiro, varrendo os biltres do pombal e de novo esvoaçando em liberdade.

Constituição? Qual Constituição?


No passado domingo, no encerramento do congresso do PSD Madeira, Passos Coelho afastou qualquer ideia de revisão constitucional para breve, não obstante ser esse um dos temas de eleição do gauleiter madeirense, que aliás, logo de seguida, afirmou ir insistir nessa tecla, para ele, a causa de todos os (seus) problemas..Há porém que reflectir um pouco e reconhecer que o primeiro ministro tem razão: para quê a estafa de uma revisão constitucional para a qual teria de negociar com os socialistas os 2/3 necessários, se materialmente o governo se encarregou já de fazer uma revisão completa ao país, cortando direitos sociais, a natureza tendencialmente gratuita do serviço nacional de saúde e o ensino obrigatório gratuito (em risco), o princípio da igualdade, e até o que consagra a independência do exercício do mandato dos deputados? Face a uma Constituição que não passa de empecilho e perante um governo clarividente e empenhado, este tratou já de a enxotar para o caixote da História, resquício dum Abril de doidivanas, que até queria uma sociedade justa e igualitária, assumindo com realismo e mão firme o que todos já sabemos pela pior maneira: quem quer vícios, paga-os, e se o voto é a arma do povo, desta vez ao usá-lo ficou totalmente desarmado.
Esquecem os revisores no terreno, porém, que a soberania reside no povo, que o direito de resistência está consagrado nas declarações universais dos direitos do homem, e que há uma sociedade pré-constitucional para quem o direito natural prevalece, e que, sempre que os direitos vertidos em lei passem a semântico exercício de retórica, podem os povos tomar nas suas mãos o seu destino, como já várias vezes ocorreu na nossa História. Inconstitucional não foi o Mestre de Aviz matar o conde Andeiro e apear a aparentemente legítima D. Beatriz? Inconstitucional não foi a proclamação da República, o Estado Novo e o 25 de Abril, questionando o status quo ante?  Face à inconstitucional violência que se abate sobre o país em nome dum estado de necessidade não desculpante, há que ponderar a possibilidade de  reagir com igual violência, em desculpante legítima defesa, se necessário. Isso, até o artº 21º da actual Constituição garante, e chegado o momento em que se tenha de roubar para comer ou dar de comer aos filhos, não há Constituição que resista, revista ou por rever. O Estado de Direito está no fio da navalha.



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Recordando uma conversa com Valter Hugo Mãe


Valter Hugo Mãe é o grande vencedor da 10.ª edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa na categoria de melhor romance com a A Máquina de Fazer Espanhóis, e também do Grande Prémio Portugal Telecom 2012. Já consagrado como um dos grandes novos valores da literatura portuguesa, entrevistei-o em tempos, para o site da Alagamares, recuperando agora essa conversa neste espaço.

O valter hugo mãe distribui-se por diferentes áreas de actividade artística, literária e musical e até é licenciado em Direito.Qual a sua propensão natural de todas estas? Como se definiria?

 Sou um escritor. Não é possível comparar tudo o mais que faço, ou com que me envolvo, com o meu percurso e empenho na escrita. Sou, de facto, alguém que escreve e tem na escrita um eixo fundamental da sua vida.

A sua escrita reflecte uma visão muito contemporânea da nossa sociedade e valores. Que valores predominam hoje na sociedade portuguesa com os quais se revê?

Isso gostava eu de saber, que o mais que faço é andar à procura de entender. Os meus livros pretendem ajudar-me a conhecer e a aceitar, eventualmente, o lugar do outro. Não creio que sejamos piores do que os outros, creio é que podemos mesmo ser melhores do que já somos. Gosto de uma certa humildade portuguesa, mas lamento o menosprezo, gosto da familiaridade portuguesa, não gosto tanto da intromissão ou da inveja, como bem aponta José Gil. Uma sociedade melhor há-de ser sempre uma sociedade que procure os seus equilíbrios. Precisamos amenizar defeitos e potenciar virtudes, para isso há que diagnosticar e assumir.

Já ganhou um prémio Saramago. Revê-se ou aprecia mais o homem, o político, o escritor ou nenhum?

O José Saramago é um grande homem, é um grande escritor. Cresci a admirar o seu compromisso constante com as questões sociais e políticas, admiro que se incomode e não preciso de estar sempre de acordo com ele. Acho que é bem verdade aquela máxima que diz que o preocupante não é o barulho dos maus, mas sim o silêncio dos bons. O Saramago escreve magistralmente e nunca se calou, correndo riscos e incomodando-se. Gosto de gente assim, que pense e opine, para que quem detenha o poder não se julgue invisível ou impune.

Quem são para si os grandes escritores vivos da actualidade?

Saramago (ainda vivo na altura da entrevista) e Lobo Antunes (por quem tenho uma paixão avassaladora), Herberto Helder, Agustina, Ramos Rosa, Maria Velho da Costa, Armando Silva Carvalho, José Agostinho Baptista, Adília Lopes.

Acha que um blogger é um escritor que não arranjou editor ou é um repentista que gosta de se ouvir a si próprio? Há uma literatura do tempo das redes sociais?

Um blogger pode ser de tudo. Há-os bons e maus. Há daqueles que hão-de passar a livro em esplendor, e outros que não chegarão lá. Acho que o blogue intensificou algumas características que já vinham a ser exploradas na literartura pós-moderna, a fragmentaridade e a atenção a um sem número de temas menores, aquilo que leva a uma espécie de literatura de tom diarístico. As recolhas do Pedro Mexia mostram isso bem. Penso que serão dos melhores livros resultantes de blogues que tivemos em Portugal. Por consequência o Pedro Mexia será dos nossos bloguers mais interessantes, sem dúvida. Mas ele já vinha dos livros, na verdade, o blogue veio depois.

Acordo Ortográfico: sim ou não?

Sim, se exactamente como está definido é que tenho dúvida. Mas acho fundamental que procuremos manter a língua coesa no âmbito dos PALOP. Se o mundo nos deixar com o português confinado a Portugal vamos ficar mais sozinhos, muito mais pequenos, numa espécie de claustrofobia que será difícil de ultrapassar e que nos prejudicará a todos os níveis, desde logo, e mais ainda, no que respeita à auto-estima.

O graffitti é uma forma de arte ou vandalismo?

Amo graffittis. Há gente fabulosa a pintar por aí. Adorava que me pintassem umas paredes, umas telas, uns papéis, o que fosse. Mas compreendo que nem todos os cidadãos pensem assim, e as casas são de quem são. Creio que há graffitters que entendem um pouco melhor a ética da coisa e fazem intervenções em lugares que, por algum motivo, se adequam melhor à filosofia rebelde da coisa. Penso que algumas zonas das cidades deviam ser declaradas de liberdade criativa a este respeito. Seria lindo. Já a malta dos tags é uma treta. Assinam por aí fora num problema de ego mal resolvido. Não gosto.

Porque escreve sempre com minúsculas?

Porque procuro aproximar-me do modo como verdadeiramente falamos, e não falamos com maiúsculas. O nosso discurso acentua-se naquilo que, pelo sentido das palavras, leva o interlocutor a uma espécie de sublinhado. Nos livros faço isso, ou procuro fazer, que é deixar ao leitor a atribuição da importância relativa de cada palavra. Há uma aceleração do texto e uma democratização da dignidade de cada expressão, de cada vocábulo.

Como vê a juventude portuguesa desta última década?

Infelizmente parece-me que a minha geração está a retroceder em valores. Nos anos oitenta vivemos numa liberdade, e sobretudo com os olhos postos numa prometida liberdade que, quando passamos a ser pais, voltamos a fechar.
Lamento encontrar em escolas que visito malta dos 15 aos 18 com valores mais antigos dos que os meus. Cheios de preconceitos e caminhando, por exemplo, para uma sociedade mais machista. Abomino essas cantoras tipo putas que se põem nos vídeos de cuecas a esfregarem-se nos carros ou nos gajos com ar de chulos. A América está a vender à juventude de todo o mundo uma imagem dos rapazes como durões antipáticos e das raparigas como descerebradas e no cio. É uma pena, e lamento que a malta nova depois mimetize estes clichés julgando que isso lhes dá poder.

Sintra para si suscita que tipo de sentimentos?

Tenho vertigens. Tentei um dia subir aí umas ruínas e fiquei petrificado nos primeiros degraus. Tinha vinte anos e foi um pesadelo. Quando penso em Sintra revivo um pouco esse momento em que percebi que o incómodo com as alturas podia ser extremo.

Eleições Autárquicas e Cidadania


A aproximação das eleições autárquicas, num quadro de aperto financeiro das autarquias e de razia nas freguesias, com a perspectiva de receitas escassas e em risco, face à lei dos compromissos e à redução da receita, constitui um desafio acrescido para os próximos autarcas, sabendo não poderem agora prometer rotundas ou obras de fachada, e tendo a difícil tarefa de convencer um eleitorado descrente nos políticos e nas promessas inviáveis.
Tradicional terreno para o combate de chefes locais e suas clientelas, contar de espingardas e de castelos por parte dos partidos, sobretudo os de maior implantação nacional, desta feita, com a renovação em perspectiva, pela saída de muitos “dinossauros” atingidos pelo limite de mandatos, as baterias estão por ora assestadas para a definição e instalação das novas freguesias, muito dos frutos a colher pelas candidaturas passando também pela postura “colaboracionista” ou rebelde a tomar no que a este dossiê concerne.
A hora que passa, com novos e inesperados desafios, impõe novos actores e novas políticas, devendo os partidos, enquanto forma organizada (mas não única) da expressão da vontade popular abrir-se à sociedade civil, discutir projectos e não lugares ou sinecuras, pensar global para saber agir local. O paradigma passou a ser a protecção e a acção social, a criação de um quadro de desenvolvimento que se desvie do imobiliário e das obras públicas  para os serviços, turismo e industrias criativas, de captação de capital de risco e PME’s que pugnem pela empregabilidade dos inúmeros jovens sem emprego, atractividade fiscal, e sustentabilidade dos projectos, atentas as características do concelho, suas acessibilidades, ambiente e vantagens competitivas.
O nível autárquico é aquele em que os rostos pesam mais que os programas, e a decisão se toma mais pela confiança e expectativa em torno de pessoas que  no símbolo partidário, sobretudo nos meios mais pequenos, onde essa proximidade (que agora com a reforma autárquica irá praticamente desaparecer) envolve particularmente eleitores e eleitos, e torna mais fácil a prestação de contas e reclamação de decisões.
Como tal, não será de espantar virem a surgir em muitos lados candidaturas independentes, de cidadãos com projectos e sem fidelidades partidárias, não por atitude antipartidos, mas pela constatação de que certas equipas, despidas do cartão do partido, até podem trabalhar melhor em conjunto, ser mais pró-activas e dinâmicas. Num sistema construído pelos partidos, como o nosso, essa possibilidade está porém condicionada. Se efectivamente, a um partido, ainda que inactivo ou com 50 militantes apenas, basta o símbolo e a existência jurídica para ter lugar num boletim de voto, aos independentes, unidos por motivações difusas ou em torno de alguns objectivos apenas, dificultado está o caminho, quer pelo número de proponentes que tem de obter, para tal devendo começar a trabalhar muito antes dos partidos registados (uma candidatura independente, num concelho como Sintra, por exemplo, com 293.000 eleitores, requer perto de 8.800 proponentes para uma candidatura à Câmara), a fim de cumprir com uma série de formalidades legais, nos termos do artigo 19º e seguintes da Lei 1/2001 de 14 de Agosto, e legislação complementar,  requisitos que aos partidos, por terem uma máquina montada, mais fácil fica de obter. Tal quadro, visa desmobilizar aqueles que querem contribuir para o desenvolvimento das suas terras sem cartão partidário, o qual mais lógico se apresenta quando se trate de eleições nacionais, em que, aí sim,  são as visões da sociedade e as grandes opções que estão em jogo.
Urge pois olhar para o próximo ciclo eleitoral na óptica de levar mais Sociedade e sangue novo à Política, evitando a cristalização dos acomodados e a inércia dos carreiristas, que em todos os partidos existem, e que, pela sua persistência, podem ser a morte lenta da Democracia.

Os trinta cavaleiros de Sintra



“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amen. Aprouve-me, a mim Afonso, Rei dos Portugueses, filho do Conde Henrique e da Rainha Teresa e neto do Rei Afonso, e a minha mulher, Rainha Mafalda, filha do Conde Amadeu, dar-vos, a vós que habitais em Sintra, da classe superior ou da inferior e de qualquer ordem que sejais, e a vossos filhos e descendentes, carta irrevogável, de direito, estabilidade e serviço.”. Assim começou Mestre Alberto, tabelião régio, a carta de foral que Afonso Henriques outorgava à vila de Sintra. Deixada uma trintena de cavaleiros no castelo donde os mouros haviam debandado, vinha agora uma delegação da vila prestar vassalagem e saber que ordenava el-rei para a antiga praça moura. D. Afonso anuiu, e à audiência assistiram Pelagio Zapata, Gonçalves de Sousa, Pedro Fernandes e o arcediago de Lisboa, Sancho Moniz Egas. Por sua vontade lhes dava trinta casais, um para cada família, por direito hereditário e sem tributo a Lisboa, também a habitual parte em seara ficaria dispensada. Pelagio Zapata, mestre em leis, aconselhava sobre as melhores regras para a aplicação da justiça:
-Senhor, acertado será que para os que vossas leis não acatem tenha a justiça pesada mão: não passe homicídio ou violação de mulher sem que quem tais crimes cometer pague dez morabitinos, metade para vossa majestade, metade para o queixoso. E quem assaltar a casa alheia, que pague sessenta soldos, metade para el-rei e metade para o queixoso. Quem ferir outrem com lança, espada ou faca, cinco morabitinos, metade para el-rei e metade para o queixoso. Quem viver amancebado com mulher séria, um morabitino. E quem ferir ou espancar outra pessoa, receba dez varadas. Sábio será também que quem brigar com armas e, tendo ido a tribunal não se emendar ao fim de três vezes, tenha a casa derrubada. Proponho que no foro de Sintra haja seis juízes no julgamento de homicídios, e três nos outros.
D.Afonso, agasalhado com uma pele, dado o frio de Janeiro, anuiu com a cabeça, Sintra como sentinela do Tejo, carecia de bons cavaleiros, leais mas recompensados:
-Honrados sejais, nobres cavaleiros, mas um conselho vos dou: quem se servir de armas sem razão dentro da vila, há-de perdê-las; mas se questões houver entre vós, não se julgue o pleito pelo foro de Sintra no que respeita ao elmo e à loriga, mas apenas quanto ao escudo e à clava. E não entre lá homem de outra terra: tal o recado que mande, tal lho mandem a ele, igual por igual; e seja a sua caução ou fiança de um soldo, se houver junta ou destrinça.
A Gonçalves de Sousa, senhor de Lamego, chamou a atenção o enorme número de mouros forros trabalhando nas várzeas de Almargem, também aí convinha a mão real chegar:
-Curial será, senhor, que peões que lavrem com um só boi paguem um sexto de trigo e cevada, e se lavrarem com dois ou mais, entreguem um quarto, entre trigo e cevada, por alqueire do mercado. Justo será também que se pague um puçal de vinho a tirar de cinco quinais. O rei, pouco dada à lavoura, mandou Mestre Alberto escrever:
-Que se lavre como ordem real: quem lavrar com bois, não pague tributo por qualquer ganho. Caçador que apanhar cervo ou caça do género com laço ou armadilha, entregue meio lombo, e se for porco, uma costa. O batedor de coelhos, que entregue uma vez por ano três coelhos, com suas peles. Ao colhedor de mel selvagem, que entregue uma vez por ano meio alqueire do que tiver colhido. Pague por ano o sapateiro um soldo, o ferreiro ferre um cavalo, o mercador e o peleiro, paguem um soldo cada! Mestre Alberto sorriu, com os anos Afonso aprendia a ser rei, menos dado a correrias atrás dos mouros, forte na justiça e a pensar nos cofres.
Peres Ramires, dos de Sintra, chamou a atenção sobre os limites das terras sob alçada régia. Pelágio Zapata avançou com uma proposta: desde Almosquer, pela vertente e outeiros, servindo de limite um caminho público em Cabriz, até ao monte, e dessa vertente pelos outeiros ao limite de Cheleiros, seguindo daí até ao rio em Galamares. Aos cavaleiros de Sintra, aquartelados no Arrabalde, agradava, assim ficaria. A D. Afonso importava o concurso dos homens de armas, os cavaleiros deveriam combater uma vez por ano no exército, e estar disponíveis para pelejar. 
Respeitosos, ajoelharam. O Conquistador lavrada a carta, apôs o selo real, bem como a rainha, na presença dos confirmantes: Pedro Pelágio, príncipe de Lisboa, Afonso Mendes, de Coimbra, e Rodrigues Pelágio, de Santarém. Era o dia 9 de Janeiro de 1192 da era de César. (* 1154 da era de Cristo)
Retirando para os aposentos, molestado por dores, sequela de pelejas antigas, D. Afonso saudou os trinta, um a um, e mandou-os em paz. Os mais próximos repararam que coxeava duma perna. Virando-se para Peres Ramires, esboçou umas palavras finais:
-Lavrada fica a palavra do rei. E se alguém desfizer este contrato, com Satanás seja excomungado!
No dia seguinte, e na posse do precioso foral, os trinta de Sintra volveram ao Arrabalde, como sempre envolto em neblina, e agora terra d'el-rei. Logo mais, irmãos templários se juntariam no termo, desde o cabeço da serra e estendendo-se até ao mar, uma nova ordem nascia e em harmonia. Por muitos anos, cristãos, marranos e mouros, haveriam de ver crescer as hortas e, destros, caçar gamos na serra.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A casa em Sintra do general Correia Barreto

No prédio com o nº 43 da R. Alfredo Costa, em Sintra, viveu no período de Verão o general Correia Barreto, primeiro ministro da Guerra depois do 5 de Outubro,  aí falecendo em 15 de Agosto de 1939.
António Xavier Correia Barreto nasceu no dia 5 de Fevereiro de 1853 em Lisboa. Com 17 anos integrou voluntariamente o Regimento de Infantaria, tendo permanecido como soldado entre 1870 e 1874, altura em que foi promovido a alferes-aluno da Arma de Artilharia. Prosseguiu os estudos na Escola Politécnica, onde foi aluno de António Augusto de Aguiar, a quem dedicou o seu manual de Química, Elementos de Química Moderna em 1874. Veio a pedir transferência para a Escola do Exército, para concluir o Curso da Arma de Artilharia.


Em 1885, publicou um estudo sobre pólvora com tanto rigor e qualidade que ficou encarregado de orientar a produção de munições com pólvora e sem fumo. A pólvora ficou conhecida por "pólvora Barreto". Nomeado director de uma fábrica de pólvora, veio a integrar mais tarde o Conselho de Administração Militar e para o Depósito Central de Fardamentos. Conhecido pelas suas ideias republicanas, foi convidado pelo almirante Cândido dos Reis para a comissão organizadora da revolução de 1910. Após a revolução, foi nomeado Ministro de Guerra do Governo Provisório logo a 5 de Outubro, cargo que exerceu até 1911, e também entre 1912 e 1913. Em 1913 foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa, por sinal, tal como o proprietário de outra casa nesta mesma rua de Sintra, o antigo presidente Jorge Sampaio. Promovido a general em 1914, candidatou-se à Presidência da República em 1915, e em 1919, mas nunca foi eleito. A 16 de Fevereiro de 1920 foi eleito senador e Presidente do Senado cargo que ocupou até 1926.
Nesta casa de Sintra foi homenageado pela Banda da Sociedade União Sintrense, depois de os revoltosos monárquicos de Monsanto terem sido repelidos, e ovacionado pelos populares, em 1919.

Recordações do Carlos Manuel

O desaparecido Cineteatro Carlos Manuel, construído por Norte Júnior em 1945 (passam dia 11 de Dezembro 50 anos da sua morte), no local onde antes funcionou o primeiro Sintra Cinema (não o da Portela, que foi construído em 1947) foi um local emblemático para várias gerações de Sintra até ao seu ocaso depois do fogo dos anos 80.
Veraneante em Sintra desde que nasci, e aqui residente desde 1984, recordo sobretudo o Carlos Manuel dos anos 70 e 80, quando, saindo de "carreira" ao sábado, ali ia ver os filmes que normalmente Lisboa já havia visto, mas que, na falta de outras diversões, enchiam a espaçosa sala para ver os filmes em Cinemascope, os westerns americanos ou as comédias de Dino Risi ou com Cantinflas.A audiência era frequentemente ruidosa, e sensível às cenas mais "quentes", sobretudo quando os filmes eram para maiores de 18 (lembro ainda o tempo de serem para maiores de 21...) e com apenas 16 anos entrando à sucapa ou com a complacência do porteiro, ali podíamos admirar os atributos de Claudia Cardinali, Sylvia Kristel, Ira de Furstemberg e outras divas, em "fitas" que hoje até a crianças de 6 anos fariam sorrir. Era o Portugal dos brandos costumes, e a transgressão da ida ao cinema para adultos uma forma de ousadia, a cinco escudos por sessão.O regresso a casa, noite fora, era frequentemente a pé, por falta de transporte e em grupos de quatro ou cinco, disponibilizando por vezes a Sintra-Atlântico uma carreira especial aos sábados à noite.Outros tempos...
Depois de Abril, recordo bem o primeiro comício ali realizado, já em liberdade. Jovem e idealista, ali escutei inflamados Zé Alfredo e Salgado Zenha, proclamando a era da liberdade, e o dr. Sargo Júnior,  velho advogado madeirense e meu vizinho em Galamares, residente em Sintra desde que nos anos 30 participara na revolta do general Sousa Dias, e a quem recordo, solene, de fato e gravata, pregando cartazes de divulgação desse comício nas árvores de Galamares, na pré-história dos outdoors e dos flyers. Depois do 1º de Maio de 1974 em Lisboa e das RGA's no Liceu D.Pedro V, posso dizer que foi no Carlos Manuel que participei no meu primeiro comício, dum PS de que nunca até então ouvira falar, e que trazia atrás de si um tal Mário Soares que a seguir à revolução chegara a Santa Apolónia em apoteose, e que decorreu num clima de liberdade e alegria, nada fazendo prever então os difíceis momentos que com o PREC viriam mais tarde. 
Já nos anos 90, e depois do incêndio de 85 que o deixou ferido, ali assisti a peças encenadas pelo João Alvim, de que recordo O Falatório de Ruzante ou o A Fé nos Amores, entre outras, num período em que o tempo fazia já sentir o seu efeito na estrutura do edifício e o cinema desaparecera, como aliás ocorreu com o "barracão" da Praia das Maçãs, ou o modesto drive in do Pintassilgo, em Colares, num tempo de ocaso dos Cinema Paraíso, tão bem retratados no filme de Tornatore.
Depois que virou Olga de Cadaval, não obstante o ganho para a vila, enquanto equipamento cultural, deixei de o considerar como o cinema de Sintra, desaparecidas que foram as sessões nocturnas, ou o trabalho pioneiro do Alvim, deslocado para o outro lado da estrada. De certa forma, perdeu a autenticidade, na medida em que os novos públicos passaram a ser mais ecléticos e provindos quer de Sintra, quer de fora, cumprindo uma função cultural essencial, mas sem aquele sentimento de pertença que durante anos nos ligou ao "nosso" Carlos Manuel. Mas a vida é assim mesmo, e a Memória um património particular da nossa humanidade. Que ninguém pode apagar, porém.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Anjo de Portugal


Prestável, o groom do Hotel Borges abriu a porta, posto o que o vulto de sobretudo e chapéu preto perguntou pela hóspede do 308. O pai ou um tio, pensou. Ar pesado e chapéu  enterrado, um carro ficou esperando à porta da Brasileira. Era sábado e Lisboa dormia, com as famílias a banhos em Sintra e na Parede. Contactada pelo telefone, uma voz mandou subir o visitante que trazia uma garrafa, um vinho do Dão, descortinou o groom de soslaio, antes de o ver entrar no ascensor para o segundo piso.Com o coração a palpitar, Mercedes abriu a porta, olhando a ver se havia alguém no corredor e mandou entrar, segurando-lhe o sobretudo e chapéu. Confidenciara a António Ferro o desejo de o conhecer pessoalmente, e ele correspondia, numa altura que a Garnier não o largava um segundo. Raramente tinha encontros mundanos, eremitando no Estoril ou em S. Bento, mas os agradáveis passeios com a francesa no Vimieiro haviam-lhe devolvido alguma juventude, comprara mesmo um fato de linho, e botas novas. Terminado um chá com Christine, a carta ardente da frágil admiradora levou-o directo para o Chiado para aí terminar o sábado.
Mercedes Feijó já lhe havia escrito exaltadas cartas de apoio, que, sem responder, guardara expectante. O doutor Salazar, já nos sessenta, provocava-lhe fascínio, os cabelos esbranquiçados conferiam-lhe o ar fascinante e seguro de um anjo da guarda, protector e vigilante. Recatado mas não abstinente, cedia agora à terrena e carnal tentação de macho. Os mexericos sobre a sua misoginia divertiam-no, lembrando divertido a sua primeira vez, seminarista em Coimbra, com a Felismina. O Manuel, hoje cardeal, ficara de guarda, enquanto ardendo em fé penetrava os húmidos desígnios de Deus. Mercedes trouxe dois copos e sentou-se a seu lado na poltrona, enquanto, tirado o casaco, ele abria a garrafa:
-Então a Mercedes costuma escrever? Saiu ao seu pai por esse lado, mas no resto é a sua mãe tal e qual- galanteou o visitante, brindando, e recordando a sueca, agora viúva de António Feijó.Leitão de Barros apesar de ter olhos apenas para os cenógrafos da Tóbis, gabara-lhe a beleza num jantar da União Nacional.
 -O senhor professor conheceu-a? Que memória formidável, eu…
 -Chame-me António- atalhou, pousando-lhe a mão sobre a perna, que ardia debaixo dum vestido de chantung.Mercedes ruborizou, aquela intimidade com o Presidente do Conselho, a quem só raras vezes vira e ouvia com voz firme na Emissora Nacional, deixou-a entorpecida, bebendo o Dão de um trago só, e lembrando depois que nem apreciava vinho.
 -Muitos pensam que sou um bota-de-elástico, mas até aprecio um bom teatro, e boa música,  zarzuelas sobretudo. Alguns mal intencionados zurzem contra mim porque que prossigo sem desvio a missão que a Providência me confiou, mas ignoram o que é ser português das quinas e cristão temente a Deus.O Norton de Matos ladra muito, mas é um enfatuado. Sabe que usa ceroulas, o biltre? -confessou, divertido, oferecendo-lhe a mão com que ferreamente governava a Nação.
 -Sr. Presidente, eu…
 -António…
 -António, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Desde há muito que guardo todos os seus discursos, e arquivo as suas fotos. Como pode ser tão generoso e entregar-se sem nada pedir em troca, quando podia ter uma esposa e filhos que por certo o adorariam, você que é a locomotiva do nosso Portugal…-Já o vinho descomprimia os gestos e libertava o verbo, e uma tímida festa acariciava a cabeça de António, o timoneiro, que, silencioso e sem pressa ia enchendo outro copo. Vaporosa e nas nuvens, Mercedes saiu por instantes, prometendo regressar rápido, descontraído, o Presidente do Conselho aproveitou para deitar um olhar pela janela. Um carro guinava para a António Maria Cardoso com um jovem algemado no banco traseiro. O Agostinho Lourenço não dorme, pensou, entre o prazer pela conquista próxima e a visão de mais um ingrato, em boa hora apanhado pela zelosa polícia. Enfim, Pátria e prazer escrevem-se com a mesma letra, murmurou para consigo mesmo.
Do quarto contíguo chegou Mercedes, entretanto,  vaporosa, exibindo a lingerie negra e sedosa, um soutien rendado realçando os generosos seios, e pronta a, em ditadura governá-lo agora. Salazar sorriu, com o ar seráfico de sacristão em dia de procissão, ela envolveu-o e puxou-o para a cama. Já aliviado do fato e das ceroulas de linho- afinal ele também usava, zombou Mercedes, gulosa - o dedicado servidor da pátria virava agora obediente servo, possuído por mãos providenciais e aveludadas. Na vizinha PIDE e à mesma hora, outro servo era dominado também, mas por fogosas e menos aveludadas mãos.
Uma hora mais tarde, com o chapéu enterrado, saiu do hotel, em silêncio, deixando o groom a olhar de lado, avaro, o velho nem um centavo deixara. Mercedes, esfomeada e satisfeita, ligou para a recepção, quase de seguida, a encomendar uma  revigorante ceia, a Almira rebentaria, quando lhe contasse, à hora do chá, na Ferrari.
No dia seguinte, ainda o baton vermelho e a pele de Mercedes se lhe não desvanecera, António, solene e patriarcal, discursava num Encontro Nacional de Professores de Moral: Portugueses: Ensinai a vossos filhos o trabalho, ensinai a vossas filhas a modéstia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei deles ao menos cristãos”.
Cristão, e abnegado santo, condestável da castidade, no sábado seguinte de novo o anjo de Portugal voltaria à sacristia do Borges, onde, peregrino, acenderia nova vela…                                              

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Uma viagem no Larmanjat



Poeirento e ruidoso, assim achou Lady Jackson o tal Larmanjat, no qual, embarcando nas portas de Lisboa, partiu em visita a Sintra. A viagem duraria duas horas, com paragem para descanso e abastecimento de água, 550 réis, um bilhete em 1ª classe. O mecanismo assentava numa via com um só carril, ladeado por duas passadeiras de madeira. Para tornar o conjunto estável, tanto o carril como as passadeiras estavam pregados a travessas, por meio de cavilhas de ferro, com as locomotivas munidas de rodas centrais e laterais, rodando umas sobre o carril e outras sobre as passadeiras. Ideia de Saldanha, que vira uma coisa parecida em França e por cá a introduziu em 1871.
Catherine, Lady Jackson, viúva de Sir George Jackson, vinha à descoberta da fair Lusitania, Maio era o melhor mês, por causa do calor, recomendara o seu editor, em Paris. Tomando lugar na carruagem, observou os passageiros que consigo viajariam em primeira classe: um inglês, Mr. Galway, botânico de Durham, Cosette Mignon, uma corista francesa e o seu acompanhante, M.Vendôme, um médico, ainda jovem, Gregório de Almeida, com consultório em Sintra, segundo apurou, e os príncipes Cyrllovitch, Vladimir e Maria, de visita a Portugal, seriam hóspedes da condessa d’Edla em Sintra. Uma carruagem fora por ela posta à sua disposição em Lisboa, mas dispensaram-na, preferindo viajar naquela maravilha do progresso. Na outra carruagem viajavam os criados, soldados aboletados no Paço de Sintra, e algumas colarejas, ainda a medo, que o receio de descarrilamentos afastava o povo, receoso da máquina infernal.
Lady Jackson, vistosa viúva, remetida a criada para a 2ª classe, de imediato socializou com os demais. O cheiro a perfume barato de mademoiselle Cosette arrancou-lhe um sorriso amarelado, o acompanhante, que lhe segurava a mão, mais parecia pai que marido, uma amásia, por certo. Já o médico, pareceu-lhe simpático, ultimava o consultório em Sintra. Nem sempre os doentes eram abastados, umas galinhas para a canja e couves de Almargem compensariam nos primeiros tempos. Com os príncipes pouco falou, não percebiam nenhuma língua civilizada, uma vénia discreta e pouco mais. Mr.Galway era o mais falador, de visita ao wonderful palace do seu conterrâneo, Mr. Cook, o visconde de Monserrate, a fama duns jardins mais belos que os da Babilónia tiravam-no do Surrey, aventurando-se nos confins da Europa. Um fala-barato, pensou, com duas malas castanhas, o nariz avermelhado rematado por  lunetas redondas.
O countryside era gorgeous, salpicado de vinhas e pomares, paisanos em burros e mulheres trabalhando no campo. Uma só estrada, escalavrada, ligava a capital e o resort, famoso depois que o rei viúvo e a sua morganática condessa por lá passaram a morar parte do ano. Posta uma hora de viagem, a primeira paragem, num lugarejo poeirento chamado Porcalhota, tempo para apear e uma pausa de meia hora. Catherine chamou por Maude, a criada, e saindo por uns minutos, aventurou-se a experimentar um deslavado capilé que boçais aguadeiros vendiam junto a uma árvore, junto à carruagem, campónios vendiam cestos e atoalhados, queijadas e fruta fresca. Os demais passageiros também saíram a refrescar-se um pouco, uma hora mais e chegariam, felizmente Sintra seria mais fresca, arrefecia à noite, haviam dito em Lisboa.
Retomados lugares na carruagem, só M. Vendôme tardava, a comprar fruta para o seu petit chou. Mr. Galway acabou comprando um cesto de vime a um camponês, muito étnico, comentou, divertido, transportando-o com algum cuidado. Alguns momentos passados, a princesa Cyrllovitch pareceu a Catherine irritada, chamando em russo por um valete que seguia na 2ª classe. Depois de alguma agitação, que atrasou a saída, soube-se que desaparecera uma gargantilha dum estojo da princesa, trazida propositadamente para a recepção no Chalet da Pena. Não havia polícia por perto, chocado, Mr. Galway aproximou-se, limpando o suor:
-Que coisa horrível! Como é possível que num lugar onde apenas viajam cavalheiros e pessoas de bem aconteça uma coisa destas? Isto é pior que Constantinopla, I say!
Catherine aproximou-se da princesa, a acalmá-la, enquanto Cosette e M. Vendôme ajudavam a reconstituir os passos dos vários passageiros durante a paragem. A não ser que algum larápio tivesse vindo da 2ª classe, de cuja porta o revisor nunca se tinha afastado, só entre um deles poderia estar o ladrão. Intrigada, perguntou ao médico se dera por algo estranho, mas este, enterrado num tratado de farmacopeia, nada vira, só queria era chegar a Sintra, que o burro para o Arraçário ainda levava meia hora. Curiosa, Lady Jackson reparou que Mr. Galway tentava encobrir com as pernas o cesto comprado minutos antes, parecendo nervoso.
-Mr. Galway, está com medo que lhe roubem alguma preciosidade egípcia? -ironizou, sagaz.
-Well, eu…, não, não Lady Jackson, foi lapso dos seus olhos, por certo, a claridade destes países do Sul altera a sensibilidade da vista, sabe, eu…
-Está assim porque o senhor roubou as jóias da princesa, n’est-ce pas? -atalhou M.Vendôme de rompante, apontando-lhe a bengala e encostando-o contra a janela.
-What? How dare you!- Galway ruborizou como um tomate, visivelmente nervoso.
-Un moment! Sou Claude Vendôme, da polícia francesa, messieurs!- apresentou-se, tirando delicadamente o chapéu - e esta é a minha colaboradora, mademoiselle Nadine. Este senhor frente a vós, é nada mais nada menos que Walter Pickwick, um conhecido ladrão de jóias inglês. Desde Paris que lhe vimos no rasto!
Todos pasmaram e até o Dr. Gregório momentaneamente parou a leitura do compêndio. Parecia um teatro da R. dos Condes, pensou. Vendôme pegou no cesto de vime e abrindo-o, por baixo dum lenço, lá estava a gargantilha. A princesa suspirou de alívio, enquanto o valete do príncipe Cyrllovitch de imediato imobilizou o inglês com uma arma.
-Mas como pôde aperceber-se de tudo, caro senhor? -perguntou o príncipe Vladimir, num francês irreconhecível - se saímos todos ao mesmo tempo da carruagem?
-Aí é que está, Excelência. Quando saímos, reparei que discretamente o senhor Galway ficou para trás, e num ápice sacou da jóia e lançou-a pela janela, para um descampado do lado oposto ao da gare. Uma vez lá fora, comprou o cesto, recolheu a jóia discretamente, e entrou ao mesmo tempo que os outros com o souvenir na mão, dando a ilusão de ter estado sempre com o grupo. Ninguém suspeitaria! Ele sabia da visita dos príncipes a Sintra, e é conhecida a riqueza das jóias da princesa, a suposta amizade com o senhor visconde de Monserrate afastaria qualquer suspeita sobre si!
-Mas diga-me, senhor Vendôme, e como soube que ele tinha a jóia com ele? -questionou Lady Jackson.
-Quando saímos, segui-o, simulando ir comprar fruta para a Cosette- alias Nadine- e vi-o recolher a gargantilha e ainda ter tempo de tomar um capilé de limão com os outros. Voilá!
-Fruta que não chegou a comprar, pois não, senhor Vendôme? - Lady Jackson, perspicaz, também desconfiara de Vendôme, pois a dita fruta nunca entrou na carruagem. Era ela quem devia ser polícia, pensou.
Em Sintra, onde D. Fernando e a condessa d’Edla aguardavam os príncipes, Galway, aliás Pickwick, foi conduzido à cadeia. Mais tarde seria transferido para Lisboa, e depois para Paris, escoltado por Vendôme e Nadine. Lady Jackson, passadas as peripécias, lá se deleitou com Sintra e seus pitorescos vales. Mais tarde deixaria as suas impressões num livro que o seu editor entregou para traduzir a um tal Camilo Castelo Branco. Gregório de Almeida viria a ser um dos mais respeitados médicos de Sintra, pai dos pobres e filantropo. O Larmanjat, esse, duraria ainda mais doze anos, rasgando a planície aos solavancos, com  paragens em que empoeirados viajantes se saciavam com capilés de limão e comprando cestos de vime.