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sábado, 15 de dezembro de 2012

As time goes by



O Douglas DC-3 proveniente de Casablanca aterrou já noite na Granja do Marquês. Fugindo da barbárie nazi, Ilsa Lund e Victor Lazlo logravam escapar do major Strasser, com o apoio de Rick e a complacência do capitão Renault, o chefe da resistência checa esperaria em nova escala o necessário visto para a América, a partir de onde reorganizaria a luta contra a ocupação hitleriana.

No aeródromo, em Sintra, aguardava-os Mário Soares, um jovem destacado pelo sector intelectual do MUD para os acompanhar enquanto não se obtivesse o almejado visto. Uma vez metidos  num Ford de 1935, Mário levou-os para Sintra, onde os alojou no Hotel Netto, sob o falso nome de Walinski, casal de polacos de visita a Elieser Kamenesky, o actor russo exilado que entrara já no Pátio das Cantigas. A estadia seria de pelo menos dois meses e Soares o elemento de ligação nesse período.

No dia seguinte, acompanhado por uma amiga de confiança, Maria Barroso, levou-os de carro a conhecer o Estoril e a costa, Ilsa, anormalmente faladora, interessou-se pelo contacto português:

-Já alguma vez esteve em Paris, Mário?

-Nunca, miss Ilsa, embora tenha a maior paixão pelos escritores franceses. O Anatole France, o Malraux, que é nosso camarada sabia…-comentou, num francês arrevesado, línguas não eram o seu forte.

-Ah Paris... -suspirou, transportada para as recordações duma existência curta mas recheada de desencontros. Em Paris fora feliz com Rick, aí o perdera, em Casablanca, madrasta, de novo a vida os cruzara sem voltar a juntar.

Mário era um idealista. Recrutado pela célula intelectual dos comunistas na Faculdade de Letras, os contactos com a resistência no exterior eram-lhe já familiares, desde o início tivera como orientador um circunspecto professor de geografia do Colégio Moderno, o também camarada Álvaro Cunhal. Curioso, sondou Victor sobre o curso da guerra, que despertado duma letargia condizente com a paisagem ganhou algum entusiasmo na voz:

-A Résistance está muito activa, Mário, os partisans estão espalhados por todo lado e muitos patriotas lutam contra os ocupantes nazis. Vichy, creio, estará por dias. Em Lyon a propaganda contra eles incrementou-se desde que mataram o Marc Bloch, sabia?

-Quando a guerra acabar, também aqui Salazar será afastado, Victor. Ele faz–se passar por neutral, mas é um germanófilo convicto. Lisboa está infestada de alemães, por estes dias, e você é um alvo, tem de se resguardar. Não vos aconselho que saiam de Sintra até chegarem os papéis! –recomendou, como o haviam instruído,  Maria concordou.

Os dias seguintes foram descontraídos. De manhã, passeio até Seteais ou pela vila, pela tarde, sempre no hotel, lendo e escrevendo cartas, um momentâneo descanso de guerreiro, angustiado, porém, e sempre com o pensamento nos camaradas, em Praga e por toda a Checoslováquia. Vaclav fora capturado e internado em Teresin, muitos estavam na clandestinidade e em parte incerta.

Duas semanas depois, descendo para o pequeno-almoço, Ilsa reparou em dois vultos, com malas de viagem, falando com o recepcionista do Netto. Um, alto, com gabardina branca e um chapéu preto, o outro, um negro, falavam inglês e exibiam uma reserva para o hotel. Um frémito correu-lhe pela espinha quando de súbito reconheceu as personagens, familiares afinal: eram Rick e Sam, o pianista do bar em Casablanca, excitada, logo correu para eles, com incontida alegria. Surpreendidos, voltaram-se, provocando no negro um sorriso franco e sonoro:

-Por aqui, miss Ilsa? Gosh, o mundo é mesmo pequeno! -saudou sorridente o velho Sam.

-Que fazem aqui, quero saber tudo! -Ilsa ganhou um ânimo jovial, ali reencontrava quem nunca quisera perder. Meio retraído, Rick sondou-a:

- E… Victor…?

-Está no quarto, escrevendo. Mas, digam-me, o que fazem aqui, na Europa?

Antes que Rick respondesse, o pianista adiantou as novidades:

-Mr.Rick vendeu o café, miss Ilsa, vamos a caminho de França. O capitão Renault foi colocado em Marselha, e convidou-nos para abrir lá um casino. Depois de a guerra acabar, vai ser o nosso novo sócio.

-Que bom para vocês…-comentou Ilsa, dissimulando algum desapontamento. Rick, ainda surpreso, ficou parco em palavras. De novo o destino os juntava e logo preparava para separar, nunca deixando fruir senão breves momentos de felicidade.

Sabedor da chegada, Victor desceu a cumprimentar os amigos, em trânsito, e com destino oposto ao seu. Nessa noite, jantaram no salão do Netto. Quatro vidas com rumos diferentes, em jogo de sombras numa Europa destroçada, de novo se reuniam numa bela e serena vila portuguesa, para quem a guerra chegava sobretudo pelo incómodo dos racionamentos. Depois do jantar, Victor recebeu uma chamada de Mário e saiu para o quarto, Sam, premonitório, levantou-se para fumar um cigarro, deixando Rick e Ilsa a sós.Na varanda do hotel, com vista para as muralhas mouras e com as chaminés alvas do palácio mesmo ao lado, ficaram em silêncio por uns momentos, deixando dissipar a baforada do cigarro na noite fresca. Passada alguma hesitação, Ilsa encontrou coragem para falar:

-Rick, eu….

-Palavras não alterarão nada, Ilse –interrompeu o americano, pondo-lhe um dedo nos lábios. -Victor precisa de ti, e eu nunca te poderei dar a felicidade que mereces. Somos pessoas vindas de mundos diferentes, e eu hoje não pertenço a nenhum.

Terminado o cigarro, e em silêncio, Rick saiu do hotel, a deambular sem rumo, a noite estava fresca, brumosa até, um pouco. Acabrunhada, Ilse passou ao salão, onde entretanto Sam descobrira um piano já velho. Instintivamente, agarrou-o pelo braço e fez-lhe um pedido:

-Toca, Sam.Toca “As time goes by”….

O velho pianista hesitou ainda, mas anuiu, puxou do banco e uma vez mais a nostálgica melodia ecoou, desta feita no acolhedor salão do Netto. Definitivamente seguiriam o seu rumo. 
Três dias depois, Mário e Maria levaram Ilse e Victor ao aeródromo, a caminho da América, enquanto Rick e Sam voaram para o sul de França, ao encontro do seu novo negócio.

A guerra acabou e Victor Lazlo finalmente voltou a Praga, mas novo percalço o esperava. Estaline, o novo senhor, substituíra os anteriores ocupantes por outros da sua confiança, adiando por vários anos a esperança na liberdade. Acabou preso, e morreu em 1950, amargurado e sem ver o seu país livre. Ilsa foi então para a América e dedicou-se a escrever livros para crianças. Rick e Sam, depois de uns anos em Marselha, instalaram-se em Cuba, e lá abriram um casino, onde pontificava um cliente especial e admirador de Sam, um tal Ernest Hemingway. Amargurado e refém do álcool, Rick acabou vítima da cirrose, por altura da revolução cubana.

Por cá, Mário e Maria casaram no fim da guerra, ele acabou por se afastar dos camaradas, e encetou uma carreira política reformista, sempre contra Salazar, contudo. Ainda hoje, na sua casa de Nafarros, entre centenas de livros e quadros, uma foto emoldurada de Victor e Ilsa recorda os desencontrados compagnons de route de passagem por um país pardacento no já remoto ano de 1943.

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