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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Drama na Quinta do Relógio



Tudo a postos para a recepção que Pinto da Fonseca, o Monte Cristo, ia oferecer para apresentar a filha à sociedade, por ocasião das suas dezoito primaveras. Compareceriam o Príncipe Real, D.Afonso, a condessa d’Edla, o deputado Mazziotti, donzelas casadoiras e jovens garbosos, quiçá de entre eles o pretendente que procurava para a filha. Criada por uma tia solteirona e tímida, Carlota pouco convivia com estranhos, para lá de miss Lisa, a preceptora inglesa, pelo que achou o pai ser altura de providenciar um genro de boas famílias e com fortuna adequada. Tudo foi cuidadosamente arrumado, salões, móveis, jardim, atarefadas, as criadas trabalharam denodadamente no vestido e penteado da menina de quem cuidavam desde o berço, suspirando por não ser para elas a cintilante festa.
Pelas oito horas chegou a primeira carruagem, com Lucrécia, prima de Carlota, sua amiga e confidente, logo seguida das demais, e pelas oito e meia os músicos iniciaram a função, arrancando com uma valsa e animando o salão. Sozinho chegou também Miguel de Sousa Holstein, filho da Duquesa de Palmela e tenente de cavalaria, herdeiro duma fortuna que a Regeneração engrossara. Previdente, Pinto da Fonseca correu a apresentá-lo à filha, que o cumprimentou com uma tímida vénia.
Passado algum tempo, os criados serviram acepipes no jardim, onde luminárias e balões celebravam o sucesso do velho negreiro, agora dedicado aos têxteis e à importação de madeiras exóticas. Miguel pediu uma dança a Carlota e logo perante os olhares invejosos ambos rodopiaram ao som do Danúbio Azul, com toda a sala a juntar-se-lhes chegada que foi a Marcha Radetsky.
Enquanto isto, no jardim, um restolhar dissimulado e quase imperceptível junto à vedação quebrou o silêncio da noite. O cocheiro da condessa d’Edla, que dormitava na carruagem, esperando, ouviu algo, mas não deu importância, seria uma rã ou um gato, por certo, Carlota adorava-os, e havia vários na quinta.
Depois de muito dançarem, os convidados, sobretudo os mais novos, espalharam-se pelos jardins, oportunidade para trocas de olhares mais insinuantes ou um envergonhado roubo de beijos. Lucrécia, mais afoita que a prima, provocou um tenente de Lanceiros que, meio avermelhado, não tirava os olhos do proeminente decote, enquanto Miguel e Carlota passeavam falando de livros e música, a noite de Sintra estava amena e generosa. A certa altura, Carlota pediu para se ausentar, para retocar a pintura, e Miguel retornou ao salão.
No quarto soprava uma brisa vinda duma janela entreaberta. Já fechava a portada quando uma mão lhe apertou a boca e com a outra alguém lhe encostou uma faca à jugular. Com o coração aos pulos, um intruso voltou-a para si e com um dedo ordenou-lhe silêncio.
-Quem é você, o que quer? -murmurou Carlota, com a voz trémula.
-Caluda, ou a festa vai virar velório! -ameaçou um negro, aparentando trinta anos, com a roupa suja e enxovalhada e uns sapatos esburacados -Se não queres que tu, ou alguém da tua família morra, chama aqui o teu pai, já. E nada de ideias, ou será pior para todos!
Perdida, Carlota assomou ao corredor. O pai conversava em baixo, com Miguel, ao seu sinal, pedindo-lhe que subisse, desculpou-se e foi ao encontro dela. Mal entrou nos aposentos e logo o rosto se alterou ao deparar com a filha sentada numa cadeira, tendo ao lado o negro, com uma mão no ombro dela e a outra com uma faca encostada à garganta.
-Mas que é isto? Quem és tu, canalha? Larga já a minha filha, ou mando açoitar-te, escaruma!
Apesar de abolida a escravatura, Pinto da Fonseca conservava os modos de senhor da Casa Grande que durante anos lhe porfiara fortuna no Brasil, aquela imagem transportou-o para Itabuna, onde em tempos chegara a ter trezentos escravos na sanzala. Ao vê-lo, o negro ficou possesso:
-Silêncio, branco velho. Quem fala aqui sou eu! Lembras-te da Jociara, a quem mandaste açoitar quando te disse que trazia no ventre um filho teu, há mais de trinta anos?
-O que tens tu a ver com isso? Acaso tenho de dar satisfações a um preto como tu? Larga já a minha filha, ou vais acabar na forca! Eu mesmo me encarrego disso!
O negro fez um prolongado silêncio, e olhou Pinto da Fonseca nos olhos:
-Eu sou o filho da Jociara! E sabes o que lhe sucedeu? Com tantos açoites que lhe mandaste dar, morreu, um mês depois de eu ter nascido no quilombo. E por isso, és tu quem vai pagar agora!
O velho traficante empalideceu, olhou o negro e a filha e ficou com um olhar perdido, desarmado. Carlota, sentindo-o sem reacção, arregalou os olhos, questionando o pai:
-Senhor meu pai, isto é verdade? Este homem é seu filho? Não me minta, peço-lhe…
Carlota sentiu estar a viver um pesadelo, ao mesmo tempo que ganhou simpatia pelo sequestrador. Voltava a interpelar o pai quando um pontapé rebentou a porta do quarto e Miguel, com uma arma, ordenou ao negro que largasse Carlota. Surpreendido, e entre a raiva e o desalento, largou a faca, e foi forçado a ajoelhar, imobilizado pelo jovem, que, desconfiando da expressão aflita de Carlota chamando pelo pai o seguira, e tudo escutara no corredor. Aproveitando a mudança nos acontecimentos, o negreiro apressou-se a esbofetear o negro, mas a mão de Carlota agarrou-o, decidida:
-Espere meu pai! Se este homem é seu filho, é pois também meu irmão. E a raiva dele é justa, se é verdade o que escutei!
Miguel, ele próprio um abolicionista, mantendo o preso imobilizado com a pistola, concordou com Carlota, sem contudo demonstrar vontade de hostilizar o pai. Espantado, o negro manteve-se em silêncio, expectante.
-Proponho uma coisa: vamos arranjar-lhe um sítio para ficar, e pela manhã se cuidará que se arranje uma reparação- e virando-se para ele, colocou-lhe a mão no ombro, como que pedindo a desculpa que o pai nunca pediria. Fonseca rendeu-se à filha, que assim tomou o pulso dos acontecimentos no seu baile de debutante. Acalmado o negro, de nome Coriolano, Miguel levou-o a comer na cozinha e providenciou-lhe aposentos, não na ala dos criados, mas na dos hóspedes. Carlota e o pai voltaram à festa, e sem que ninguém se tivesse apercebido, acabaram discretamente a noite, enquanto no jardim, atrás dum carvalho, Lucrécia se ia divertindo com o tenente.
Dias mais tarde, Coriolano foi convidado para caseiro duma quinta de Miguel, com casa própria e vencimento, mais uma parte naquilo que a terra desse. Depois de seis meses cortejando Carlota, o tenente pediu a Fonseca a mão desta, o qual abençoou o enlace e, instado por ela, acabou por pedir perdão ao filho que abandonara. Redimido o passado, de novo se juntaram para a boda, na Quinta do Relógio, já Lucrécia exibia uma barriga de seis meses,de esperanças do capitão, seu marido….


1 comentário:

  1. Exmo. Senhor Dr. Fernando Morais Gomes,

    será que me poderia fornecer o seu endereço de e-mail para entrar em contacto consigo a propósito deste texto?

    Desde já muito obrigado,

    Nuno MC Fernandes Thomaz

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