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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O extraordinário mundo de Hans



Novo paraíso. Terra onde a a Primavera tem o trono. Hans tinha de conhecer essa Sintra de que tanto falavam, o momento surgiu com o convite dos O'Neill, entre Julho e Agosto. As  chaminés acopladas do Paço, que mais lhe pareciam garrafas de champanhe, circundadas por aquele êxtase da natureza, confirmavam tudo o que haviam dito: Sintra era História feita jardim, perfumada e bucólica, recordou-lhe as suas florestas de Roskilde e os palácios de Elsinore, a cidade onde crescera e aprendera as primeiras letras.

Hans Christian Andersen depressa se afeiçoou aos amigos portugueses. A viscondessa de Reboredo, filha do almirante Zahrtmann, e dinamarquesa como ele, recebeu-o com entusiasmo, bem como o conde de Almeida e o marquês da Fronteira. Por cá descobriu também um amigo de Copenhaga, Edward, filho do poeta Lytton-Bulwer segundo secretário da legação britânica em Lisboa. A comida era boa, o ambiente familiar, por Sintra ficou até o barco para França chegar.

Nesses dias, com Edward e José O’Neill visitou a Pena e Monserrate, verdadeiros palácios de fadas. A igreja românica fronteira à casa dos 0’Neill transportava-o já por si para eras medievais, sugerindo princesas trancadas em torreões e ogres escondidos na serra, os palácios, no alto, eram um verdadeiro olimpo, logo na sua imaginação transformados em histórias que os leitores por certo devorariam, suspensos do desfecho. Era belo  Portugal, e esfuziante a Sintra onde o levaram.

Em Monserrate, um episódio lhe captou a atenção: num lago, um pequeno cisne partilhava o ninho com  uma pata e seus rebentos. Órfão, por certo, diferente dos outros, apesar de recolhido, era porém perseguido e maltratado pelos outros patos. Hans várias vezes ali parou a observá-lo, bastardo, quem sabe se uma vez adulto não levantaria asas e dominaria o lago, qual príncipe da feteira. Tal como ele, que filho dum sapateiro tivera de se criar em casa de outros, e só adulto fora reconhecido pela aristocracia, logo ali encontrou uma alma gémea, um patinho feio que um dia viraria um esbelto cisne, conquistando a floresta encantada de Sintra.

Carlota, a filha dos O’Neill, simpatizou com ele, quem escrevia para crianças só podia ter um bom coração. Uma noite, após o jantar, quis que ele fosse ao seu quarto e Hans foi, de mão dada, ante a advertência da mãe de que não importunasse o amigo. No quarto, uma boneca de porcelana sobre a cama, loura e sorridente, olhava na direcção dos dois. Carlota pegou-lhe e mostrou-a ao escritor:

-Esta é a Bárbara, é a minha melhor amiga. Gosta dela? -perguntou, na inocência dos seus cinco anos. Hans sorriu, pegando na frágil boneca:

-É linda, Carlota. Brincas muito com ela?

-Sim…Mas quando a deixo para ir às aulas de piano, ela fica muito sozinha. Acho que precisa de um amigo!

-Pois é…tens de lhe arranjar uma companhia. Mas ela se for uma amiga verdadeira, vai esperar por ti, para brincarem juntas. E às vezes devias levá-la à serra ou à vila, acredita, ela ia ficar contente!

De volta à sala, alguns amigos dos O’Neill chegavam para jantar, famoso, muitos o queriam conhecer pessoalmente.

Os restantes dias foram de descanso e descoberta. No lago, o pequeno cisne lá continuava, ainda trôpego, Hans antevia-o adulto, quando o Inverno chegasse e a Natureza ditasse as suas regras.

No início de Agosto, o navio vindo do Rio e  que o levaria a Bordéus chegou finalmente, duas semanas haviam passado. Um último jantar foi organizado em sua honra e a pedido de Hans, Carlota por essa vez jantou com eles à mesa. Antes dos brindes, escreveu no álbum dos O’Neill:

Quando, querendo Deus, em breve passear/Nas galerias de faias do meu país natal/Voará muitas vezes meu pensamento/Para o belo país que é Portugal.

Fora uma jornada magnífica. Pela manhã, antes de a carruagem o levar a Lisboa e das despedidas, acariciou Carlota e puxando um embrulho, deu-lho, com voz de mistério:

-Isto é para ti, e para a Bárbara. Mas abre só depois de eu partir. As duas vão gostar, vão ver!

Mal a carruagem desapareceu na curva de Santa Maria, Carlota correu a abrir o embrulho. Era um soldadinho de chumbo, azul e vermelho, com um chapéu em feltro preto. Doravante, não mais Bárbara ficaria só, quando a deixassem sobre a cómoda do quarto. Para ela também chegava enfim um Príncipe Encantado.

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