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domingo, 30 de dezembro de 2012

O ovo Fabergé



O tenente Milhazes não sabia o que pensar, chamado a averiguar o roubo dum carro perto do Chalé Biester, uma busca na adega conduzira ao baú com a reluzente peça de ourivesaria, a PJ fora chamada. O inspector Caldeira, da Unidade de Cooperação Internacional pasmou, especialista em furtos de arte, reconheceu ali um tesouro raro e precioso:

-Então, inspector, que me diz? -sondou o tenente, curioso.

-Ou me engano muito, ou há aqui coisa da grossa, tenente -discorreu, observando a peça - nada mais nada menos que um dos famosos ovos Fabergé!

O chalé, construído em 1890 na estrada da Pena por Ernesto Biester, comerciante de origem alemã radicado em Portugal, estava há tempos encerrado, o tenente Milhazes apenas recordava a vez em que a GNR fora requisitada para regular o trânsito, quando Roman Polanski ali rodara cenas de “A Nona Porta", normalmente os donos estavam fora.

-Os Ovos Fabergé são obras-primas da joalharia, e foram criados para os czares da Rússia. Veja, tem uma combinação de esmalte, metais e pedras preciosas. Normalmente escondiam surpresas e miniaturas oferecidas na Páscoa entre os membros da família imperial. Valem uma fortuna! -o ovo era efectivamente deslumbrante, peça única.

-E como terá vindo aqui parar? Já contactámos o representante do proprietário, desconhecia a existência deste baú, deve ter sido posto ali recentemente.

-Ou guardado à espera de quem o viesse buscar…-discorreu o inspector, congeminando pistas prováveis. Levado para Lisboa, o ovo foi examinado por um perito em ourivesaria, Agatão Prazeres, que escancarou os olhos à vista da raridade:

-Inspector, tem aqui um tesouro! É efectivamente um Fabergé! E passou a explicar:

-Fabergé e os seus ourives desenharam e construíram o primeiro ovo em 1885, para o czar Alexandre III, foi um presente de Páscoa para a czarina Maria Feodorovna. Por fora, parecia um ovo de ouro esmaltado, mas ao abri-lo, tinha uma gema de ouro com uma galinha dentro, que por sua vez continha um pingente de rubi e uma réplica em diamante da coroa imperial. Assim como uma matrioska, está ver...-explicou, entusiasmado, analisando a peça com uma lupa. Ela ficou tão impressionada que o czar passou a encomendar um ovo todos os anos, na condição de ser sempre original, e conter uma surpresa. Cinquenta ovos imperiais foram produzidos para os czares Alexandre III e Nicolau II, e outros membros da nobreza russa.

-E este é autêntico?

-Puríssimo, veja. Prata, ouro, platina, combinados em proporções variadas, a fim de produzirem diversas cores. Além de usar uma técnica de esmaltagem plique-à-jour,  assim como pedras preciosas. Só existem  cinquenta e sete, mas oito estão desaparecidos e desses só há  fotos de dois. Depois da revolução russa, a casa Fabergé foi nacionalizada pelos bolcheviques, os palácios saqueados e os tesouros removidos por ordem de Lenine. No tempo da guerra, Estaline vendeu vários, e pensa-se que catorze ovos deixaram a Rússia nessa altura. Uns terão sido comprados por Armand Hammer, um milionário americano que foi amigo pessoal de Lenine, e outros por Emanuel Snowman, um antiquário de Londres, mas não é seguro!

Contactada a Interpol e trocadas fotos, efectivamente confirmava-se a falta de oito ovos, o de Sintra poderia ser um deles. Mas, curiosamente, o FBI informava que o ficheiro de Armand Hammer  mencionava uma passagem por Portugal em 1942,e ficara alojado em Sintra, vigiado pela PIDE portuguesa, a inédita amizade com os russos aconselhava cuidados. Vasculhado de novo o baú, Caldeira detectou uma pequena inscrição em cirílico, na base. Mas como teria ido o ovo ali parar? O caseiro garantia que um mês antes não havia nada no local, só lá iam homens da imobiliária para mostrar o chalé, que estava à venda. O ovo, entretanto, ficava apreendido, a embaixada russa sabedora do achado arrogava direitos, mas o governo português alegava serem necessárias mais averiguações.

O inspector matutou vários dias no caso, e chamou o homem da imobiliária ao local, para saber quem tinham sido os interessados na aquisição da quinta:

-Vieram uns árabes, que gostaram, mas acharam pequeno, queriam salões maiores, o André Jordan, e…ah já esquecia, esteve cá o José Mourinho com uns barbudos -  Nuno Duarte, mediador da Relux, agência especializada em casas de gama alta, tinha a venda do  Biester a seu cargo -Para aí há um mês. Eram dois. Até pediram para meter o carro cá dentro, um Ferrari amarelo, lembro bem.

-E eles estiveram sempre consigo?

-Sim, sim…não, espere, houve um que pediu para usar a casa de banho, demorou um pouco, mas só isso.

-E mostraram interesse pela casa?

-Acharam  muito húmida, disse um deles ao Mourinho, mas tinham um amigo que gostava muito de Sintra e que viria daí a um mês a negócios em Portugal. Aliás, agora que fala, lembro que na agência marcaram uma visita para a semana. Um momento! -pegou no telemóvel e ligou para o escritório, confirmava-se. - Exacto! Sergei Borosov, vive em Londres habitualmente.

-Fazemos o seguinte: quando ele vier eu venho também, como se fosse da agência, ok?

Nuno encolheu os ombros, que fosse, o negócio dele era outro. No dia aprazado lá surgiram dois russos num carro de vidros foscos, com mini bar lá dentro, Nuno e o inspector mostraram os interiores, obra de Manini, o mesmo da Regaleira, e Borosov mostrou interesse, uma off-shore das ilhas Caimão compraria. O que guiava o carro pediu se podia ver a adega, e aí Caldeira aguçou os ouvidos. A adega estava vazia, os russos, desconfiados, entreolharam-se, perguntando pela garrafeira, um quanto alterados já. O telemóvel de Caldeira tocou entretanto, da central chegavam informações recentes:

-Sim…sim…óptimo! Obrigado, Sandra, hoje pago eu o almoço!

Terminada a chamada, segredou a Nuno que fechasse o portão discretamente, e dirigiu-se aos russos que discutiam na adega:

-Polícia Portuguesa! Estão presos, façam o favor de me acompanhar! -explicou em inglês, sacando a arma dum coldre atrás das calças. Os russos, surpreendidos, olharam um para o outro e ensaiaram uma fuga, um disparo para o ar arrefeceu as intenções, Nuno travara-lhes o carro com o dele, ao fechar o portão:

-Então, inspector, que descobriu? -o agente imobiliário exultava a brincar aos detectives.

-O russo que veio ver a casa com o Mourinho é neto dum agente do KGB, que nos anos quarenta entregou a Armand Hammer o ovo Fabergé que Estaline secretamente lhe vendeu. Por azar, ainda em vida, Hammer confidenciou-lhe ter escondido o ovo em Portugal, em local seguro, e identificou o sítio. O tipo que veio com o Mourinho tem dinheiro enfiado no Real Madrid, seguiu as indicações do avô, que lera o conteúdo da carta para Estaline, e descobriu o  ovo numa prateleira da adega, no local referido na carta de Hammer, só que não teve tempo de o levar quando pediu para usar a casa de banho, originaria suspeitas. Mandou então este amigo fazer a recolha, a coberto dum suposto interesse na compra do chalé. Daí só estar ali há poucos dias, pronto para levar.
Presos os ladrões, caso encerrado: o ovo foi entregue à Federação Russa, que o enviou para o Hermitage, onde ficou exposto. Agradecido, o governo de Medvedev prometeu um donativo para apoiar as associações culturais de Sintra, ocasião rara em que se podia pelo menos contar com um ovo....   

1 comentário:

  1. Como sempre, lindo!!!
    Coragem para o 2013...
    Abraço!
    Silvestre Brandão Félix

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