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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um visto para a dignidade


Faria Machado abeirou-se da janela e correu para o gabinete, arfando:
-Senhor cônsul, a fila está a engrossar lá em baixo! Que quer que façamos? - o assustado  funcionário levava quatro anos em Bordéus, mas nunca vira nada assim. Aristides Sousa  Mendes foi espreitar, mais de vinte pessoas faziam fila, em busca de um visto para Portugal. Alguns rabinos, yeddish com peias pelos ombros e mães com os filhos pela mão, apreensivas e assustadas. Estava-se em Junho de 1940, oito dias antes o exército alemão entrara em Paris e o Reich privara de nacionalidade os hebreus, ciganos e nacionais dos Estados ocupados, de repente apátridas, e sem papéis. Notícias da Alemanha faziam temer o pior e Portugal, neutral, pareceu um súbito abrigo.Lisboa primeiro, depois se veria.
De Lisboa, Sousa Mendes recebera instruções rigorosas pela circular 14: nada de vistos sem consulta previa a indivíduos de nacionalidade em litígio, apátridas, portadores de passaportes Nansen, russos, ou judeus expulsos do país de origem. Contudo, desde que constara que o cônsul de Bordéus concedera visto a Arnold Winitzer, judeu austríaco em risco de ser internado num campo de detenção francês, Portugal surgiu como um destino esperançoso. Outros dois ou três casos objecto de reparo por Lisboa se sucederam, Sousa Mendes pisava o risco  mas o seu nome ganhava fama.
Taciturno, fechou-se no gabinete, pensando no que fazer com aquela gente, à mercê de um carimbo e apanhada numa guerra iníqua. Eram famílias inteiras, respeitáveis e honradas, absurdamente perseguidas.No seu intimo, tomou uma decisão:
-Faria Machado, chame o Vieira Braga para aqui e mande-os entrar um por um, pela ordem de chegada. Sente-se aqui a meu lado e traga o selo branco! -resoluto, decidiu-se, não é possível ser homem sem humanidade. Um aliviado sorriso atravessou a fila desesperada, mal as portas se abriram, todos querendo entrar em primeiro. Sousa Mendes fazia a triagem e assinava, enquanto Faria Machado, obediente mas apreensivo, ia apondo o milagroso selo branco. Havia ainda que garantir um livre-trânsito para Espanha, geralmente fácil para passageiros em trânsito, mas o consulado de Bordéus tornava-se um raio de luz, redentora fronteira entre a vida e a morte.
Norah Kempinski, jovem violinista na Orquestra de Viena, e a mãe, arrastando duas malas cartonadas com bom aspecto, sinal de uma vida até ali estável e com conforto, surgiram nesse dia, com ar assustado e quase suplicante. Chegada à secretária de Aristides, olharam-se, silenciosos e cúmplices. Cortês, o cônsul leu os papéis e rubricou os vistos, após o que Norah, em silêncio colocou a sua mão sobre a dele. Pegou na mala e na mãe, e desapareceu na esquina do Quai Louis XVIII, rumo à gare de Bordéus, onde inúmeros portadores de passaportes Nansen e apátridas aguardava o Sud Express salvador, cada minuto a mais parecia uma eternidade.
Nos dias seguintes, a fila foi engrossando, Portugal, país distante, era o Eldorado onde todos queriam chegar. Lisboa soube do reboliço em Bordéus e o embaixador em Madrid foi enviado a Hendaia, para travar o ímpeto de Aristides. Quatro mil assinaturas haviam já livrado outros tantos inocentes, culpados de estar vivos no sítio e hora errados, e que ao som redentor dum selo branco marchavam em direcção à liberdade. Lisboa fechou os olhos à chegado dos refugiados, a imagem de país acolhedor até nem desagradou a Salazar, mas a autoridade do Estado não podia fraquejar, porém,  e predador, o poder da disciplina caiu sobre o homem de Bordéus. Em Outubro, depois de suspenso, o cônsul foi punido com um ano de inactividade e metade do vencimento, e depois secamente aposentado e sem meios de subsistência, também ele sem visto para a dignidade, mas com selo branco na guia de marcha para o castigo.
Norah e a mãe chegaram a Lisboa em finais de Junho.Joaquim Morais, comerciante da Baixa e coração solidário, viu-as no Governo Civil, repleto de refugiados, sós e assustadas. Uma filha com a idade de Norah, levou-o a deter o olhar naquela moça frágil e perdida. Inteirado da situação, ofereceu-se para as alojar, uma vida a pulso e feita de dificuldades dera-lhe a percepção de quanto as pessoas contam nos momentos maus.Por cá ficaram seis meses, e na casa dos Morais, nos arredores de Sintra, passaram com a nova família o Verão de 1940. Não fosse o racionamento do açúcar, nada deixava transparecer um mundo em conflito. Os filmes de Leitão de Barros e a épica Exposição do Mundo Português exaltavam um país brando e tranquilo, que sabiamente o doutor Salazar poupava a uma guerra distante, os banhos na Praia das Maçãs com os filhos de Joaquim Morais devolveram o conforto de uma família e um lar.Foram meses a cicatrizar feridas, até que, pelo Natal, uma agência judaica finalmente as levou para a América.Passada a Estátua da Liberdade, enfim uma esperança de futuro, do lado de lá do Atlântico.
A guerra acabou, e os anos passaram. Caído em desgraça, Sousa Mendes morreu esquecido e na miséria, Norah fez uma carreira na América, e nos anos seguintes voltou várias vezes para rever a família portuguesa. Fugira à Shoah e a um destino tenebroso, e a cada novo concerto, o violino vibrava e as cordas furiosas choravam, lancinantes,  pela sordidez dos injustos. Mas também pelos bons e gentios, rostos distantes e desaparecidos, por eles também muitas vezes gritou o arrebatado violino às mãos do virtuosismo de Norah.
Em 1975, já avó e retirada, pela primeira vez visitou Israel com os netos, essa Terra Prometida onde ainda pensou viver depois da guerra, desafiada por amigos, colaboradores do Írgun. Antes, porém, passou duas semanas em Sintra, com Amália, a filha de Joaquim Morais, e a família desta. O “pai” Joaquim falecera já, sem distinção entre filhos,  deixara um anel de estimação para a frágil Norah que um dia encontrou perdida no Governo Civil. Foi a sua última visita, sentiu-o ao abraçar Amália, com o anel apertado na mão.
Em Jerusalém e num turbilhão de emoções, procurou no Yad Vashem pelo Jardim dos Gentios. Ruas de alfarrobeiras alinhadas, flores frescas e sempre renovadas, em cada árvore uma placa identificava nomes que generosamente haviam resgatado do holocausto vidas sem eles fatalmente perdidas, num tempo de intolerância e delírio.Com os olhos, correu as placas, e captou os nomes: Wahlenberg, Schindler, outros mais.Frente a uma alfarrobeira aquecida pelo sol, finalmente o nome procurado. Deteve-se, com um arrepio atravessando-lhe o corpo. Era ali. Com lágrimas no rosto, depositou uma rosa branca no chão.Aristides Sousa Mendes, o cônsul de Bordéus, que com uma simples assinatura a resgatara dum destino amargo, para a eternidade ali estava recordado.
A humanidade não é um estado a que se ascenda. É uma dignidade que se conquista.

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