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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Saídas à irlandesa

O léxico político doméstico incorporou novas expressões produto da conjuntura deletéria em que desde 2011 e sob a égide dos nossos "parceiros" o país se encontra.
A realidade é esta: no money, no funny, como dizem os americanos, e acabado o dinheiro da troika teremos de ir aos mercados buscar mais. A questão é: a que preço? Entre os 3,5% dos "amigos" ou os 5% dos "mercados", não será melhor continuar aninhado sob a égide do tal programa cautelar? Um laivo patriótico e quixotesco apontará para a saída de cara lavada, de bom aluno e exemplo para a Europa, para exibir como caso de sucesso nas eleições de 25 de Maio. Nisso apostará a "Europa" de Bruxelas e a troika, a tal saída à irlandesa, sem programa cautelar e entregues aos mercados, que, amigos, nos emprestarão a 2% e a 3% agradecidos por termos feito o "ajustamento" que fez de Portugal o "caso de sucesso" que hoje é...
Mas não parece ser essa a vontade do grupo a que chamam de Governo, como ontem entre ditos e desditos o aquilíneo deputado Frasquilho o atestou. Ir aos mercados é um risco, e o dinheiro fácil da torneira europeia um porto seguro. Daí que saídas à irlandesa, não sendo Bruxelas a impô-las, para autoglorificação das suas políticas e do funcionamento da "receita", da nossa parte só se for para uma Guiness ou procurar um trevo de quatro folhas. Que bem falta nos faz...
 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Stand up no Coliseu


Um país devastado pela crise, pelo desemprego, a emigração de jovens e até idosos. Um país com sem abrigo licenciados, reformados espoliados das parcas reformas, polícias endividados, professores sem colocação. O interior privado da presença do Estado, sem tribunais, freguesias, centros de saúde ou escolas primárias. E contudo, este fim de semana, no Coliseu, entre La Feria e a Solmar um grupo de pândegos adeptos da realidade virtual desfilou num alucinante e feérico festival de stand up, celebrando aquilo a que dantes se chamavam vitórias morais. Há 800.00 desempregados, mas o mês passado foram menos 200, estrondosa recuperação. 200.000 emigraram. E então? A deslocalização só prova o mérito de Portugal em exportar cérebros para enriquecer os outros a baixos salários. Ah, as exportações, aumentaram. E quando o consumo voltar, não voltam também as importações?. Depois, assistiu-se a nova revisão, não do acordo ortográfico, mas do léxico, onde desemprego significa oportunidade, corte cego se chama reforma, imposição externa se designa memorando e os agiotas parceiros internacionais ou "mercados".
Há quem diga que era um congresso partidário, mais pareceu um  brejeiro espectáculo de stand up. Um, a quem chamavam primeiro ministro, esforçava-se no papel de Calimero e do genro que nenhuma sogra desdenharia. Outro, o Quim Barreiros das Caldas, hoje emigrado em Loures, gabava-se da aliança com perigosos comunistas, antes ávidos devoradores de criancinhas.Chegado de avião cheio de malas com livros, e depois de baralhar a Segunda Circular, um tal professor Marcelo dizia que não vinha para se fazer ao piso, mas quiçá à estrada toda. Pelos corredores, carregadores de pianos de Alfarelos e Celorico abraçavam-se, celebrando a "recuperação", e em tal orgia de convalescença essa coisa esotérica chamada "milagre económico" que por estes dias o homem das cervejas e ministro da Economia anunciou urbi et orbi a um mundo rendido aos bravos tugas que, com menos dinheiro, menos emprego, menos população e menos recursos, lograram sair da crise, chefiados pelo  virtuoso Calimero e a passos largos, passos de coelho, cravejado pelas setas da oposição. Breve transporão o Rubicão, para se renderem à teutónica valquíria, que ao Calimero em passo de coelho recompensará com apetitosa cenoura.
Crise? Qual crise? No Coliseu de Lisboa, antes palco de circos e zarzuelas, foi este fim de semana apresentado um espectáculo de stand up tão original, inovador e bem disposto que breve deixará La Feria mordendo-se de raiva, por atávica falta de imaginação.Não vai mais nada para aquela mesa!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Contra a Guiné Equatorial na CPLP

Realiza-se este ano em Dili a Cimeira da CPLP, onde a questão da admissão da Guiné Equatorial estará em cima da mesa. Em 2010, este país descoberto pelos portugueses (antiga ilha de Fernando Pó)  instituiu o português como 3ªlíngua oficial do país, apesar de a nossa língua aí não ser falada, numa altura em que a entrada na CPLP esteve iminente. Em grande medida devido à intervenção de Portugal e, não obstante o apoio do Brasil e de Angola, isso acabou, porém, por não acontecer. Mas abriram-se portas.
 

Foram entretanto organizadas duas missões de observação (uma em Julho de 2011, outra mais recentemente) para monitorizar o progresso daquele país, depreendendo-se claramente que não houve quaisquer progressos no terreno desde 2010. O que houve foram alterações legislativas, fingindo suspender a pena de morte, que estão longe de ter melhorado a vida do cidadão comum. Do ponto de vista da introdução da língua portuguesa, prometeu-se estar para breve a abertura de um centro de língua portuguesa na capital do país, Bamako. Do ponto de vista político, foi prometida uma revisão constitucional que incluirá a limitação dos mandatos presidenciais. O país continua porém na lista negra da Human Rights Watch. Só que, a riqueza vinda do petróleo descoberto há poucos anos, pode passar um pano nesse “detalhe” agora incomodativo e abrir as portas ao regime do ditador Obiang.


O movimento "Por uma Comunidade de Valores", iniciativa inédita na história dos países de língua portuguesa que reúne centenas de organizações não-governamentais espalhadas pelos países da CPLP, escreveu já aos líderes dos vários países da organização, apelando à recusa da adesão da Guiné Equatorial, por considerarem que o país não cumpre requisitos mínimos em matéria de democracia e direitos humanos, além da população equato-guineense nem sequer falar o português. Na opinião dos subscritores, esta adesão à CPLP "não deve ser aceite sem que o país demonstre avanços claros na democratização das instituições, na defesa dos direitos humanos e na partilha equitativa das riquezas naturais".


Recorde-se que aqui em Sintra, o Grupo Local 19 da AI se destacou já em anos anteriores numa campanha pela libertação de alguns presos políticos, antigos membros do Partido Progressista da Guiné Equatorial (proíbido). Emiliano Pedro Esono Micha, Cruz Obiang Ebebere, Gumersindo Ramírez Faustino, Juan Ekomo Ndong e Gerardo Angüe foram detidos sem mandado em Março de 2008, devido à sua associação no passado a este partido, acusados de associação ilícita e posse de armas e munições e em Junho de 2008 sentenciados a seis anos de prisão. A Amnistia Internacional considerou-os prisioneiros de consciência, detidos unicamente pelo exercício pacífico do seu direito à liberdade de associação e reunião e condenados com base em testemunhos assinados sob coação.  


Florencio Elá Bibang e Antimo Abeso também estiveram entre os perdoados. Em Junho de 2005, foram raptados na Nigéria por responsáveis da Guiné Equatorial, com a conivência de responsáveis da Nigéria, juntamente com Felipe “Pancho” Esono, quando viajavam para o Benim. Os três foram depois levados para a prisão de Black Beach em Malabo e aí mantidos incomunicáveis durante vários anos.  Foram acusados da tentativa de derrubar o governo e julgados à revelia num tribunal militar em Setembro de 2005. Considerados culpados, foram condenados a 20 anos de prisão. Apesar de se saber que foram mantidos incomunicáveis na prisão de Black Beach, as autoridades negaram que estivessem detidos e justificaram a sua ausência no julgamento com o facto de alegadamente não se encontrarem no país. A Amnistia Internacional demonstrou a sua preocupação com o rapto, com o julgamento injusto e a tortura infligida a Antimo Abeso e Felipe Esono e fez campanha para que as autoridades reconhecessem a detenção, realizassem uma investigação ao seu rapto e tortura e para que os prisioneiros tivessem acesso a tratamento médico, às suas famílias e a advogados. Foram libertados mais 15 presos políticos ao abrigo do perdão, que tinham sido condenados em Fevereiro de 2004 a longas penas na prisão por alegada tentativa de derrubar o governo. Estes indivíduos foram também torturados para os forçarem a confessar.


Também várias mulheres foram detidas sem acusação ou julgamento desde Outubro de 2010, no seguimento da fuga de dois presos políticos da prisão de Evinayong.  Entre eles encontram-se Angustia Raquel Mangue Obiang, mulher de um dos prisioneiros que escapou, que está em regime de incomunicabilidade e que segundo relatos foi torturada; e Maria Auxiliadora Moyong, mulher do indivíduo que as autoridades afirmam ter conduzido o carro no qual os prisioneiros fugiram, e o seu filho bebé de 14 meses.


É este o país que, acenando às Mota-Engil, Teixeira Duarte e outras empresas se arrisca a entrar na CPLP, em nome da “diplomacia económica”. Se acontecer, a reputação da CPLP ficará seriamente abalada. Depois da inépcia em lidar com a questão da Guiné Bissau, e do relativo desinteresse do Brasil e Angola pela organização, mais não servirá que para alimentar alguns burocratas africanos e portugueses, vestidos em lojas de marca no centro de Lisboa, e fazendo da lusofonia uma realidade política irrelevante e completamente dispensável, não só no quadro bilateral como no contexto da comunidade internacional.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

80 anos do trágico desaparecimento de Brito Pais em Coutinho Afonso

António Jacinto da Silva Brito Pais nasceu em Colos, Vila Nova de Milfontes, a 15/7/1884. Ingressou na Escola do Exército em 1907, onde cursou Infantaria. Serviu no Batalhão de Caçadores 5 e na Companhia do Niassa, donde regressou por doença, em 1912. Obteve o brevet de piloto na Escola de Avord em 1917. Antes tinha combatido com a infantaria 15 do CEP, sendo condecorado com a Cruz de Guerra, a Torre e Espada e e Legião de Honra francesa. Com o fim da Grande Guerra, foi colocado no comando da Esquadrilha de Bombardeamento e Observação do Grupo de Esquadrilhas de Aviação "República". É aí que juntamente com Sarmento de Beires tentou a malograda ligação aérea à Madeira em 1920, com o "Cavaleiro Negro". Fez em 1924 o raid a Macau, com o mesmo Sarmento de Beires, e com Manuel Gouveia. Comandou ainda o Grupo de Aviação da Amadora, tendo vindo a falecer tragicamente, a 22 de Fevereiro de 1934, num choque em pleno voo de dois aviões Morane, em Coutinho Afonso, no Algueirão. Era tenente-coronel e tinha então 50 anos.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Unir as periferias para uma nova centralidade


Muito se fala das virtudes da lusofonia e do que a mesma pode significar num mundo globalizado, envolvendo povos com um passado comum e um futuro expectante. Contudo, da retórica da política à realidade das iniciativas vai muitas vezes a imensidão dum deserto, abafado pelo gongorismo da palavra vã e a anemia da verba parca em altruísmos para um português ora atlântico e a norte  ora açucarado e a sul.
Em Sintra, por estes dias, a Viagem que um dia outros portugueses intentaram vai ser feita sob a forma dum retorno uterino e fraterno a propósito da mais nobre das parcerias, a cultura, e a sua expressão mais viva, as artes de palco.
Pela mão do Chão de Oliva, Sintra vai abrir os  braços vetustos e odorizados pela Serra-Mãe, e com irmãos de outras geografias, familiares e cúmplices, fazer acontecer Cultura, incensar o Verbo que é nosso, e potenciar parcerias, na mais pura e eficaz forma de diplomacia que é a do reconhecimento do Nós, nestes dias de iniquidade.
Periféricos nos reencontramos, mas dessa constatação se poderá partir para a construção de novas centralidades, as da união em torno de fios condutores que aproximam os povos, enriquecem o Outro que enfim seremos Nós, criam novas rotinas e abrem caminhos que já antes foram percorridos e que a História recente ofuscou, confundindo identidades e desnorteando horizontes.
Vindos de Matosinhos ou Brasília, do Mindelo ou da Beira, durante doze dias nos unirá a palavra dita e a emoção declamada, a tonitruante experiência de outros palcos em lutas pela sobrevivência ou por uma legítima afirmação, e tudo sonoramente transmitido nessa língua que é de Pessoa e Craveirinha, Ondjaki ou Jorge Amado.
Em Sintra, terra onde diletantemente se enche a boca de Cultura mas a Cultura resiste na intermitência de iniciativas e avareza de recursos, o Chão de Oliva, pioneiro hoje como no passado, volta a dar o exemplo, e o seu  pequeno teatro, singelo e resistente, será por esses dias a ágora iluminada da língua na qual secularmente celebramos, sofremos e lutamos. Lá estaremos nesses dias de Março.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O antigo cinema Tivoli




O antigo cinema Tivoli, inaugurado em 18 de Fevereiro de 1928, hoje sede do Chão de Oliva, na R. Veiga da Cunha, em Sintra, abriu como cinema num sábado de Carnaval, e foi, anos mais tarde e durante muito tempo, utilizado como armazém e carpintaria. Da utilização inicial restaram alguns pormenores, como  o “lettering” na fachada, mas o estado de degradação tornou premente uma intervenção com vista à recuperação e reutilização para fins culturais. Como Casa de Teatro de Sintra, desde 1999, este espaço veio preencher uma lacuna no que diz respeito à inexistência de locais vocacionados para actividades culturais em Sintra.Carece porém de obras de ampliação, facto que em dia de aniversário não quero deixar de salientar neste espaço, para que Mestre Alvim e companhia possam continuar a apresentar bom teatro e a elevar a acossada actividade cultural de Sintra.

Acácio Barreiros, 10 anos do seu desaparecimento


Passa hoje o 10º aniversário do desaparecimento de Acácio Barreiros, um dos primeiros deputados da UDP em 1976, e antigo presidente da Assembleia Municipal de Sintra, lugar onde de forma serena e já lutando contra a doença acompanhou uma época que breve se constataria não voltar a repetir na anémica primeira década do século XXI.

Acácio Barreiros nasceu a 24 de março de 1948, em Cabinda, em Angola, estudou em Nova Lisboa, (actualmente Huambo), e depois de se mudar para Portugal frequentou até ao quarto ano o Instituto Superior Técnico de Lisboa. Durante esta época envolveu-se em lutas estudantis e ingressou na UDP (União Democrática Popular), partido da extrema-esquerda. Entretanto, abandonou os estudos e começou a trabalhar como bancário.

Em 1976 foi pela primeira vez eleito deputado à Assembleia da República, onde esteve até 1979, altura em que entrou em ruptura com a UDP e abandonou o partido. Pouco tempo depois, no início da década de 80, associou-se à Nova Esquerda, para logo de seguida ingressar no Partido Socialista (PS). Em 1983, depois de ter sido convidado por Mário Soares para integrar as listas de candidatos a deputados ao Parlamento, voltou à Assembleia da República. Nessa época dedicou-se a causas como a defesa do ambiente e a habitação para jovens. Quatro anos depois, em 1987, saiu do Parlamento.

Em 1989 foi o candidato do PS à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, mas perdeu as eleições.
Dois anos depois voltou como deputado à Assembleia da República, onde se manteve até morrer em 2004. No entanto, fez alguns interregnos no desempenho das funções de deputado, nomeadamente em 1999 quando foi empossado como secretário de Estado da Defesa do Consumidor do governo socialista liderado por António Guterres. Acácio Barreiros esteve no Governo até este cair em finais de 2001.
Entre 1993 e Janeiro de 2002 foi presidente da Assembleia Municipal de Sintra. Ganhou de novo este posto nas eleições autárquicas de Dezembro 2001, mas uma coligação dos restantes partidos impediu-o de ocupar o cargo.
Morreu a 18 de Fevereiro de 2004, vitimado por um cancro, numa altura em que era vice-presidente da bancada parlamentar do PS.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Procissão Interrompida



O infinito. Nele que se fixava o olhar perdido da Gracinda, os olhos baços de muitos dias chorados, em tempos esperançosos. Diariamente encetava a caminhada peregrina até ao café do Jimmy, carinhoso nome do Jeremias, novo no bairro e antigo universitário, sua única distracção na vida capturada pelas varizes e reumático. O marido partira há muito, com o filho na Suíça, oitenta lamurientos anos se arrastavam rua acima a ver passar os outros, que a vida por ela passara já.
Naquela terça-feira, mais uma das muitas e invernosas que com inclemência açoitam Sintra, pontualmente às três subiu a ladeira que conduzia ao café do Jimmy, e postou-se na cadeira do costume. O café era recente, não tão recente que não tivesse já criado hábitos, atraindo jovens a estudar e clientes a experimentar as tostas ou saborear o abafado. Além da Gracinda, a decana improvável, jovens haviam adoptado o espaço, que aos poucos criava  familiaridades, arrastando alguma fauna em transumância, ensaiando jam sessions, insegura no acorde mas puxada pela onda.
A Gracinda e alguns velhotes que, embalados pela guitarra dos putos, por vezes puxavam da voz já roufenha, emulando fados antigos, conferiam ao bar uma atmosfera felliniana. Ali, entre piercings e tatuagens, ícones de tempos novos e irreverentes, juntava tempo ao tempo que a custo passava, suspirando e sorrindo, um sorriso de outro século e outros tempos, hoje a sépia, rodeado de holográficos rostos, desaparecidos, deixando escapar a areia na ampulheta dos dias sem razão de ser senão esperar o dia em que se juntaria ao Armindo, há vinte anos já lá. Sentia esse dia próximo, ao subir a viela já mais de uma vez dera conta dele a seu lado, arrastando-se a caminho do café do Jimmy para ver a vida passar, já sem vida para passar.
O Jimmy sorriu à chegada da velhota, improvável cliente num bar de gente nova. Prestável, muitas vezes acorria a dar-lhe o braço, quando enfim, suspirando e despedindo-se várias vezes, voltava à casa vazia no fim da viela, numa procissão lenta e sincopada que invariavelmente fazia parar os carros para atravessar a estrada, em marcha lenta, recolhendo às memórias e ao retrato do Armindo, que tão cedo a deixara.
Na terça-feira, a Gracinda chegou cansada, mas mais do que o habitual. Saudou os presentes, com a voz entramelada, logo se acolhendo na habitual mesa de onde, urbi et orbi,saudava os passantes, que, achando-a patusca, lhe acenavam, ou tiravam uma foto até. Os olhos, habitualmente vivos e brilhantes, apesar dos anos, estavam nessa tarde mortiços e baços. Pediu um carioca de limão, e deixou-se ficar, mais silenciosa que o costume. O Jimmy, voltando ao balcão, achou-a menos expansiva, e meteu conversa:
 -Então, D. Gracinda, está tudo bem consigo?
 -Está tudo, meu querido, obrigado. Sabe, tive um sonho esta noite, credo, que me deixou cismada!. Imagine que sonhei com o meu Armindo, aqui sentado e a beber um abafado comigo, no fim, pagou a conta e saímos os dois até casa. Mas a meio do caminho ele desaparecia, deixando-me sozinha e sem nada em volta do braço, e eu, com náuseas, acabava caída, à chuva, sem ninguém perto para ajudar…
-Ora, D. Gracinda, não se apoquente, os sonhos nem sempre traduzem o que o nosso subconsciente pensa- asseverou o Jimmy, algum tempo num curso de Psicologia dava-lhe a autoridade para interpretar o sonho. Apesar de sentada, a Gracinda colocava-se na consulta do especialista, desviado para outras consultas, muitas delas balcânicas, passadas ao confessionário-balcão, ouvindo os desabafos em torno de providenciais abafados.
 -Pois é, pois é…isto está um frio, meu querido… hoje, acho que vou para casa mais cedo, como uma sopa quentinha e vou meter-me na cama, a ver um pouco de televisão. E levantando-se despediu-se com um aceno para os demais, enfiados nos computadores e na entropia dos headphones.
Como habitualmente, as artrites e o reumático deram parte de fraco e um dos jovens com um computador deu-lhe o braço, levando-a a atravessar a rua e deixando-a ao cimo da viela, onde só desceria os metros finais.
Nem dez minutos eram decorridos um burburinho pareceu vir do lado da viela da Gracinda. Curioso, Jimmy foi espreitar, seguido de alguns dos jovens. Três velhotas, com um ar alterado, rodeavam um volume, que não distinguiu o que fosse, talvez o cão da Telma, estava sempre a escapulir. Aproximando-se, o corpo da Gracinda jazia no meio da rua, de olhos abertos e sorriso nos lábios. Uma síncope fulminante interrompera a procissão a caminho da casa vazia, desta vez, longe demais. Rodeado pelos putos do café, Jimmy ficou em silêncio, cerebral nestas coisas, não lhe ocorreu nada para dizer, registando o rosto esbranquiçado da velha peregrina de dias vazios. Retornando ao bar, enquanto a sirene fazia anunciar a chegada da ambulância, e onde já um turista aguardava  um abafado, na direcção da Vila Velha, alheios à agitação que o sucedido trouxera à tarde invernosa, Jimmy viu passar um casal idoso de braço dado, de costas, um deles pareceu-lhe familiar. Curioso, foi-lhes no encalço. Já na Volta do Duche, serenos e felizes, lá seguiam a Gracinda e o seu Armindo, que enfim voltara para a buscar e juntos continuarem a Estrada que um dia juraram trilhar.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O grande nevão de 1944

Poucas vezes neva em Sintra, mas pelo menos por 4 vezes os flocos brancos cobriram a vila verde nos últimos anos, uma delas há precisamente 70 anos, proporcionando um espectáculo raro e belo. Algumas fotos:







sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sintra 2047


Sintra, 2047.O presidente da Câmara, Djaló Varela, quinta geração de cabo-verdianos da Tapada das Mercês, agora património mundial, saía dos Paços do Concelho no velho Sintra Fórum, para reunir com o novo ministro europeu da Economia. Lech Zibrinski despachara verbas para obras, e estaria em Lisboa nos dias 3 e 4.De TGV, a partir de Bruxelas seriam 4 horas, com paragens em Paris e Madrid, com ele e Diógenes Durão, o delegado para o distrito de Portugal, acertaria as verbas para o novo CICV de Sintra.

 
O concelho crescera, e chegara aos 700.000 habitantes, mais de metade de origem africana, abrira um canal de TV, o Sintra Sky Network, dirigido por Gustavo Facas, neto dum conhecido DJ dos anos 10, e o vereador dos media, Simeon Pereira, descendia de romenos radicados no Mucifal.

 
Varela era dinâmico e audaz. Antigo rapper, eleito através do velho Facebook com 2/3 de “gosto”, tinha projetos para o concelho: a Cidade do Cinema abriria em 2048, bem como a Universidade Cristiano Ronaldo, em homenagem ao comendador, agora com mais de 70 anos, proprietário do Praia Grande Hilton e dum resort de luxo na Pena. No plano desportivo, a fusão de todos os clubes desportivos originara o Sintra SAD, presidido pelo antigo internacional Nani, que finalmente disputaria a I Liga.

Com 50% de desempregados, designados pelas estatísticas como inativos orgânicos, criara um plano de reforma para aqueles que tivessem frequentado ao menos dez cursos de formação profissional. Mas o principal problema era a violência. Ganhara as eleições com a promessa de legalizar a violência urbana, desde que não se ultrapassassem cinco roubos por esticão e três assaltos por ano, considerados falta leve no cadastro digital. Apesar disso, todas as noites havia desacatos no metro Oriente-Mem Martins, obrigando à frequente intervenção da Força Ninja, recrutada entre veteranos da guerra de 2036 contra a Coreia do Norte, onde Portugal participara integrado no Exército Europeu.

 
O telemóvel ligou. Simeon anunciava que o busto do escritor Miguel Real estava terminado, e pronto para ser inaugurado na Volta do Duche. Contando milhares de downloads de e-books, era uma referência de Sintra, desde que em 2016 ganhara o Nobel da Literatura. Ali ficaria, ao lado do Memorial à Grande Hecatombe de 2011, quando Portugal caíra às mãos da troika. Sobreviventes das únicas duas freguesias de Sintra ali depositavam flores com frequência, exorcizando esses anos de fome e incerteza, em que 90% da população perdeu o emprego, e sobreviveu com o apoio humanitário do Ruanda e do Haiti.

 
Passados os anos, as coisas mexiam de novo, e com Varela, Sintra voltava a ser cool e progressiva. A imagem romântica em que se insistira no passado não pegara, e desde os anos vinte que se apostava nas indústrias criativas de base tecnológica, e em empresas startup, em Morelena e Negrais. Os call centers com videoconferência, os transgénicos de estufa, a par de fábricas de carros a biodiesel no Cacém, foram a base da retoma nos anos 20. Doces tradicionais como a queijada ou o travesseiro haviam desaparecido, substituídos por uma versão light sem açúcar e ovos, dentro do plano de combate à obesidade, que igualmente banira o courato, o hambúrguer e o ice tea, apostara-se no teletrabalho e na privatização dos serviços: o urbanismo era agora gerido por uma consultora de Macau, as obras municipais pelo consórcio Pires e Rodil, franchisado duma empresa de Taiwan, pelo que apenas restavam 70 funcionários em permanência, ganhando cerca de 300 yuans por mês (o yuan, antes moeda chinesa, era agora a moeda mundial, depois do estoiro do euro em 2015, com a intervenção do FMI na Alemanha). Até a justiça fora privatizada, e entregue por cem anos a uma holding de magistrados, a Isaltino e Associados, com sede nas ilhas Caimão e escritório em Lourel, nova sede da comarca.

 
Após a reunião com Zibrinski, e sob a sua presidência, finalmente Sintra teria um Centro Integrado para a Conservação da Vida-CICV, algo antes chamado hospital, uma empresa de saúde onde os doentes comprariam quarto e assistência em time-share, podendo trespassá-lo, após o tratamento e prévia liquidação de impostos. O acesso seria permitido após um chip do genoma confirmar a doença e a situação fiscal do candidato, e seria gratuito para todos que se houvessem reformado aos 90, e provassem viver em casa dos pais. Em 2060, finalmente terminaria a revisão do Plano Director, depois de 70 anos em análise, e a torre biónica da Adraga, com 1000m de altura e dez pisos de marisqueiras, enfim ficaria pronta. Então sim, o Admirável Mundo Novo chegaria a Sintra, pelas providenciais mãos de Djaló, e longe ficaria a memória dos terríveis anos 10, dos acampamentos de desalojados em Campo Raso, vítimas do furacão Gaspar, que em muito ultrapassara o terramoto de 1755, e da Grande Hecatombe, geradora da Guerra 2013-2018, entre inspectores das Finanças e milícias da Resistência.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sintra em "Os Maias"


Foi em Fevereiro de 1888 que deu à estampa no Porto uma das obras-primas da literatura portuguesa, “Os Maias” de Eça de Queirós. No capítulo VIII, Eça descreve o passeio de Carlos e Cruges por Sintra. Carlos procura Cruges na sua residência em Lisboa, mas vem a encontrá-lo na Rua de S. Francisco, casa da sua mãe, que lhe implora para trazer queijadas. Os dois partem em direcção à vila num break, e ao chegarem perto de Sintra, Carlos avisa Cruges que não se dirigem para o Lawrence’s, mas sim para o Hotel Nunes. No Nunes, encontram Eusebiozinho Silveira, obeso e viúvo, acompanhado por Palma Cavalão e por duas espanholas, a Lola e a Concha (‘um mulherão’). Palma demonstra um machismo profundo, e Eusébio mostra-se cobarde ao não admitir que trouxera Concha consigo para Sintra; esta sente-se furiosa com a sua atitude e sai da sala do hotel. Carlos fica desiludido por não encontrar a mulher misteriosa (que sabemos ser Maria Eduarda, mais tarde divulgada como irmã de Carlos) pela qual empreendeu aquela viagem a Sintra.

Na estrada que vai dar a Colares, o break passa pelo Lawrence’s, sem lhe dar muita atenção, partindo em direcção a Seteais, pois Cruges não conhecia Sintra muito bem e recordava-se apenas da imponência do palácio. Carlos recebe então um indício da aproximação da mulher que procura: ouve uma flauta, que o leva a pensar que Castro Gomes (suposto marido de Maria Eduarda, que toca esse instrumento) está perto. Passam pela cascata dos Pisões, quando lhes aparece Tomás de Alencar, o poeta romântico que fora amigo de Pedro da Maia, pai de Carlos, e que acede a regressar a Seteais com eles, recordando os tempos lá passados. Ao chegarem a Seteais Cruges sente-se desiludido com o que observa, mas Alencar começa a contar histórias e a recitar poemas que logo revitalizam a beleza de Sintra.‘Tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema…’. Carlos, Alencar e Cruges são abordados por burriqueiros, que levam as pessoas até ao Palácio da Pena, mas decidem partir primeiro para a Lawrence, Carlos decidido a perguntar por aquela mulher e Cruges decidido a conhecer o hotel.

Carlos recebe novos indícios da aproximação de Maria Eduarda: ao perguntar aos burriqueiros  junto ao Lawrence por uma família com as características pretendidas, recebe indicações de que uma senhora alta, com um sujeito de barba preta e uma cadelinha, se tinham dirigido à Pena. Ao decidir seguir caminho para o palácio, avista a família da qual os burriqueiros lhe tinham falado: ‘Era, com efeito, um sujeito de barba preta (…); e, ao lado dele, uma matrona enorme (…) e o cãozinho felpudo ao colo’. Mas não era ela. Abandonando os amigos, Carlos questiona o criado do hotel, que lhe diz que ‘… o Sr. Salcede e os senhores Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra…’, e de lá para Lisboa. O criado concede-lhe mais informações, como o facto de ter sido Maria Eduarda a apresar a partida, devido à preocupação com a filha, que ficara em Lisboa. Carlos cai num conflito interior e toma consciência da decadência para que está a ser arrastado por aquela paixão misteriosa: só a vira uma vez.

Alencar e Cruges encontram Carlos perdido nos seus pensamentos, e decidem jantar na Lawrence antes de partirem todos para Lisboa e o primeiro manda preparar o bacalhau à Alencar. Dirigem-se ao Nunes para pagar a conta, e reencontram Eusébio e Palma com as duas espanholas, a jogar à bisca. Às nove horas, ao luar, Alencar, Carlos e Cruges entram no break e partem para Lisboa, com Carlos frustrado por não a ter encontrado. Alencar é o único que parece algo contente, recitando poesia, enquanto Cruges se lembra então das queijadas para a mãe, esquecidas afinal.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Guardião de Tempestades

Passeava D. João III nas escarpas da Roca, promontório do Inferno que sempre o atemorizara, quando os relâmpagos sobre o mar aconselharam que recolhesse ao mosteiro, na Penha Longa, onde veraneava uns dias. Quisera o destino que dias antes morresse o infante D. Filipe, seu herdeiro, e de Espanha Francisco Lobo reportasse a morte da irmã, a imperatriz Isabel. Em permanente luto e dado à solidão, sempre que veraneava na Penha Longa, a cavalo percorria a costa ventosa, última fronteira do Reino. Pêro de Alcáçova Carneiro, que acompanhava o rei, com Rodrigo de Castro, aconselhou o regresso, viria chuva e anoitecia. D. João apeou-se e deixou que o vento lhe açoitasse a face, desafiando a zanga do Altíssimo, que despejava a fúria sobre o mar. Pêro benzeu-se, temente a Deus, escutando o som perturbador da Roca, e lembrou o terrível segredo do lugar, que seu pai lhe confessara em tempos do defunto D. Manuel:
-É bom que nos vamos, Majestade, a borrasca está perto, manda o Senhor que respeitemos os seus sinais de desagrado! Da costa devemos guardar distância…
O rei nada disse, sem espírito para argumentos. Assustado, e querendo ir rapidamente embora, o valido despejou medos e temores de tempestades passadas:
-Há quase vinte anos, foi Milão batida por relâmpagos assim, e todos pensaram ser o fim dos seus dias. Caindo um raio sobre a torre da fortaleza, onde se guardavam munições de artilharia, foi tal a destruição que até os alicerces foram arrancados, fazendo saltar as pedras, que despedaçaram pernas e braços. Dos duzentos homens, sobreviveram doze, sendo horrível o espectáculo das pedras lançadas a mais de quinhentos pés, vinte bois não as teriam conseguido levantar. Devemos temer, em dias como este!
Carneiro exagerava, com pressa em partir, divertido com o temor do secretário, o rei deteve-se à chuva. Lá em baixo, numa nesga de areia, peixes saltitavam assustados. Carneiro cerrou o fácies, qual arauto do fim do mundo, e continuou a arenga:
-E também em Brabante, no sétimo de Agosto de 1527, um trovão abalou Malines, de tal modo que todos pensaram ter a cidade sido engolida pelas entranhas da terra, deixando um insuportável cheiro a enxofre!
D. João mandou calar o fidalgo, mas este continuou a colorir de horror a narrativa, com o desejo de escapulir para a Penha Longa. D. João, porém,  achou que não confessava o que o preocupava:
-No tempo do templo de Hánon, na Líbia, Satanás fazia-se adorar em forma de bode,e juntou ali uma infinidade de tesouros - continuou. Porém, quando o rei Cambises da Pérsia enviou um exército para pilhar o templo, o chifrudo encheu o céu de turbilhões, trovoadas e trovões, matando cinquenta mil homens, sufocados e queimados. Há que temer quando ele ronda as escarpas, Majestade!
Rodrigo de Castro, segurando a montada, reforçou os temores de Pêro de Alcáçova Carneiro:
-Melhor seria que fossemos, sim. Não há muitos dias, houve notícias de um clarão na catedral de Siena ,quando o Santo Padre aí rezava missa, a todos deixando em pânico. A Deus o que é de Deus, Senhor! –rematou o fidalgo, benzendo-se.
El-Rei anuiu, e debaixo de chuva intensa tomaram a estrada da Penha Longa, o mar estava roxo e as ondas ameaçadoras. Já afastados, na praia, entre peixes voadores, uma besta desperta do sono com corpo de morcego apareceu à entrada duma gruta, tinha a cabeça coberta de escamas achatadas e umas asas descomunais. Diabólico, tinha por prodígio dominar os peixes, e instruí-los no afundamento dos navios que lhe invadissem os domínios. Poucos o haviam avistado, o fel que expelia sobre os incautos pescadores logo os cegava e deixava inférteis. Âncora ou arma, corda ou máquina, jamais puderam contra o monstro da Roca. Tendo dois dedos apenas, e escamas cobrindo as pernas, há muito tecia o destino dos mares, já Plínio descrevera a Tibério a existência na Ibéria desse monstro, que em noites de tempestade espalhava um canto lancinante, soprando por uma enorme concha e semeando catástrofes nos mares atlânticos.
D. João III chegou entretanto à Penha Longa, encharcado, e sob feroz borrasca, recolheu-se no mosteiro. Senhor do Oceano, grande rei do Ocidente, nada podia porém contra o desafiador monstro da Roca, Senhor das Tempestades e dos Mares Profundos.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aniversário da Base Aérea de Sintra

A Base Aérea Nº 1 (BA1) está localizada na Granja do Marquês, próximo da serra de Sintra.
As origens da Base Aérea Nº 1 remontam a 1914, após promulgação pelo Presidente da República Manuel de Arriaga, a 14 de maio, da lei que cria a Escola Militar de Aviação, com base em estudos efetuados pelo Aero Club de Portugal.
Esta escola, inicialmente construída em 1915 em Vila Nova da Rainha, foi transferida para a Granja do Marquês em 5 de fevereiro de 1920. Posteriormente, em 1928, viu o seu nome alterado para Escola Militar de Aeronáutica, até à sua extinção em outubro de 1939, altura em que passou a designar-se por Base Aérea Nº 1.
Foi, portanto, na Granja do Marquês que durante longos anos se formaram os pilotos e especialistas da Força Aérea, mantendo-se a BA1 vocacionada para a formação de pilotos, através da utilização das aeronaves Chipmunk da Academia da Força Aérea e dos Epsilon TB 30 da Esquadra 101.
Esta esquadra foi criada em 1989, após a extinção da esquadra 102 de Instrução Básica de Pilotagem (T-37), onde se formaram várias gerações de pilotos da Força Aérea e cuja patrulha acrobática "Asas de Portugal" tão condignamente a representou.
Na área da BA1 existem as instalações da Academia da Força Aérea (AFA) e o Museu do Ar.

Em 1925 aí eram usados 14 Caudrons G3, como o da foto,  para instrução básica, dada a sua robustez

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A tragédia do Dakota da Air France

A 1 de Fevereiro de 1947 ocorreu um acidente de aviação junto da Peninha, na Serra de Sintra.Um avião Dakota da companhia Air France embateu num dos cumes da serra de Sintra, devido a avaria no sistema de comunicações, tendo morrido 16 pessoas (11 passageiros e 5 tripulantes). Salvou-se um único passageiro, de nome Pierre Léonard, que foi socorrido por um popular  que o conduziu ao Hospital de Cascais.
O avião fazia o circuito Paris-Madrid-Lisboa, e partira de Bordéus às 12h 35m, sendo esperado às 16h50m em Lisboa. Foi pelas 18h, porém, que tendo descido abaixo dos 500m poisou no terreno de Rangel de Sampaio, proprietário da Peninha, fazendo sulcos na terra e indo bater num talude, após o que se incendiou. O piloto foi projectado e 15 dos passageiros e tripulantes faleceram, entre os quais alguns artistas franceses dum agrupamento afamado na época, os Ars Rediviva

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