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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nas vésperas da Restauração


Manuel Martins, irmão da Misericórdia de Évora, não tinha designação de ofício no livro das eleições, mas André Escária, mesário antigo, afirmava ser boa alma, padecendo de cabeça fraca, porém, muitas vezes o haviam visto falando aos pombos e agoirando desastres. Mas era um bom coração, acólito em S. Francisco, trabalhara no arranjo da Capela dos Ossos.
Nesse mês de Agosto, estafetas de Lisboa informavam Antão Sarmento, corregedor da cidade, da decisão do governo de elevar o imposto da água e o valor das sisas. O tesouro régio carecia de quinhentos mil cruzados, visando minimizar a quebra das remessas das Índias Ocidentais, e em todas as cidades se deveriam acatar os aumentos, o selo da vice-rainha não deixava dúvidas:
-É uma usura! Tivessemos um rei português e tais desaforos se não verificariam! - vociferou, informado das medidas. Espanha mais não faz que alijar a canga sobre o povo!
-Há que tomar posição, isto é um desaforo! -concordou Aires de Gusmão, o escrivão- vejam o Porto, com o imposto do linho fiado! – a lembrança do motim das maçarocas, em 1628, acicatava os espíritos, há 57 anos que os Filipes governavam Portugal, desejado, e apesar dos oragos,nunca D.Sebastião regressara. Um corpo fora sepultado nos Jerónimos, mas o povo não se convencia, não podia ser ele.
-Creio bem que o povo receba com desagrado estes aumentos, senhor corregedor! -gizou André Nóbrega, o procurador.
Efectivamente, afixados os editais, grandes clamores se ouviram na Praça do Giraldo. Durante a missa da Sé, aludindo ao tema, o arcebispo, perorando a favor do governo, irritou o povo, e vários fiéis abandonaram o ofício, indignados com a posição do prelado.André Nóbrega e Aires de Gusmão convocaram os comerciantes e os representantes do povo para uma reunião em casa de André, havia que tomar medidas. Alheio, e entretido com os seus pombos no Rossio, Manuel Martins não se pronunciou. Mendicante e boa alma, para a cidade, era o Manuelinho, a quem ninguém negava uma sede, se bem que falasse por enigmas, que os antigos respeitavam, descortinando alusões proféticas.
Por aclamação decidiu-se não pagar os impostos, e mesmo organizar  patrulhas, evitando que os oficiais régios os cobrassem. Em minoria, o corregedor não se pronunciou, André e Aires encabeçaram a insurreição. Livros de assentos das contribuições foram queimados, isolados, e sem reforços militares, os adeptos de Castela, portugueses passados para o partido castelhano, mal se dispuseram a enfrentar a multidão. Briosa, Évora erguia-se por Portugal.
Da casa de André Nóbrega, durante duas semanas e pela calada da noite saíram proclamações ao povo, afixadas nas ruas, mas para salvaguarda das identidades assinadas por um tal Manuelinho. Notícias traziam a nova de a revolta se haver espalhado a Sousel, Ourique, Vila Viçosa e Abrantes. Uma janela se abria, e os povos ousavam respirar.
Manuel Escária, lendo um edital dos indignados, pasmou da assinatura. Manuelinho…. Quem seria o tal Manuelinho, o chefe sem rosto que assinava as proclamações? Seria o mesmo que estava a pensar? Curioso, buscou por ele. Manuel Martins estava no Rossio de S.Brás, dando milho aos pombos, aos quais durante anos nunca faltara. Manuel chegou-se e sondou-o, o ar tranquilo e distante não indicava ter algo a ver com a refrega em curso na cidade:
-Manuel, por aqui com os teus pombos?
Manuel empapava pedaços de pão em água, pronta a malga, chamaria os amigos, e retiraria depois para uma sesta, perto da Cartuxa:
-Os pombos são como as pessoas, Manuel Escária. Andam em bandos, onde um vai vão todos. Mas também sabem quando não devem ir, ou quando lhes fazem mal. Aí arrulham. Nunca ouviste os pombos a arrulhar, zangados?
Manuel Escária deixou-o, nada parecia saber, não seria ele, por certo, o Manuelinho atrás de quem se escondiam os revoltosos.
Durante uns dias mais, Évora e mais cidades fizeram ouvir a voz do desagrado. O movimento insurreccional não conseguiu destituir o governo, em Lisboa, sucumbindo às tropas castelhanas que reprimiram a sedição. Nobres locais, afectos ao governo, ainda responderam, criando a Junta de Santo Antão, mas a população pouco aderiu, e a força das armas acabou vencendo. Três anos ainda teriam de esperar para sentar um Bragança no trono.
No Rossio de São Brás, Manuel, o suposto Manuelinho, continuou alimentando os seus amigos, frases intraduzíveis e espaçadas denunciavam um espirito difuso e demente. Nas vilas e aldeias do Alentejo, e de Portugal, aos poucos, em surdina o povo ia arrulhando, o voo da glória surgiria num frio Dezembro, logo no dia primeiro, varrendo os biltres do pombal e de novo esvoaçando em liberdade.

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