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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sintra em "Os Maias"


Foi em Fevereiro de 1888 que deu à estampa no Porto uma das obras-primas da literatura portuguesa, “Os Maias” de Eça de Queirós. No capítulo VIII, Eça descreve o passeio de Carlos e Cruges por Sintra. Carlos procura Cruges na sua residência em Lisboa, mas vem a encontrá-lo na Rua de S. Francisco, casa da sua mãe, que lhe implora para trazer queijadas. Os dois partem em direcção à vila num break, e ao chegarem perto de Sintra, Carlos avisa Cruges que não se dirigem para o Lawrence’s, mas sim para o Hotel Nunes. No Nunes, encontram Eusebiozinho Silveira, obeso e viúvo, acompanhado por Palma Cavalão e por duas espanholas, a Lola e a Concha (‘um mulherão’). Palma demonstra um machismo profundo, e Eusébio mostra-se cobarde ao não admitir que trouxera Concha consigo para Sintra; esta sente-se furiosa com a sua atitude e sai da sala do hotel. Carlos fica desiludido por não encontrar a mulher misteriosa (que sabemos ser Maria Eduarda, mais tarde divulgada como irmã de Carlos) pela qual empreendeu aquela viagem a Sintra.

Na estrada que vai dar a Colares, o break passa pelo Lawrence’s, sem lhe dar muita atenção, partindo em direcção a Seteais, pois Cruges não conhecia Sintra muito bem e recordava-se apenas da imponência do palácio. Carlos recebe então um indício da aproximação da mulher que procura: ouve uma flauta, que o leva a pensar que Castro Gomes (suposto marido de Maria Eduarda, que toca esse instrumento) está perto. Passam pela cascata dos Pisões, quando lhes aparece Tomás de Alencar, o poeta romântico que fora amigo de Pedro da Maia, pai de Carlos, e que acede a regressar a Seteais com eles, recordando os tempos lá passados. Ao chegarem a Seteais Cruges sente-se desiludido com o que observa, mas Alencar começa a contar histórias e a recitar poemas que logo revitalizam a beleza de Sintra.‘Tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema…’. Carlos, Alencar e Cruges são abordados por burriqueiros, que levam as pessoas até ao Palácio da Pena, mas decidem partir primeiro para a Lawrence, Carlos decidido a perguntar por aquela mulher e Cruges decidido a conhecer o hotel.

Carlos recebe novos indícios da aproximação de Maria Eduarda: ao perguntar aos burriqueiros  junto ao Lawrence por uma família com as características pretendidas, recebe indicações de que uma senhora alta, com um sujeito de barba preta e uma cadelinha, se tinham dirigido à Pena. Ao decidir seguir caminho para o palácio, avista a família da qual os burriqueiros lhe tinham falado: ‘Era, com efeito, um sujeito de barba preta (…); e, ao lado dele, uma matrona enorme (…) e o cãozinho felpudo ao colo’. Mas não era ela. Abandonando os amigos, Carlos questiona o criado do hotel, que lhe diz que ‘… o Sr. Salcede e os senhores Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra…’, e de lá para Lisboa. O criado concede-lhe mais informações, como o facto de ter sido Maria Eduarda a apresar a partida, devido à preocupação com a filha, que ficara em Lisboa. Carlos cai num conflito interior e toma consciência da decadência para que está a ser arrastado por aquela paixão misteriosa: só a vira uma vez.

Alencar e Cruges encontram Carlos perdido nos seus pensamentos, e decidem jantar na Lawrence antes de partirem todos para Lisboa e o primeiro manda preparar o bacalhau à Alencar. Dirigem-se ao Nunes para pagar a conta, e reencontram Eusébio e Palma com as duas espanholas, a jogar à bisca. Às nove horas, ao luar, Alencar, Carlos e Cruges entram no break e partem para Lisboa, com Carlos frustrado por não a ter encontrado. Alencar é o único que parece algo contente, recitando poesia, enquanto Cruges se lembra então das queijadas para a mãe, esquecidas afinal.

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