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domingo, 29 de setembro de 2019

A Quinta do Cosme

Juan Francisco Affaitatti, de Cremona, fixou-se em Lisboa no final do século XV, ligado ao tráfico negreiro, ao comércio do açúcar da Madeira e às especiarias. Foi armador da segunda frota que foi à Índia em 1502, e nos primeiros anos actuou como espião de Veneza informando-a dos descobrimentos portugueses. Entre 1508 e 1514, a troca de um contrato de pimenta, ficou obrigado a pagar as despesas das praças militares de África, das Casas da Suplicação e do Civil.
As suas origens são obscuras. Segundo alguma bibliografia, seria filho natural ou irmão do conde Ludovico de Cremona. Por sua vez, o conde de la Vauguyon afirma que o biografado era filho de um modesto negociante lombardo. Existiam mesmo rumores de existir sangue judaico nos Affaitati.A partir de Juan Francisco, encontravam-se entre as proles de mercadores que controlavam as rotas comercias entre o sul e o norte da Europa, sendo pioneiros no comércio de pedras preciosas. Antuérpia era a sede desses negócios que se disseminavam por outros focos mercantis europeus. Foi ainda no decorrer do século XV que João Francisco Affaitati se estabeleceu em Lisboa. Tinha a missão de informar Veneza sobre os resultados das expedições ultramarinas portuguesas, mantendo, assim, uma estreita relação com os representantes da Sereníssima na capital portuguesa, nomeadamente com Pietro Pasqualigo. Quando a frota de João da Nova regressou da Índia, Affaitati escreveu, com data de 10 de Setembro de 1502, uma carta a Pasqualigo, então em Madrid.
Nesse mesmo ano, Affaitati armara uma das naus que partiram rumo à Índia, acompanhando a segunda armada de Vasco da Gama. O seu feitor Matteo di Bergamo seguia nessa nau. Esta viagem foi-lhe particularmente lucrativa segundo revela numa carta escrita a 14 de Setembro de 1503 e dirigida a Domino Lucha e aos seus irmãos em Cremona: “de nostra parte sempre haveremo tante spiziarie vellerano zercha ducati 5000, et lo capital fo ducati 2000, pocho piú […]”.
Dedicado ao comércio de especiarias, estabeleceu negócios com os cristãos-novos Francisco e Diogo Mendes. Entre 1508 e 1514, os Affaitati e os Gualterrotti, por concessão de D. Manuel, tinham o monopólio da venda de especiarias nos Países Baixos, período durante o qual fizeram contratos no valor de 117 004 880 réis. Juntaram-se a esse contrato outros mercadores italianos, os Fugger e os Welser. O sobrinho Gian Carlo Affaitati e o genro João Carlos Doria eram os seus representantes em Antuérpia.
A 10 de Junho de 1513, D. Manuel renovou por mais um ano o contrato em que Affaitati se comprometia a comprar dois mil quintais de pimenta, por ano, à coroa. Segundo um outro alvará desse mesmo ano, o mercador encontrava-se obrigado a carregar a pimenta para o Levante sem poder vendê-la em Lisboa. Em 1525, João Francisco assinou um contrato com o rei sobre a compra de 13 mil quintais de pimenta a 34,25 cruzados o quintal, 400 quintais de cravo a 50 cruzados, 700 quintais de canela a 65 cruzados e 2 mil quintais de gengibre a 30 cruzados.
Affaitati negociava também no açúcar da Madeira. Em 1502, em conjunto com Jerónimo Sernigi e João Jaconde arrematava trinta mil arrobas de açúcar destinadas a Águas Mortas, Livorno, Roma e Veneza. Dois anos depois, celebrava um contrato para a compra de 3500 arrobas e, em 1512, um novo contrato para a compra de seis mil arrobas de açúcar. Passados quatro anos, arrematava os quintos e os dízimos sobre o açúcar branco, contratos que repetiu em 1518, 1520 e 1521, estes dois últimos anos em parceria com Janim Bicudo. Entre 1502 e 1529, comercializou 177907,5 arrobas de açúcar da Madeira, notabilizando-se como o maior negociante desta mercadoria durante aqueles anos.
A sua fortuna e os seus negócios tornaram-no credor da coroa. Em 1509, o rei ordenava que lhe fossem entregues 8283 arrobas e 5,5 arráteis de açúcar em pagamento de diversas dívidas. Num mandado de 28 de Abril de 1528, a rainha ordenava que se pagasse a Affaitati 512400 réis que tinha em dívida.
Dada a prosperidade dos seus negócios, desfrutava de uma posição social privilegiada, similar à dos florentinos Sernigi e Marchionni. Foram-lhe mesmo confiados privilégios semelhantes aos que tinham os mercadores alemães.
O prestígio da família continuou com os seus descendentes. Após a sua morte, quem ficou a representar os interesses dos Affaitati em Portugal foi o genro e sobrinho, João Carlos Dória, o qual se casara com a sua filha Lucrécia. Em Carvalhal do Bombarral, construiu um solar conhecido por Solar da Quinta dos Loridos .
Nunca se chegou a casar, embora lhe sejam conhecidos seis filhos: Cosme, Agostinho, Inês e Madalena Affaitati, filhos de Maria Gonçalves, cristã-nova e fanqueira; Lucrécia e Antónia Affaitati, filhas de Branca de Castro, cristã-nova de Setúbal.
Através dos enlaces matrimoniais dos seus filhos, Affaitati consolidou a sua rede de influências e a sua posição social. Cosme e Agostinho Affaitati, casados com D. Maria de Vilhena e D. Maria de Távora, e de Inês Affaitati, esposa de D. Leonardo de Sousa. Agostinho foi trinchante-mor de D. João III.
Cosme, aportuguesado Lafetá, será o comandante das forças portuguesas na tomada do morro de Chaul, na Índia, em 1540. Francisco de Andrade, nos Comentários, apresenta-o como«general da nossa gente de guerra em tôda a costa do Norte com muitos poderes, que o Viso-Rei lhe dera, um fidalgo de grande ânimo e conselho chamado Cosmo de Lafetar”
Cosimo Affaitati, por volta de 1540 também, construiu no sopé da Serra de Sintra, junto a Colares, um palácio renascentista, numa altura em que  havia já adaptado o apelido de Lafetá. Quem de Galamares siga para Colares, na estrada nacional, quinhentos metros depois encontra um sítio a que os locais chamam Quinta do Cosme( foto abaixo).Cosme era Cosimo, e o palazzo jaz em ruínas, apenas restando uma fachada consumida pelo tempo,  classificada como de interesse concelhio mas ao abandono. Quando forem até à praia, detenham-se um pouco e recuem quatrocentos anos, e aí poderão imaginar Juan Francisco e Cosimo Affaitati, ou Lafetá.
Foto de Pedro Macieira

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Globalistas e Patriotas

Na sessão de ontem da Assembleia Geral das Nações Unidas confrontaram-se duas perspetivas do nosso mundo  claramente antagónicas. Por um lado, os defensores, como Trump, dum mundo isolado, olhando o vizinho de soslaio, para quem o Outro é um estranho, um rival ou um inimigo, chamando de patriotas aos que negam a integração num mundo cada vez mais interligado, seja pelos problemas, como os do clima, do comércio ou da internet. Ou  os seus sequazes tropicais, como Bolsonaro, negando ser a Amazónia um pulmão património da Humanidade e tão só um problema brasileiro. Para ambos, a presença no principal areópago da comunidade internacional é como participar numa reunião de condomínio onde se vai exigir o pagamento da quota pelos condóminos,  mas se adia a realização das obras necessárias, com gradual degradação do imóvel.
Ao contrário, e muito oportunamente, Marcelo Rebelo de Sousa habilmente desmontou no seu discurso este falacioso argumento. O patriotismo implica ser orgulhosamente igual entre iguais, ecuménico e atento, caminhando COM e não APESAR DE. 
As desigualdades criadas pela globalização desregulada levam os países a fechar-se sobre si, e os profetas de grandezas passadas a ganhar ascendente prometendo o regresso ao soberanismo bacoco e a um mundo great again. Só o medo do Outro, num mundo desregulado e onde a abundância prometida pelos baby boomers se revelou ser finita e sujeita a choques e confrontos alimenta estes cantos de sereia. O mundo de hoje não se compadece com as aldeias de Astérix, até porque a poção mágica está a acabar, e já não são só os gauleses quem teme que o céu lhes caia em cima da cabeça.
Ser patriota hoje é assumir que o mundo é só um, os problemas são globais e sermos individuais e diferentes tem de ser a forma como contribuímos para a soma positiva, e não para a subtracção em capacidade de mobilização, visão de futuro e possibilidade de triunfo. Já não há "orgulhosamente sós".


terça-feira, 24 de setembro de 2019

A serra enquanto redenção


Visitar Sintra não é só realizar um mero roteiro cultural, impõe-se, sobretudo, como uma experiência sensorial. Importa ao visitá-la, ver as pedras para lá das formas, ouvir e deixar-se inebriar pelo silêncio, esse direito não consagrado nos códigos, encetar um regresso à terra e ao solo húmido e orvalhado. Ali pairam os fantasmas de improváveis faunos, líricas condessas e nórdicos príncipes numa ópera dos sentidos, ali se capta o imenso e melodioso cântico que só o silêncio propicia.
Em Sintra são inesgotáveis as palavras por escrever, as esculturas por esculpir e os sonhos por idealizar, por entre a parafernália do clorofila e odor. Apressados visitantes não verão os etéreos faunos, mas eles lá estão, tocando flautas de Pã, não verão gamos e bambis, mas traquinas pulam no bosque, bebendo nos lagos, não verão fadas, igualmente, mas felizes esvoaçam sobre a Pena, até uma holográfica Elise espreita do alto das pedras atlantes, e sorri. Em Sintra é preciso sentir, para então ver, e só então se passará para Shangri-La, paraíso de melódicas sinfonias de verde onde os deuses plantaram o seu Jardim.
Em Sintra, a felicidade é possível, primeiro como aguarela, depois como emoção, em catártica e eterna redenção.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sintra e as alterações climáticas

   Foto: Pedro Macieira, Rio das Maçãs


O tema do clima está na ordem do dia com cada vez maior premência, levando a que na próxima semana de novo os líderes mundiais se voltem a sentar, para discutir documentos jurídicos que de pouco servirão se os grandes poluidores não se esforçarem no terreno para contrariar a carbonização e o aquecimento global.
Entre nós, o tema entrou na agenda política, alternando entre o catastrofismo e o disparate, alimentando modas e novos clichés mais para alimentar as redes sociais que para inverter a tendência no terreno.
Até Sintra, o tradicional Delicious Eden das sombras frescas e da brisa amena se verá confrontada no futuro com uma realidade que por ora se estranha, mas má será se vier a entranhar-se.
Em Sintra, segundo o "Plano Estratégico do Concelho de Sintra Face às Alterações Climáticas" em tempos coordenado pelo prof. Filipe Duarte Santos, antevê-se que em meados do século XXI as temperaturas médias anuais subam1.7 a 3.3 °C, com maior ênfase no Verão (3.6ºC a 5.4°C em julho) do que no Inverno (0.7 a 1.6 °C em dezembro). No final do século a elevação da temperatura média anual pode chegar a 2 a 3°C acima do que são atualmente no Inverno e 5º a 10º C no Verão, com ondas de calor mais frequentes e noites tropicais em que poucas vezes a temperatura descerá abaixo de 25º C. A precipitação média no final do século baixará de 800 mm para 540 a 700 mm e a radiação solar aumentará até um máximo de 8%.
Haverá reduções anuais no escoamento dos principais cursos de água na ordem dos -30% em meados do século e -50% para o final do século, e para os aquíferos é de esperar uma diminuição da capacidade de exploração sustentável. O impacto no rebaixamento do nível nos aquíferos será ainda modesto, menor que -0,5 m, mas para o final do século já alcançará máximos de -0,7 m no final do semestre húmido, e -0,8 m no final do semestre seco.
O consumo de água dos sintrenses, agora da ordem de 80 m³ entre 2020 e 2030 será 3% a 15% acima dos valores atuais. O nível médio do ar continuará a subir, com cenários de 0,2 m a 1,4 m para o horizonte de 2100.
Fenómenos de precipitação intensa irão promover a erosão das arribas, e a modificação do regime das ondas associada às alterações climáticas deverá aumentar a deriva litoral e, portanto, o potencial de transporte de sedimentos, predominante para sul, em até mais 20% em relação à situação atual. A configuração das praias aponta para reduções da superfície dos areais, embora muito variáveis de praia para praia. Nas mais encaixadas e instaladas em desembocaduras fluviais, a redução será pequena. Pelo contrário, as praias mais abertas, estreitas e limitadas pelo lado de terra por uma arriba, como a do Magoito, que são extremamente sensíveis à rotação do rumo das ondas, devem perder grande parte do areal.
Os cenários colocados pelos autores do estudo sugerem um aumento do stress ambiental na vegetação florestal. O stress hídrico poderá tornar as árvores mais suscetíveis e aumentar os danos causados pelas pragas e doenças.
No futuro aumentará também o risco de incêndio florestal e a deterioração dos ecossistemas florestais pela dificuldade de regeneração das árvores e pela proliferação de espécies invasoras mais competitivas e melhor adaptadas às novas condições climáticas.
Prevê-se o aumento da incidência de pragas e doenças, assim como o risco de invasão por novas espécies de regiões de clima tropical ou subtropical. É também muito possível que as taxas de crescimento de pragas e doenças sejam estimuladas pelo aumento da temperatura, sobretudo quando têm a possibilidade de ter várias gerações por ano.
O aumento das temperaturas no Inverno, quando acompanhado por humidade elevada, poderá favorecer a expansão de alguns agentes patogénicos, modificando a estrutura e composição da vegetação, com consequência para a restante biodiversidade: a fauna seguirá os destinos do seu habitat e a comunidade de insetos sofrerá com as alterações climáticas, uma vez que são animais de sangue frio.
Algumas populações, especialmente aquelas que têm distribuição geográfica limitada, pequenas áreas de habitat ou reduzido número de indivíduos (como o cravo-romano, o feto-de-folha-de-hera, o miosótis-das-praias ou a boga portuguesa), poderão não ter capacidades para se adaptarem às rápidas alterações climáticas, e a sua extinção pode ocorrer em populações com baixa taxa de reprodução e capacidade de dispersão.
Dentro dos mamíferos o grupo dos morcegos é o mais vulnerável, dada a dependência do seu metabolismo com a temperatura e a sua dieta depender da comunidade de insetos.
Os cenários indicam que em finais do século as ondas de calor serão um fenómeno frequente, afetando grupos mais sensíveis como as crianças e os idosos. O problema do ozono poderá persistir e agravar-se pelo menos até meados do século, e o número de dias propícios a salmoneloses na região de Sintra aumentará dramaticamente no Verão.
O risco de transmissão de doenças por insetos subirá em todo o concelho. Mesmo no Inverno o clima passará de totalmente desfavorável a ocasionalmente favorável. O Verão continuará de forma geral a ser a estação do ano mais favorável à transmissão, embora em meados do século o clima se torne tão seco que o risco começará a diminuir.
As alterações climáticas em Sintra vão no sentido de aumentar a produção de pólenes ao longo de todo o século, agravado pela diminuição da precipitação que promoverá menos a limpeza da atmosfera. A radiação solar aumentará significativamente, e como o número de dias confortáveis para atividades no exterior aumentará, tudo se conjugará para um maior risco de melanomas.
Apesar da vasta área florestal do Parque Natural Sintra-Cascais (3675 ha), o valor anual de sequestro é de cerca 53 500 toneladas de CO2, ou seja, da ordem de 2% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos sintrenses (âmbito total). Segundo os autores do estudo, no caso específico de Sintra, duas estratégias surgem como as mais adequadas para sequestro biológico de carbono: o aumento permanente da área florestada e do número de árvores de arruamento, e o aumento da duração média das árvores com vista à meta de longo prazo de sequestro de 8% das emissões de GEE.
Estima-se que o índice de emissões totais (estritas e implícitas) per capita seja da mesma ordem do valor médio nacional, ou seja, 8 toneladas de CO2 eq./habitante. No entanto, este valor pode ser reduzido se houver uma generalização das energias renováveis, edifícios mais eficientes, melhores transportes públicos e mais ciclovias.
Sintra faz parte desde 2015 do consórcio que irá desenvolver a metodologia do projeto ClimAdaPT.Local para aplicação a nível nacional das estratégias municipais para as alterações climáticas, sendo uma da uma das autarquias que já têm estratégias próprias para os seus territórios. O tempo urge, porém, e o que até há pouco eram profecias catastrofistas boas para filmes de ficção, pode efetivamente descambar num panorama sem retorno. Há que tomar medidas no terreno, desde já, alertando os peritos que 2030 pode ser o ano em que se nada for feito, se poderá dar a batalha como perdida.
Como alertava um famoso programa televisivo de Luís Filipe Costa nos anos 70, inspirado nos então premonitórios avisos de Gonçalo Ribeiro Telles, “Há Só Uma Terra”.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Hoje quero ser reacionário


Confesso. Gosto de carne, de vinho, e ainda mais duma imperial fresquinha, como sandes de courato à porta do estádio do meu clube e adoro leitão e arroz de pato, gosto de Mozart, Leonard Cohen, Eric Clapton, Sérgio Godinho, Ivan Lins e de música celta. Não sou gay, nem vegan, nem marialva, nem racista. Não fumo charros, não gosto de trance, gosto vagamente de hip hop e regaton. Também não sou apreciador de touradas (divirto-me mais quando é o toiro a perseguir os forcados), nem de novelas lamechas, de fotos idiotas no Instagram, da música da Romana ou das piadas do Fernando Rocha. Mas convivo com isso tudo, até com o José Castelo Branco, a Cristina Ferreira, o Marques Mendes ou os clubes de futebol rivais, ciente que há espaço para a diversidade, excepto quando alguém quer acabar com ela. Convivo com os que acham que a Venezuela de Maduro é uma democracia, que Salazar foi o Midas das Finanças, que o Benfica é o melhor clube do mundo ou que o Padre António Vieira foi um perigoso esclavagista. Sem deixar de pensar como penso, oiço, assimilo e mantenho-me nas convicções que julgo serem certas, sem veleidades de estar sempre certo ou já ter nascido quando outros ainda eram projetos de embrião.
Há porém modas que se tornam idiotas, e comportamentos da moda que ganham estatuto não pelo seu mérito, mas porque se tornaram "virais". As greves climáticas resolvem o quê, tirando um dia sem aulas a acumular o lixo dos cartazes nas ruas ao fim do dia? Vamos passar todos de repente a andar de comboio e de bicicleta? Vamos combater o uso do plástico em manifestações para onde levamos garrafas de água (de plástico…)?
A esta altura quem me lê já me catalogou como “cota” reacionário” e colocou no Index do pensamento desalinhado, preparando-se para me insultar com algum comentário idiota. É o paradoxo das novas ditaduras do pensamento único e das certezas que reduzem. Transmite-se, mas não se pensa, ou dialoga.
A virtude maior da natureza humana é a inteligência para viver em comunidade sem perder a individualidade, respeitar quem não pensa como nós, e exigir respeito por parte de quem não pensa. Tudo o resto é barbárie em versão android, onde a liberdade cede para a alarvidade, a tolerância para a jactância e falar de democracia se torna heresia. Paulatinamente, vamos esvaziando as ideias e ensaiando a cegueira, venerando gurus inventados nas redes sociais que se esvaem no final do dia ou quando deixam de ser novidade.
Deixemos de ser Dead Men Walking em luta por uma Guerra dos Tronos, a vida não é um holograma na Netflix nem uma mensagem de Whatsapp dentro dum pequeno eletrodoméstico hipnotizador, que qual Big Brother a todos arrasta para uma nova Nave dos Loucos, um mundo fake e salivante.  Acordemos!.

Parabéns, dr Sampaio!

Jorge Sampaio completa hoje 80 anos, durante os quais foi espetador e protagonista dos acontecimentos que marcaram a vida nacional entre a ditadura e a democracia. Neto dum oficial da Marinha, o comandante Fernando Branco, que construiu a sua casa de Sintra que durante quinze anos diariamente contemplei da janela do meu gabinete, e onde várias vezes o vi, passeando no jardim, filho conceituado médico Dr. Arnaldo Sampaio, de ascendência judaica pelo lado materno, desde os anos 60 se destacou como líder estudantil na célebre greve académica de 1962, e depois como advogado de presos políticos e opositor à ditadura. Após o 25 de abril, depois duma passagem pelo já desaparecido MES, foi líder socialista, presidente da câmara de Lisboa, secretário geral do PS e presidente da república, num período marcado pela Expo 98, o drama de Timor, o handover de Macau e a polémica demissão de Santana Lopes, em 2005. Sportinguista de sempre, viajado e cosmopolita, depois da presidência abraçou uma agenda internacional que passou pela Aliança das Civilizações, a luta contra a tuberculose e o apoio aos estudantes sírios expatriados. Uma vida de causas, um percurso de mundividências, um olhar humanista e preocupado sobre um mundo que quando assumiu a presidência vira já a primeira guerra do Golfo, a perestroika e a queda do muro de Berlim, e ainda veria o 11 de setembro, a invasão do Iraque e do Afeganistão. Foi, porém, Timor a grande causa nacional do seu período, num esforço do país em corrigir o que a inevitabilidade histórica não conseguiu controlar em 1975, fazendo desse processo a nossa “boa” descolonização, que depois da invasão indonésia em 1975, do massacre de Santa Cruz, da prisão de Xanana em Cipinang e do referendo de 1999 permitiu, numa corrente de solidariedade mundial, que Timor Leste fosse, enfim, a última parcela do império a trilhar os caminhos da autodeterminação e da independência.E todos nós acendemos velas, entoámos a canção de Luís Represas e nos emocionámos com o Nobel de Ramos Horta e Ximenes Belo. Por uma vez, o país estava todo do mesmo lado, em reconciliação com a História, que assim fechava a última página desde que se desembarcara em Ceuta num solarengo agosto em 1415.

Na serenidade dos seus oitenta anos, vividos intensamente, Sampaio é hoje um senador da República, um homem que viveu vários regimes e esteve presente em muitas lutas, escolhendo sempre a barricada da ética republicana e da luta pelo valor supremo sem o qual viver não vale a pena: a Liberdade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

As eleições enquanto reality show


Não sendo comentador político, mas não sendo apolítico, gostaria de aqui deixar algumas notas sobre o ato eleitoral de 6 de outubro, apontando algumas ilações que dele (e dos últimos atos eleitorais, em geral), em minha opinião se devem extrair.
Em primeiro lugar, ver se se confirma a consolidação da abstenção como fenómeno endémico e que veio para ficar, ampliada agora pelo alargamento dos inscritos a mais um milhão de residentes no estrangeiro, dos quais só cerca de 1 a 2% deverá votar. Não chega o argumento de que o fenómeno é já corrente nas democracias ocidentais, e, não deslegitimando de forma alguma no plano das regras os vencedores da noite, dá que pensar, e, apesar de sempre que ocorrem eleições se falar da necessidade de refletir sobre a abstenção e suas causas, a verdade é que contados os votos, deitados os foguetes e distribuídos os empregos ninguém volta a falar do assunto ou faz mea culpa, dando um contributo para a reversão da situação.
Os partidos em Portugal tornaram-se corporações de interesses e sindicatos de lóbis, divorciados da sociedade e agarrados a dogmas, capelas e clientelas, e aqui incluo até os ditos antissistema, no fundo também ela em busca de um sistema.
Toda a nossa cultura e praxis política carece, porém, de ser alterada, a começar nas mentalidades, algo difícil, pois até os jovens que se envolvem na política acabam por corporizar e encaixar no discurso dominante e suas representações formais, reproduzindo tiques e mimetismos das gerações anteriores e promovendo a cultura de fação, apesar das novas roupagens e recursos supostamente irreverentes e modernos, mas no fundo em tirocínio para mais do mesmo.
A causa para este estado comatoso deve ser procurada essencialmente na sociedade blindada e supérflua em que nos tornámos, atávica no maniqueísta apontar dos bons e dos maus, reduzindo a política a um fait-divers ou concurso de simpatias e a um reality show em prime time. Tudo espetáculo, e contudo, com total ausência de discussão das escolhas ou real debate de ideias, se é que ainda há ideias, mortos que estão os Ideais.
A sociedade portuguesa é avessa e diletante no que a um profundo e cirúrgico debate de ideias efetivamente respeita, deixando o debate político nas mãos de dois ou três grupos de media politicamente engajados e veiculando uma opinião publicada que nem sempre traduzem a verdadeira opinião pública, permeável ao tilintar de sound bites e chamando política às folclóricas arruadas que anunciam a chegada do circo à cidade. Daí que, instalado e larvar, o novo rotativismo vá secando o país que pensa, que tem ideias, que quer inovar, qual eucalipto invasivo neste pinhal à beira-mar plantado, capturado pelos rituais tribais, a emulação dos chefes, a domesticação dos conversos e a frenética venda de realidade virtual. Esse país continua por aprofundar, com ou sem eleições, e só quando o ciclo das claques sem cérebro se esgotar (se alguma vez se esgotar) e todos, transversalmente, oriundos daquilo  que até há pouco se chamava esquerda e direita refletirmos seriamente sobre o que somos e queremos, poderemos começar então a tentar mudar este país na sua essência, forças e fraquezas, para lá da mera troca de rostos e protagonistas. Tarefa difícil, porém, aquela que vale a pena perseguir, por difícil ou ciclópica que seja.
Na liturgia do reality-show eleitoral, uns ganharão o poder, parabéns, outros perderão, para a próxima será, a verdadeira mudança, contudo, está ainda longe de ganhar nas urnas (se o voto é a festa da democracia é tétrico celebrá-lo em urnas…) pois enquanto tal revolução de ideias e comportamentos não ocorrer, o Portugal que quer e tem de mudar ciclicamente ficará entregue aos burocratas de serviço, esperando instruções de Bruxelas. Alguém porventura vê os partidos organizar debates aprofundados, sentar a massa cinzenta à mesa a discutir soluções, e ouvir, argumentar, pensar o país real, para lá dos brejeiros beijos às peixeiras, as arruadas ruidosas e os comícios (e bebícios...) de bifanas e febras durante infindáveis e esquizofrénicos dias?
Novos paradigmas precisam-se, auscultando a sociedade, deitando-a no psicanalista, aprofundando o diagnóstico. Não podem nem devem os sequiosos de mudanças ficar, porém, por aí ou mero protesto, nas acampadas folclóricas, nas greves climáticas ou nas páginas do Facebook. Mudar impõe uma atitude ativa, não por reação ao adversário ou sem saber para onde, arregaçando as mangas e interiorizando a verdadeira democracia virada para as pessoas e o seu anseio por felicidade e futuro. Esse o debate, essa a causa mobilizadora que a sociedade portuguesa ainda não levou a sério, sobretudo por tacanhez e fraqueza das suas anémicas elites, insistindo em não ver a floresta para além da árvore. Enquanto tal estado de coisas continuar, enquanto a forma se sobrepuser à essência, a abstenção e o divórcio dos cidadãos continuarão a aumentar e o país enfrentará o desencanto que perigosos chamamentos de sereia poderão um dia atrair para perigosos rumos.
PS- Esta não é a opinião de um pessimista. É a opinião de um otimista avisado.

domingo, 15 de setembro de 2019

O teleférico para a Pena

O rol de promessas feitas e nunca cumpridas é coisa de sempre e não só de hoje, como o famigerado teleférico para a Pena, várias vezes anunciado e nunca concretizado.
A título de nota histórica, mais uma promessa, desta feita conforme transcrição do jornal (já desaparecido) “A Voz de Sintra” de 18 de Janeiro de 1958. Era director Paulo Carreiro e redactor principal José António de Araújo.
“Numa reunião do Conselho Municipal, realizada na passada quinta-feira no edifício do antigo casino, foi resolvido, por maioria de votos, criar o teleférico para o Palácio da Pena, uma velha aspiração e cuja execução se ficará devendo ao espírito dinâmico e empreendedor do senhor Dr. César Moreira Baptista, ilustre presidente da Câmara de Sintra. Assistiram a essa reunião, alem do senhor Presidente e dos membros do Conselho, Dr. Arnaldo Sampaio, Engenheiros Seisal e Ricardo Graça, Eduardo Frutuoso Gaio, Manuel Dias Pereira  e Olegário Joaquim Maria, o chefe da secretaria, senhor José António de Araújo, vereadores Prof.Dr. Joaquim Fontes, Rui da Cunha e José Maria Tavares, e os presidentes das Juntas de Freguesia de S. Maria, S. Martinho, S. Pedro e Colares, respectivamente senhores António Rovisco de Andrade, João Barradas, Mário Lage e Dr. Branco Guerreiro.
O senhor Presidente do Município, ao abrir a sessão, explicou largamente e com sólidos argumentos as vantagens que trazia para Sintra a criação do teleférico, não só do ponto de vista turístico mas também no económico, pois convencia-se que o número de 120 mil pessoas que visitaram o Palácio da Pena no ano passado subiria a mais do dobro se houvesse um meio de transporte acessível.
Dada a palavra ao senhor Eng. Seisal, este argumentou que não concordava com a criação do teleférico nem com o local de onde o mesmo está projectado partir, pois, a seu ver, ele iria prejudicar a beleza da paisagem da serra.
O mesmo ponto de vista defendeu também o senhor Dr. Arnaldo Sampaio, mas sobre o assunto pedia licença para se abster de votar.
Seguidamente falou o senhor Eng. Ricardo Graça, para dizer que gostava muito de Sintra e que, para a sua sensibilidade, achava que o teleférico em nada prejudicaria as belezas naturais da serra, dando por isso o seu voto favorável.
O senhor Eduardo Frutuoso Gaio manifestou-se também favorável à criação do teleférico, o mesmo fazendo os vogais Manuel Dias Pereira e Olegário Joaquim Maria.
O senhor Rovisco de Andrade, presidente da Junta de S. Maria, como intérprete de muitos paroquianos, pediu ao senhor Presidente da Câmara para que fosse criado o teleférico, uma obra que virá valorizar extraordinariamente Sintra e que é a aspiração de todos.
O senhor Dr. Moreira Baptista rebateu a argumentação contrária à criação do teleférico e pôs o assunto à votação, verificando-se cinco votos favoráveis e dois contra, pois o Dr. Arnaldo Sampaio também votou desfavoravelmente, por não lhe ser permitido, por lei, abster-se, como era seu desejo.”
Até hoje. 

sábado, 14 de setembro de 2019

Comentadores na idade das dores

Nos dias que passam é corriqueiro e quase inevitável falar mal de tudo e de todos. A maledicência está promovida a patologia, ampliada pelas sarjetas sociais que são os veículos de "comunicação" disponibilizados na Rede, e não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento, creio mesmo que sem ela, a sensação de orfandade será tão grande quanto o nosso sadismo colectivo. Desde Alcácer Quibir que assim é, é endémico. O certo é que vamos estando (aliás, em Portugal, país do gerúndio, não se vai , vai-se andando ...)
Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm certas elites e certa opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional é marcado pelos vencidos da vida de várias gerações, desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literáriamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumem como profetas da desgraça, (os optimistas chamam-lhes "visionários...). Quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles, premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers. Quem são os mais convidados e “respeitados”? Os que autofagicamente anunciam a “piolheira” dum país povoado por “indígenas”, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, o "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é exactamente "lá". Já Almada dizia que o pior de Portugal eram os portugueses, e eles aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas tudo com"eles".
Leia-se Vasco Pulido Valente, por exemplo, e veja-se qual o contributo positivo desse profeta da desgraça para melhorar o estado das coisas. Profeta, claro, depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas, entretanto, nada viu e nada avisou.
Entre nós, as veneradas elites pensadoras são sobretudo elites faladoras, e sobretudo maldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e nisso,  pouco ou nada mudou desde a fuga de D. João VI para o Brasil e o ciclo de declínio que se seguiu. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos, apesar de sermos o país que nasceu com o filho a bater na mãe. Somos uma matriz da civilização ocidental e um berço de culturas, (eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendêssemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta e fazendo planos para a floresta que não seja atear-lhe fogo?
Temos a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente.Com crise ou sem crise, os povos não acabam, apesar de poder suceder como nos vírus da gripe, com o tempo estes degenerarem noutros, com novas roupagens e atitudes, e a geração que abriu o século XXI poder vir a sair mal na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento. 
Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte". E aos velhos do Restelo, uma temporada nas termas não faria nada mal.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Quando deitar beatas não dava lugar a multa

Sinal das mudanças ocorridas na nossa vida colectiva é-nos dado pela leitura de alguns regulamentos municipais mais antigos. Um exemplo é Código das Posturas Sanitárias de Sintra, datado de 1970.


Assim,era punido com multa de cem escudos( cinquenta cêntimos) “fazer alarido”, “cantar, tocar e fazer descantes ou serenatas depois das 22 horas”, “arrastar pelos pavimentos latas e outros objectos, provocando ruídos”, “bater carpetes e tapetes entre as 8h e as 23h”. Igualmente se um cão incomodasse com uivos ou latidos a vizinhança, ficava o dono sujeito a multa, desde que os vizinhos provassem com duas testemunhas já o terem advertido.


Igualmente era punido deitar-se nos bancos de jardim ou nos arrelvamentos e lançar pedras às árvores, lavar ou fazer barrela, catar ou pentear pessoas. Nos Santos Populares podiam fazer-se fogueiras, desde que a 1m do lancil dos passeios, e as estradas não fossem alcatroadas.


Isto além duma criteriosa regulamentação dos lavadouros e chafarizes para uso público, dos talhos e do apascentamento de animais dentro das localidades. A divagação de galinhas, por exemplo, dentro das localidades, dava direito a multa de cinco escudos por cada animal, burros e vacas, 20 escudos cada.


Também a rega de plantas era proibida entre as 8 e as 23h, e cuspir na via pública era punido com multa de 80 escudos.
Em tempos de multas para as beatas no chão, um sorriso amarelo para um mundo menos ecológico, mas, certamente, mais biológico...

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Cidadania e Sentimento de Nós

Estimular a cidadania ao promover a educação e as boas práticas para a defesa do Património deve ser tarefa de todos ao serviço do interesse colectivo. Com a vida moderna, as memórias do passado e a diversidade criada pela natureza têm vindo a ser destruídas ou adulteradas sistematicamente. Não se respeita a história (as tradições e as obras das gerações anteriores) nem a natureza (os ecossistemas na sua diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma ideia da riqueza do que foi produzido, para que sobrevivam amostras dos valores produzidos pela natureza ou pela história, é necessário defender esse legado contra a miopia cultural ou devassa inconsciente. O processo de reconhecimento do valor do património por parte da sociedade no seu todo, é tarefa urgente que deve ser incentivada na senda da cidadania pró-activa e na construção de uma prática colectiva de respeito pelos bens patrimoniais (materiais e imateriais) que nos cercam.
O valor que atribuímos aos locais, objectos ou memórias é decorrente da importância que lhes atribui a memória colectiva. E é esta memória que nos impele a desvendar o seu significado histórico, valorizando-os como traço de união com o futuro que é já hoje. É possível e necessário um desiderato que permita e exija a participação cívica e que gere o envolvimento da sociedade com os bens patrimoniais e naturais que são a nossa Herança Comum.
A educação deve primar pelo desenvolvimento de acção pedagógica que valorize os bens patrimoniais formando uma consciência visando a sua preservação, compreensão e divulgação, como instrumento de alfabetização cultural, através do diálogo cultural com outros e de processos de sensibilização, sacudindo  as mentalidades, cultivando a sensibilidade inter-cultural e a consciência necessárias à formação de  um novo paradigma. De certa forma, consagrando um novo Direito/Dever do Homem.
Este processo pode interagir com o ensino formal (escolas), e o não formal (comunidade, actores culturais, associações culturais ou de defesa do património etc). A cultura tem de ser transmitida propiciando a possibilidade de manter a própria identidade. É a alma dum país expressa através de saberes, celebrações e formas de expressão do povo, “materializados” no artesanato, nos costumes das comunidades, na gastronomia, nas danças e músicas, festas religiosas e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cénicas e lúdicas, seja em espaços públicos, populares, colectivos ou religiosos.
É imperioso que as escolas se empenhem nesta missão, levando os alunos aos locais degradados para os sensibilizar sobre o que ali existiu e ainda pode vir a existir, contar a História, seja do grande guerreiro seja da simples lagartixa ou do doce conventual, impregnar o desejo de ver o património recuperado, incentivar o voluntariado cultural para a vigilância da natureza e civismo (evitando graffittis, piqueniques selvagens, passeios de mota selvagens ou despejo de detritos, p.e). Esse o desígnio e tarefa dos actores sociais e culturais, na Escola ou na Sociedade, e das associações ao nível local. Porque não visitar a Sintra das ruínas e dos monos, consciencializando e formando jovens para serem cidadãos e autênticos Guardiães do Património?
Nesse sentido, o processo de ensino e aprendizagem pode tornar-se um instrumento no despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade para com a sua preservação, indo ao encontro do pensamento de Paulo Freire, na busca de uma  atitude  que capacite o educando na escola ou o cidadão  na sua rua ou cidade a compreender a sua identidade cultural e a  reconhecer-se  de forma consciente nos seus valores próprios, aumentando o seu "sentimento do nós". A postura que tomarmos diante do ambiente em que interagimos transforma-o, propiciando a nossa própria transformação. E para tanto, torna-se necessário interagir pela percepção do que o outro nos possa revelar e fornecer em conhecimentos e costumes, saberes inatos que nos servirão de material para a comunicação do nosso saber. Aprender e Defender o Património é também fazer Portugal.


Por fim, e materializando o atrás descrito, uma proposta e um desafio: porque não criar e promover núcleos de defesa do património envolvendo autarcas e sociedade civil e funcionando ao nível das juntas de freguesia, de modo permanente, informal e interventivo? Uma ideia a desenvolver.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Torres de Setembro

Dezoito anos depois,todas as teorias da conspiração continuam válidas no que ao 11 de Setembro respeita, o que é adensado por nem um suspeito ter sido capturado vivo, não ter havido sobreviventes para contar a história de nenhum dos aviões (com o voo 93 envolto no maior mistério), os vivos nunca terem sido julgados e o alegado mentor ter sido abatido quando podia ter sido capturado e julgado. Quem esconde o quê e porquê? Porque se esqueceu o mundo dos detidos de Guantanamo quando é tão ufano a condenar a Venezuela, o Irão ou a Guiné Equatorial?
A história do 11 de Setembro está por fazer, e de concreto permitiu sobretudo as intervenções pantanosas no Iraque e Afeganistão e a emergência dum clima securitário em que todos passamos a suspeitos num pathos que um destes dias conduzirá à obliteração da democracia e dos valores da afluent society com que nos acenavam os baby boomers.E assim por paradoxal que pareça, a era da comunicação se vai tornando na era das cortinas de desinformação, das verdades construídas e da usura democrática. Quando desabaram as torres, também todo um mundo imaginado desabou deixando a nu uma perturbante sensação de coação.

Setembro



Setembro com surpresa trouxe de volta o Verão perdido, bafejando de dias quentes almas amornadas por quotidianos duros, embora sob o zumbido de palavrosas campanhas eleitorais. As escolas reabrem, ruidosas e alegres, as folhas amarelecem, ameaçando cair, como autómatos, clientes entram e saem das compras, apressados, compulsivamente olhando para os telemóveis. É o país do faz de conta, na mão de ilusionistas estafados, aflitos clamando por um milagre ao fim do segundo ato, que obvie um terceiro, de morte e sem glória. E as segundas iguais às sextas, a meia de leite da manhã, os jornais com manchetes da crise, os golos marcados e os penalties roubados, a necrologia, a ver quem deixou de fumar. E mais um escândalo, doméstica violência irrompendo das gretas da alma, um despedimento, um gritar catártico na secretária ou balcão, no autocarro ou no médico. É da Europa, salivam especialistas em generalidades. É estrutural, alvitra um ex-ministro, com reforma dourada e piedoso com os pobres. No jardim, putos rasgam os ares com acrobacias de skate, adultos sem skate derrapam nas esquinas da vida, vidinha apenas, anémica e perigosa. Lê-se a opinião publicada para se ter opinião, há culpados, e os culpados são “eles”. “Eles”, sacrossanta tríade do nosso descontentamento, “eles”, que roubam, conspiram, tiram partido, servem-se. “Eles”, que são o corpo alienígena, possuídos mutantes e criaturas esfaimadas, adamastores de gravata e ogres de notebook, justiceiros de pecados por expiar.
Setembro levou a praia e devolveu a cidade. Asfixiante. Com coisas demais para dinheiro a menos, propinas a mais para livros a menos, cirurgias a mais para órgãos a menos. O costume. Nas notícias desfila a galeria dos horrores chegados e a chegar, e as certezas dum amanhã perturbantemente perturbador, levada a alegria inocente nos oníricos dias da Expo. Assim és hoje, Portugal, velha corista de lantejoulas estafadas, apagadas que foram as luzes da ribalta.
Uma romena pede esmola, trespassado que foi o lugar a um mendigo morto de cirrose ou solidão, alheios, miúdos atafulham-se em pizzas e cola, velhos de todos os Restelos ocupam os bancos de jardim, no areópago do povo, esconjurando tudo, e sobretudo o tempo. O tempo que não conta com eles, e onde se limitam a passar o tempo.
Em Setembro ontem tombaram torres, e, desafiadores, bispos fizeram xeque ao rei. Não caiu, que os cavalos tomaram o tabuleiro, mas as regras mudaram, e Setembro mudou. À vindima das uvas sucedeu o pisar dos protestos, é Primavera nas mesquitas e logo virá fogo incontido ardendo nas cidades da Europa alagada de refugiados da esperança, náufragos da humanidade, do Inferno de lá. Por cá, a cidade lusa promete mudar, ou talvez não, envolta na parafernália dos debates, do plafonamento e das pizzas com pepperoni. No quiosque dos jornais compram-se desgraças matinais, recebidas com torcer de nariz, valem as páginas eróticas, oferecendo ninfas a cinquenta euros ou a foto de mais um rosto que deixou de fumar.
As árvores decepadas cresceram, crescem sempre, vingando o corte, altivas e ondulando. Zelosos, polícias de colete amarelo fazem por deixar os condutores de sorriso mais amarelo ainda, no quotidiano jogo de gato e rato, terminado como sempre na costumada multa e no miar dos gatos. Deus criou o mundo, previdente, o homem urbano criou a multa. Teria Deus licença para exibir maçãs, cobras e homens nus na via pública? Coima garantida, asseveram os de amarelo, se multar pudessem esse tal Deus infrator…
Diminuem os dias. É bom. Menos horas cedidas ao spleen, menos multas, a serra exalando um cheiro a húmus em cada matinal despertar. Concentrado, um varredor recolhe os primeiros vestígios do Outono que se espalham nas ruas e nas almas, cumpridas as orgias de verde, folhas que foram de Verão e de Primavera.
Os deuses do Sul preparam a Viagem, deixando aflitos seres de regresso às cavernas, sem alegorias, assustados, passarão luas até regressarem, deixados a si próprios e ao Inimigo: “Eles”. Com sorte, alguns sobreviverão, portadores da esperança e da seiva fecunda numa renovada Primavera. Outros, tombados com as folhas de Setembro, e nos setembros que se vão seguir, provavelmente não, a romena continuará a pedir esmola, alegres miúdos comerão mais pizzas, circunspectos polícias aplicarão mais multas. Os jornais trarão novas capas, renovados, os rostos continuarão esculpidos pelos tempos e por eles marcados, como marca de água. É Setembro também, no lento adeus ao Sol em anacrónicas terras do Sul.