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domingo, 30 de dezembro de 2012

O Holandês Voador



Adelino Faleiro reformara-se do ensino ia para dois anos. Entretido com os livros e os longos passeios a pé, a conselho médico, diariamente fazia o calçadão da Praia Grande, terminando com uma bica no Angra, onde o Faísca e o Marinho faziam o ponto de situação do campeonato, com ele, sportinguista ferrenho, sempre à defesa na conversa. Estudioso do mar e de naufrágios, recordava que o próprio Angra devia o nome a um cargueiro  ali encalhado anos antes, aberto pelo Fortunato, concessionário da praia, tosco barraco na época, mas hoje muito frequentado.

Naquela manhã de Dezembro o nevoeiro caía denso sobre a praia e um vento de nortada soprava a espuma das ondas, frio e cortante. Alheio ao frio, Adelino saiu para o habitual passeio matinal, como de costume terminaria com uma bica no Angra. Época baixa e dia de semana, a poucos dias do fim de ano,  pouca gente circulava, um velho passeava os cães e um ou outro surfista madrugador desafiava as ondas, o cheiro do iodo abria o apetite para o almoço, mais tarde. O neto acompanhou-o nesse dia, a promessa de um tablet tirara o  pequeno Simão da cama, depois do passeio seguiriam para o shopping, às compras.

No horizonte, encoberto por denso nevoeiro, Simão, até ali absorto com os headphones, descortinou um navio com velas, aparentava ser um barco antigo, como os dos filmes de piratas. Adelino, já fraco de vista, e pondo os óculos, nada viu porém, podia ser a Sagres ou o Creoula, mas Simão achou que não, uma das velas parecia rota e o barco oscilava, como se estivesse à deriva. Acordado para as suas histórias de naufrágios, Adelino lembrou-se duma que talvez o neto não conhecesse:

-Simão, alguma vez ouviste falar do “Holandês Voador”?

-“Holandês Voador”? Não, avô, nunca. É algum tipo de avião?

-Não, não…- qual velho lobo-do-mar, passou a narrar mais uma das infindáveis histórias, muitas Simão escutara já, tinha mesmo no quarto uma bandeira negra de piratas.

-O “Holandês Voador” foi um navio que há muitos anos navegou na zona do Cabo da Boa Esperança, tendo como destino final Amesterdão. Durante uma tempestade, o capitão Van der Decken recusou-se a desviar o barco, apesar dos pedidos da tripulação, e monstruosas ondas fustigaram o navio, enquanto ele cantava e fumava o seu cachimbo. Desesperados, muitos dos tripulantes amotinaram-se, mas o capitão, alcoolizado, matou o chefe e atirou o corpo ao mar. No céu, as nuvens abriram-se nessa altura, e escutou-se uma voz, recriminando-o. Van Der Decken apontou ao céu, mas a pistola explodiu-lhe na mão, e a voz lançou-lhe uma praga: “ Por esse teu acto, ficas condenado a navegar pelos oceanos toda a eternidade com uma tripulação de mortos, e nunca mais terás descanso. Bílis será a tua bebida, e um ferro quente marcará a tua carne”.

Simão achou a história fascinante, era um pouco como os Piratas das Caraíbas, com o Johnny Depp, ao fundo, enevoado, o barco continuava a oscilar, Simão jurou mesmo ter escutado tiros. O avô descansou-o, era uma lenda como muitas outras, os mistérios do mar imenso e mentes febris sempre tinham sido férteis em histórias mirabolantes. Minutos mais tarde, o barco desaparecera, ao longe, apenas mar e horizonte. Já a caminho do Angra, Adelino concluiu o relato ao neto:

-Há muitos relatos de avistamentos do “Holandês Voador”, umas vezes por marinheiros experientes, outras por olhares toldados pelo álcool. A minha convicção é a de que o capitão vai errar para sempre sem destino, com as suas blasfémias e a mão queimada…

Na esplanada do Angra, o nevoeiro dissipou-se entretanto, e mais surfistas se juntaram no areal desafiando as ondas frias, no horizonte, apenas o azul de um dia que apesar de começar cinzento iria afinal ser solarengo. Avô e neto sentaram-se, olhando o mar, e passados minutos lá apareceu o Faísca a atender o pedido, algo irritado por sinal. Adelino, que já o conhecia há muito, sondou o motivo da má disposição:

-Então, Faísca, dormiste mal esta noite, ou houve passarinho na costa? -trinta anos de praia permitiam-lhe alguma familiaridade…

-Nem me diga nada, dr. Adelino. Tenho lá dentro um estrangeiro, um holandês que está ali desde que abrimos, e só pede absintos. Já partiu dois copos, tal é ela! De vez em quando olha para a praia e começa a gritar na língua dele, estou a ver que ainda temos de chamar a guarda!

Ainda com a história do avô nos ouvidos, Simão espreitou para o balcão do Angra, a observar o holandês. Era alto, de pele enrugada, o cabelo louro em desalinho. Com a mão esquerda, segurava o copo, já vazio, a da direita pareceu-lhe estranha, a um segundo olhar, reparou  estar cicatrizada, e apenas ter dois dedos. No horizonte, o sol era mais azul agora, com o esfumar do nevoeiro também o navio se dissipara. Vistas bem as coisas, melhor seria irem ao shopping comprar o prometido tablet...

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