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domingo, 27 de janeiro de 2013

Morte no deserto



O dolente e desconcertante exército deslocava-se entre areias revoltas, Larache ficara para trás, a pouca distância, alheadas, cabras comiam urtigas. Era 1 de Agosto, há uma semana haviam largado do Reino e nem sombras de Abd-Al-Malik.

André Gonçalves, segundo alcaide-mor de Sintra e o cunhado, João de Castro Albuquerque, neto do vice-rei D. João de Castro, engrossavam voluntários o anacrónico mar de gente arrebanhado para a aventura de D. Sebastião, qual Lancelot em busca de Avalon. André Gonçalves, por morte do pai, sucedera não só no juro de cem mil réis que lhe pertencera, como em toda a Casa e Morgado de Ribafria. Comendador de S. Mamede de Sortes na Ordem de Cristo, Porteiro-Mor de D. Sebastião, era, tal como o pai, alcaide da vila e castelo de Sintra. Contava trinta e oito anos, o cunhado dezanove. Sempre juntos, partilhavam tenda e criados, em Sintra, com o rei muitas vezes haviam juntos passeado a cavalo. Entusiasmados com a empresa em África, seguiam na babel de guerreiros onde se juntavam criados, rameiras, camponeses e carros de bois, o improvável exército de Portugal.

Largados do Reino a 25 de Junho, passaram a Tânger, onde se juntou o rei aliado, Abu Abdallah Mohammed II Saadi, daí seguindo por terra para Arzila e Larache. André Gonçalves e João seguiam com os cavaleiros de Tânger, Adalid, o batedor enviado por Mohammed e mais cem homens patrulhavam as colinas ocres onde apenas cresciam cardos secos, enfrentando o suão com animais sedentos. Na tarde de dois de Agosto, chegaram à margem esquerda do Mekhazen, afluente do Loukkes, que contornaram no dia três, atravessando um vau transitável, já os homens acusavam exaustão. André Gonçalves coordenava a distribuição de alimentos, uma vaca e dois alqueires de biscoito por companhia, cinco mil mouros vigiavam a menos de duas milhas. O rei tudo aceitaria, desde que lhe não tirassem o privilégio de ser o primeiro a combater.

Amanheceu finalmente o dia 4, dia de S. Domingo de Gusmão. O exército de Abd Al-Malik, que agonizava numa liteira, estava já perto dos exércitos de Sebastião e Mohammed. Morabitinos arrebatados e gritando na colina ao fundo, exibiram os símbolos do crescente, prometendo o céu aos soldados. Pela alvorada, André Gonçalves rezou, recolhido, menos arrebatado, observou o terreno, demasiado exposto e com a retirada dificultada pelo rio. D.Duarte, o alferes-mor, iluminaria o rei sobre decisão a tomar, pensou. A seu lado, João tinha um ar determinado, ansioso por glória e honra, para si e para o Reino, fronteiro da Cristandade.

Depois de envergar a armadura, azulada e debruada a ouro, e de elmo no braço, o rei dirigiu-se aos homens, alinhados. Após o discurso de incitamento, o padre Alexandre, da companhia de Jesus, levantou um crucifixo ao alto e todos ajoelharam. Era chegada a hora. Nesse mesmo instante, longe dali, em Velilla, Aragão, os sinos tocavam a rebate, anunciando a derrota do exército português. Fatídica premonição…

A batalha estava em marcha, os atabales deram o sinal para a batalha: no campo português todos gritaram pelo nome do rei, inspirados para a vitória. André Gonçalves integrou o terço de Vasco da Silveira, do lado dos de Abd Al-Malik, formados em meia-lua, Mulei Ahmed, irmão do rei moribundo comandava. Quinze mil cavaleiros, sob comando de Abraham Suffin, alcaide de Alcácer-Quibir, formaram num semicírculo, qual lâmina de foice, pronta a envolver o temerário exército, chefiado por um garoto intrometido em disputas de família. Ao tocarem as trombetas, um arrepio na espinha atravessou André Gonçalves. Eram oito da manhã. Duas horas depois, os mouros tomaram a iniciativa, com tiros de artilharia. Os portugueses vacilaram, ignoravam que os mouros tivessem armas pesadas. Logo dois cavaleiros caíram mortos e os soldados, mais familiarizados com arados e enxadas, entraram em pânico. Depois de hesitação, os aventureiros, cabeça do exército, avançaram, mesmo sem ordem de combate. João de Castro juntou-se-lhes, com maça e espada. Era hora de fazer tremer os africanos, porém, logo tombaram, varados por setas assassinas. André Gonçalves não mais o voltou a ver, espezinhado e sumido na poeira.

Sem que ninguém se apercebesse, Abd El-Malik morreu entretanto, na liteira, o que os seus ocultaram, na frente a sorte balançava. D. Sebastião trocou de cavalo e continuou bramindo a espada, desfigurado e temerário. Mohammed, o aliado, pouco se expôs, o exército parecia um barco à deriva e sem comandante. Preocupado, D. Luís de Meneses pediu ao rei que se cuidasse, a sua salvação era precisa para segurança do Reino, mas ele repeliu-o, cerrando os dentes. Pouco passava do meio-dia, André Gonçalves foi atingido com uma flecha no rosto, tão funda que só deixou de fora as penas. Vendo o fim próximo, resistiu com as forças que lhe sobraram, até cair também, junto ao rio. Os terços adiantados do exército rendiam-se, impotentes, varados por setas e arcabuzes, sendo de seguida massacrados e despojados, num verdadeiro açougue exterminador dos jovens de Portugal. Pelas duas da tarde, já só D. Sebastião resistia, frenético, quando cinco mouros lhe cercaram o cavalo. Muhamad fugiu, atravessando o Mekhazen e morreu afogado. Pouco depois, também o vulto alvo do rei sumiu também, na voragem dos corpos e artilharia. Eram três da tarde do último dia de Portugal.

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