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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Picardias e malfeitorias



Lançado o debate sobre o novo figurino autárquico, imposto pela troika, e acelerado pelo governo, encontrando-se no café do Porfírio, Gregório Alves e Fernando Moreira, autarcas por diferentes partidos há três mandatos em Salvaterra do Homem, discutiam o futuro do concelho, algumas freguesias desapareceriam, renitentes, censuravam a medida, apesar do partido do Moreira ser a favor:
- Pois é, ó Moreira, lá no seu partido é que vai ser pior, já viu? Com a agregação das juntas, nunca mais há-de sobrar nada para vocês, é certo e sabido! - Gregório, do partido vencido há vários anos, via já  uma oportunidade de chegar à vereação, anos a fio a trabalhar no terreno, sempre preterido pela concelhia:
-A ver vamos, a ver vamos. Um dia é da caça, o outro do caçador, nunca lhe disseram? Pois eu cá pra mim São Romão e S. Eulália já eram, e escreva o que lhe digo: vai Brejos de Baixo, Venda Velha e até Unheiro, nem sei…
-Há que criar quadros de pessoal partilhados, economias de escala. Já viu para que serve cada município ter um SMAS, uma recolha de lixo, uma polícia municipal? -enfatizou o Moreira, como que a convencer-se a si mesmo com o discurso oficial do partido.
-Ora, ora. Então e a proximidade? Poupa-se dum lado e gasta-se do outro, vai ver, isto é só para baralhar e tornar a dar…Primeiro, corta-se, mas aos poucos diz-se que afinal é só uma experiência piloto, que não pode haver ruptura de serviços, e lá está tudo igual outra vez. E as comunidades intermunicipais, servem para quê? Então você vota no seu partido, tem os seus eleitos e vai entregar tudo nas mãos duns tipos que ninguém elegeu? São os governos civis disfarçados, é o que é!- ripostou o Gregório, que vendo passar um vereador a caminho da Câmara se adiantou, precisava do despacho para uma transferência de verbas com urgência, para os sumidouros da freguesia. No boteco do Porfírio, mais alguns habitués continuaram a bater no tema, ao Porfírio, fosse quem fosse, desde que vendesse almoços e bicas, de preferência a benfiquistas, pouco mais interessava, a muitos vira já subir aos paços do concelho, em muitos anos.
Entrando para uma bica, o doutor Simão, advogado em Salvaterra do Homem há longos anos, e apanhando o fim da conversa, meteu-se com o Moreira, essencial para ele era o perfil dos autarcas, a mudança de paradigma, como com ênfase salientava:
-Amigo Moreira, é tudo muito bonito, podem mudar as sedes e as competências, mas só com outra mentalidade é que isto lá vai! -pedindo o adoçante, ajeitou os óculos, enquanto esperava por uma reunião com um director de departamento: -Essencial é que os eleitos não tenham qualquer tipo de regalias ou imunidades que não sejam as decorrentes do exercício do cargo, e sobretudo que haja exclusividade de um só vencimento quando o cargo for a tempo inteiro, proibindo-se acumulação de cargos que não sejam os de mera representação, vencimentos ou pensões. Senão, é aquilo que se sabe. Nem para eles nem para as famílias ou amigos! O mal disto, é a promiscuidade, a falta de ética republicana! -arengou, granjeando o apoio dos motoristas da câmara, por ali arrastando o tempo enquanto não os chamassem para um serviço. O Gregório, regressado entretanto, e eleito pela oposição, aproveitou para mandar indirectas:
-E mais. Não devia ser aceite como candidato às eleições ou nomeado para lugares em empresas municipais quem fosse fornecedor de serviços, ou tivesse interesses com a câmara ou com as juntas. Cá para mim, depois de sair do lugar, só passados 2 ou 3 anos é que tal devia suceder!
Entrando nessa altura, o Fernandes, secretário de um vereador, ainda apanhou a conversa a meio, na altura em que o doutor Simão seguia para a sua reunião:
-Pois é, parece que querem acabar com as pensões vitalícias e proibir que os eleitos venham a receber pensões durante o exercício de cargos remunerados. Também me parece demais, afinal se as pessoas descontaram, têm direito, que diabo! Assim ninguém quer ir para a política!
-Mas assim é que deve ser! -insistiu o Moreira - Lá no  partido também defendemos que se deve consagrar a suspensão de funções automática sempre que haja a constituição de arguido em processo. Acabava-se logo com os Isaltinos e outros que tais….
-Até parece que vocês não têm lá nenhum, ó Moreira. É melhor não falar muito! -o Gregório afinou, desta vez, pedindo uma Frise, postou-se à porta à espera dum colega da junta, faltava ainda uma assinatura num documento por parte do presidente da Câmara.
Em tarde de sol, os turistas não paravam de passar, entre a estação e o centro da vila, nevrálgico e improvisado ponto de espera de munícipes e autarcas, o tasco do Porfírio, com as suas pataniscas e copos de três, era o familiar eco das opiniões, chingando o poder à porta do mesmo e logo o bajulando à chegada de algum vereador para um café. Terminada a reunião, o doutor Simão voltou para mais uma bebida, a coisa correra bem, ufano, deixou escapar ter sido nomeado administrador duma empresa municipal, a sua experiência e visão eram precisas para pôr a mesma a dar lucro. Franzindo o sobrolho, o Gregório, ainda à espera, quis tirar nabos da púcara:
-Oh doutor Simão, mas você não é cunhado do vereador Policarpo?
Simão, atalhando, não deixou o outro continuar:
-E isso que tem? Parentes, somos todos uns dos outros, que isto é uma aldeia. Ou as pessoas competentes não podem ter família? Fique sabendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra, seria sempre convidado em qualquer caso, pela minha competência. A ética republicana é servir, e não servir-se, e é para isso que cá estou! -rematou, elevando a voz na parte final, para que todos ouvissem.
- Nem ninguém pensou outra coisa, Dr. Simão! Os meus parabéns! -concluiu o Gregório, saindo apressado para a junta, enquanto a mesma não era extinta para poupar despesas. No jardim fronteiro, sorridente,um japonês tirava fotos aos patuscos servidores do povo,atraído pelo cheiro dos pastéis de bacalhau.

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