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sábado, 23 de maio de 2015

Sintra há 50 anos

Em 1965, Sintra vivia numa alegre pasmaçeira. Era presidente da Câmara D. António Corrêa de Sá, Visconde de Asseca, e a vida seguia pautada por eventos e "melhoramentos.


Américo Nunes venceu o Rali das Camélias, e foi criada em Vale Flores, S.Pedro, a fábrica da Inapa. “Que mulheres!” foi à cena no teatro do Sintrense, na Estefânea, e  voltou a organizar-se o Carnaval do Mucifal, sendo do júri Natalina José, Leite Pereira, Nunes Correia e Fernanda Baptista, entre outros. Alguma cronologia:
               Grupo de Arquitectos Paisagistas na Serra de Sintra 1965 autor desconhecido)
                       Àlvaro Ponce Dentinho, Gonçalo Ribeiro Teles, João Reis Gomes, Ilídio Figueiredo, Francisco Caldeira Cabral, Joaquim Elias Gonçalves, Edgar Sampaio Fontes, Artur Dinis Raposo
                  Ana M. Pais de Azevedo, Fernando dos Santos Pessoa, José Marques Moreira


Março


21-António Calvário e Paula Ribas actuam na Tuna Operária de Sintra.


Inaugurada a nova sede da Junta de Freguesia de Belas.


Nos Limpos, no Mucifal, decorre uma “Noite de Estrelas”, com José Castelo, Fernanda Baptista e Mariette Pessanha, entre outros.


Abre o Hotel Miramonte, em Colares, com gerência de José Alberto Araújo Pereira.


Abril


15-Tony de Matos actua no Colarense.


Junho


18-Vindo do Ultramar, é apoteoticamente recebido em Galamares Hélder José Martins, com homenagem no salão local.


27- O grupo cénico do Mucifal, dirigido por David Tomás, encena “Raça”.


Maria Rita Albuquerque Baptista é professora primária em Galamares.


Agosto


16-IX Festival de Sintra, encerrado pelo presidente Américo Tomás a 1 de Setembro com a actuação da The Natural Youth Orchestra, do Reino Unido.


Em Gondomar, Cipriano Raio sagra-se campeão nacional de tiro.


Descerrado no Parque da Liberdade um busto de Artur Anjos Teixeira, da autoria do seu filho Pedro.


Setembro


18- Pelo decreto 43920 Queluz é elevado a vila 25-Américo Tomás inaugura o Grémio da Lavoura de Colares.


25-Inaugurada a luz eléctrica na Assafora.


Fernando Moreira é maestro da Banda de Colares.


Dezembro


11- O Colarense promove uma noite yé-yé com os Diamantes Negros.


No reveillon do Hotel das Arribas actuam Toni de Matos, Mariema, e Humberto Madeira, apresentados por Armando Marques Ferreira.


23-Acidente ferroviário em Sintra com o choque de 2 comboios, um de passageiros e outro de mercadorias, provoca 18 mortos, entre a Portela e Mem Martins 


Neste ano abrem a estalagem Gruta do Rio, em Rio de Mouro, o Hotel de Vale de Lobos e o Hotel das Arribas, na Praia Grande


No Natal de 1965 abateram-se no matadouro de Sintra 116 reses, 4 cavalos, 129 vitelas 80 porcos e 415 borregos.

                                                   Court de ténis no Parque da Liberdade

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Orçamentos Participativos: Sim, mas não só

 
O orçamento participativo é uma figura recente, tendo as experiências iniciais em Portugal ocorrido no concelho de Palmela, sendo um mecanismo que pode permitir aos munícipes influenciar os orçamentos públicos, precedidos de assembleias abertas e periódicas, tendo em Sintra sido adoptado já pelo segundo ano pela União das Freguesias de Sintra, iniciativa que se saúda. Contudo, o esquema adoptado é ainda embrionário, e na fase actual permite apenas dar um “brinde” a alguns projectos ou grupos, com isso se esgotando a liberalidade orçamental. O orçamento participativo deve sê-lo para todo o conjunto de receitas e despesas, e com prévia e participada discussão das grandes opções, o que não decorre do actual modelo, que premeia um ou poucos bafejados por uma votação tipo concurso televisivo, com isso se dando a ideia de “participação” e auscultação da vontade popular. Orçamento participativo deve ser um corolário da participação cívica em todos os actos e projectos do governo da polis, não deixando a decisão apenas aos grupos políticos, que, se têm a legitimidade decorrente do voto popular, agem muitas vezes em função de estratégias partidárias, opondo-se ou apoiando não em função da bondade ou justeza da medida, mas do maniqueísmo próprio de ser sempre contra os adversários e sempre a favor dos correligionários. O conceito é interessante, mas não pode ficar pela disputa do “rebuçado”, num contexto onde a decisão de gastar umas migalhas das verbas públicas pode decorrer de sindicatos de voto ou de capacidade de mobilização. A favor, pois, do aperfeiçoamento dos mecanismos para com mais equidade este se concretizar também.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Pelas primárias para escolher os candidatos a deputados



As eleições primárias são eleições que servem para escolher o candidato (ou cabeça de lista) de um determinado partido às eleições presidenciais, legislativas ou locais. Nas eleições primárias, todos os cidadãos, mediante os critérios definidos pelo partido, podem votar, sendo ou não militantes do partido. Em Portugal, a experiência mais recente de primárias foi levada a cabo pelo Livre, de modo a escolher a sua lista e o seu cabeça de lista às eleições europeias, e pelo PS, na escolha do secretário-geral António Costa.

Lá fora, os partidos socialistas em Itália, França e Grécia (PASOK) também já usam o método das primárias para escolher os seus candidatos. O recente modelo de primárias do PS inspirou-se nestas experiências.

Este sistema tem várias virtudes:

-chama à participação pessoas que de outra forma estariam mais afastadas da vida partidária, com os seus rituais e liturgias, muitas vezes anquilosadas e assentes numa cultura de corpo e de manutenção de lugares anos a fio;

-permite que a sociedade civil interaja mais com os políticos e as políticas, refrescando a representação e trazendo novos temas para o debate;

-responsabiliza mais o futuro eleito, pela dupla sufragação em primárias e eleições, tornando a escolha mais filtrada, escrutinada e discutida.

Aproximando-se o processo legislativo em Outubro, creio que deveriam estar os partidos que já introduziram este critério na sua agenda política- porventura talvez não nos Estatutos…_ a desde já lançarem mão desta modalidade de escolha, fazendo da eleição uma decisão onde a palavra Escolha para além de semântica ser substantiva e coerente. Num sistema como o nosso, onde os candidatos saem do inner circle dos líderes e muitas vezes não são conhecidos do eleitorado, do círculo, ou até do resto dos militantes, tal traria uma saudável renovação, e já que a caixa de Pandora se abriu, que não se feche logo de seguida...


domingo, 10 de maio de 2015

Sintra e Ferreira de Castro




Falar de Ferreira de Castro é falar de Sintra, terra pela qual se apaixonou e onde passou largas temporadas, e onde para sempre repousa, depois de, por pressão de outro grande sintrense, José Alfredo Costa Azevedo, ter sido enterrado perto do Castelo dos Mouros, em 31 de maio de 1975, para a eternidade se ligando à sua terra de adopção.
Ligação que não passou só pela ligação física, ao manifestar a vontade de “ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros», mas também pela do seu espólio literário, a Sintra doado em 3 Abril de 1973, por influencia de Francisco Costa, destacado escritor sintrense, e então director da Biblioteca Municipal, e de Alexandre Cabral, que teve na Camiliana de Sintra um apreciável acervo bibliográfico e documental para o desenvolvimento da sua investigação. Sendo presidente da Câmara António José Pereira Forjaz, este, em carta de 10 de Abril de 1973, dirigida ao romancista, manifestou-lhe alvoroçadamente o seu júbilo pela doação, aceite pela Câmara a 18 de Abril seguinte, dum total de mais de vinte mil documentos, doravante acessíveis aos investigadores.
A Selva, o seu mais conhecido romance, foi publicada em todas as latitudes, havendo que juntar-se-lhe outras magníficas obras como Emigrantes, Eternidade, Terra Fria (Prémio Ricardo Malheiros), A Lã e a Neve, A Curva da Estrada, A Missão ou O Instinto Supremo, entre outras, além da literatura de viagens, como A Volta ao Mundo, de 1939. Foi por duas vezes proposto para Prémio Nobel de Literatura, e em França, obteve, em 1970, o primeiro Prémio Águia de Oiro, do Festival Internacional do Livro de Nice, atribuído por um júri internacional presidido por Isaac Singer.
O conto na obra de Ferreira de Castro surge logo nos seus primeiros anos de emigrante no Brasil, em 1912, quando trabalhou como caixeiro na região amazónica, tendo já nos anos vinte publicado os volumes de contos A Casa dos Móveis Dourados e O Voo nas Trevas.
Andrée Crabbé Rocha, ilustre professora de Coimbra e que foi esposa de Miguel Torga, escreveu um dia que o “conto casa-se bem com o temperamento português, feito de pronta emoção e rápida catarse”. Em Ferreira de Castro, a simplicidade e naturalidade corrente da linguagem, com a força da expressão dos sentimentos do homem comum, a sensibilidade perante a dor, a esperança no resgate da miséria e opressão, fizeram dele um escritor aberto às multidões, captando simpatia e adesão, percursor entre os autores que viram na arte uma missão social. É com limpidez que nos fala do homem sofredor, manifesta o seu amor pelos humildes e a confiança no futuro, devendo ser lido pelas novas gerações e relido pelas mais antigas, exemplo acabado do português pelo mundo repartido.
Em Ferreira de Castro sobressaem as descrições de paisagens, coloridas e densas, sejam as fragas e serranias do Norte, seja a exuberância inebriante dos trópicos, ou as pequenas cidades e vilas ainda com rosto humano, ao mesmo tempo que se assume como cirurgião de dramas, denunciante da exploração do trabalho, narrador da árdua luta pela sobrevivência, num fresco humano que, dando um panorama caleidoscópico duma sociedade desigual, nunca deixou igualmente de aprofundar a psicologia dos seus personagens e o seu sofrimento abnegado, figurantes dum mundo limitado e muitas vezes sem esperança, acordando as as consciências para o espelho da Vida.
A passagem de Ferreira de Castro por Sintra está documentada desde a primeira metade da década de 1940. No Hotel Netto escreveu parte da sua obra, e em Sintra se encontrou e veraneou com escritores como Jaime Cortesão e Mário Dionísio, em Seteais conheceu Stefan Zweig, pela Volta do Duche deambulou, deixando memórias hoje a sépia recordadas.
Homem do Mundo, soube entender os pequenos mundos que vivenciou, sofrendo, vivendo a vida, e no silêncio gritante da sua máquina de escrever ou do papel libertador cantar as serras beirãs e o império da Casa Grande e da Sanzala que moldaram o pathos de ser português.
A melhor homenagem que lhe podemos fazer é lê-lo, reeditar as suas obras e penetrar nas suas narrativas impregnadas de Vida, e, se possível, à sombra duma árvore no Castelo dos Mouros, o melhor lugar para  se contemplar o Mundo.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os 138 anos da Sociedade União Sintrense


A actual Sociedade União Sintrense, cujo primeiro nome era Real Sociedade União Sintrense, foi fundada no dia 8 de Maio de 1877 pelos ilustres sintrenses Silva Rosa, José Simões, Joaquim Barreto e Domingos dos Santos Silva, e coincidiu com as festas de Nossa Senhora do Cabo, que antigamente eram conhecidas como a Festa dos Solteiros.

A primeira sede da União Sintrense foi numa dependência do antigo matadouro municipal, que funcionou até cerca de 1847 no local onde é hoje o Palácio de Valenças, construído no fim do século XIX por Cinatti, e o primeiro regente da banda foi José Maria de Sousa, que era funcionário de uma escola agrícola em Coimbra, e em 1897 era Carlos António de Abreu contra mestre de banda marcial.

Em 1897 a sede da Filarmónica foi transferida para um barracão na rua Gil Vicente, junto da Igreja de São Martinho, e na esquina para as escadinhas de Briamante, onde funcionava também o Teatro Gil Vicente.

Naquela data a Sociedade orgulhava-se de ter como sócios o Marquês da Praia e Monforte, proprietário da Quinta defronte a Seteais, os Viscondes de Monserrate, o Visconde de Monsanto, o Conde de Fontalva, António Mazziotti, proprietário da Quinta Mazziotti em Colares, e ainda Andrelina dos Santos, proprietária da Quinta da Brasileira na Vila Velha, e o próprio Rei D. Carlos.

Em 1877 a direcção da Sociedade era composta por Joaquim Maria de Oliveira Cunha, primeiro comandante dos Bombeiros Voluntários de Sintra, que foi sempre reconduzido no cargo de presidente até 1897.O secretário era Carlos Augusto Ferreira e o tesoureiro Alfredo Pedro dos Mártires, barbeiro de profissão, que tinha a oficina onde é hoje a pastelaria Piriquita.

A terceira sede da Velha colectividade foi no largo da Caracota, na casa que tem hoje o nº 1. Depois, em data incerta, mudou-se para uma dependência do quartel de Infantaria, na Rua de Meca, quase defronte ao desaparecido Hotel Nunes, hoje Tivoli. Esta antiga sede foi demolida após 1910, bem como os quartéis de Cavalaria e Infantaria que rodeavam o Palácio da Vila até à Calçada do Pelourinho.

A quinta sede foi na dependência do antigo quartel dos Bombeiros Voluntários, que funcionava no antigo Museu do Brinquedo, na rua Visconde de Monserrate. Nesta sede, onde anteriormente também funcionaram os Paços do Concelho, ficava também a Associação de Socorros Mútuos. Nesta quinta sede da colectividade, embora sem palco. davam-se vários espectáculos de Ilusionismo e Teatro.

Mais tarde teve nova sua sede em baixo do Mercado da Vila Velha, construído em 1894, onde já possuía um amplo palco e sala, de tal modo que foi compartimentada, montando-se um bar e gabinete para a Direcção. Pela sétima e última vez a Sociedade foi transferida para o local onde antes funcionou o Cineteatro Garrett, na rua Maria Eugénia Reis Ferreira Navarro, no edifício onde ainda hoje está instalada.

As instalações foram compradas ao comerciante de Lisboa Ramiro Leão no dia 21 de Dezembro de 1936, pela quantia de 50.000$00.Era presidente Carlos Araújo, secretário José Azevedo, tesoureiro Silvino da Conceição, e vogais Joaquim de Almeida e António Nunes. Comprado com bastantes estragos, devido a um prolongado encerramento, foi recuperado devido a um grande número de associados que voluntariamente lá trabalharam até altas horas da madrugada.

Em fins de 1940 e princípios de 1941 constituíram-se em comissão Augusta de Carvalho, Beatriz Silvestre, Henrique Lima Simões e Rodrigo dos Santos Soares, e foi dela que nasceu a Noite das Camélias, com o patrocínio do Jornal de Sintra, e que tdesde então todos os anos se realiza no dia 19 de Março, dia de S. José. A primeira Noite teve lugar a 19 de Março de 1941, com a participação de Maria Almira Almedina, que escreveu um poema a pedido da comissão organizadora. Participou também a banda de Jazz Os Caprichosos, que animou a sala até altas horas da madrugada.

Desde 1941 que todos os anos a Noite das Camélias se organiza neste local emblemático da Vila de Sintra, hoje dinamizado muito graças à acção do actual presidente da direcção da Sociedade - Fernando Pereira.
 

domingo, 3 de maio de 2015

Razões de um escrevinhador





 Fotos: Pedro Macieira

Dia 2 de Maio, no Café Garagem, e perante cerca de 80 amigos, fiz a apresentação do meu livro "Histórias Com Sintra Dentro".
Escrever é como fazer um eletrocardiograma da alma, mas onde, ao contrário da vida, a arritmia liberta e a normalidade mata. Do viking Sigurd ao pombo Óscar, da geração hippie à geração hipster, pela escrita me aventurei inimputavelmente desmascarando verdades não confessadas.
O escritor é um correio: uma vez vertida a alma no papel-confessionário, envia-a definitivamente ao seu destino, como se fosse um origami, e quem lê, com um olhar maculado por uma história de vida pessoal e única, aí captará por certo algo novo e diferente. A obra, uma vez escrita, partirá definitivamente ao seu destino, fora do controle do escritor, até aí um tirano entrincheirado. O leitor pode descobrir mundos, estados de alma, intenções, mas só ele em segredo guarda o enigma das letras cifradas. Só há um segredo: quando o jogo das palavras nos for familiar e convide para a viagem dos sentidos, como no tempo em que furioso escrevia em guardanapos de café, aí terei ganho a ilusão da infinitude pelo prazer de escrever para os outros e não para o baú ou para o disco rígido.

Ventríloquo do indizível, visionário de uma Sintra Utópica, capturado pelo verbo, escapuli-me pela porta da alma, delirando, umas vezes acolhendo-me em Sintra-Ninho, outras nas Sintras da Vida. Vagabundo da palavra, fingidor sem fingimento, invisível peregrino da vida, de Sintra irradia Luz, a Luz que só os cegos podem ver, pois maior cegueira não há que a da paixão.
Morcego inquieto, de máscara em máscara patrulhei as sombras, perdido no desfiladeiro lúdico. Chegou a um porto, esta catarse, outras se sucederão, enquanto a Lua cintilar.
Reportagem em