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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Segredo



Arredores de Zamora, 3 de Outubro de 1143.A comitiva do enviado papal, seis dignitários em liteiras puxadas por mulas vagarosas enfrentava dificuldade em chegar à cidade, o cardeal Guido de Vico acometido de tosse, maldizia a missão que o Santo Padre lhe confiara: mediar em Leão o conflito entre Afonso VII, Imperador das Espanhas, e um insurgente terra tenente portucalense, o impulsivo Afonso Henriques, seu primo. A noite caía, acolher-se-iam em Toro, um vinho reconfortante e uma lebre com feijão alimentariam o corpo, que a alma estava saciada. Perto da estalagem, um grupo de três cavaleiros aguardava a embaixada. Não parecia gente do Imperador, comentou Giacomo Alighieri, chefe da guarda do cardeal-diácono, as montadas estavam agitadas e ofegantes, sinal de viagem longa e recente. Giacomo adiantou-se e depois de troca de palavras com os forasteiros, voltou para informar o cardeal:

-Eminência, são cavaleiros portucalenses, alegam ter urgência em falar-vos antes que vos encontreis com o Imperador, amanhã.

Agastado, o cardeal anuiu, que esperassem na estalagem, depois de se refrescar lhes falaria. Três horas mais tarde e paramentado, enfim recebeu os visitantes.

-Dominus Vobiscum, o Senhor esteja convosco! Pois diz-me o meu chefe da guarda que sois portucalenses. Que mister vos trás ao meu encontro? Amanhã mesmo estarei em Zamora, não poderíeis esperar até lá? –ralhou, paternal, logo servindo-se duma malga de vinho de La Rioja, o cardeal Molina da Cúria recomendara-lho em Roma.

-Eminência, deixai que nos apresentemos - adiantou-se o mais velho - meu nome é Egas Moniz, senhor de Ribadouro, nas terras de Sousa, um vosso criado, estes são Gonçalo e Soeiro Mendes da Maia, da casa dos Baiões. Traz-nos até vós a necessidade de que antes que vosso sábio juízo se debruce sobre os conflitos que trazem apartados nosso senhor D. Afonso e o Imperador, estejais de posse de informações secretas que podem ajudar a entender a rebeldia de D. Afonso, não produto de imprudência ou teimosia, mas assente em factos terríveis, até hoje mantidos em segredo - concluiu, teatral. Intrigado, o cardeal bebeu mais um cálice:

-Pois que factos tão misteriosos são esses, cavaleiros? Dizei ao que vindes!

-Eminência, escutai com atenção: há setenta e dois anos, o falecido avô do Imperador, El-Rei Afonso VI e D. Sancho, seu irmão, lutavam em disputa pelo Reino de seu pai, Fernando Magno. Nesse ano do Senhor de 1071, D. Sancho foi misteriosamente assassinado, alegadamente sem deixar herdeiro, o que permitiu ao irmão, o Senhor D. Afonso VI ocupar o trono que hoje é de seu neto.

-Sim, sim, todos sabemos disso, D. Egas, se são histórias que me vindes contar…

-Não, Eminência. É aqui que a verdade se deve sobrepor, para melhor compreender porque D. Afonso Henriques não aceita seu primo como rei e senhor - adiantou, os outros, com ar grave, anuíam com a cabeça -É que D. Sancho não foi assassinado por um nobre de Castela, como se fez soar, antes morreu às ordens do irmão, D. Afonso, bem como seu filho varão D. Pelayo, cujo nascimento agora se nega, pelo que El-Rei Afonso VI foi sagaz e usurpador aos olhos de Deus, assim o sendo também o Imperador, manchado pela infâmia do avô!

O cardeal pasmava, clamando por provas das graves acusações:

-Medis bem o que dizeis, cavaleiros? O que tendes para provar tão torpe acusação?

Egas Moniz sacou um pergaminho dum bornal que trazia a tiracolo, e exibiu um texto escrito a sangue pelo malogrado D. Sancho, que, à hora da morte, envenenado, ainda teve forças para acusar o irmão da sua perdição e de seu filho. A chancela e armas de Leão não deixavam dúvidas sobre a autenticidade do documento, levado para Guimarães por um fiel aio, Beltan Gutierrez, e há cinquenta anos à guarda do arcebispo de Braga.

O cardeal pareceu transtornado, e questionou os cavaleiros sobre as suas intenções.

-Eminência-salientou Egas Moniz-sabemos que é vossa missão apartar os primos das querelas em torno de seus domínios. Pois bem: convencei com vossa palavra avisada o Imperador de que deve reconhecer os direitos de seu primo D. Afonso, e este documento sumirá para sempre nas águas do Duero, assim se sossegando os reinos.

Guido de Vico nada disse e recolheu-se, taciturno. No dia seguinte, depois de celebrar missa em Zamora, reuniu a sós com Afonso VII. Da reunião na catedral nada transpirou, mas escudeiros notaram que o Imperador estava tenso, tendo mesmo quebrado uma mesa, praguejando, quando voltou ao castelo. Pela tarde, à hora das vésperas, o pretendente português, Afonso Henriques e seus partidários chegavam ruidosamente a Zamora, acompanhados do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, juntando-se-lhes Egas Moniz e os Mendes da Maia. A presença dos portucalenses na cidade causou apreensão sobre os propósitos da viagem, temendo-se escaramuças durante os torneios que começariam nesse dia, mal o vinho e a cidra começassem a jorrar nas tabernas.

Na tarde de 5 de Outubro, visivelmente incomodado, e na presença silenciosa do cardeal, Afonso VII e o primo acordavam que o Condado Portucalense se chamasse reino, e Afonso Henriques rex, deixando os cortesãos intrigados com a rapidez com que o Imperador anuiu às pretensões do primo depois de anos de bravatas.

Dias mais tarde, com a promessa de uma tença para o Santo Padre e fiel depositário de um segredo que só a ele transmitiria, o cardeal Guido de Vico volvia a Roma, não sem antes mandar carregar uma pipa do vinho de La Rioja que o cardeal Molina tanto elogiara. No Duero, caudaloso, diluíam-se rio abaixo as cinzas dum velho pergaminho…

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