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domingo, 4 de novembro de 2012

A máquina de viajar no tempo



No laboratório da Calçada das Necessidades, o professor Guimarães e o seu assistente Guilherme ultimavam a experiência com que finalmente demonstraria a possibilidade de viajar no tempo, a máquina, criada a partir de um aparelho de tomografia axial computorizada, permitiria, segundo ele, o transporte ao passado, a experiência decisiva estava marcada para essa noite:
-Caro Guilherme, de acordo com Einstein, o tempo passa mais lento à medida que um objecto se aproxima da velocidade da luz, logo viajar mais rápido que a luz abrirá a possibilidade de viajar no tempo. A ideia é entrar num buraco negro e penetrar numa estrela em fim de vida, que ao colapsar entrará num anel de neutrões rotativo. Este produzirá uma força centrífuga suficiente para impedir a formação de uma singularidade. Como o buraco negro não tem uma singularidade, vamos penetrá-lo usando este aparelho,  sem ser esmagados pela força gravitacional do seu centro! -o professor chegava ao momento alto da sua carreira, a experiência que até ali só o cinema e a ficção haviam explorado. Guilherme acompanhava o entusiasmo do mestre, professor de Física na Universidade de Lisboa. - Ao atravessarmos, vamos sair num buraco "branco" que em vez de atrair o que estiver ao alcance da sua força gravitacional para dentro de si, vai empurrar tudo para fora e para longe. Esse buraco branco criará a possibilidade de viajar no tempo!
Preparados os fatos térmicos, programaram a máquina e experimentaram uma primeira viagem, curta: Lisboa e aquele mesmo local, o ano: 1835.
Depois de náuseas e duma sensação de vertigem incontrolável, que durou trinta segundos, aterraram desgovernados num celeiro onde dois cavalos relincharam à chegada do inesperado volume. Ainda tontos e de olhos esbugalhados, confirmaram o sucesso da experiência: mesmo em frente e de construção recente, estava o Palácio das Necessidades, onde a guarda real rendia a parada e, pensativo, um padre saia do palácio. O professor dirigiu-se a uma taberna, num esconso perto, e perguntou o que se passava:
-Vossas mercês são de fora? Então não sabem que o marido da rainha está à morte? Pobre homem, ainda agora chegou a Portugal…- respondeu um galego, carregando um barril.
Guilherme recapitulou os conhecimentos de História, pelas suas contas o doente só poderia ser o príncipe Augusto de Leuchtenberg, primeiro marido de D. Maria II, chegara a Portugal em Janeiro desse ano, mas viria a morrer de difteria dois meses depois. Aí, teve uma ideia luminosa:
-Professor, podíamos ajudar a resolver este problema. Sabe que o príncipe morreu de difteria? Podíamos usar os conhecimentos da medicina que já possuímos, e tentar salvá-lo!
-Boa ideia, Guilherme. Vamos ao palácio, tentaremos apresentar-nos como físicos experimentados, a ver o que sucede! Temos de ser discretos, e arranjar roupas da época!
Com facilidade o professor conseguiu acesso ao palácio, chorosa, a rainha antevia já o desenlace ao fim de dois meses de casada, qualquer conselho seria bem-vindo. Efectivamente, as amígdalas e faringe do doente desenvolviam uma membrana de pus ao fundo da boca, a produção da toxina e a sua libertação no sangue poderiam levam à morte cerebral. Sacando duma mala que trouxera do futuro, o professor, perante a incredulidade dos físicos presentes, administrou ao doente uma vacina que actuaria sobre o  sistema imunológico, bem como algumas doses de penicilina e eritromicina, para destruir as bactérias nocivas. Dois dias depois, a febre baixou, o príncipe deu sinais de melhoras e missas de júbilo foram rezadas por toda a cidade, o pior parecia ter passado. Os dois estranhos, a par de acompanharem a convalescença do paciente, visitavam Lisboa, tirando notas e apresentando-se aos mais desconfiados como académicos vindos da Prússia, a recuperação do marido da rainha afastava  suspeitas.
Três dias depois, discretamente, voltaram ao presente, a registar a experiência, e preparar novas viagens. O professor Adérito, um colega de Sintra ligara entretanto, queria trocar ideias com Guimarães sobre um acelerador de partículas, mal suspeitando do sucedido, já ligara várias vezes, mas ninguém atendera, deixara mensagem. Sempre disponível para o Adérito, lá foi, era um velho amigo. Para seu espanto, à saída de Lisboa apenas árvores e campos de trigo, a estrada de Sintra era um tapete em macadame e as hortas povoavam a paisagem, sem vestígio de comboio, IC-19 ou da selva de betão a que já se habituara. Na serra de Sintra, para seu espanto, desaparecera o Palácio da Pena, e só o castelo dos Mouros e o Paço da Vila subsistiam, ao abandono. Abordando um transeunte que passeava na vila, à chegada, sondou-o sobre o que sucedera:
-Palácio da Pena? Ó amigo, ali nunca houve palácio nenhum. Quando muito está lá uma ruína dum convento antigo, daqui até lá acima é só mato e pedras. Isto em Sintra, nunca ninguém fez nada! -suspirou, em torno do Paço havia um pequeno terreiro, e vinte a trinta casas rústicas, nada estava como poucos dias antes. Num arremedo luminoso, percebeu o que acontecera, e sem chegar a falar com o colega, voltou para Lisboa, precisava falar com Guilherme urgentemente:
-Gulherme, temos de voltar ao passado de novo, aconteceu uma coisa terrível!
-O que foi professor? Baixaram o rating do país de novo? Isso já não é novidade…
-Pior! Ao salvarmos a vida do príncipe Augusto, alterámos o futuro!
-Como assim?
-D. Maria II, depois de enviuvar, casou em segundas núpcias, em 1836, como é sabido. Ora ao salvarmos a vida do primeiro marido, o segundo, D. Fernando Saxe-Coburgo não chegou a ser rei de Portugal, e como tal nem o Palácio da Pena nem tudo o que ele planeou foi construído. Mudámos a História de Portugal!
-Oh diabo, não nos lembrámos disso…- o assistente coçava a cabeça, fora ele que de boa-fé sugerira salvar o moribundo príncipe com difteria.
-Temos de voltar lá e deixar a História cumprir o seu destino!
Nessa noite, voltaram a accionar a máquina do tempo, lá deixando falecer, no meio do choro geral, o marido da rainha de Portugal. Detiveram-se alguns meses, desta vez, a estudar os costumes da época, sempre cuidando de em nada contribuir para alterar o futuro. Quando os esponsais de D. Maria II e D. Fernando finalmente se realizaram, disfarçado no banquete, e exercitando os três anos de alemão no Goethe Institute de Lisboa, Félix Guimarães aproximou-se do novo rei, louro e de cabelos desalinhados, e meteu conversa:
-Majestade, vai gostar muito da sua nova pátria. Olhe, sugiro que vá até Sintra, é um sítio maravilhoso, com um clima ameno e prazenteiro, semelhante ao do seu país. Poderia até fazer lá uma casa para o Verão, a rainha iria adorar….

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