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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

19 de Novembro de 1983


Às seis da manhã Luís Filipe chegou da Concha, onde toda a noite curtira com a Ângela. Toldado pelas cubas libres e pelos Duran Duran e deixando-a em casa, atirou-se para cima da cama, na vidraça a chuva flagelava. Sabia bem o remanso do edredão e ouvir chover lá fora, as coisas prometiam, no dia seguinte tomariam café no Bibió. Até ao meio-dia pareceu um lapso de segundos, abrindo as cortinas, a Miquelina acordou-o, a senhora queria que o menino almoçasse com o senhor engenheiro, era o seu aniversário.
Enfiada uma T-Shirt dos Ramones, desceu para a sala, o Crispim, o velho caseiro chegava entretanto assolapado a falar ao pai. Alheio, Luís Filipe trincou uma maçã, mais uma derrota do Sintrense, pensou, o velho era ferrenho e fora defesa em novo:
-Ui senhor engenheiro, nem queira saber! O rio subiu mais de seis metros! Em Colares, até os tonéis do ramisco andam a boiar cá fora, o Cantinho e o bananeiro, está tudo debaixo de água!
O engenheiro pasmava:
-Coisa estranha, Crispim, aqui choveu muito, mas nada do outro mundo. Destes por alguma coisa, Mafalda? -sondou junto da esposa, que aquecia o leite na cozinha, enquanto a Miquelina foi ao pão.
-Não, nada de especial. Só se o teu filho deu por algo, andou na vadiagem! -virando-se para Luís, ainda rameloso, chovera mas nada demais, eram uns exagerados. Chegada sem o pão, que não conseguiu lá chegar, a Miquelina arfava, com o saco na mão:
-Benza-o Deus, que coisa nunca vista! O meu primo Júlio, que mora ao pé do rio, em Galamares, ficou sem nada! Até o frigorífico apareceu a boiar em Colares, ao pé do Grémio! Isto quando Deus quer!..
Reparando bem, a luz fraquejava, e não tardou em faltar o resto do dia, o jantar de anos estava estragado, a tia Glória telefonava a dizer que de Sintra para baixo ninguém passava. Maroto, o Crispim confidenciou:
-Parece que a minha prima Micas quando veio a chuvada grande estava enrolada com o Noel, o marido veio a correr saber se ela estava bem e apanhou-os na cama, com a cheia não pôde escapulir. Nem quero pensar a sova que a magana vai levar! -soprou, solidário com o primo, D.Mafalda fazia-se desentendida, nunca dera confiança à criadagem.
Luís decidiu ir ver os tais estragos. Desceu o pinhal de Janas, de bicicleta, saído o Mucifal, uma massa de água suja e detritos cobria toda a várzea. Entre maçãs e damascos pululavam desgovernados fogões, mesas, roupa e lixo, junto ao rio a água subira três metros, até os carros dos bombeiros estavam alagados. Passando o Cantinho com água pela cintura, quis ver o mar na Praia Grande, mas a ponte ruíra e só por Almoçageme se chegava. Em casa de Ângela, nada sucedera, no Penedo, porém, árvores caídas denunciavam a revoada, um rádio a pilhas dava nota de grandes estragos em Sintra. No Jamor e Ribeira das Jardas, a água galgara as linhas de água, castigando as construções em leito de cheia.
Com o passar do dia, a coisa adensava: todos os galináceos da Ermelinda afogados, a Jacinta sem casa, até a cama foi na enxurrada, a paróquia acolhia alguns desalojados, dando-lhes leite e cobertores, cancelada a festa de anos, o engenheiro e a mulher foram ajudar os vizinhos.
Noite cerrada e passada a borrasca, mortos e feridos testemunhavam a fúria dos elementos. Chorosa, recolheram a Jacinta e os dois pequenos, pijamas de Luís Filipe, apesar de grandes, refreariam o frio e terror espelhado nas caras, o dilúvio passara rápido e sem perguntas. Sem luz, ricos e pobres carpiam mágoas de quem nada pode, fogo ou água, dos quais Sintra tem regular visita. Antes que o dia 19 virasse no calendário, Luís Filipe, já a ressaca passara, depois dum dia tenebroso, puxou do isqueiro, e, juntando todos na cozinha, à luz de velas, propôs que cantassem os parabéns. Com chuva ou sem ela, eram os anos do pai:
-Parabéns, velho! -saudou, dando-lhe um beijo na face, para ele, mais um aniversário, para muitos um dia que não desejavam repetir. Aos poucos, o rio de Colares acalmava e recolhia das margens, após a fúria passageira, era tempo de reconstruir.

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