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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Parques de Sintra: abrir a nacionais aos domingos todo o dia


Tem vindo a Parques de Sintra-Monte da Lua a praticar uma política permissiva quanto ao acesso dos visitantes munícipes de Sintra aos domingos de manhã, iniciativa, que, sendo meritória, se tem revelado contudo insuficiente, tendo em vista a plena fruição pelos residentes dos bens culturais Património da Humanidade de que Sintra é depositária, e a dificuldade de muitos agregados familiares, jovens, sobretudo, de conhecer a sua Memória e Herança, num quadro marcado pela predominância dos visitantes estrangeiros, e por uma política de ingressos que, sendo porventura adequada, frustra os fins de plena fruição cultural para que tais espaços vão sendo recuperados.

É sabido serem os monumentos nacionais visitados em maior número por estrangeiros, os quais representaram em 2012 85% das entradas, tendo, igualmente segundo números de 2012 referentes ao todo nacional, 69% dos visitantes pago um ingresso de entrada, enquanto 31% entrou de forma gratuita, e sendo que 19% das entradas gratuitas corresponderam à categoria das visitas aos domingos e feriados.

Contudo, verifica-se que se vem a registar uma diminuição significativa dos visitantes nacionais, derivado do facto de ser exíguo o horário praticado (apenas as manhãs de domingo), quando em muitos outros espaços igualmente com elevados encargos de conservação esse horário cobre períodos mais dilatados. Cite-se o Museu do Prado, em Madrid, que abre gratuitamente de 2ª a sábado das 18h às 20h, e domingos das 17h às 20h, ou o Museu Rainha Sofia, igualmente em Madrid, que abre gratuitamente nas tardes de sábado (das 14h30m às 21h) e domingos de manhã (das 10h às 14h30m).

O direito à fruição cultural está no artigo 27º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos artigos 13º e 15º do Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Deve pois envidar-se todos os esforços para que todas as pessoas participem na vida cultural e acedam aos bens culturais, como forma de acesso à educação e à cultura, devendo de acordo com o nº2 do artº 78º da Constituição da República Portuguesa promover-se não só a salvaguarda e a valorização do património cultural, mas torná-lo elemento vivificador da nossa identidade cultural comum, o que só uma plena fruição traduzida no acesso aos locais e sua apreensão valorativa pode garantir.

Só pode criar cultura quem fruir da cultura, e o direito de acesso aos bens culturais deve compreender o direito de acesso ao património cultural (artigo 78º, nº 1 e nº 2, alínea a), 2ª parte, e alínea b), 2ª parte, e, em especial, artigo 72º, nº 1 da Constituição). Se é certo ser a PSML uma empresa que tem de racionalizar a gestão do património e actuar em conformidade com as receitas percepcionadas, é seu desiderato enquanto fiel depositária da parte mais nobre do Património da Humanidade de Sintra potenciar igualmente estes valores e objectivos, no que a dispensa de pagamento de entradas aos residentes em Sintra durante todo o dia de domingo significaria um passo relevante nesse sentido. Tal como tem sido política da PSML "abrir para obras", igualmente significativo será "abrir para mais". Esperemos por boas notícias.


 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

No regresso das tertúlias de Sintra


As tertúlias foram no passado importantes círculos literários e até políticos onde, à falta das modernas redes sociais, se discutia e perorava sobre tudo, tendo algumas chegado aos nossos dias como referências incontornáveis. Com base em cafés como o Nicola, a Brazileira ou o Café Gelo, pigmaliões e dandys, cultores da palavra ou tão só do escárnio, encontraram o púlpito virtuoso para a celebração da Liberdade e para combates que por vezes descambaram em querelas verrinosas escritas em tinta ensanguentada pelo fel, e outros líquidos menos ácidos.

Vem isto a propósito de saber se nestes tempos de paradoxal incomunicação, do asséptico Skype ou da silenciosa SMS, e em que o contacto físico é quase estranho, há espaço para as tertúlias e para o diálogo sem ser em chat. Por mim, bisneto de Vérlaine, Rimbaud, William Blake, Baudelaire, Henry Miller, Kerouac, William Burroughs ou Charles Bukowski, contínuo a preferir reuniões de seitas vivas, por vezes reunidas para celebrar poetas mortos, mas que, redentoramente aí renascem, vaporizados pelo espirito grupal, pela sede saciada, e pela fraternidade libertária, filhos da fotocópia ou do fanzine, só da morte libertados após morrerem.

Sintra teve e tem tradição neste campo, passando agora 10 anos dum período em que, de 2004 a 2007, poetas, gente da cultura ou simplesmente boémios, se reuniram para ler e ouvir poesia, peripatética dança dos sentidos bafejada pela cintilante Luz lunar, e hoje, protestando em guturais poemas, quer voltar à Luz no promontorial refúgio que é esta Sintra que foi de Eça e das pipas de Colares. Há que desembainhar canetas, zurzir teclados, engrossar as vozes, para que a Cultura seja dos seus legítimos defensores e não de avaros tutores, abrindo portas, escancarando gargantas, fervendo o caldeirão das druídicas palavras, chamar os órfãos e dizer-lhes que os progenitores estão vivos e de volta.

Ontem Meninos d’Avó, hoje, qual Baltasar, regressados para a sua Blimunda, aí estão de volta os Poetas, veteranos e debutantes, abrindo o baú da vida e redescobrindo geografias de esperança,  holograficamente alterando futuros, assassinando passados, imperadores do caderno e pujantes reis da caneta.

Nas tertúlias se inventam palavras e se solta a magia que flui qual nocturno pirilampo. Para alguns, elas nada dirão, o segredo, cínico, ficará nas palavras que não foram escritas, mas tão só sussurradas. O verdadeiro poema é aquele que nunca escreveremos, mas todos julgaremos descobrir em qualquer frágil  papel branco. Escrever é gerir línguas mortas, aramaicos de lucidez, que muitos, dormentes e de fígados cansados, ousarão profanar, guardiães de silenciosos segredos.

Nas tertúlias se podem ainda desenhar mapas da liberdade em folhas ainda em branco, rasgar oceanos de ilusões, montanhas de desespero, ilhas de luz. É afinal disso que se trata: de viver a Liberdade. Como escreveu Paul Éluard:

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie

Je suis né pour te connaître

Pour te nommer

Liberté.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ser Charlie

"Não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira." 
Alcorão

Ser Charlie é lutar pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e à crítica responsável, com tolerância e respeito pelo Outro.
Ser Charlie é recusar a escravatura dos extremismos e do ódio racial, contra todas as formas de xenofobia, discriminação e cegueira.
Ser Charlie é saber rir com quem faz humor e ter a distância para aceitar a crítica, ainda que por vezes viperina ou mordaz.
Ser Charlie é lutar pelo Estado de Justiça e pela comunidade de homens livres, num quadro de proporcionalidade e delimitação de fronteiras onde a liberdade de cada um comece onde acaba a dos outros.
Ser Charlie é poder olhar em frente e não caminhar sob a ameaça do gatilho, seja ele das armas ou do excesso da arbitrariedade que só pode gerar espirais de violência e intolerância.
Ser Charlie é ter o vício benigno de ser livre e querer viver entre homens livres.
Como escreveu Renard, o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão. Não desistamos de prosseguir as nossas razões, individuais e colectivas. Só assim subsistirá Charlie.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo, a liberdade ensanguentada


Disse um dia Nelson Mandela: "Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos."


Os atentados à cultura e à manifestação do que há de melhor no ser humano, a sua criatividade e o sonho de tornar o mundo melhor não podem ficar reféns de loucos formatados numa visão redutora e maniqueísta do mundo, como no passado não ficaram após séculos de Inquisição, da noite hitleriana ou dos gulags soviéticos, pois sempre alguém iluminou o caminho intrépido da liberdade, que, como se viu logo após os atentados, uniu milhões pelo mundo fora, sabedores que é esse um bem inestimável, mesmo quando se deixam os seus inimigos porfiar e crescer em democracia e tolerância.
O caminho é fazer o Outro sentir-se mais um de Nós, integrá-lo na sua diferença e não olhá-lo como o inimigo numa nova Cruzada que só pode trazer de volta fantasmas de outrora, e será essa a postura moral que, com persistência e convicção devemos promover e trilhar.
Como escreveu um dia Bocage  Ah! Se a vossa liberdade / Zelosamente guardais, / Como sois usurpadores / Da liberdade dos mais?
 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A Cultura em Sintra em 2014- alguns destaques


Destaques Culturais em Sintra no ano de 2014, sem hierarquização:

-Os 80 anos do Jornal de Sintra, num esforço de sobrevivência de um dos mais antigos títulos da imprensa regional

- a peça “Corpo Mercadoria” na Casa de Teatro de Sintra, num notável trabalho de Susana C. Gaspar

- a 3ª edição do Periferias, cada vez mais marcante no espaço sintrense como encontro das culturas lusófonas, em 2014 com maior visibilidade e complementado por uma exposição de  marionetas asiáticas

- as 3 edições do Colóquio sobre Raul Lino, iniciativa do IADE, com particular realce para o trabalho de organização e divulgação de Rodrigo Sobral Cunha

- a peça “A Linguagem das Flores” na Casa de Teatro de Sintra

- o teatro popular dos Cintrões, com a peça “Desculpa Ó Caetano!”

-“Pedro e Inês” na Regaleira, levado à cena pelo grupo Byfurcação

- os 50 anos do agrupamento rock sintrense Diamantes Negros

- a abertura e dinamismo conferidos ao MU.SA, desde 17 de Maio
 

- o IV Encontro de História de Sintra, promovido pela Alagamares

-o 3º Festival Internacional do Improviso, no Centro Cultural Olga Cadaval

- a peça “Os ilusionistas” na Casa de Teatro de Sintra

- a 49º edição do Festival de Sintra

-a apresentação pelo grupo Tapafuros no Parque da Liberdade, da peça de William Shakespeare “ Sonho de Uma Noite de Verão”

- o certame Arabian Days em S. Pedro de Penaferrim

- o encerramento do Museu do Brinquedo, por imposição legal e falta de acordo entre as partes envolvidas

- a apresentação da peça “A História das Coisas” de Ricardo Pereira, na Sociedade União Sintrense

- a peça “O Som e a Fúria” apresentada pelo grupo teatromosca

- o reaparecimento do Jornal da Região, numa fase de anemia da maior parte dos títulos locais de imprensa escrita

- o Festival de Estátuas Vivas

- a apresentação da peça “Mulher Homem e Coroada” pelo Utopia Teatro no Centro Cultural Olga Cadaval

- a revitalização do Salão de Galamares, com apresentação de espectáculos de música e teatro num espaço há muito encerrado e agora revitalizado pelo grupo local e pela Alagamares

- o Festival da Nova Poesia
 

- a peça de marionetas “O Rei vai Nu” na Casa de Teatro de Sintra

- o lançamento do nº2 da revista digital Tritão, da Câmara Municipal de Sintra

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Perspectivas e perguntas para 2015

Em 2015 passarão 800 anos da assinatura da Magna Carta por João Sem Terra, 600 da conquista de Ceuta e da morte de D. Filipa de Lencastre, 500 da morte de Afonso de Albuquerque, 200 da batalha de Waterloo, 150 do fim da guerra civil americana e do assassinato de Abraham Lincoln, 100 anos da edição do primeiro numero do Orpheu, e do nascimento de personalidades como Edith Piaf, Anthony Quinn, Orson Welles, Mario Monicelli, Ingrid Bergman, Frank Sinatra, Arthur Miller, Saul Below, Roland Barthes, e o centenário da morte de Ramalho Ortigão. Igualmente 50 anos do desaparecimento de Winston Churchill, T.S.Elliot, Malcolm X, Nat King Cole, Le Corbusier ou Albert Schweitzer, bem como do assassínio do general Humberto Delgado. Destaque ainda para os 40 anos das independências em 1975 de Moçambique (25 de Junho) Cabo Verde (5 de Julho) S. Tomé e Príncipe (12 de Julho) e Angola (11 de Novembro).
Em Sintra, de assinalar os 90 anos da criação da freguesia de Queluz, os 80 da morte de mestre Artur Anjos Teixeira, os 70 da construção do Cine-Teatro Carlos Manuel, os 60 da inauguração do Hotel de Seteais, os 40 da inumação de Ferreira de Castro na Serra de Sintra e, sobretudo, os 20 anos da elevação de Sintra a Património da Humanidade, e da fundação do Real Massamá.
Dez perguntas para 2015, para conferir daqui por um ano:

1- Irá ser dado um uso adequado ao edifício do Museu do Brinquedo?
2- Estará a ARU da Vila de Sintra finalmente a operar?
3-Será em 2015 que se resolverá o problema do trânsito e estacionamento no Centro Histórico?
4-Será efectuado o restauro e devolvida à fruição pública a Quinta da Ribafria?
5-Haverá decisão sobre o funicular/teleférico?
6-Voltará a ser editada uma publicação cultural em suporte de papel dedicada à investigação e divulgação de artigos científicos sobre Sintra?
7-Será iniciada a reconstrução do Hotel Netto?
8-Conseguirá a Startup Sintra apoiar as industrias criativas no concelho de Sintra?
9-Teremos uma 50ª edição do Festival de Sintra reconciliada com o público e à altura da efeméride?
10-Como se irão assinalar os 20 anos da elevação de Sintra a Paisagem Cultural classificada pela UNESCO?