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domingo, 20 de janeiro de 2013

A construção de um boy



Indeciso entre Filosofia e História, militando na senda de amanhãs libertadores, Jaime acabou ingressando em Direito, naquele final de setenta. À rotineira repetição dos feitos pátrios que o curso de História propiciava, atraiu-o a visão do advogado à Perry Mason, onde a meio do processo entraria a prova que arrasaria a acusação e salvaria o inocente da prisão. Ingénuo, mas puro, nos finais de setenta lá ingressou na Clássica, mausoléu frio e sem alma, ainda arrefecendo de acaloradas disputas entre fascistas e maoístas, com as pinturas de Ribeiro dos Santos e Maximino de Sousa, à moda de Mao e Lenine, saudando os heróis da casa, bastião do antigo regime e balão de ensaio para futuros mestres em leis.

Direito era uma escolha anódina, de classe, pouco aberta ao mundo, cheia de “de cujus”, e “quid juris”, e manuais gongóricos teorizando um mundo virtual onde, por vezes, até pessoas cabiam. Pensou desistir, impregnado de Marx e Gramsci, de Che e Neruda, as miúdas mais giras estavam em Letras, só a Manuela, olhos verdes, res nullius doce e sem namorado, o fez ir ficando, estudando juntos na biblioteca, aos poucos trocando olhares por entre a sebenta de Direito Civil. Nunca como nesses dias acharam tão acertados os direitos reais de gozo, amigos pela usucapião do tempo, amantes por vontade expressa, em contrato-promessa primeiro, e execução específica depois. Ao segundo ano assumiram a relação, as mãos entrelaçadas nas aulas do professor Marcelo seguiam nem sempre atentas o estudo dos sistemas políticos, Jaime e Manuela concordavam, democratas nas ideias e ditadores no amor. O professor Marcelo, atrás da barba mefistofélica, ria, divertido, no dia da oral de Constitucional sendo Jaime o último do dia, convidou-o no final para jantar. Um bife na Trindade a coroar o 14, já depois das dez da noite, premiou o promissor constitucionalista.

Ao terceiro ano, desistir estava afastado, as coisas com Manuela estavam firmes, casariam no fim do curso, ela com ideias no CEJ e na carreira de juíza, ele entre a diplomacia e a barra, dois anos pela frente, ainda. As paredes antes frias, eram agora familiares, muitos envolviam-se em política, à esquerda e à direita, os mais velhos, na fase da gravata, iam ostentando antecipado o epíteto de doutor que com o tempo viraria nome próprio. O caderno na mão e a sacola do primeiro ano, virava pasta de pele, camisas com botões de punho e óculos sem aros, às barbas hirsutas e revoltas sucedia o penteado tratado e o jurista em construção. Artigo a artigo, diploma a diploma, cumpria o caminho iniciático de um cavaleiro do Direito. No quarto ano, integrou uma lista para a associação académica, a morte de Sá Carneiro e a crença cada vez mais ténue em soluções de ruptura, levaram-no ao PPD. Pedro Santana Lopes, veterano e da extrema-direita, aderiu também, por esses dias, aos poucos, o atribulado PREC ia esfriando. 
Extinto o Conselho da Revolução, no arco de partidos do centro se desenharia o tempo novo. Filiou-se, foi a um congresso, Manuela, equidistante, encafuou-se nos códigos e refinou o aspecto, a teenager inconsciente ia-se esfumando à medida que chegava o dia do canudo dourado e a caricatura do Zambujal no livro de curso, premiando os novos doutores, qualificados quadros e esperançosas reservas para grandes voos, no foro e na política. No quinto ano, pela primeira vez Jaime envergou traje académico, excrescência fascista banida e com o tempo recuperada, e de chicote em riste, veterano, praxou os acabrunhados caloiros, obrigados a cinquenta flexões no anfiteatro 1.

Quase doutor, deixou os bares do Cais de Sodré, substituídos pelo Stones e o Ad Lib, frequentou palestras na Ordem, passou a ir de carro para as aulas, abandonando o 31 para Moscavide com cheiro a suor dos primeiros anos. Aos mais novos, falava dos mestres como de tias velhas mas estimáveis, feras por vezes, mas “crânios” brilhantes, todos com características distintas: os perdigotos voadores de Jorge Miranda, a orelha defeituosa de Sousa Franco, os duzentos quilos da Magalhães Colaço, o velho Soares Martinez, lenda viva de quem se contavam histórias de alunos que aos seus exames haviam sobrevivido. Finalmente, já com casamento marcado numa quinta em Azeitão, num dia quente de Julho, ele e Manuela acabaram o curso, ela primeiro, com melhor média, ele depois, escritório em perspectiva, avença num banco na calha, com outros duzentos, engrossariam esse ano o restrito clube dos senhores doutores. Longe ia o dia em que Jaime atravessara aquele átrio, ladeado de vitrinas com pautas e notas avaras, e angustiado hesitara sobre o passo a dar. 
Com o tempo, percebera que Perry Mason jazia poeirento em velhos filmes sem cor, que mais que a Justiça interessava o Direito, e mais que o Direito estar com quem o aplica e o escreve. Loquaz, a sociedade abriria portas aos moldados e tolerante suportaria os críticos, mantendo assim no ar um ténue perfume de democracia e pluralismo.

Passaram trinta anos. Manuela é hoje uma respeitada desembargadora da Relação. Com Jaime teve três filhos, um deles, acampado do Rossio, talvez siga Direito, para já, de mochila, vai com a namorada ao Sudoeste. Jaime, uns quilitos a mais, é um discreto Secretário de Estado, depois de dez tranquilos anos em S.Bento como deputado por Faro. Há dias, acompanhando o ministro a um colóquio, voltou pela primeira vez em anos ao átrio de Direito, e sorriu. Lá estavam ainda as vitrinas, os baixos-relevos do Almada, o cheiro familiar e austero. Anos antes, ali entrara querendo salvar o mundo. Felizmente e a tempo, conseguira salvar-se a si próprio.

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