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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cabeças no ar


O segurança fechou as luzes, deixando apenas as de presença, era sexta-feira e quase todos  tinham já saído da velha Faculdade de Medicina. O doutor Hilário, do gabinete de frenologia, acabada a dissertação que faria na Academia de Ciências sobre o cérebro e o crime, saía também, a semana fora cansativa, mas estimulante.
Pouco passava da meia-noite, já o silêncio invadira o local, um vulto, empunhando uma lanterna mortiça focou, enervado, as prateleiras do museu do velho teatro anatómico. Entre crânios, corações e fetos guardados em espessos frascos, alguém procurava algo específico, que finalmente encontrou: um frasco contendo conservada em formol a cabeça decepada do famoso Diogo Alves, um médico que quisera ficar anónimo pagara dez mil euros para que roubassem e lhe levassem a Sintra o frasco com a dita cabeça. Artur não via que interesse poderia o macabro objecto, mas era uma boa grana, o acesso ao local nem fora difícil, discretamente, entrou com o pessoal da limpeza. Agarrado o frasco, meteu-o no balde da esfregona e com pezinhos de lã escapuliu-se, ao encontro do médico.
Diogo Alves fora um conhecido criminoso do século dezanove. De origem espanhola, nos anos trinta desse século, com a ajuda da sua companheira, a Parreirinha, cometera inúmeros crimes, os mais conhecidos dos quais os homicídios e lançamento das vítimas do Aqueduto das Águas Livres, depois de as roubar. Apanhado após assassinar a família de um médico, fora enforcado em 1841, tendo então cientistas da Escola Médica decepado a cabeça e ficado com ela para estudo. Apesar do aspecto tranquilo, uma mente perversa estava por trás daquela personalidade.
Ludgero Pignatelli, médico já admoestado pela Ordem por experiências reprováveis, fora o mandante do roubo, e contra a entrega do dinheiro, em notas, com regozijo recebeu o precioso frasco na sua casa de Sintra. Pignatelli acreditava que o cérebro de Diogo Alves continha a explicação para o comportamento criminoso do espanhol, a sua protuberância física seria determinante, pelo que secretamente propusera-se levar a cabo uma experiência: aproveitar uma operação a um paciente, vítima de traumatismo, para discretamente fazer um arriscado transplante. Helga, dedicada enfermeira, colaboraria com discrição, assim concretizando a experiência científica que há muito vinha engendrando. Ao invés de colegas seus, adeptos da craniometria, que embora em desuso, associava o peso e a forma do crânio a comportamentos desviantes, enquanto frenólogo militante sempre achara que as ideias de Franz Gall tinham fundamento, o cérebro é o lar das actividades mentais e é o seu nível de organização que determina a personalidade, independentemente da moral ou razão, a inédita experiência mostraria se assim era.
Duas semanas depois, na cirurgia do Amadora-Sintra, Alberto Santiago avançava anestesiado para a sala de operações, a queda duma grua deixara-o com lesões cerebrais, só uma operação poderia resolver. O doutor Pignatelli, já com tecidos da cabeça de Diogo Alves amputados, raspou-lhe o couro cabeludo, fez uma incisão e de seguida uma perfuração no crânio do sinistrado para a parte com problemas ficar exposta, usando lentes de modo a não lesionar o tecido encefálico. Depois de retirar um coágulo de sangue, implantou tecido da cabeça de Diogo Alves e voltou a colocar o osso craniano removido. A experiência estava em curso e um novo Alberto seguia para a enfermaria, a convalescer. Só na tarde seguinte o paciente despertou, com sede, pediu água, com a cabeça a andar à roda, tudo observando,  o doutor Pignatelli tirava notas, os dias seguintes seriam determinantes.
Uma semana depois, teve alta e voltou a casa, um sétimo andar na Tapada das Mercês. Pignatelli recomendou-lhe que voltasse todos os dias, todos os comportamentos atípicos seriam relevantes para aprofundar a tese que voltaria a colocar Gall no centro da neurologia moderna, quiçá um dia o Nobel premiasse as teorias de Pignatelli. Em casa, Alberto passava os dias vendo televisão, atacado por frequentes encefalias, sequelas da operação, pensava. Uma tarde, antes de sair ao encontro do médico, bateram à porta. Eram testemunhas de Jeová, a doutrinar, missionárias. A hora não era oportuna, arengou, tinha de ir ao médico, as senhoras, de livro na mão, insistiram, contudo, e continuaram a falar. Alberto, ouvindo um zumbido a zurzir na cabeça, ficou perturbado e agarrou numa delas, lançando-a por uma janela aberta para a rua, logo juntando uma multidão perto do Floresta Center, enquanto a outra, horrorizada, fugia escada abaixo, Deus Salvador talvez a não salvasse, desta vez. Alberto ficou em pânico, ao aperceber-se do que tinha feito, e correu a fechar-se dentro de casa, já a polícia vinha a caminho, a cabeça latejava com dores. Em desespero, telefonou ao doutor Pignatelli, precisava vê-lo com urgência, lá fora, furioso, um polícia tentava arrombar a porta. Escondendo-se na varanda, mal o incauto agente entrou à sua procura, um empurrão certeiro, e também o polícia caiu desgovernado no passeio frente ao prédio, choviam pessoas daquela varanda, pensou um bêbedo, assistindo a tudo da estação das Mercês.
Pignatelli chegou acelerado, o burburinho à porta e a polícia antecipou-lhe que o pior tinha acontecido. Trepou os sete andares a pé, acelerado, e deu com Alberto sentado no chão e agarrado à cabeça, os olhos fora das órbitas. Da janela vinha um vento desagradável e o médico correu a fechá-la. Ainda mal corria uma das portas, quando por trás sentiu um empurrão, seco e desamparado, precipitando-o janela fora rumo à eternidade, embora não aquela com que anos a fio sonhara. Para Ludgero Pignatelli, como para Diogo Alves, mais de cem anos antes, os problemas eram definitivamente com as alturas...

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