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domingo, 6 de janeiro de 2013

Os túneis da montanha sagrada



Tomada Ushbuna, após dezassete semanas de cerco, os habitantes de Cintra fizeram oferta do seu castelo, e entregaram-se ao rei. Rendidas pois as fortalezas que nas redondezas estavam ligadas à cidade, foi celebrado Afonso Henriques como novo rei,  e abateu-se o pavor sobre os mouros aos quais ia chegando a notícia destes sucessos, tendo,  para piorar as coisas, caído entre eles a peste. Por todo o lado jaziam cadáveres, à mercê de feras e aves, trazendo os campónios assustados.

Afonso Henriques, chegado o Natal de 1147, achou por bem apossar-se de Cintra, tendo-se posto a caminho com uma guarnição, que incluía Henry Glanvill e Simon de Dover, dois cruzados que com ele haviam estado na tomada de Lisboa. Pêro Pais, seu porta-bandeira, entendido na língua dos mouros, acompanhou-os, como tradutor.

Logo nas imediações da vila, Xintara, assim a designavam os mouros, algumas madrassas antes dedicadas à exaltação da fatah, estavam abandonadas à chegada dos novos senhores, os infiéis adoradores da Cruz. Uma delas, explicou Pêro Pais, fora mesmo o refúgio de  Ibn Becre Mauani Al-Shintari, eremita da serra da Lua e venerado lutador contra o conde Henrique, seu pai. Desse local controlavam a judiaria de S. Martinho. Na medina, antes pejada de ruidosos mercadores, reinava agora o silêncio, todos recolhidos em casa e com receio das pilhagens. Afonso Henriques mirou o castelo, enevoado naquela manhã de Dezembro, e com a comitiva subiu a sinuosa serra, uma escolta adiantada garantia contra alguma cimitarra traiçoeira que se atravessasse ao caminho. Até aí dependente da dinastia aftácida de Badajoz, Xintara era um ponto elevado, dali se dominando o mar e os campos até Lisboa e Palmela. Eram umas boas centenas de metros desde a medina até à porta de entrada, os mouros chamavam ao local qala’â, calaferrim, por ficar num planalto, segundo o incansável Pêro, a Henry Glanvill recordava a Bretanha natal. Contudo, em vez de ruidosos habitantes e soldados aguerridos, apenas o silêncio, cortante e perturbador, como se de uma cidade fantasma se tratasse. Afonso Henriques e seus homens entraram, de espada em riste, havia algumas construções, e uma égua solitária junto a um poço. A um canto, dois mouros idosos, um magro e grisalho e outro cego, segurando uma vara de vime e sentado junto à égua. O magro dirigiu-se ao novo senhor, meneando a cabeça:

-Salam’aleq, Ibn Enrik- saudou, dirigindo-se à comitiva aos cavaleiros do manto branco.

-Quem és, e onde está a guarnição deste alcácer? -interrogou  na língua dos mouros, Pêro Pais, a mando do rei. Onde estão os refik, guardiães da rábida de Xintara?

-Nada sei, nobres cavaleiros. Meu nome é Ahmed e apenas me mandaram que entregasse a chave ao conquistador de Ushbuna, assim o faço - e estendeu uma chave em bronze, símbolo do castelo mouro, que já antes se havia rendido.

Afonso Henriques apeou-se perto da mesquita, agora silenciosa e acercou-se da muralha, apontando para uma povoação ao longe, para os lados do mar, perguntando como se chamava:

-Al-Mesjide! -respondeu o sarraceno, reverente.

A ausência de gente  no castelo intrigou o rei, que após inspecção ao local descobriu disfarçada, perto da  torre albarrã, uma entrada. Os mouros ficaram assustados, tentando desviar a atenção. Afonso percebeu que lhe escondiam algo, e mandou cortar a vegetação. Era um túnel, cuja descoberta deixou o mouro cego apreensivo. Precedido de dois cavaleiros e com os mouros guardados por um escudeiro, entraram todos, munidos de archotes. A montanha parecia oca, e o caminho enorme. Andaram mais de uma hora, até saírem perto dum povoado chamado Al-Gueirum. A serra era perfurada, cheia de túneis, escavada para fugas estratégicas e entrada de reforços. Afonso Henriques gabou o estratagema, por ali haviam sumido todos antes, por certo.

Voltando ao castelo, a meio do percurso depararam com uma cripta dissimulada. Aí o mouro cego, de nome Muhamad, pediu que não avançassem:

-Senhor de Ushbuna, peço-te, detém-te ante os sagrados lugares!

-Sagrados? Só Nosso Senhor Jesus Cristo é sagrado, infiel. Sigam-me!

Ante o protesto imperceptível dos mouros, Afonso, Pêro e Henry adentraram-se no local. O mouro grisalho explicou então:

-Aqui jazem os sagrados despojos do mullah de Xintara. Mas não deveis avançar mais, sob pena de graves maldições: hordas de demónios djins guardam o templo de ak-sherim, onde se chega pelo sura-loka, depois de 44 degraus. Ao fundo há um lago, e depois…-aí o mouro calou-se, como se a revelação o deitasse a perder.

-Depois?....-Afonso Henriques ainda esperou que concluísse, mas preferiu não saber, havia que contar com os mouros para arrotear as terras e pagar as dízimas, conquistada Xintara, cavaleiros cristãos imporiam a autoridade a partir do Arrabalde. Voltou ao castelo, e rumou para Palmela. O túnel do castelo mouro fechou-se então. Em zona interdita, depois dum lago, ficava a catedral universal do mundo de Badagas, onde  Soleiman Ha Shari, filho dum vali de Xintara, duzentos anos antes edificara um altar  junto ao túmulo de seu pai, o sábio Soleiman. Na pedra, uma inscrição há muito oculta: Allah há beri (*Realização de Deus). Era o secreto templo dos mouros de Sintra.

Os Senhores da Cruz poupavam os Cavaleiros do Crescente, e estes, nos meses seguintes, lentamente voltaram à vila pelos túneis da montanha oca. Com a medina pacificada, de novo colorida e ruidosa, mouros e cavaleiros em paz viveriam junto ao Monte da Lua nos trezentos anos seguintes.

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