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domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Cálice



Novembro de 1307, já noite, um barco proveniente de Calais ancorava em Lisboa. Nele viajara um velho sorumbático, de barba esbranquiçada, porte altivo e desafiador. Bertrand de Clairvaux, de seu nome, mantinha o rosto fechado e trazia um baú de carvalho de que não deixava ninguém aproximar. Em Lisboa aguardavam-no Lopo Guterres e Ramiro de Sintra, irmãos templários daquela vila, avisados da chegada dum importante enviado a quem deveriam alojar.

-Bem vindo, Bertrand de Clairvaux! -saudaram, ambos já na casa dos quarenta, antes combatentes em Gaza.

-Obrigado, irmãos. Já devem saber o que sucedeu a nosso mestre, Jacques de Molay? Vivemos tempos perigosos, o rei de França está rodeado de intriguistas que conjuram para nos perder...

-Sim, nobre Bertrand, romeiros vindos de França trouxeram até nós as más novas. O Papa Clemente não pode permitir essa prisão infame! -respondeu Ramiro, as novas da prisão do Grão-Mestre eram difusas, inventaram-se adorações satânicas e naquela aziaga sexta-feira Lúcifer abatera-se sobre o Templo. No mês anterior, o rei Filipe, com a aquiescência do papa Clemente, de surpresa mandara prender os templários de França e o Grão-Mestre, Jacques De Molay. Godofredo de Chorney, temendo a sua eminente prisão, chamou Bertrand, cavaleiro de muitas batalhas, e encarregou-o de uma missão secreta, em Portugal.

Um cavalo estava aparelhado para o levar a Sintra, duas mulas para os baús, ficaria alojado perto do antigo paço árabe, na propriedade aforada ao antigo Grão-Mestre Gualdim Pais. Horas depois chegaram, sem que Bertrand deixasse de estar atento às mulas com os baús, sobretudo um mais pequeno. Alojaram-no  numa cela esconsa, com vista para a serra, e no dia seguinte, depois do terço, reuniu com todos os cavaleiros da vila, levando o baú mais pequeno:

-Irmãos de Portugal, venho até vós com uma missão sigilosa, pelo que tudo o que virem ou ouvirem não pode transpor estas portas. Os cavaleiros, intrigados, juntaram-se em torno de Bertrand, tochas alumiavam a sala subterrânea, uma cripta onde só eles entravam. -O provincial da Normandia, Godofredo de Chorney interpretou na profecia da cátara Esclarimunda ser Sintra o local onde deve ficar o que vem neste baú.

-Pedi o que precisares, Bertrand, se necessário nosso sangue será derramado! -afirmou Lopo Guterres, veterano de  Antioquia e o mais ancião do grupo.

-É precisamente o sangue derramado que me trás até vós - adiantou, intrigante. Dirigindo-se ao baú, de lá retirou um volume envolto em burel, que religiosamente colocou sobre a mesa. Abrindo-o, era um cálice enferrujado, deixando todos com ar intrigado.

-Eis o que me trouxe a terras portucalenses!

Os cavaleiros entreolharam-se, que importância poderia ter aquele cálice para a viagem até Sintra. Bertrand fez uma pausa, olhou-os um a um, grave e solene, e ergueu o cálice ao nível dos olhos, como se de uma eucaristia se tratasse:

-Cavaleiros do Templo, eis o cálice onde José de Arimateia recolheu o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo na hora em que partiu ao encontro do Pai!

Os cavaleiros sentiram um calafrio de espanto e ajoelharam, impelidos por um instinto irracional e fazendo o sinal da cruz. Ali estava perante eles o Santo Graal! Não era loa de bardos provençais afinal, a perseguição à Ordem obrigava a salvar de mãos heréticas o tesouro há séculos ocultado.

-O santo cálice repousava há doze centúrias em Montsegur, onde a mártir Esclarimunda o guardou, depois de lhe ser entregue por José de Arimateia- continuou. Poucos sabem da sua existência. Agora, ficará em segurança nesta terra, de acordo com a vontade de Esclarimunda: “quando o sangue real for turbado, a força da vida repousará onde o Ocidente acaba e a montanha vigia”. Aqui! -e bateu com a mão no peito, olhando o infinito. A missão estava a chegar ao termo.

Um a um contemplaram a relíquia, como se Cristo em pessoa tivesse descido à cripta, benzeram-se e beijaram-no com emoção. Depois, velaram toda a noite, rezando e observando jejum.

Antes de nascer o sol, colocado o cálice numa bandeja de prata e formados em procissão, desceram por uma galeria na direção do paço árabe, e numa sala em abóbada de berço, suportada por colunas sugerindo um hipogeu, debaixo duma laje o guardaram. Bertrand virou-se para os cavaleiros e enfatizou:

-Um Cavaleiro Templário é  um cavaleiro destemido e seguro, com a alma protegida pela armadura da fé, assim como o corpo está protegido pela armadura de aço! Non nobis Domine, non nobis, sed nomine Tuo ad gloriam! (*)

Em 1314, Jacques de Molay foi supliciado, após sete anos de terríveis provações, e Clemente V extinguiu a Ordem do Templo, expropriando-lhe os bens. Por cá, mais complacente, D. Diniz, ao fim de uns anos, criou a Ordem de Cristo, e como tal puderam os cavaleiros sobreviver, sob a sua cruz velas portuguesas sulcariam os mares anos mais tarde. Silencioso, o Graal continua pela noite dos tempos uns metros abaixo do Paço de Sintra…

(*) Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai a glória

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