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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sem barco para Ítaca



Eis-me sob a égide de Spinoza: "Interessam-me os factos humanos não para aplaudi-los ou censurá-los, mas meramente para compreendê-los". Porque não há só preto ou branco, e muito e nebuloso cinzento por aí impera.

Quem não foi revolucionário aos vinte anos, não teve coração, mas quem o for aos quarenta, é porque não tem cabeça. Estamos na fase da cabeça. Perdida. Revolucionar, hoje,  é viver inquieto, buscando ítacas tangíveis nos mares revoltos da incerteza, num tempo em que Cristo e Marx voltaram para o baú, o blogue solitário venceu as tertúlias de café pondo a "comunicar" sem falar, e discutir sem argumentar, quando as críticas dispensam a voz sentida e partilhada, e exaltam o teclado solitário. Que ao menos esse desassossegue.

Ao sábado, pela manhã, é tempo de cumprir o ritual,  ler os jornais para beber a opinião publicada, e passar a ter opinião, não própria, mas de acordo com a tendência ou o mainstream. A preferência varia, conforme a proximidade: mais importante o assalto da casa da vizinha, reportado em parangonas, que o lançamento dum míssil pela Coreia do Norte, mas isso é para certos correios de muitas manhãs, escorrendo sangue entre bundas incógnitas e a necrologia de proximidade.

Aos sábados, entre a meia de leite, o desportivo, e o movimento de partidas e chegadas para o centro comercial mais próximo, para apenas ver montras, agora, todos reclamam alguns minutos de antena, no areópago da bica matinal: "eles" são os culpados, "eles" levaram "isto" ao abismo, "eles" falharam o penálti,"nós" é que temos de aguentar. Tudo resiste, persiste, mas nada existe, se não na forma de olhar os outros, culpados, e nós, vítimas, inertes e capturadas. E assim se vão suspirando raivas, incautas vítimas "disto", por entre santacombianas nostalgias, onde o azul é cor fugidia, e o cinzento forte paira impertinente, como karma mas sem nirvana. Por culpa "deles". Claro.

Procuram-se verdades, e cada um reclamará a sua, avassalada pelo estigma, e a insegurança de tempos finitos. É verdade. E Godot, não vem?

O mundo tem ínfimos minutos, e convêm deixar alguns segundos ao sábado para salvá-lo, entre um pão de leite e uma bica pingada, e talvez, se o Sol brilhar, e o clube ganhou na véspera, um cirrósico favaios, prenunciando um cozido para o almoço.

A serra vigia, ferida, o eléctrico roufenho passa na dolência de velho elefante, e espera-se Godot, que nos trará um impossível jornal feito de boas notícias, e resgate do viral cinzento. E Ítaca mais longe, sem barco que nos leve, perdido na tempestade, no altar ritual das bundas a cinquenta euros, do sangue na calçada, e das parangonas dos correios destas manhãs submersas.

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