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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Uma viagem no Larmanjat



Poeirento e ruidoso, assim achou Lady Jackson o tal Larmanjat, no qual, embarcando nas portas de Lisboa, partiu em visita a Sintra. A viagem duraria duas horas, com paragem para descanso e abastecimento de água, 550 réis, um bilhete em 1ª classe. O mecanismo assentava numa via com um só carril, ladeado por duas passadeiras de madeira. Para tornar o conjunto estável, tanto o carril como as passadeiras estavam pregados a travessas, por meio de cavilhas de ferro, com as locomotivas munidas de rodas centrais e laterais, rodando umas sobre o carril e outras sobre as passadeiras. Ideia de Saldanha, que vira uma coisa parecida em França e por cá a introduziu em 1871.
Catherine, Lady Jackson, viúva de Sir George Jackson, vinha à descoberta da fair Lusitania, Maio era o melhor mês, por causa do calor, recomendara o seu editor, em Paris. Tomando lugar na carruagem, observou os passageiros que consigo viajariam em primeira classe: um inglês, Mr. Galway, botânico de Durham, Cosette Mignon, uma corista francesa e o seu acompanhante, M.Vendôme, um médico, ainda jovem, Gregório de Almeida, com consultório em Sintra, segundo apurou, e os príncipes Cyrllovitch, Vladimir e Maria, de visita a Portugal, seriam hóspedes da condessa d’Edla em Sintra. Uma carruagem fora por ela posta à sua disposição em Lisboa, mas dispensaram-na, preferindo viajar naquela maravilha do progresso. Na outra carruagem viajavam os criados, soldados aboletados no Paço de Sintra, e algumas colarejas, ainda a medo, que o receio de descarrilamentos afastava o povo, receoso da máquina infernal.
Lady Jackson, vistosa viúva, remetida a criada para a 2ª classe, de imediato socializou com os demais. O cheiro a perfume barato de mademoiselle Cosette arrancou-lhe um sorriso amarelado, o acompanhante, que lhe segurava a mão, mais parecia pai que marido, uma amásia, por certo. Já o médico, pareceu-lhe simpático, ultimava o consultório em Sintra. Nem sempre os doentes eram abastados, umas galinhas para a canja e couves de Almargem compensariam nos primeiros tempos. Com os príncipes pouco falou, não percebiam nenhuma língua civilizada, uma vénia discreta e pouco mais. Mr.Galway era o mais falador, de visita ao wonderful palace do seu conterrâneo, Mr. Cook, o visconde de Monserrate, a fama duns jardins mais belos que os da Babilónia tiravam-no do Surrey, aventurando-se nos confins da Europa. Um fala-barato, pensou, com duas malas castanhas, o nariz avermelhado rematado por  lunetas redondas.
O countryside era gorgeous, salpicado de vinhas e pomares, paisanos em burros e mulheres trabalhando no campo. Uma só estrada, escalavrada, ligava a capital e o resort, famoso depois que o rei viúvo e a sua morganática condessa por lá passaram a morar parte do ano. Posta uma hora de viagem, a primeira paragem, num lugarejo poeirento chamado Porcalhota, tempo para apear e uma pausa de meia hora. Catherine chamou por Maude, a criada, e saindo por uns minutos, aventurou-se a experimentar um deslavado capilé que boçais aguadeiros vendiam junto a uma árvore, junto à carruagem, campónios vendiam cestos e atoalhados, queijadas e fruta fresca. Os demais passageiros também saíram a refrescar-se um pouco, uma hora mais e chegariam, felizmente Sintra seria mais fresca, arrefecia à noite, haviam dito em Lisboa.
Retomados lugares na carruagem, só M. Vendôme tardava, a comprar fruta para o seu petit chou. Mr. Galway acabou comprando um cesto de vime a um camponês, muito étnico, comentou, divertido, transportando-o com algum cuidado. Alguns momentos passados, a princesa Cyrllovitch pareceu a Catherine irritada, chamando em russo por um valete que seguia na 2ª classe. Depois de alguma agitação, que atrasou a saída, soube-se que desaparecera uma gargantilha dum estojo da princesa, trazida propositadamente para a recepção no Chalet da Pena. Não havia polícia por perto, chocado, Mr. Galway aproximou-se, limpando o suor:
-Que coisa horrível! Como é possível que num lugar onde apenas viajam cavalheiros e pessoas de bem aconteça uma coisa destas? Isto é pior que Constantinopla, I say!
Catherine aproximou-se da princesa, a acalmá-la, enquanto Cosette e M. Vendôme ajudavam a reconstituir os passos dos vários passageiros durante a paragem. A não ser que algum larápio tivesse vindo da 2ª classe, de cuja porta o revisor nunca se tinha afastado, só entre um deles poderia estar o ladrão. Intrigada, perguntou ao médico se dera por algo estranho, mas este, enterrado num tratado de farmacopeia, nada vira, só queria era chegar a Sintra, que o burro para o Arraçário ainda levava meia hora. Curiosa, Lady Jackson reparou que Mr. Galway tentava encobrir com as pernas o cesto comprado minutos antes, parecendo nervoso.
-Mr. Galway, está com medo que lhe roubem alguma preciosidade egípcia? -ironizou, sagaz.
-Well, eu…, não, não Lady Jackson, foi lapso dos seus olhos, por certo, a claridade destes países do Sul altera a sensibilidade da vista, sabe, eu…
-Está assim porque o senhor roubou as jóias da princesa, n’est-ce pas? -atalhou M.Vendôme de rompante, apontando-lhe a bengala e encostando-o contra a janela.
-What? How dare you!- Galway ruborizou como um tomate, visivelmente nervoso.
-Un moment! Sou Claude Vendôme, da polícia francesa, messieurs!- apresentou-se, tirando delicadamente o chapéu - e esta é a minha colaboradora, mademoiselle Nadine. Este senhor frente a vós, é nada mais nada menos que Walter Pickwick, um conhecido ladrão de jóias inglês. Desde Paris que lhe vimos no rasto!
Todos pasmaram e até o Dr. Gregório momentaneamente parou a leitura do compêndio. Parecia um teatro da R. dos Condes, pensou. Vendôme pegou no cesto de vime e abrindo-o, por baixo dum lenço, lá estava a gargantilha. A princesa suspirou de alívio, enquanto o valete do príncipe Cyrllovitch de imediato imobilizou o inglês com uma arma.
-Mas como pôde aperceber-se de tudo, caro senhor? -perguntou o príncipe Vladimir, num francês irreconhecível - se saímos todos ao mesmo tempo da carruagem?
-Aí é que está, Excelência. Quando saímos, reparei que discretamente o senhor Galway ficou para trás, e num ápice sacou da jóia e lançou-a pela janela, para um descampado do lado oposto ao da gare. Uma vez lá fora, comprou o cesto, recolheu a jóia discretamente, e entrou ao mesmo tempo que os outros com o souvenir na mão, dando a ilusão de ter estado sempre com o grupo. Ninguém suspeitaria! Ele sabia da visita dos príncipes a Sintra, e é conhecida a riqueza das jóias da princesa, a suposta amizade com o senhor visconde de Monserrate afastaria qualquer suspeita sobre si!
-Mas diga-me, senhor Vendôme, e como soube que ele tinha a jóia com ele? -questionou Lady Jackson.
-Quando saímos, segui-o, simulando ir comprar fruta para a Cosette- alias Nadine- e vi-o recolher a gargantilha e ainda ter tempo de tomar um capilé de limão com os outros. Voilá!
-Fruta que não chegou a comprar, pois não, senhor Vendôme? - Lady Jackson, perspicaz, também desconfiara de Vendôme, pois a dita fruta nunca entrou na carruagem. Era ela quem devia ser polícia, pensou.
Em Sintra, onde D. Fernando e a condessa d’Edla aguardavam os príncipes, Galway, aliás Pickwick, foi conduzido à cadeia. Mais tarde seria transferido para Lisboa, e depois para Paris, escoltado por Vendôme e Nadine. Lady Jackson, passadas as peripécias, lá se deleitou com Sintra e seus pitorescos vales. Mais tarde deixaria as suas impressões num livro que o seu editor entregou para traduzir a um tal Camilo Castelo Branco. Gregório de Almeida viria a ser um dos mais respeitados médicos de Sintra, pai dos pobres e filantropo. O Larmanjat, esse, duraria ainda mais doze anos, rasgando a planície aos solavancos, com  paragens em que empoeirados viajantes se saciavam com capilés de limão e comprando cestos de vime.

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