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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Fiquei sem freguesia



Foi hoje publicada no Diário da República a reorganização administrativa de Lisboa, e, com ela, fiquei sem freguesia, isto é, a freguesia de S.Cristovão e S.Lourenço, onde nasci há um bom par de anos foi extinta, e, juntamente com as freguesias de  Mártires, Sacramento, São Nicolau, Madalena, Santa Justa, Sé, Santiago, Castelo, Socorro, São Miguel e Santo Estêvão passou a constituir a nova freguesia de Santa Maria Maior.
A bem dizer, nunca tive uma ligação muito forte com essa freguesia, onde nasci no Palácio de São Cristóvão (foto acima), que pertenceu ao filho do 2º Duque de Bragança, mais tarde aos condes de Aveiras, depois aos condes de Vagos e hoje propriedade da Associação de Socorros Mútuos dos Empregados do Comércio de Lisboa. (Clínica de São Cristóvão), Recordo porém o velho e histórico edifício onde até aos dez anos voltei com regularidade para ser consultado pelo meu pediatra, o dr. Baldaia, e onde aos 7 anos fui tirar as amígdalas, numa operação de que recordo ter sido envolvido num lençol, como uma múmia, e que de bom teve ficar um mês a comer gelados Rajá com que a minha mãe recheou o frigorífico. Depois, nessa junta, à Calçada do Cascão e perto do Museu Militar, me fui recensear para o serviço militar, e, por uma ou outra vez, fui buscar certidões de nascimento, subindo a um edifício velho e bafiento, onde num livro manuscrito estava e estará registado o meu nascimento, um dos poucos desse ano, numa freguesia que  por via dessa maternidade terá registado alguns dos nascituros da Mouraria.
É algo de longínquo já. Não quero, porém, deixar de assinalar  o dia em que a secular S.Cristovão e S.Lourenço de vez passa à História, num sinal dos tempos, correcto se calhar, mas de cuja memória nunca me hei-de separar, até pelos anos que passei a mencioná-la em requerimentos, impressos, currículos etc. Não sei se alguma vez me identificarei com Santa Maria Maior, e isso antevejo venha a ser um problema que se colocará a todos os que em breve verão as suas freguesias desaparecer, pois, certo ou errado, o sentimento de orfandade e de branqueamento dum passado de recordações, e no caso das freguesias do interior, de forma mais vincada até, virá sempre ao de cima, entre saudade e rancor
Podem tirar-nos dinheiro e património, mas nunca poderão apagar a memória com que construímos as nossas vidas. Para sempre, porém, ficarei freguês de S.Cristovão e S.Lourenço, onde num distante 14 de Maio, pelas 0h 30m, vi a luz do dia (nesse caso, da noite...), em plena Baixa de Lisboa.

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