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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Crepúsculo dos Deuses



O Rolls-Royce deteve-se no Rodízio, Gloria Swanson, antiga diva de Hollywood, chegava para mais uma temporada em Portugal. Passara dos setenta, mas mantinha uma pose altiva, arrogante e desafiadora. Pacientemente, o motorista descarregou as inúmeras malas e caixas com chapéus. Magra e com rugas, o brilho fenecia para a rival de Mary Pickford e Pola Negri. Brilhara como Norma Desmond no Crepúsculo dos Deuses, que lhe valera um Oscar, o papel de atriz decadente para si criado por Billy Wilder encaixava agora como uma luva, cruel vingança do tempo.

A casa do Rodízio, perto da Praia Grande, era um refúgio estival e tranquilo, mais que nunca, agora. O tempo da Paramount passara, e só esporadicamente a chamavam para séries. Vinha a Portugal regularmente, o  pequeno chalé, suave, contrastava com a luxuosa mansão de Beverly Hills, osmose de mar e serra, poiso de exílio para as rugas delatoras e o cabelo tingido, exorcizando a imagem que cruel o espelho impunha pela manhã.

Portugal, nesse dealbar de 1965, era um rincão exótico, mais calmo que Saint -Tropez ou Acapulco. Steve, o motorista, passava dos sessenta, as parecenças com Eric von Stroheim, que com ela contracenara no Crepúsculo dos Deuses prolongavam fora do ecrã uma cumplicidade que fazia Glória refém de Norma e Norma a emulação de Glória. Um bacardi à chegada saudou a brisa da Praia Grande, prestes a inaugurar umas piscinas que por certo trariam campistas ruidosos e crianças irritantes.

Os fox terrier, saltando enervados do Rolls, ladraram a um gato indígena,  enquanto Mabel e Fiona prepararam os quartos para três semanas de descanso. Um salmão com alcaparras e um copo de beaujolais, saciaram o corpo, refém de antidepressivos. Pela casa jaziam recordações de uma vida: uma foto com Mack Sennett em Los Angeles, em filmagens para a Keystone, uma carta de Chaplin convidando-a para um casting, um vestido que usara em Don’t Change Your Husband, de Cecil B. de Mille. O vestido trouxe-lhe  à memória o dia em que quase fora devorada por um leão, para gáudio deste. Sublime, a casa de banho convidava a banhos de espuma, quem sabe se bebendo champanhe pelo sapato, mítico fetiche incensado pelo mainstream.

Na manhã seguinte deu um passeio pela Praia Grande, percorrendo o vasto areal, Fiona levou os fox enquanto Steve esperava no carro. Colocou um lenço de seda verde que lhe escondia o rosto, óculos escuros garrafais e batôn vivo, queria aspirar o iodo e o sol ameno. O Fortunato, banheiro tostado pelo sol de muitos verões, cumprimentou-a, reverente, já há muito conhecia a madame, a quem regularmente levava peixe fresco. Era americana, e logo, com toda a certeza, rica. Nunca vira nenhum dos seus filmes, a maioria mudos, mas a quem perguntava, falava como se fosse íntimo, eram seus os robalos que comia, afinal. Nada sabia dos tempos em que conquistara a América, para inveja de Lillian Gish e Mae West, todas agora no ocaso da carreira e assassinadas pelo sonoro, aviltantemente relegadas para papéis de avós ou matriarcas nos seriados da tarde.

Voltava pelo paredão, com o Hotel das Arribas quase pronto, quando um jovem a abordou, Bernardo, vizinho no Banzão. Se não era a Glória Swanson, o jardineiro dela era o mesmo dos pais, o David. Vira várias vezes o Crepúsculo dos Deuses, e exultava com o seu trabalho. Glória, inicialmente desinteressada, acabou achando graça ao jovem, mendigando um autógrafo. Segurando o papel, desenhou um grande G, de Glória. Agradecido e eufórico, preparava-se para partir na velha 4L vermelha, quando surpreendentemente ela lhe pediu boleia para o Rodízio. Bernardo ruborizou, o velho carro cheio de revistas e  um rádio a pilhas não estava à altura. Mas ela achou graça, e  mandou Steve e Fiona seguirem atrás do Rolls-Royce de lata, em que o rato virava cocheiro, como na história.

Chegados, mandou-o entrar, a situação lembrou-a de Escravizada, em que fazia Tessie McGuire, uma empregada de balcão em apuros no metro de Nova Iorque, namorada da América, ainda. Bernardo sentiu-se invasor num cenário proibido, onde a seu lado, a divina Glória representava um  derradeiro papel. O seu.

Pondo num velho gramofone um vinil de Irving Berlin, acendeu um cigarro, serviu um martini rosso e brindou com Bernardo, em silêncio, como se fosse um ritual. Erguendo o copo, virou-se para a parede onde pontificava o seu retrato a óleo, altiva e dominadora, e recuou para a Glória que  Los Angeles aclamara em carro aberto, e paixão de Valentino. Sentiu-se transportada para o set, e, fitando o jovem, soltou as diletantes palavras de Gone with the Wind: -Frankly, my dear, i don’t give a damn! -bebendo o martini de um trago só.

Sete anos depois, em Lisboa, Bernardo estreava o seu primeiro filme, com um subsídio arrancado a ferros, após seis meses de rodagem intermitente e falta de verbas. Na noite da estreia, rodeado de fiéis dos Cahiers du Cinema e da fauna das premiéres, chegou um telegrama desejando boa sorte e sucesso para o seu trabalho. Em letras garrafais, estava desenhado um G.

1 comentário:

  1. Quem é este Bernardo? Qual é o filme?
    A Casa do Rodízio ainda existe no local?

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