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sábado, 8 de junho de 2013

Sintra Generosa e Ingrata



Sintra, Sintra, quem és, lúgubre emaranhado de árvores, aracnideamente tecidas em torno de filosofal pedra e granítica sepultura? E nós, servos da Lua, aluados em torno dessa argêntea luz que ilumina e também cega?

Homens do Sonho, apesar do mar revolto e seus adamastores, seguimos-te na senda da Luz, na Estrada e não na berma deste larvar berço de lendas, mouros e cristãos, visionários e viajantes, sempre espantados com o odorizado verde e onde em presépio aninhámos casas, palácios, fontes e miradouros. E guardando, nas ladeiras, lá estão o Cruges e Calisto Elói, Garrett e Zé Alfredo, a Llansol e Nunes Claro, e o Carvalho da Pena, o druida da floresta.

Altar de poetas e palpável Parnasso, cá estão Maria Almira e Rui Mário, Jorge Menezes e Alvim, Miguel Real e Sérgio Carvalho, e também novos e generosos artistas, rodopiando debutantes em novos bailes com camélias, descobrindo e descobrindo-se à sombra tutelar do Paço.

Hipnotizados miramos o castelo de onde invisíveis ogres à noite lançam caldeirões de azeite e soturnas bruxas invadem o breu montadas em vassouras de néon. E capturados escutamos os passos do rei prisioneiro ou o ecoar das festas joaninas, Camões lendo a um rei alucinado e a condessa Elise acorrendo à Vila, ao repicar do sino em S. Martinho.

Invisíveis faunos e visíveis heróis, incensados e perdidos, esperançosos e idealistas tomam hoje lugar no camarote do Tempo, com escolta de pássaros e camélias, anunciando o festim à sombra da branca Lua. E nós na estrada, e não na berma, laboriosos jardineiros e operários da Pólis.

Contra as trevas, há que estar contra o abate de cada árvore, na divulgação dos artistas sem ribalta, firmes e com alegria com os expropriados da fama. Na luta pelo restauro do património que sangra na Vila Velha ou contra os iníquos depósitos de frustrações a que chamamos cidades. Sangrando estaremos no desfolhar do livro que é Sintra, esse incompleto missal de futuros prometidos.

Todo o futuro sem luta mais não será um dia que um passado desolador. Eis a hora de deixar pegadas, inscrever Mudança e não o seu desejo, assumir a Sociedade no palco e não num qualquer camarote de vaidades serôdias

Nos dias que hão-de vir, haveremos de nos ver por aí, e cúmplices, de olhos nos olhos, saberemos quem somos e ao que vimos, e com orgulho escreveremos  a mágica palavra Sintra.

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