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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Coração e Cabeça


Quinze anos levava Bento Rodrigues no Ministério da Agricultura. Simples terceiro oficial, nos anos sessenta, subira a pulso na repartição, numa cinzenta sala interior, sem vista para o Terreiro do Paço, submetendo despachos aos "concordos" dos sete directores gerais com quem trabalhara, todos eles, veneradamente, “ a bem da nação”.

O senhor doutor Marcelo Caetano já lhe havia garantido reforma na velhice, que Deus o guardasse, e a mãe, lá na aldeia, obtivera uma pensão da Casa do Povo. O António, estava a concluir o Ateneu, e com orgulho da família, iria entrar em Económicas.

Não tinha vícios repreensíveis. Não fumava ou bebia, apenas torcia pelo Belenenses. Uma vez por ano, toda a família ia passar o Agosto na casa duns primos, na Foz do Arelho, e ajudar na apanha das batatas, que depois recheariam o carro e a dispensa no Inverno.

Era um homem satisfeito, bom cristão, sempre pontual, casaco e gravata usados, mas apresentáveis, o funcionário público que o País precisava, não percebendo como é que turras instigados pela corja bolchevista atacavam o nosso glorioso trabalho no Ultramar.

Durante alguns anos, a pedido do senhor director geral, discretamente lhe elaborou relatórios sobre  as conversas que ia ouvindo a alguns técnicos mais ingratos com o que a Nação lhes dava, e que, sussurrando pelos cantos, iam instigando sobre a necessidade de reformar a lavoura, sobretudo no Alentejo, criticando as avisadas opções do terceiro plano de fomento.

-Esta gente precisa de rédea curta, há sempre bicho até na melhor maçã, Rodrigues!- alertava o doutor Madureira, chefe de divisão da confiança de quatro ministros, ”todos grandes portugueses”, como costumava repetir.

E Rodrigues lá cumpria religiosamente o patriótico trabalho de expedir ofícios, e diligentemente vigiar os prevaricadores da lei e da ordem, na discrição do seu canto no Ministério. Por vezes puxava conversa com alguns dos engenheiros, a pretexto do tempo ou da prestação do Benfica na Taça das Cidades com Feira, assim obtendo preciosas informações para o leal dr. Madureira,

Uma quinta-feira chuvosa, já em 1974, cenário anormal e surpreendente se lhe deparou à chegada ao Ministério, às cinco para as nove, sagrada hora da entrada, durante mais de quinze anos. Veículos militares ocupavam o Terreiro do Paço, e militares armados gesticulavam e rodeavam os vetustos ministérios. Tentou entrar, mas mandaram-no para casa, que ficasse atento às rádios.

O mundo de Bento Rodrigues mudou muito desde então. Aos poucos, do espanto pelo sucedido com a “tal Abrilada”, passou à revolta, e da revolta á resignação.

No Ministério passaram ministros militares, alentejanos gritando por reforma agrária, o doutor Madureira, injustamente, foi  saneado.

Com o tempo, foi-se adaptando. Afinal, a bem ver, o país estivera  estagnado, a guerra fora injusta, os malandros dos latifundiários não passavam de ociosos proprietários de campos escandalosamente abandonados. Revolução à cubana nunca, que a NATO não deixaria, mas liberdade com responsabilidade, a Europa do Mercado Comum, isso sim, anuía.

Certo dia, com surpresa, foi convidado por um partido de esquerda para candidato à  Junta de Freguesia. Agradado, lá aceitou. Foi eleito.

Dois mandatos, várias placas em ruas, e três parques infantis depois, o partido estava rendido. Estava na calha para a vereação nas eleições seguintes.

Bento Rodrigues reformou-se há alguns anos. Na hora da despedida, foi agraciado com a medalha de ouro do município, agradecimento sincero ao contributo insubstituível que dera para as causas da democracia e da liberdade.


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