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terça-feira, 21 de abril de 2015

Uma aristocrata na Quinta da Piedade


Aproxima-se a 50ª edição do Festival de Sintra, este ano dedicado à figura tutelar da Marquesa Olga de Cadaval.



Ficou na memória de muitos a imagem austera e aquilínea de Olga, marquesa de Cadaval, na sua Quinta da Piedade, levando o sortilégio da música perfumada através da serra chilreante, num cenário que só Sintra tornou irrepetível. De Rubinstein a Stravinsky ou Barenboim e Ashkenazy, muitos foram os que receberam ajuda e apoio de Olga Nicolis de Robilant, descendente de Catarina a Grande e de doges venezianos. Nascida em Turim, em 1900, pela casa da sua família passaram Verdi, d'Annunzio, Diaghilev, Nijinsky e até Eugenio Pacelli, o futuro Papa Pio XII. Cole Porter fez-lhe uma serenata em Veneza, Chaliapin cantou para ela, correspondeu-se com Ravel.
Aos 14 anos, em plena guerra, juntou-se à Cruz Vermelha, como voluntária, e aos 20 conseguiu convencer Rubinstein a fazer um concerto grátis para os Amigos da Música de Florença. Aliás, tanto ele, como Ravel e Stravinsky estiveram juntos na sua casa de Veneza. A sua amizade com Stravinsky teve um episódio macabro: às portas da morte, manifestou desejo de morrer em casa dela, em Veneza, o que a deixou hesitante, ante a ideia de voltar a dormir na casa onde este morresse. Recusou, mas o mestre não chegou a saber, tendo morrido noutro lugar, entretanto.
Conheceu o marido, D. António Álvares Pereira de Melo em Veneza, tendo vindo em 1929 para Portugal, onde, recuperando a então arruinada Quinta da Piedade, em Sintra, a ela se dedicou depois de ficar prematuramente viúva aos 38 anos. Francis Poulenc aí apresentou uma récita da sua ópera O Diálogo das Carmelitas, e doravante a casa passou a estar aberta a músicos e artistas que aí encontraram um paraíso perdido. Benjamin Britten foi também um dos seus protegidos, tendo em sua honra composto, em 1964 a parábola religiosa Curlew River. Ali Jacqueline Dupré e Daniel Barenboim passaram as primeiras semanas de casados, e a Salazar terá dito uma vez que se queria ver entre nós os melhores, tinha de deixar entrar os “seus” russos, o que ela fez, alojando-os, e deixando-os a compor e exercitar a arte que tanto apreciavam.
Uma personalidade incontornável, pois, nunca por demais homenageada. Mais houvessem.

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