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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sintra nos anos de 1896 a 1910



Nos anos de 1896 e 1897, Sintra cumpria o seu destino de local de veraneio, com uma vida social em torno da Vila e das idas e vindas da família real e da aristocracia.

O jornal mais popular era o Correio de Sintra, fundado a 19 de Março desse ano. Dirigido por Raphael do Vale e editado em Lisboa na R. D.Pedro V por Garcia de Lima, custava 40 réis e publicava-se aos domingos, e intitulava-se “jornal politico, ilustrado, litterario e comercial”, sendo a sua sede na Vila Estephanea, hoje bairro da Estefânea.

Por essa altura era presidente da Câmara de Sintra o visconde da Idanha, Francisco de Aboim, (imagem abaixo) e administrador do concelho João Manuel Esteves Junqueira. 

Uma curiosidade: dos vários comboios, cerca de 6, que diariamente asseguravam a ligação a Lisboa, os das 6h e das 10h55m, não despachavam bagagens nem cães…

Em Abril de 1896 abriram dois estabelecimentos emblemáticos de Sintra: a papelaria A Camélia e o Hotel Nunes (1 de Abril). A 12 de Abril, dá-se nota da realização no fim de semana seguinte de um comício para preparação do 1º de Maio no quintal do senhor Manuel Galego, nas Lameiras, e nesse mesmo mês morre José Inácio Costa, conhecido capitalista e filantropo de Colares. Também esse mês casa o dr. Brandão de Vasconcelos, médico que haveria de deixar marca na via económica e cultural de Colares com D. Rufina Madureira, como com deferência refere a imprensa da época, sempre atenta a enlaces, falecimentos e relato das partidas e chegadas para veraneio ou a nomeações de personagens ilustres para altos cargos na administração pública.

A vida cultural era marcada pela Fanfarra União Sintrense, a Estudantina Maquieira, o Trio Paulus, que várias vezes actuou no Teatro Minerva, em Colares, o sol-e-dó do grupo dos 20, ou o Grupo dos 14, fundado por um conjunto de personalidades que, com João Moreira à cabeça (imagem abaixo) organizou diversas récitas e bailes, tendo nesse ano de 1896 inaugurado o seu teatro, com a peça de João Moreira, Solução e Termo e à qual assistiram mais de 900 pessoas. 

A vida social decorria nas colectividades e cafés, com destaque já nessa altura para a Sociedade União Sintrense, a tasca do Peixe Frito, o café Universal, de Afonso Gameiro da Costa, o restaurante e hotel Silva, o Hotel União ou o Nunes, tendo em 4 de Outubro desse ano sido inaugurado na R. Gil Vicente o Clube Recreativo Familiar Cintrense, ou, em Belas, em Dezembro, a Associação de Socorros Mútuos Dr. Elisiário José Malheiros. Em Março de 1897 abre em Colares o Eden Hotel, com gerência de José Maria Passos, e em Junho, em S. Pedro, surge o Grupo d’Avante Recreativo, com sede na R. Serpa Pinto, logo seguido em Julho da criação da Estudantina de S.Pedro Sempre Avante Recreativa (a 11) e do Clube da Estephanea,(a 18) presidido por Peito de Carvalho, com Chaby Pinheiro na festa inaugural. Já em Novembro, e em Queluz,  a Associação de Recreio Musical de Queluz passa a designar-se Sociedade Musical 21 de Outubro de 1895.

1896 foi um ano em que as vinhas foram atacadas pelo mildew (míldio), e em Maio os pedreiros e cabouqueiros de Montelavar fizeram greve. A imprensa, indignada relata o corte de um castanheiro da Índia em Colares, reagindo com ira e dizendo ser “preciso dar caça aos malvados authores de semelhantes proezas”. Já nessa altura… A 13 de Maio, na quinta do Cornélio, Almoçageme, ocorre um incêndio na adega de José Gomes Silva, felizmente sem danos de monta, e por essa altura – Maio- o Correio de Sintra à semelhança de periódicos da capital lança o seu folhetim semanal, O Segredo de Uma Campa.

Em Junho ocorre um acidente com andaimes no Palácio da Pena, de que resultam 3 feridos, e a 5, a esquadra inglesa fundeada no Tejo é obsequiada com uma recepção na Pena para 70 talheres. A 21, a Família Real chega para passar o Verão, sempre recebida com luminárias e fanfarra e muito povo. Já em Julho, a par de um baile de gala na Pena, com Suas Majestades o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia e mais dignitários, inaugura-se o cemitério de S. Marçal (a 1) e verifica-se um surto de angina diftérica em Barcarena, terminando o mês com o aniversário no Paço do infante D. Afonso, irmão do rei. Entre as partidas e chegadas do Verão, realce para a do conselheiro João Franco, figura proeminente da vida política, a veranear em Sintra em casa do sogro, o médico dr. Schindler, ou a dos viscondes de Monserrate, Francis Cook e sua segunda esposa, a sufragista americana Tennessee C. Chaflin, que pela módica quantia de 600 contos haviam adquirido e remodelado  o palacete  em 1863.

Em Setembro, pela primeira vez José Ignácio Paulo Costa entrega no Ministério das Obras Públicas o projecto para uma ligação ferroviária de Sintra a Colares e Praia das Maçãs, caminho de ferro de tracção reduzida e sistema americano. Era o antepassado do eléctrico, que contudo, ainda não foi dessa que viu a luz do dia.

Alertando a imprensa que os jardins do Duche se encontravam encerrados ao público, de imediato o Conde de Valenças, dr. Luís Jardim, (imagem abaixo) proprietário dos mesmos e do palacete contíguo os mandou abrir.


Em 1897 Luís Filipe Valente sobe a administrador do concelho, e a imprensa relata o sucesso da exportação de camélias de Sintra para Madrid, onde eram vendidas a 1 peseta cada. Em Fevereiro abre cartório na Vila o jovem advogado Virgílio Horta, sendo quase de seguida designado administrador do concelho. No plano político, em Fevereiro, no Hotel Bragança, em Queluz, abre o Centro Regenerador João Franco, de apoio ao controverso conselheiro. Já a 17 desse mês, mistério na Pena: aparece morto por estrangulamento o funcionário desse Palácio António Rodrigues, por todos conhecido como o Cavaco. E por esses dias, em Belas, igualmente, o médico barão da Costa Silveira, dr. Galvão de Melo, assassina a tiro de revólver o farmacêutico e figura querida da terra Manuel José Malheiros (imagem abaixo). 


Em Abril, a condessa d’Edla passa uns dias no seu chalé, e os Cook recebem em Monserrate amigos ingleses, os Kendall, saudados pela fanfarra da Sociedade União Sintrense. Como habitualmente por ocasião das visitas anuais,  a viscondessa de Monserrate visita as escolas, e distribui bolos e livros pelas crianças mais necessitadas. E, para além das récitas e festas anunciando o período estival, realce para uma festa, já em Junho, que trouxe à casa de Teodoro Ferreira Pinto na Vila Estephanea o escritor Bulhão Pato (a 19) ou em Julho (a 7) a deslocação para um jantar na Praia da Adraga da rainha viúva D. Maria Pia.

O caminho de ferro para Colares e Praia das Maçãs volta à baila, desta feita com projectos de Raul Mesnier e Sertório Corte Real, promovendo-se comícios em Colares a favor da obra. Ainda não seria desta, também…

Em Agosto o padre Mathias del Campo, galego refugiado em Portugal, é nomeado coadjutor de Colares, e decorrem sob patrocínio de Luís Augusto Collares as festas das Azenhas do Mar. E em Setembro, a par da notícia dum surto de tifo no Mucifal e da continuação das obras da estrada que finalmente ligaria Colares à Praia das Maçãs, uma polémica: o Correio de Sintra denuncia a existência de jogo clandestino no café Universal, na Vila, com a cobertura do administrador do concelho Virgílio Horta.


Em Outubro, a Câmara dá conta de que o conde da Azambuja pretende fechar o campo de Seteais, aforado em 1801. Também nesse ano se realiza um dos primeiros filmes portugueses com Sintra como tema: O Comboio de Recreio e Sintra, realizado pela empresa Gameiro Alves, do Brasil.

1898 começa com um crime que deixa as populações estupefactas: no Linhó, um desiquilibrado de 34 anos, Vicente Baptista, mata a mãe, de 60. Acaba internado em Rilhafoles. Fruto das guerrilhas políticas, é dissolvida a Câmara, substituída por uma comissão administrativa presidida por José Luís Gonçalves. Em Fevereiro, vários choupos de Colares são abatidos, substituídos em Março pela alameda que ainda hoje perdura junto à Adega Regional de Colares (posterior).

O Carnaval desse ano decorre nos espaços usuais, o  teatro do Grupo dos 14, e a Sociedade União Sintrense, ou o teatro Minerva, em Colares. Em Abril, anexo ao teatro do Grupo dos 14 é inaugurado o espaço do Grupo Dramático Pinto Ramos.

O crime de Belas chega a julgamento e o homicida do farmacêutico Marreiros, o barão Castro Silveira apanha 3 anos de prisão. Enquanto isso, nas Cortes, o deputado Chaves Mazziotti pergunta pelas obras da estrada de Sintra a Colares, muito desejadas e sempre adiadas, e na Estefânea e Vila Velha continua a saga do jogo ilegal, e as invectivas do Correio de Sintra contra as autoridades que tal permitem.

Em Maio, é fechado o tanque da Várzea de Colares, e em Agosto finalmente é publicado o decreto que aprova a construção da estrada de Sintra para Colares, enquanto na Câmara se discute a construção de um jardim público no Rio do Porto, ocorre um surto de bexigas em Belas e o círio da Senhora do Cabo em Montelavar. Como habitualmente, a família real veraneia e o Grupo dos 14 oferece um bodo aos pobres no Terreiro Rainha D.Amélia, e Carvalho Monteiro adquire os terrenos para construção de uma casa apalaçada (Regaleira)

Em Setembro a casa Siemens propõe à Câmara a concessão para instalação da luz eléctrica na Vila, e sob égide de alguns abastados proprietários, entre os quais o deputado Chaves Mazziotti é criada a Sociedade Edificadora da Praia das Maçãs. Joaquim Vicente Albogas abre uma serração em Montelavar e reúne o Centro Socialista de Sintra, presidido por Manuel Dias Ferreira. O automóvel, novidade recente, desperta interesse geral e o grupo sol e dó do Grupo Recreativo Familiar Sintrense organiza um passeio recreativo a Cascais, pela serra. O ano acaba com a tomada da Câmara pelos progressistas, presidindo José Joaquim Lopes Gonçalves.

Em 1989, o comerciante Joaquim António Pires é feito barão do Cacém, e em Montelavar, logo em Janeiro, a troupe dramática de Vítor Cruz apresenta o espectáculo Uma para Um, de Alberto Pimentel, enquanto o Grupo dos 14 leva à cena uma récita pelo grupo de Pinto Ramos

Já em Fevereiro, na Estefânea, inaugura-se o clube Pérola de Cintra, de José Pereira dos Santos e no âmbito das comemorações do centenário de Garrett, é descerrada uma lápide em sua homenagem junto aos Pisões. O Correio de Sintra de 19 de Fevereiro, entretanto, noticia que o conhecido capitalista Carvalho Monteiro pretende construir uma vistosa casa em Sintra. Também em Fevereiro, morre o chefe local do Partido Regenerador, o conselheiro Francisco Costa e Silva, e em Monserrate decorrem obras para construção de uma cascata do lado exterior da propriedade.

Em Abril abre na Vila um novo estabelecimento, o Pérola de Cintra, e em Maio morre o proprietário do Chalet Biester, Frederico Biester. A família real chega a 16 de Junho, sendo que de início a rainha D.Amélia (abaixo) passa alguns dias indisposta, razão porque a 17 de Julho se celebra em S.Martinho um solene Te Deum pelo seu pronto restabelecimento.

Na Câmara dos Deputados, finalmente passa um decreto que permite a construção duma linha férrea até Colares, já pedida desde 1986 e nunca saída do papel, enquanto na estrada Sintra-Colares se realizam obras de requalificação no local conhecido como Ponte Redonda.

Em 1900, José António de Araújo encena "Revista de Cintra" no Teatro Garrett, e Manuel Emygdio da Silva(foto abaixo) enfrenta Chaves Mazziotti nas eleições legislativas, representando Sintra, onde a Câmara é dissolvida e nomeada uma comissão administrativa presidida pelo farmacêutico José Simões Dias.

Já em 1901, a imprensa destaca a chegada das primeiras solipas para o novo caminho de ferro até à Praia das Maçãs,(eléctrico) que finalmente avança, e abre o Hotel Bragança, em Queluz, com gerência de Gonçalo Verol Júnior e diárias a 1200 réis. Morre Sir Francis Cook, visconde de Monserrate, e seu filho Frederick é confirmado como 2º visconde (o título fora atribuído por 2 vidas)

Em 1902 é adjudicada a iluminação eléctrica à Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs,  a troupe de Victor Cruz anima os teatros de Sintra, e o 2º conde do Cartaxo compra a Quinta da Ribafria   

A rainha D.Amélia em Santa Eufémia

Nasce 1903 e os jornais destacam o estabelecimento em Queluz de uma empresa de automóveis. O apeadeiro do comboio em Rio de Mouro é concluído e em Queluz destaca-se o grupo dramático Thomas do Nascimento. Em Abril, o rei de Inglaterra, Eduardo VII visita Sintra,(foto abaixo) e morre Domingos José Morais, figura destacada da vida local, e pai de Fernando Formigal Morais.

Nesse ano, João Augusto de Carvalho é regedor de S.Martinho, e os banhos  do Duche custavam 160 réis (água quente) e 140 (água fria). Na Praia das Maçãs emergente pontificavam as casas Prego e Grego e o engenheiro Van der Wallen fazia os primeiros ensaios do eléctrico, quase pronto. Dezembro termina com mais uma visita real: o rei de Espanha, Afonso XIII. Destaque para a publicação do livro "O Paço de Cintra" da autoria do Conde de Sabugosa, com ilustrações da própria rainha D.Amélia.

Em Março de 1904 o eléctrico vê finalmente o momento inaugural, a par da introdução gradual da electricidade, e em Junho é inaugurado o chafariz do Vinagre, e o conde de Mesquitela é administrador do concelho.

Em 1905, António Cunha publica o seu livro "Cintra Pinturesca" e o dr. Luís Soromenho adquire a Quinta da Penha Longa.Igualmente de visita a Portugal, e Sintra, o presidente da República Francesa, Emile Loubet(em baixo, com a rainha D.Amélia)

1906 marca o arranque das obras da nova cadeia comarcã, projecto de Adães Bermudes executado por João da Silva Pascoal, bem como da Quinta dos Lagos, de Fernando Formigal de Morais.

Em 1907, e a pedido da Liga Promotora de Melhoramentos de Sintra, a cadeia da Vila Velha passa a acolher os correios (ainda hoje).

A 12 de Abril de 1908, ano em que encontramos o Visconde do Tojal como presidente da Câmara, nasce o jornal Ecos de Sintra, dirigido por Júlio do Amaral e é inaugurado o restaurante Internacional, na Praia das Maçãs, o "Barateiro", loja e retrosaria na Vila Velha, e o "Serra de Sintra", no mesmo local. Em Agosto, finalmente a luz eléctrica chega à Vila, e um bilhete de eléctrico até à Praia das Maçãs custa 200 réis (80 até Galamares). 1908 é o ano em que definitivamente encerram os banhos na Volta do Duche.

Em 1909, o teatro e a Esplanada Garrett, com animatógrafo, animam a vila em período estival, e na Estefânea nasce por impulso de Formigal de Morais uma escola primária. Em Maio, os novos Paços do concelho (actuais), também obra de Adães Bermudes, ficam prontos, e o velho edifício da Câmara na Vila (hoje Museu do Brinquedo) é encerrado.

E assim chegamos à República, sem que muito mude no burgo, tirando as regulares visitas dos reis, substituídos por façanhudos senhores de cartola, quase sempre a banhos e em vilegiatura. Termino com um espirituoso escrito no Correio de Sintra em 1908:

 

3 comentários:

  1. Tem mais informações / histórias sobre a família Malheiros? Gostava de as conhecer.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Também eu gostaria de saber mais sobre a família Malheiros. É que o Dr. Elisiário Malheiros é o meu trisavô...
    Obrigada
    Teresa Malheiros de Lemos Peixoto

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